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Pedro e a Montanha

Há contadores de histórias orais Profissionais e Amadores um pouco por todo o mundo. Actividade pouco divulgada, mas sobejamente conhecida em certos meios, é uma actividade magnifica: ter o prazer de contar uma história e ter o enorme prazer de a ouvir, momentos únicos que vivem quem tem acesso a este mundo mágico. Apesar de quase sempre ter sido um Contador de coisas escritas, tirei o curso para melhor me preparar para a oralidade, aprendi algumas técnicas fundamentais, e em 2003 contei a minha primeira história. Tinha tanto material disponível para a estreia, e no entanto… optei por esta singela história, que desde então, e apesar de ter contado mais de 30 histórias (sou amador e só faço tal de tempos a tempos…) esta continua a ser a minha favorita, pois é como dizem…Não há amor como o primeiro…

“O meu maior monstro, a minha maior criação é a solidão”


Olhar o horizonte era provavelmente tudo o que lhe restava. Trivialmente melancólico, perdia-se na extensão interminável dessa paisagem cuja finitude se interrompia precisamente nesse horizonte, mas que para ele se prolongava muito para além, em direcção a terras e lugares por si desconhecidos mas ansiados. Posição copiada duma gravura sem tempo fotografada a um velho livro de origem desconhecida, sentado, ligeiramente inclinado, cotovelo esquerdo ou direito (não se lembrava bem) apoiado na perna de igual sentido, punho ligeiramente cerrado sustendo a cabeça (aqui sentia-se desajeitado, mas com o treino adequado era menos difícil escolher), e o olhar...a estátua era branca, a imagem desfocada, por isso não sabia onde parava o olhar; isso para si era o maior dos alívios, pois impedia-o de a imitar e a criar a espontaneidade suficiente para o deixar sair e perder-se na linha do mar que delimitava a sua fronteira desde quase sempre.
Mas por muito que apreciasse estes momentos da mais deliciosa evasão, esta estava longe de lhe alimentar o estômago e de aquecer o corpo, pelo que, ao fim de algum tempo lá descia a encosta na ténue esperança de arranjar alguns gravetos para se aquecer no frio e tenebroso Inverno, que por esta altura começava a flagelar aqueles lados.
Noutros tempos, este exercício constituía parte integrante da rotina, pelos gestos ritmados, perfeitamente mecânicos e desprovidos da mínima espontaneidade, “gestos de necessidade” como lhes chamava Pedro. Cortar algumas árvores rachar a lenha de outras já prostradas, carregá-la para a cabana mista da mesma madeira e do cimento antigo, depois alimentar as galinhas, tirar algum leite às cabras e, se houvesse tempo, ir buscar a farinha moída ao moinho, numa colina não muito perto. Mais tarde faria pão e broa que tão bem lhe sabiam cobertos de manteiga e algum queijo. Se o dia estivesse de feição passaria ainda pela horta a verificar se as “malditas aves” não a tinham debicado mais um bocado, apesar do engenhoso espantalho, semi-mecanizado pela força do vento, ser mais ou menos dissuasor. Novamente “se houvesse tempo” verificaria todo o sistema de rega que se lembrara de fazer para os tempos presentes. Com uma extensão de dois quilómetros, feito da omnipresente madeira, algum ferro e “calafetado” com um óleo inócuo que descobrira num subterrâneo, orgulhava-se desse aqueduto, imagem e ideia tirada de mais um livro, mas posta em prática pelo invulgar talento de Pedro e a sua infindável caixa de ferramentas.
Mas o tempo tinha deixado a monotonia pelo caminho, ao diminuir as suas faculdades. Deixara de verificar a sua obra, pois o reumatismo matara-lhe a vontade, e aproximara o curral dos animais da sua casa, e só muito esporadicamente ia ao moinho, pois os cereais que armazenara noutros tempos de pujança começavam, também eles a mirrar. Quando se soubera a envelhecer começara a preparar o conforto destes dias, e inclusive, treinara-se fisicamente para viver com o mínimo de comida indispensável.
Mas, como em tudo o que fizera sozinho, superava bem este tipo de dificuldades, pois sendo o senhor de tudo, deveria dar o exemplo, dando-o e sentindo-se bem em prestar mais uma prova que, afinal, só provava a sua força indomável e sem igual.
