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A última Noite da Terra (segunda versão)

Foi a nossa noite mais bela, mas também a mais terrível, foi

A ÚLTIMA NOITE DA TERRA
“O dia depois de amanhã”



As estrelas brilhavam mais intensamente do que nunca durante aquelas horas, com uma intensidade lúdica, dado parecer querer cativar o nosso olhar, e distrair-nos da nossa função primária.
E nós claro, apercebendo-se do que ia na cabeça de cada um passava na do outro, sorrimos nas raras ocasiões em que os nossos olhos se desviavam dos aparelhos e girávamos, comicamente na ausência de gravidade.
E provavelmente aqueles momentos foram os mais felizes das nossas vidas, apesar da sua contradição: casados de fresco, tínhamos recebido da Agência a prenda da mais ambicionada das viagens (de trabalho...) a ser efectuada durante a nossa lua de mel. Claro que aceitámos, tanto pela oportunidade como pelo gozo de inevitavelmente irmos misturarmos trabalho com prazer, apesar do nosso trabalho ser um prazer...
Conhecêramo-nos na Academia, onde entráramos com o sonho de nos transformarmos na nova subespécie da raça humana, o “Homo-Espacialis”, como era dito meio a brincar meio a sério nos corredores da instituição. Depois de muito suor, algumas lágrimas e incontável sacrifício demos por nós astronautas e apaixonados, ainda não sabendo muito bem como acontecera a segunda, devido aos treinos intensivos a um semi-imposto ascetismo idiota entre os colegas do espaço e ao reduzido tempo para a vertente social. Certo certo foram os laços que descobrimos ligar-nos, a nossa “gravidade-emocional”, como chamou divertido ao caso o meu colega de quarto. Enquanto tirava a especialidade de radio-astronomo, tu transformavas-te num piloto, cuja principal função seria conduzir os cosmonautas fora da terra para os seus diferentes destinos, (diferente destinos…era sempre o mesmo, a Estação Espacial internacional, ou então a órbita terrestre para colocar ou arranjar satélites, dado a tão ambicionada missão a Marte ser eternamente adiada,) o que aumentava a nossa esperança secreta duma missão conjunta e de assim partilharmos as estrelas amadas por ambos separadamente. Mas também secretamente duvidávamos, porque os poltrões quadrados dos nossos chefes temiam casais no espaço, talvez porque ainda olhassem para este como um campo cientifico, e não como o prolongamento natural da socialização e evolução humana.
Por isso ficamos espantados quando fomos destacados juntos para a Estação Espacial. Tinha chegado a altura e mudar velhas mentalidades, com a introdução do factor verdadeiramente humano no espaço. A prova disso foi o facto de não limitarem a autonomia dos nossos afectos (desde que, claro, não afectassem as nossas tarefas...) e chegarem ao ponto de nos darem um compartimento sem câmaras onde poderíamos estar verdadeiramente à vontade nos nossos momentos de descanso. Cumpriríamos uma missão de apenas duas semanas, curta para os padrões da Agência, mas mais do que suficientes para nós, para de alguma forma nos conhecermos melhor, porque era a primeira vez (e talvez única) em que estaríamos realmente sós, dado o ser humano mais próximo estar a algumas centenas de quilómetros bem abaixo de nós…
Essas duas semanas  não seriam a lua de mel desejada, dado estar incumbido de  estudar um asteróide que iria passar ao lado da terra, um potencial homicida da raça, mas graças às garantias dos nossos cientistas, seria apenas uma enorme bola de luz a assustar as noites dos terrestres, mas a passar demasiado longe deles.
Longe...a seiscentos mil quilómetros da terra, um cabelo em termos de distâncias espaciais...Mas há muito que as margens de erro da ciência a tinham transformado numa das poucas instituições altamente credíveis da raça, e por isso pura e simplesmente que não representava nenhum problema.
Durante a espera, e à medida que fotografava o calhau, também te explicava as leituras e diferentes funções das máquinas que iriam registar a aproximação do monstro. Como mulher das estrelas eras obviamente dotada de conhecimentos muito superiores ao comum dos mortais sobre a minha área, contudo a complexidade desta e o facto de teres direccionado o teu saber para as complexas naves, deixava-te relativamente cega perante a minha ciência. Por isso foi com enorme prazer que te dei um pouco de luz, que procurei que amasses as estrelas muito para além do mero sentido poético, que a amasses como seres, dado que, como qualquer cientista acabei inevitavelmente por animar objectos desprovidos de vida, e de os tratar familiarmente como se fizessem parte do meu grupo de amigos...Tu, claro, achavas tal um rematada asneira, tendo contudo a delicadeza de não mo revelar, embora eu o adivinhasse no teu olhar, quando ao invés de Seres, continuavas a ver mera poesia.
Foram duas semanas solitárias na grande Estação momentaneamente quase vazia, semanas suaves onde contemplámos vezes sem fim o nosso tão querido planeta azul, rebolando lentamente e docemente por debaixo de nós. Duas semanas em que a bola de luz se aproximava cada vez mais, fazendo surgir temores secretos mas nunca revelados em nós, porque a ciência não falhava.
