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Tão Longe, Tão Perto

História dedicada aos homens e mulheres do espaço de todos os temposGostava de ser como vós
TÃO LONGE, TÃO PERTO
A ti, para sempre e com amor
  “This is Major Tom to Ground Control,I’m stepping trough the door
And I’m floating in a most peculiar way
And the stars look very different today”   
(...)“Though I’m past one hundred thousand miles,I’m feeling very still,
And I think my spaceship knows which way to go.
Tell my wife I love her very much she knows” 
 Space Oddity 
 David Bowie 

 Lembras-te quando parti?  Como se fosse ontem, respondemos os dois demasiado convictos na absurda distância e na ausência de notícias ou gestos que nos dissessem como estava cada um.
Previsivelmente sabes como estou, e eu espero apenas que estejas melhor, porque sei que o estas. 
Parece que foi ontem, porque, embora o momento já não seja presente, nunca será demasiado longe para lhe chamarmos passado, o carregarmos com a chancela da memória e nos irmos esquecendo lentamente. 
 Nunca nos esqueceremos porque foi esse o último momento, devendo por isso ser eterno, no mau gosto deste lugar comum, que, por ser o derradeiro me é totalmente indiferente.  O engraçado é que, apesar da viagem ser a sós, os olhos de biliões a observarem-me enganavam momentaneamente o destino. 
Aparentemente sentia-me acompanhado, mas por detrás disto tudo, mergulhado na minha interioridade, sentia-me o homem mais solitário do mundo, uma sensação que me aproximava demasiado do futuro que iria acontecer dai a algumas horas. E, embora disfarçasse os “sentimentos negativos” (isto é, pensamentos e receios indignos de um “proto-herói”, nem que fosse de marketing -ora precisamente o meu caso!), entre os quais se encontrava um irritante nervosismo continuando a sorrir, a verificar o fato e todos os instrumentos apanhados pela minha visão ansiosa (uma série de gestos tomados por coragem e assombroso profissionalismo...), sentia a solidão a esmagar-me mais opressivamente que todos os “g” da breve mas intensa descolagem.  E o absurdo disto tudo era parecer que a própria terra não queria que eu partisse...
Pois afinal o que seria a força gravitacional algo que não fosse mais do que uma ténue tentativa inconsciente da mãe terra para não deixar partir as suas melhores criações? 
O plano tinha tudo para seduzir políticos, cientistas, grande público e os meios financeiros necessários: antes de se mandar uma equipa ao primeiro planeta gémeo da terra, onde tudo indicava existia vida, cravar no seu solo o avanço da raça humana emprestada numa bandeira, e, no exemplo dos primeiros tempos de pioneirismo, enviava-se um homem numa nave fazer algumas órbitas, tirar óptimas fotografias que serviriam mais tarde  para definir o local de aterragem, resgatando-se depois coberto de glória o novo herói da humanidade, fazendo-o aparecer na série dos indispensáveis bonecos propagandísticos com os quais a humanidade reafirmaria a sua superioridade solitária.  
Mais tarde, e vivendo dos proventos da sua semi-deusificação, ele candidatava-se a um alto cargo político e passava a ser um hipotético mas nunca elegível candidato à presidência. 
A missão era chamada de “baixo limiar de risco”, ou seja quase nulo,: ida e volta até à estação espacial mais próxima, cerca de três anos, três solitários anos, onde a voz descentrada dos técnicos e alguns familiares (devido à distância as mensagens demoravam a chegar algumas horas) seria o único contacto humano do felizardo que fosse escolhido. O momento minimamente arriscado da missão seria quando a nave desfizesse a órbita, altura em que deveria retomar a rota de regresso; tudo seria automático, o computador de bordo (a nata das natas da tecnologia actual) teria contado as orbitas certas e empreenderia o regresso. Em último caso passaria o comando para o manual e seria o próprio astronauta a fazer a manobra. Ainda se pensou e se discutiu ferozmente a hipótese de se mandar uma sonda, mas todos estavam demasiado fartos de robôs e pensou-se chegada a altura de devolver o factor humano à exploração espacial, porque afinal há muito que não se registava qualquer incidente, que nas paredes da NASA as fotografias dos heróis vitoriosos quase que apagavam a dúzia e meia de mártires da memória de todos.  
Ainda se falou na hipótese de levar companhia, mas o peso dela era demasiado grande e ocuparia o espaço da preciosa e inovadora aparelhagem que os homens da ciência ansiavam por testar.  Sacrificava-se a solidão à tecnologia. Demasiado típico para merecer mais comentários... 
 E era tudo tão simples ao início, tão acepticamente simples...Seria um partir glorioso, destinada à glória de todos. Depois de se penetrar num dos célebres “Buracos de verme” (portas espaciais naturais, através das quais as grandes viagens espaciais seriam possíveis, espécie de atalhos entre as galáxias com os quais se poupavam viagens de centenas de anos devido às enormes distâncias do cosmos). No entanto, ainda se teriam que passar três longos anos, pois, ironia das ironias a distância entre o nosso último posto avançado e o novo planeta era considerada demasiado curta para se usar um “buraco”. Três anos no início dos quais partiria como homem, regressando depois como mito.