O pior, o pior era a insónia que esse mesmo tempo conquistara e roubara o sono de que Pedro gostava tanto. Mas em breve arranjara a solução possível, pois também aprendera a resolver os seus males na brevidade benigna que evitava as frustrações. Já antes o fazia, mas agora mais do que nunca devorava as noites consumindo os livros resgatados à grande cidade, no tempo em que pudera descobrir a sua terrível dúvida, mas que se recusara por a achar injustamente incredível, por achar que ele não merecia tamanha desfeita, logo Ele, o senhor absoluto!
Desprovido da capacidade de locomoção desejada, lia, lia muito e visitava locais tão estranhos como o seu nome, conhecia povos de pele engraçada e costumes antigos e nobres, e aprendera a respeitar, mas sempre no intuito de um dia reproduzir e mesmo superar, as máquinas poderosas que punham as grandes cidades do planeta a funcionar Na impossibilidade dos recursos, e á sua maneira, também aprendera a construir algumas máquinas artesanais, mas longe da maravilha das outras, se bem que altamente eficazes para o seu dia a dia, e comparativamente melhores, insuperavelmente melhores, pois, afinal, tinham saído Dele.
No entanto, as suas preferências iam para leituras mais humanas, biografias, auto-biografias, romances ou mesmo as mais delirantes ficções, pois em todas encontrava os rastos dos homens desaparecidos de si à tanto, tanto tempo. E depois, as histórias e as memórias contadas também lhes recordavam as deles, as raras em que se recorda de estar rodeado de gente, pese embora o facto desta se ter mantido quase sempre à distância. Ao longo do tempo, também fizera uma biografia, a sua, que ocupava várias estantes, afinal, pálido reflexo do seu enorme ser, das suas conquistas. Quando relia periodicamente os seus volumes, revia-se no tempo e recordava.
Recordava, quando os momentos custavam mais a passar a pequena e distante Sara, perdida no tempo em que a companhia da família e dos outros ainda não era a sua mais nebulosa recordação.
Sara, namoradinha dos dez anos, doce, como só podem ser assim o amor e os amores daquela idade. Cabelos franzinos pelo pescoço, selvagens escondendo a medalha de um qualquer santo, que os pais protectores lhe tinham pendurado ao pescoço de forma a perpetuarem a sorte que lhe tinha faltado. Altiva, expressão orgulhosa, mas generosa e substancialmente amorosa, quando o objecto do seu afecto lhe respondia aos padrões de afectividade com que se protegia do mundo. Mas os olhos de Sara eram demasiado azuis, demasiado opacos, impedindo que o seu cérebro pudesse visualizar directamente o universo. Tinha sido por condescendência instintiva comum que Pedro reparara nela. Demasiado cedo para compreender a crueldade dos olhares enjoados e dos sentimentos em revoltosa, alicerçara-se a ela como jamais o faria a ninguém. Eram duas entidades perdidas que a natureza unira insidiosamente, e até mesmo de forma cruel. Na exploração dos corpos e mentes, ela julgara que à visão se aliara o tacto na pobreza de recursos, bem como a coordenação pois, quando explorava Pedro, este múltiplas vezes tinha de lhe orientar os gestos e soprar aos ouvidos a incorrecção sentida pelas mãos. Ao fim ao cabo, para ela a desorientação não era nada de novo, sentindo-se, pelo menos agora, grata por ter um professor tão diligente como ele.
E Pedro só conseguia viver ainda hoje com a mentira piedosa, porque tal se revelou vital para todos. Cada um tinha uma imagem, que se poderia perder se as coisas fossem tão inteligíveis como no mundo das imagens. Mentindo Pedro preservava esse recanto sagrado onde nada mais importava a não serem eles e só eles.
Mas nunca nada nele foi permanente, a não ser a solidão a maravilhosa e inigualável solidão, e por isso Sara desapareceu aos seus quinze anos, altura em que os pais escandalizados o descobriram no quarto.
Depois novo lapso de memória, grande, não devia ter acontecido nada de especial, ou tivera um trauma tão grande que este impedia as memórias de ressuscitarem do seu limbo recalcado, recalcado não! Pedro não era recalcado, do limbo protegido, porque a memória dos outros era uma falácia perversa com que a sua mente o tentava envenenar, pois os outros, quando existiram só serviam para o magoar, logo, e seguindo esta lógica, Pedro não precisava deles para absolutamente nada!
