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A Varinha Mágica

Era uma vez um mago chamado André, de grande poder e Sabedoria. Era muito querido por todos onde morava, e muitos o procuravam em busca de auxílio para seus males. Buscavam conselhos, curas milagrosas, formas de resolver seus problemas, etc... . O “Mago da Varinha Mágica” foi ficando tão famoso e popular que muitos deixavam de glorificar ao Rei e passavam a buscar auxílio e conforto nas palavras carinhosas do mago.
 
O Rei, com ciúmes por haver alguém que o estivesse superando em sua especialidade - fascinar o povo - mandou seus Guardas Imperiais buscarem o mago a sua presença.  Ao chegar André no palácio, O Rei perguntou:

- Oh Grande Mago, tua fama e poder chegam até mim na forma de uma Ofensa!  Quem és tu que ousa superar-me na caridade e no amor?  De onde provém teu poder?
- Senhor, meu poder provém de minha varinha mágica, e minha sabedoria, dos anos sofridos na escola da vida.
- Tu mentes ó mago!  - disse o Rei contrariado - Nenhum poder existe que não provenha de mim, e tua sabedoria nada é pois eu sou o Senhor da tua vida, a Luz que banha todo o Reino da verdade!
- Senhor, tua luz é tão intensa e esplendorosa que talvez tenha ofuscado vossos olhos!  Veja, tua luz projetada em mim forma uma sombra, tu me vê claramente, mas não vê  a sombra atrás de mim!  Sou apenas um homem, minha sombra é pequena.  Quanto maior tua luz maior é a sombra que ela projeta.  Quando tu iluminas algo, precipita nas trevas uma parte que não vê.  Talvez o poder de minha varinha mágica venha desta parte que tu não alcança, e minha sabedoria esteja em ver meus próprios erros!
- COMO OUSA!  - disse o Rei enfurecido - Não temes meu imenso poder?
- A varinha me protege!
- Pois bem oh Grande Mago, prove teu poder a mim, divirta-me com sua mágica.
- Senhor, o que faço agora é para o bem da humanidade e unicamente para que possas ver o que tu rejeitas, mas que é parte de ti!

PELO PODER DA VARINHA MÁGICA EU ROGO UM ENCANTO!  REI, SE TRANSFORME NUM GANSO!

O Rei então transforma-se num ganso, causando grande pânico entre os príncipes e subordinados da côrte, que saíram correndo estarrecidos.

- André, não admito esse tipo de brincadeira comigo!  - disse o Rei - Vamos, retire o feitiço, eu ordeno!  Rápido, antes que mais gente veja esta cena ridícula!!!
André então esconde por encantamento a varinha e profetiza uma maldição:
- Senhor,  já que tu impôs ao povo humilde sucessivas humilhações e misérias, eu te condeno a ir lá na forma de um ganso, para que procure a varinha entre os humildes do teu reino. Convivendo com suas dores e sofrimentos, talvez tu consiga enxergar algo além de tua própria luz!

O Rei então, transformado num ganso, saiu de seu palácio e quando lá chegou, começou a procurar desesperadamente a varinha.  Primeiro procurou entre os ricos e poderosos.  Lá  viu  muito luxo.  Foi recebido por um político importante do reino.  Deram-lhe de comer e beber, banharam-no, foi logo levado ao veterinário que cuidou de seu débil corpo.  O Rei já estava admirado com tamanha dedicação daquela família quando soube  que o estavam engordando e embelezando unicamente para que ele fosse posteriormente vendido a um fazendeiro que criava gansos e pagava uma fortuna por um belo exemplar.  Ao contrário do que pensava, lá não o amavam.  Tinha luxo, bem estar físico, mas não tinha amor.  O Rei, na primeira oportunidade que teve, fugiu entristecido.  Além do mais a tal varinha não estava lá.
 
- Que burrice - pensou o Rei.  É obvio que o mago não esconderia numa casa rica!  Ele sempre pregava a humildade!

Foi então a um beco muito pobre do seu reino.  Foi acolhido por uma família muito humilde, todos passavam fome, porém dividiram as poucas migalhas que tinham com seu novo hóspede.  A filha menor chamava-se Carina e ela adorava o ganso.  Deu-lhe o nome de Gã, o Ganso.
O Rei, ou melhor, Gã,  como era quase natal, pensou: está na cara que eles vão me matar e me comer na ceia natalina!  Vou é tratar de buscar a varinha por toda a favela antes que me matem.
 
O tempo passou e nada de aparecer a varinha mágica.  Gã, tão preocupado que estava, nem se deu conta que o  natal era naquela noite e quando chegou de sua busca, foi pego de surpresa.  Toda a família estava reunida na noite fatídica, ficando ele encolhido num canto.

- Será que Papai Noel virá aqui também mamãe? - perguntou Carina
- Sinto muito minha filha, aqui é um lugar muito feio e triste, Papai Noel só vai aos lugares ricos, lá sim, eles são felizes!

