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O ÚLTIMO BEIJO


Existe uma filosofia de vida que diz para vivermos cada minuto como se fosse o último. Tem o objetivo de tirarmos da vida todo o potencial positivo que ela nos oferece naquele exato momento. Nos relacionamento interpessoais isso muitas vezes não é tão fácil quanto parece. A posição filosófica que assumo em determinado momento pode ser diferente e até mesmo contrária daquela do meu interlocutor. Principalmente quando está em jogo relações afetivas é que esses contrastes ficam bem mais evidentes.

Ao sair para realizar viagem, vamos dizer assim de média complexidade, é minha intenção e motivação aplicar na prática essa filosofia com minha companheira. Abraça-la e beija-la com intensidade é o que manda o íntimo, a voz surda do coração. Porém a consciência atende ao aviso vermelho da razão que diz para não fazer isso, pois o meu comportamento, a minha natureza frente aos relacionamentos afetivos é diametralmente oposta à dela e a qualquer momento que eu assumo uma aproximação afetiva sou rejeitado com delicadeza ou com energia. Portanto, dessa forma não posso cumprir nesses momentos de breve despedida os impulsos do coração.

Assim é que, numa dessas despedidas que deveria ser provisória, o destino mancomunado com o acidente tornou-o definitivo. Perdi a conexão com o meu corpo numa curva fatídica da estrada. No momento em que o céu cobria-se de vermelho pelas tinturas carmesins do ocaso, o meu corpo tingia-se de vermelho pelo sangue que emergia aos borbotões pelas ferragens retorcidas do carro que me penetraram súbita e brutalmente. Em instante tão rápido, de forma quase indolor, a falta brusca do oxigênio no cérebro liberou definitivamente o meu espírito da carne, que à distância ainda observava seus últimos movimentos reflexos. Senti tanta ternura por aquele abrigo e escola carnal que eu sabia que era provisória, mas não tanto! Apesar de todas as dificuldades que seus instintos me causaram aprendi a gostar tanto daquele corpo que não pude evitar algumas lágrimas nesse adeus forçado. Porém agora eu tinha toda a mobilidade do espírito e na fração de tempo que eu elevava meus pensamentos à minha companheira, já estava ao seu lado.

Como sempre, já estava a esperar meu telefonema que sempre faço, quando chego na metade do trajeto da volta. Senti o seu corpo estremecer à minha presença, devido à sua reconhecida sensibilidade espiritual. Li nos seus pensamentos uma onda de temor difuso, mas eu não podia ou não sabia como comunicar a ela os meus pensamentos. Vi impotente as lágrimas rolarem do seu rosto sem ela saber porque e senti as minhas também rolarem, mais ainda por saber de tudo e não poder comunicar nada, de não poder conforta-la. Meus braços não mais podiam enlaça-la, meus beijos não mais poderiam enxugar sua face... Lembrei dos nossos últimos momentos juntos e da oportunidade perdida de ter dado àquele que seria o último beijo... Acaso eu soubesse que aquele seria meus últimos instantes com ela, claro que eu a teria beijado, mesmo que fosse um beijo leve na face zangada, mesmo que sofresse algum tipo de rejeição que ferisse o meu orgulho, o meu ego. Mas não o fiz e isso é uma prova que minha filosofia de viver a vida como se estivesse vivendo o último dia estava “furado”.

Vi uma luz branca, intensa e brilhante acima de mim e senti que estavam me chamando para a prestação de contas dos meus atos. Senti que ia me defrontar com o Criador com o coração pesado de remorsos pelas boas ações não praticadas, pelas palavras de amor não reveladas. Minhas únicas esperanças, o grande atenuante da minha experiência de vida carnal, são as minhas intenções, tão cheias de amor, tão ávidas de realizações... Talvez consiga assim do Criador uma nova chance, e dessa vez tudo farei para que na hora da prestação de contas, eu tenha na memória pelos menos a lembrança de um último beijo realizado.
Rodrigus
Enviado por Rodrigus em 16/01/2006
Código do texto: T99367
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Sobre o autor
Rodrigus
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil, 64 anos
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