Próxima imagem. Convidado para passar umas agradáveis férias na montanha, nem sequer desconfiou. Devia ter estranhado. Sozinho? Durante apenas alguns dias até os outros lá aparecerem? Que outros? Mas demasiado seduzido pela rara perspectiva “dos outros” aceitara, (nessa altura ainda vivia no engano dos outros serem algo de agradável, tolices que se perdoam por serem da juventude...) afinal raras vezes tivera companhia, tendo vivido a maior parte do tempo de casa em casa e quase nunca vindo à rua
Quando estranhou a demasiada ausência, e numa altura que, ao invés de dias tinha já passado um mês sobre a data marcada para chegada dos “outros”, desceu até ao vale mas não o conseguiu. Mal podia respirar a partir de determinada altura. Frustrado olhou impotente a cidade meio coberta pela névoa cinza-azul. Na ânsia dos jovens ainda tentou uma, duas, três vezes até os pulmões se renderem ao formigueiro louco que os consumia.
Restava-lhe a cabana e meia-dúzia de galinhas para sobreviver. Sobreviver! Nunca abdicou de tal, sendo por isso que explorou exaustivamente os “seus domínios”, chegando à conclusão que estes compreendiam um bosque de dimensões razoáveis, o lago e alguns cumes com vista admirável. Em breve elegera um deles como local de reflexão, uma estranha necessidade a nascer dentro de si, mal se apercebeu ser a solidão um estado agora irreversível, e lá, a reconverter, sentindo-se e sabendo ser nesse cume o senhor absoluto do mundo.
Dentro das descobertas incluíam-se alguns túneis demasiado profundos para serem explorados, um abrigo de montanha, e “a jóia da coroa”-Uma antiga estação de qualquer coisa desconhecida, repleta de ecrãs e restante material já antigo e em mau estado. Além de alguns manuais técnicos, lanternas, baterias, dera de caras com aquilo que lhe parecera uma máscara de gás.
Embora se tivesse dedicado à melhorar às suas condições pouco mais que insalubres de início, nunca abandonaram a ideia de utilizar essa máscara. No entanto adiou-a anos a fio, temendo-a, temendo o que poderia encontrar com ela, temendo as respostas.
Contudo, houve um dia em que Pedro se fartou da monotonia, dos gestos e olhares que se repetiam insistentemente sobre as mesmas coisas. Aspirava por novos domínios, e a cidade parecia-lhe um campo demasiado tentador para ser desaproveitado, porque, além do mais, a derradeira verdade morava algures por lá...Ainda resistiu, mas esta infusão de sentires diferentes cindiu-o como nunca. Durante a sua breve luta,  sentiu-se oprimido, a invadir por tal angústia que, pela única vez na vida julgou ir endoidecer.
Fez os impossíveis para aguentar a tortura, mas à segunda semana de suplício, deixou os braços pegarem nos mantimentos, na última lanterna com bateria e na máscara e assistiu ao rumo dado pelas pernas, monte abaixo, em direcção ao fim da estrada de alcatrão que apenas beijava levemente os “seus domínios”.
Quando o ar apertou os pulmões, já era senhor de si, e foi ele e apenas ele a colocar a máscara e a orientar-se em direcção à periferia da cidade, então já adivinhada pelo aumento de construções abandonadas.
Por entre a névoa húmida, tentou encontrar nas casas apodrecidas imagens no seu cérebro. Nada. Apenas a impressão vaga de já ter passado por este ou aquele lugar, mas demasiado sem ligação para poder ser um continuo a orientá-lo.
Apesar de tudo ser praticamente novo para si, ele soube reconhecer uma cidade morta. Tão morta que nem mesmo as aves tão conhecidas apareciam.
Quis sair, partir para si, para a cabana familiar, mas perdeu novamente o controlo do corpo. Havia respostas a obter, e ele nunca sairia dali sem as ter.
Após meia-dúzia de horas sem nada, lembrou-se de um sítio onde teria de haver qualquer coisa. Novamente o corpo todo se moveu. Num placar de informação geral e com o mapa da cidade onde se assinalavam os locais de maior interesse, e apesar da quase ilegibilidade do painel, estava bem claro onde se encontrava a biblioteca. Mais meia hora de caminho e...Edifício antigo, de pedra já bastante corroída. Nada convidativo no gigantismo mudo, mas inevitavelmente para ele.
A noite entretanto caíra, adensando ainda mais a atmosfera de mistério dentro da construção.