Gã ao ouvir isso, gritou:
- NÃO, VOCÊS ESTÃO ENGANADOS!!!  EU ESTIVE LÁ, É UM LUGAR RICO MAS TRISTE, LÁ NINGUÉM AMA NINGUÉM!
Mas só saiu um humilde “QUACK” rouco.
- O que vamos comer?  - perguntou Carina - lá na escola uma amiga disse que vai ter na casa dela muitos doces, presunto e nozes.
- Carina... - disse seu pai - Nós somos pobres, não temos nada além de arroz e macarrão.  Olha, Deus não é tão injusto conosco.  Quem não diz que ele não mandou o Gã para nos alimentar um pouco mais nesta noite tão importante?  Se quiser nos o preparamos para você...
- Droga! - pensou Gã
- NÃO, JAMAIS!!! - gritou Carina.  - jamais tocaremos em Gã!  Eu o amo e morreria de fome, mas não o mataria nunca!!!
- Falando a verdade, Carina - disse a mãe -  todos nós estávamos torcendo que dissesse isso.  Não teríamos coragem de fazer mal a nosso amiguinho.  Venha Gã, venha para perto do fogo e coma um pouco de arroz. Não é muito, mas é o que temos.  Façamos uma oração à Deus agradecendo o muito que representa para nós esse pouco.
 
Gã recolheu-se a um canto do casebre e pela primeira vez em sua vida majestosa, chorou...
Na manhã seguinte, Gã refletiu no quanto a vida no Reino o havia afastado da “verdadeira Luz” que eram os amigos sinceros, o amor “não na glória”  - que é o amor fácil -  mas sim o amor “na dor e na dificuldade”.

- Mas é claro  - disse Gã -  na casa do próprio mago!  É lá que deve estar a varinha!

Gã se despediu da família que tanto o amava e procurou a localidade onde André, o Grande Mago, reinava absoluto.  Era num reino distante, num lugar chamado Morumbi em  São Paulo. - que reino esquisito, pensou Gã.
Chegando lá, André não estava.  - melhor - pensou Gã, agora posso procurar com calma.
Gã procurou, revirou, encontrou muitas cartas cheias de poemas e textos góticos - que péssimo gosto tem esse mago - pensou Gã-.  Ele revirou as revistas do mago, pulou em cima do monitor de vídeo do computador (que quase quebra), quando até que enfim a encontrou:

- HOOÓ NÃO!!!  gritou Gã apavorado.  A varinha estava dentro da privada do banheiro.
- Eu é que  não meto  o meu  bico aí  dentro  dessa  imundície!  CHEGA!!!  isso é demais!!! - ANDRÉ... MALDITO SEJA!!!

Gã pensou... pensou... chegou a conclusão que ficaria assim para sempre se não se humilhasse tal qual obrigava ao povo do seu reino a se humilhar.  Lembrou-se de Carina, de seu amor, e da família que passara fome por ele.  Tomou coragem e mergulhou o bico velozmente no vazo.  Uma... duas...  na terceira pegou a bendita varinha mágica.
- Agora o maldito  do  André me paga!!!
   


Ao chegar novamente ao seu Reino de Luz, O Rei - agora coberto novamente de sua glória e esplendor - mandou chamar André a sua presença:
- Aqui estou Senhor.
- André, em primeiro lugar sua brincadeira foi de muito mal gosto, saiba que eu só recuperei esta maldita varinha graças ao amor que encontrei num ceio familiar repleto de dor e sofrimento.  Mas devo reconhecer que esta missão me fez ver algo muito importante.  Vi que futilidade são os bens materiais quando não se tem o amor, e vi que quanto menos se tem, mais sobra lugar para este sentimento tão belo!  Vi também que devemos reconhecer nossos próprios erros com humildade.  Sim, recomendarei ao Departamento do Reino que dêem maior assistência aos pobres, diminuam os impostos e aumente as riquezas dos plebeus.
- E quanto a você  - disse o Rei calmamente -  eu o perdôo unicamente em nome de uma menina muito gentil chamada Carina, com a qual eu convivi lá entre o povo.  Agradeça a ela o meu perdão!  E quanto a essa varinha (o Rei faz uma ligeira cara de nojo nesta hora) pode ficar com ela desde que para fazer o bem.  Vai em paz oh Grande Mago!
- Senhor, peço perdão por minha ousadia, fiz aquilo unicamente visando o bem de todos. Às vezes é necessário fechar os olhos para  o orgulho, afim de podermos compreender e aceitar os erros dentro de nós próprios.  A mesma luz que ilumina, pode cegar quando em excesso!
- Tu és mesmo um sábio oh Mago.  Vai em paz e leva tua varinha contigo.

André então deixa o Reino.  O Rei - feliz da vida -  se disfarça em Papai Noel, enche um saco de brinquedos lindos e volta para a favela afim de visitar Carina, dar a ela tudo que ela não teve  - e o que é mais importante - dar a ela e toda sua família amor e carinho, que dinheiro nenhum do mundo é capaz de comprar.
E o Rei, que antes brilhava sob a luz do próprio orgulho, pela primeira vez enxergou um lugar onde nunca havia enxergado antes:  dissipou as trevas atrás de si próprio - sua própria sombra!
André da Costa
Enviado por André da Costa em 22/12/2005
Reeditado em 22/12/2005
Código do texto: T89572
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Sobre o autor
André da Costa
Viradouro - São Paulo - Brasil
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André da Costa