Dentro dos milhares que estavam aptos e para meu grande espanto fui considerado o melhor.  Lembras-te quando recebemos a notícia? Ficámos loucos de alegria, loucos. Vivemos a novidade como se fossemos partir os dois. E fizemos tantos planos para quando eu regressasse...  Com o futuro assegurado poderíamos dar azo aos nossos sonhos mais queridos, porque a uma lenda viva tudo é dado, quase tudo é permitido...Ter aquela casa nos grandes lagos, onde nos isolaríamos da imprensa sedenta que, nos primeiros tempos posteriores à escolha nos chegou a eleger como o casal do milénio (!) disponibilidade para as viagens à volta do mundo oferecidas como homenagem por dezenas (ou quem sabe?! centenas) de presidentes, desejosos de mostrar ao seu povo que o homem que tinha aberto mais uma porta da grande fronteira, também estava com eles.  
O que nos aproximara quando nos conhecemos fora a paixão pelas viagens.  
Deste de caras e fascinaste-te com um “viajante das estrelas”, alguém destinado pela sua profissão a ir mais longe do que todos os outros, alguém que amava esta vertigem, a infinitude do espaço, o seu silêncio divino. Com o tempo o conhecimento aumentou, mas ficarias sempre a amar a minha vontade de partir de explorar incansavelmente as entranhas do cosmos, e descobrir, mais do que nenhuma outra coisa em mim.
E eu... admirava-te pela tua vontade e atracção por tudo quanto fosse uma cultura ou um país diferente do teu, pela sede em quereres conhecer, nem que fosse simplesmente pelos livros esses ambientes. Mais tarde acabaste até por encher parte da nossa casa com catálogos de viagens e milhentos livros sobre essas culturas. De facto pouca coisa nos ligava mais, mas esta paixão era suficiente para nos manter unidos, porque assim nos encaixávamos, nos completávamos.  Assim, através da minha fama poderias conhecer todos os locais por ti desejados desde sempre, e viver para isso...Viajar sem parar...A ironia agora parece-me sádica na distância...
  Quando deixei os meus últimos companheiros e me encerrei aos comandos da nave nada senti, e assim continuei durante um ano e meio, até avistar o grande planeta. Durante este tempo fui apenas o profissional duro, que todos esperavam, concentrado na tarefa, a coordenar e compilar as informações recebidas, fotografando novos corpos celestes, certificando-me da posição no mapa astral, usando os aparelhos de gravidade artificial destinados a manter-me em forma e a evitar o atrofio muscular, dando entrevistas a centenas de canais, que me perguntavam insistentemente como me sentia, e repetindo frases feitas para evitar pensar nesse sentir, que se resumia apenas e só à solidão. Mas o heróis devem ser imunes  a ela, e por isso repetia (falsamente, claro) estar demasiado ocupado para pensar no assunto, sorrindo novamente, sorrindo sempre. No meio disto tudo e, a pedido de diversos ministérios educativos, dava várias aulas sobre astronomia a milhões de criancinhas que certamente quereriam ser como eu...
Só depois de acabar a primeira órbita avistei uma luz distante que o computador me assinalava ser o nosso sol comecei a pensar. Durante a hora em que o avistei só pensei em ti, só te via a ti, pois aquele era o primeiro sinal de regresso.
Quando faltavam menos de metade das órbitas comecei finalmente a fazer planos. Quando a última estava prestes a acabar enviei-te a última mensagem.-”Estou de volta”, à qual o que faltava de originalidade sobrava de saudade.  Foi a última vez que te acreditei.  Dai a poucos minutos a “tecnologia perfeita” transformou-me num mártir a prazo quando, a nave se recusou a voltar.
O destino era simples: ficaria a órbitar para sempre em torno do astro azul, horrivelmente da mesma cor da nossa terra, mas tão longe tão desesperadamente longe!   O  socorro chegaria, sem dúvida, mas nessa altura estaria morto há muito.  
Agora que nada me resta a não ser observar o solo, vejo com maior nitidez as montanhas gigantescas, planícies imensas e os mares (atravessados por imensos cetáceos) que um dia os nossos descendentes desfrutarão, florestas enigmáticas, bosques densíssimos, desertos onde ventos desconhecidos talharam paisagens fantásticas episodicamente tapadas por nuvens, que nada impedem a minha visão, pois a mesma tecnologia que me condenou permite-me ver através delas. Infelizmente a ausência de cidades indicia a ausência de vida inteligente, ou pelo menos o suficiente para me resgatar. Os instrumentos de bordo indicam-me ser a atmosfera compatível com o meu organismo...reforçando a sensação de impotência, de claustrofobia, pois estou ao mesmo tempo tão perto da salvação... 
A solidão é sem dúvida o pior dos castigos a que alguém pode condenar um homem.  Por cima da principal janela há duas fotografias, a da terra e a tua. 
À medida que o tempo vai passando, e que já não preciso dos computadores para me assinalarem o sol, olho cada vez mais profundamente essas fotografias. As comunicações foram cortadas a meu pedido. Se vou morrer quero-o só, sem as inevitáveis palavras de ocasião, a insuflar-me um inútil animo. Nem mesmo a tua voz quero ouvir, pois se tal fizesse sentia-me mais desesperado por te ver, te ouvir mas não te poder tocar. Por isso, enquanto desfilo sobre este planeta maravilhosamente inútil, e olho a tua fotografia em silêncio, sinto a tua dor, sinto a tua presença, sinto-me tão longe, tão perto.  FIM(?)
Miguel Patrício Gomes
Enviado por Miguel Patrício Gomes em 06/03/2006
Reeditado em 24/07/2015
Código do texto: T119501
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Miguel Patrício Gomes
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