Foram duas semanas deliciosas, foram os últimos dias da terra, os dias em que a ciência falhou.
Há medida que o calhau se aproximava, ficámos como que hipnotizados a olhar para aquela espécie de Leviathan espacial, siderados e assustados pelo gigantesco corpo celeste a aproximar-se de nós, só não o sendo ameaçadoramente porque o sabíamos inofensivo. E passámos cada vez mais tempo a contemplá-lo; até que por um qualquer sexto sentido decidi verificar a sua órbita, descobrindo então o impossível: para meu grande horror que ao invés de passar ao lado da terra, ia colidir com ela! Ficámos momentaneamente paralisados com a revelação, mas o treino a que fôramos submetidos era superior a alguns tipos de sentires, e por isso passamos o mais imediato possível a minha leitura para a terra, mas esta respondeu-me com uma absurda negação de factos que para ti e para mim eram dramaticamente irrefutáveis; inconformado berrei-lhes as minhas leituras e receios. Em vão, até ao fim mantiveram a calma.
E tu...dividida pelo horror próximo ainda hesitaste a minha negra razão, dividida entre a calma da terra e o meu desespero, dividida entre a minha crença e o teu querer interior de recusar o holocausto, que era a da terra, pedias-me calma, no crescente desespero com que olhávamos para a besta rochosa que rasgava o espaço das nossas estrelas em silêncio e que se ia dilacerar o nosso berço.
Mal trocámos palavras naquela noite, mas os olhares diziam demasiado tudo. Perfeitamente estupefactos rezávamos a todas as entidades etéreas supremas para que evitassem o impossível, para que a aparelhagem da estação estivesse errada, imaginando ao mesmo tempo naquelas horas eternas o que se passaria se...enquanto também olhávamos impotentes vezes sem conta para o nosso querido planeta azul, desejando que a nossa cómoda e invulnerável posição de espectadores do horror fosse a de todos os humanos, amarrados que estavam ao destino do astro comum. Observámos pois como nunca encantados a beleza irresistível e com as horas contadas do globo azul.
E as horas passavam de facto demasiado lentas, enquanto a besta se aproximava também demasiado depressa.
Apesar de não parar de enviar os dados, a base parecia cega, e irritada, ao ponto de me proibir de o voltar a fazer. Quando, num derradeiro acto de desespero ameacei divulgar o que sabia à rede mundial, as ameaças subiram de tom e o tribunal marcial posto em cima da mesa. Tribunal dai a pouco reduzido a cinzas, e por isso preparei-me para lançar a verdade, querendo que todos soubessem a razão do fim. O corte de comunicações com o planeta foi a resposta, só ficando aberto o canal militar confidencial, de onde se ouvia a voz sempre calma de alguns colegas e cientistas que supervisionavam a estação.
Por fim rendi-me, assumindo a derrota, assumindo que o monstro até me ganhara aos silêncios; tu percebeste, percebeste a derrota, também a sentindo e assim deixando-nos a olhar para o armagedão que em breve beijaria a nossa terra, a terra de quem amávamos, a terra de tudo quanto amávamos.
E nessa altura dramática, o momento mais dramático da história humana, reparámos –não pudemos deixar de reparar por estarem tão perto de nós- em luzes não identificadas, que numa primeira visão pareceram luzes de outros veículos espaciais, mas que ao se aproximarem revelaram a sua origem: eram os tão falados mas tão pouco vistos OVNIS, que se deixaram ver bem pela primeira vez, talvez porque com o fim da terra nada tivessem a temer, ou talvez  porque quisessem ver o fim bem de perto, e tal como nós nada pudessem fazer, pois nenhum poder no universo poderia travar o inevitável…
Quando a besta mergulhou por fim, alterando o astro azul, ficámos em silêncio, mal reparando que Cap Canaveral tinha-se calado para sempre .
Ficámos a olhar a bola de fogo e de nuvens negras que tinham substituído o azul, que tinham instalado a noite para sempre.
E o silêncio ensurdecedor quase nos fez enlouquecer enquanto imaginávamos os biliões de horrores que 300 quilómetros abaixo de nós estavam a ter lugar. O silêncio do caos. E quase sem o percebemo-nos, abraçamo-nos carinhosamente, ignorando a gravidade, e trocando os derradeiros afectos humanos…
Ignorámos a morte, porque este se transformara no nosso único horizonte.
Ignorámos que éramos os últimos sobreviventes temporários da espécie humana, ignorámos que ficaríamos a orbitar para sempre em torno do astro morto, mortos, porque as reservas alimentares e o oxigénio durariam apenas algumas semanas, ignorámos que não tínhamos outro lugar para ir, ignorámos que ficaríamos unidos para sempre, o que seria romântico, não fosse o facto de estarmos a falar duma morte anunciada.
Ignorámos a noite que caíra abaixo de nós, ignorámos
A ÚLTIMA NOITE DA TERRA

Conto protegido pelos Direitos do Autor
Miguel Patrício Gomes
Enviado por Miguel Patrício Gomes em 06/03/2006
Reeditado em 27/06/2008
Código do texto: T119589
Classificação de conteúdo: seguro

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