Demasiado excitado para ter medo, (afinal o senhor absoluto nada temia!), correu ansiosamente a prateleira até os títulos chocarem com o seu interesse.”Último compêndio de diários”. Abriu ansiosamente e recuou os anos necessários.
-”Colapso das centrais de despoluição previsto para dentro de quarenta anos”
-”Cientistas advertem para a necessidade de se evacuar o planeta”
-”A vida em 30% dos países subdesenvolvidos é impossível”
-”Finalmente o condenso entre os governos do mundo -Plano de emergência já elaborado, os planetas compatíveis estão em adiantado estado de preparação! Conseguimos!”
-”Partida prevista para daqui a dez anos. Principais estaleiros garantem ter a frota pronta para essa altura. 20% já preparada”. Garantia total que toda a raça será abrangida. “Não haverá Arcas de Nóe”-Prometeu o conselho de evacuação, em resposta às acusações levantadas sobre a possível selectividade da raça”.
-”Catástrofe! Desastre consome parte da frota!” É tarde demais para se construírem mais naves! Cerca de 15% da humanidade será sacrificada!”
-”Após aturada discussão e ante o protesto de inúmeras organizações, optou-se finalmente pelo critério de escolha sobre quem ficará - Criminosos condenados à morte ou o equivalente a pises sem esta pena, doentes terminais, doentes que padeçam de doença mental sem cura, idosos cujo corpo não aguentaria a dura viagem, pessoas cujo contacto com as outras cause especial aversão a estas, e ainda quem quiser ficar.”
-”Partida dentro de um mês. Quando as naves descolarem será desligado o sinal que mantêm as centrais despoluidadoras no activo. Teme-se a sua explosão para breve, receando que a onda de choque possa atingir as camadas superiores da estratosfera antes que a terra esteja totalmente evacuada. Protestos continuam, mas a decisão está tomada”.
Pedro por fim percebera, ou recusara-se a perceber para sempre.
Procurou nas prateleiras vazias o máximo de livros e carregou até ao impossível as três mochilas que trouxera, esperando encontrar algo de útil nos despojos.
Jamais pensara serem as memórias, ou o que delas sobravam.
Sem virar nunca as costas, partiu e sentiu que nas três horas de caminho envelhecera uma vida. Tudo lhe parecia mais triste. Os prédios calados, os jardins sem vida, e os omnipresentes postes de alta-tensão, cujas linhas abandonadas lambiam derrotadas o chão.
Quando chegou ao seu mundo destruiu a máscara e preparou-se para viver o tempo restante, abdicando ainda mais das memórias de gente, pois sabia nunca mais lhes poder adicionar outras. Tal como a planície atrás de si, estavam ou passariam a estar mortas.
Apenas nos livros as recordaria, não que quisesse, mas por que essa mente periodicamente dividida o exigia, tentando, talvez, reconstruir o mundo perdido, nas colagens que inevitavelmente faria dentro da sua mente.
Os que a cabana já tinha na cave e aqueles por si resgatados seriam suficientes.
Por ele, deixaria pura e simplesmente de sentir, mas isso era renegar a condição de humano, e por muito que o desejasse não conseguia, ou antes, reconstruiria a humanidade à sua imagem.
Por isso e por muito mais coisas, ele continuava a não compreender, ou a recusar-se. Achava que a sua solidão, apesar de deliciosa, era demasiado insustentável para ser compreendida. Nunca haveria palavras ou sentimentos que a pudessem exprimir convenientemente.
Lera na sua vasta biblioteca o significado de oráculo, e encontrara-o no seu monte favorito dos primeiros tempos de solidão na colina mais alta.
Assim, os seus gestos mais sentidos eram feitos de remendos absorvidos nas recordações e nos livros daqueles que o tinham abandonado.
E era nesse oráculo que, ao fim do dia, no verão ou no Inverno, de preferência com bom tempo, que ele se inclinava, na posição inicial, olhando o céu, e coçando com a mão livre as duas cabeças, inquirindo-se interminável e desesperadamente.
-Porquê?


Baseado num pequeno conto de 3 páginas, revisto e aumentado em Agosto de 1998, última revisão em Maio de 2004
Conto protegido pelos Direitos do Autor
Miguel Patrício Gomes
Enviado por Miguel Patrício Gomes em 12/03/2006
Reeditado em 16/03/2006
Código do texto: T122173
Classificação de conteúdo: seguro

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Miguel Patrício Gomes
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