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Texto

A Pastorinha (amor medieval)

A PASTORINHA
José Augusto Carvalho

Eu vos digo que sodes morta, ca sodes muito
meninha. ( de A Demanda do Santo Graal)

    De muita alteza está da terra o céu pera contemplar-se Deus das miudices dos homens ou de aprazer-se de suas pequenezas bondadosas. Assim, pois, cresci eu desligado de toda religião, mas à meninha aquesta, mia filha, eu soube educar nas devidas ajuizanças e corduras de endurezada moralidade. Per ao menos era como eu achava. E nenhuma outra de sua idade me parecia haver que mais respeito tivera ao pai ou mais educada se mostrara ser, sem afetação nem aleivosia.
    Provei, venturoso, apesar de viúvo, tôdalas maravilhas que pude, assi per clerezia de amor como por al de mil prazeres e chus. Mas nunca alberguei maior doçura na vida e no coração que aquesse do amor que tinha eu pela mia pastorinha.
      Mas um dia veio um filho d’algo que eu desconhecia ser mazelado de muitos pecados, mas que muita ardura de amor assemelhou ter per mia pastorinha. Pera mister de conhecença se mostrou o forâneo, desentregado de tôdalas intenções maldadosas, e em per dentro do seu coração parecia albergar-se a catividade de sua paixão sincera. Como podia eu prever que era enfinta e mascaramento o que ele leixava parecer sinceridade de propósitos? E permiti que mia meninha e el se encontrassem de arrededor de mi, pera as palavranças de ternura, e uma vez que outra, por miúdos intervalos, eu os leixava um pouco insulados pera algum amoroso toque que lhes fizesse crescer a mútua benquerença, no desejo de se unir em diante do altar de Deus.
    De bom pastor é tosquiar e não esfolar. E então ficou el, freqüentando mia casa, se humildando muito contra mi, pera merecer-me a simpatia de futuro sogro.
     Mas eu confiava na mia pastorinha, e mais do que mim sabia ela êsto de como portar-se com ardimento e cordice, nos momentos em que eu os desentregava a ambos os dois de mia presença, pera as abscondidas juras que os enamorados se fazem, na previsão de um futuro espartido a dois.
    Mesmo assi, às vezes, pera referimento de sua ajuizança, eu dizia à mia pastorinha: “Muito vos aconselho, mia meninha, pera que vós vos tenhades mui bem pagada e não sofrerdes o marteiro das desiludices, porque homem, por melhor que aparente ser como mim, pode causar lazeira de muita sofrença no coração de uma donzela.”
    Da razão é alheio quem do sábio despreza o conselho. E ela, boa filha e obediente, nunca achou fadeza de montanheiro nem destoantes protecionismos nos meus aconselhamentos de experiência madura.
    Mas é manhoso todo ardiloso. E um dia chegou então que o mancebo decidiu pedir a mão de mia pastorinha pera com ela liar-se no pera sempre diante de Deus, e eu febremente a outorguei, na tristura de perder a companhia dela e na certeza de não receber em troca o filho que o genro poderia ser para mi. E comprei o que de melhor pude pera o legado do dote, e preparei com ligeirice o que de melhor pude pera a festa do casamento.
      Com moeda falsa é que se faz trapaça. Bom cavaleiro não há que lhe não venha um dia mal-andança, maiormente aquesse maltreito, como mi, mandadeiro de azarismos, que eu me julgo ter sido, contra a mia pastorinha, que migo até hoje houve solteira vida.
      Em palafrém foi ela, de garnacha e seda guarnida, com véu longo e branco que se arrastava da oussia da capela até a entrada da nave, de branco vestido de louçainhas e frol de laranjeiras a enfeitar-lhe a fronte querida.
      E a igreja aquecia de amontoada gente que o meu coração hospedava na  mia muita amizade, e que ali também esperava pelo noivo, mirando a mia pastorinha com olhos de maravilha per sua beleza e graça. E longadamente esperamos até que noite ficou, de tudo escurecer a igreja. E toda ledice se foi do meu peito, ao ouvir os soluços de dor e de vergonha da mia pastorinha, desprezada no altar, tendo o felão levado com sigo o dote que não merecia.
      Mas o que mais feramente magoou a mia pastorinha e que lhe falsou o coração que nunca mais guariu é que ela acreditou no casamento, e leixou que em seu coldre de tenra carne assestasse a arma do futuro esposo. Gosto primeiro, desgosto derradeiro.
     Ficou-me o neto que se fez meu filho e me chama pai, herdeiro apenas da mia solidão. E na mia pastorinha ficou a descrença nos homens e a tristura que não falecerá em tôdolos dias de sua pobre vida.










José Carvalho
Enviado por José Carvalho em 12/01/2006
Código do texto: T97802

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Sobre o autor
José Carvalho
Vitória - Espírito Santo - Brasil, 74 anos
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