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AS GALINHAS GIGANTES

   AS GALINHAS GIGANTES

     Texto: Júlio Sampietro
     Ilustrações: Álvaro Augusto de Souza
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A casa de Dona Aninha e Seu Francisco é um sossego total. De barulho mesmo, só se ouve o latido do "Sultão" que toma conta do quintal.
Eles moram na "Fazenda Geminianos” em homenagem ao casal de filhos que nasceram iguais e ali cresceu até transferi-los para o Vilarejo em busca de escola e trabalho.
Dona Aninha acordou mais cedo que o esposo e foi preparar o café porque Seu Francisco, bom trabalhador, ia ter um dia cheio de tarefas para a manutenção da Fazenda.
Sobre a mesa de madeira nobre e toalha de renda sobejavam: leite, frutas, pães, queijo e manteiga à vontade, feitos por eles, com muito carinho.
Seu Francisco, de cabelos brancos, dono de uma calma aparente, tomou café e foi lá para os cafundós da mata para trazer cipó e um feixe de varas de marmelo para a amarração dos pés de feijão "orelha de padre" que estavam começando a soltar vagens.
Dona Aninha ficou na janela, acenando para ele e depois voltou a fazer os serviços da casa. Regou todas as flores e voltou à cozinha para aprontar um bom almoço.
A casa da Fazenda era o ponto final da estrada que vinha do Vilarejo e, pela distância que a separava do povoamento, ali era tudo quieto.
O dia prometia um bom tempo e o sol começava a arder na manhã maravilhosa.
Da cozinha, Dona Aninha podia espiar uns bons quilômetros daquela estrada.
De repente, ficou alarmada ao ouvir um ronco igual o do motor de caminhão. Deu uma olhada e não viu nenhum veículo, nem poeira na estrada. Do outro lado da casa, Sultão começou latir sem parar, parecendo ter visto alma do outro mundo.
- O quê será isso?  Resmungou Dona Aninha. Não era caminhão, não era a casinha de força, não era automóvel, nem motocicleta! O quê seria?
Foi nessa manhã que as coisas começaram a mudar naquele sítio. Ao leste, vindo do alto da serra, um Objeto Voador Não Identificado aproxima-se da casa com um pisca-pisca colorido e forte. Tão forte era o seu brilho e ruído que Dona Aninha, assustada, ficou a espreitar da janela, pensando lá com os seus botões:
“Será que vai cair algum avião, meu Deus?”.
Para seu espanto e curiosidade, o objeto estranho foi logo aterrissando no seu quintal. Uma nuvem de poeira dificultava a visão de Dona Aninha que se escondia de medo, sem tirar os olhos do invasor.
Cão e gato se espantaram, as cabritas balançaram seus rabicós, os porcos, bezerros, vacas e bois ficaram semi-paralizados mastigando o milho e a ração enquanto os galináceos co-co-ro-cavam entre os glu-glu-glus dos perus.
A nave alienígena pousou mansamente. O seu interior, equipado com sofisticada e complexa maquinaria, cheia de luzes e botões, assemelhava-se a um moderníssimo computador. Surgiram duas criaturas de postura altiva, olhares esbugalhados, rostos morenos cheios de sulcos, parecendo rugas. Um dos alienígenas tinha uma cabeleira loura e trejeitos, indicando que devia ser mulher.
Um outro deles comandava o painel que abria uma cortina de vidro por onde ambos olhavam as paisagens como se fosse numa tela de TV. Focalizaram os animais e conversaram:
- Tra-pli-có-bré-fli ? ( tradução: Estes são os espécimes animais da Terra ? ) -  pergunta o homenzinho á sua companheira.
- Bru-cla-pi-ton-plu ! ( tradução: Credo ! São bem mais feios do que nós ! ) - Responde a loura criatura.
Os dois ficaram discutindo o quanto aqueles animais da Terra estavam precisando de vitaminas. Foi daí que um deles apertou um botão por onde se podia aumentar a imagem, na tela, para o tamanho ideal de uma raça gorda e forte.
- Fru-pla-com-bré  45: - Aí está bem, 45 por cento - Diz o outro que foi preparar um líquido no laboratório da nave.
Pela tela do computador, as imagens eram inacreditáveis: o cãozinho ficou mais gordo, os bois e as vaquinhas do tamanho de um touro campeão e as galinhas... Ah! As galinhas! Elas chegaram a ficar maiores do que um galo!
De posse daquele líquido, decidiram sair da nave e realizar uma investigação na Fazenda sondando as coisas da Terra e se familiarizando com os animais. O cãozinho até parou de latir.
Na posição em que estava, Dona Aninha tinha uma visão total, cuja a porta do Disco Voador se abria e deixava os dois estranhos bem vulneráveis.
Não foi fácil... Seriam eles, os invasores, algum tipo de ameaça ao planeta? Estariam eles chegando para aniquilar os terráqueos?
E Dona Aninha... o que deveria fazer ? O seu medo era tanto que as pernas começaram a tremer. Mas não arredou o pé dali...
Os dois desceram pelos degraus e de posse daquele líquido se dirigiram ao jardim, não percebendo, ainda, a presença da dona da casa.
Nesta altura dos acontecimentos, Seu Francisco estava de volta, carregando algumas varas e cipós, tomando o rumo da casa, sem sequer ter ideia do que estava preparado para ele.
- Fri-tru-cla-plé-bron !  - Vamos experimentar a poção! Disse o homenzinho que espiava para todos os lados, tentando não ser visto por ninguém.
- Tra-pu-fon-cru-dés!  -  Veja estas flores! Chamou a atenção a lourinha esquisita. Em seguida, algumas gotas eram derramadas no canteiro de margaridas, outras nas dálias e também nas rosas.
"Acho que vou pegar  a espingarda"   - Pensou Dona Aninha que a tudo assistia.
Dentro de poucos minutos, Seu Francisco estava chegando e ao se aproximar notou aquele objeto enorme no quintal. Com muito cuidado e em silêncio adentrou pelos fundos e deu com Dona Aninha pegando a arma.
- O quê é isso, mulher ?
- Coisa do outro mundo, Chico ! O que vamos fazer?
- Calma ! Precisamos pensar. Não podemos sair por aí, atirando.
Enquanto isso, os dois invasores, que não eram bobos, percebiam a presença de humanos dentro da casa.
- Prek-prek-pin! - Cuidado! Tem gente...
- Vu-bri-tas-lec? - Vamos entrar em contacto com eles? - Disse o esperto de olhar esbugalhado.
Bateram na porta, empunhando uma bandeira branca que, se fosse numa guerra estaria representando paz, trégua, comunicação...
Seu Francisco não tinha outra saída. Ou atendia ou atirava...
Para se prevenir contra o pior armou-se e foi receber os extraterrestres.
- Fiquem onde estão ou atiro !
Como os invasores eram de um planeta adiantado, logo se programaram para falar a mesma língua dos terráqueos.
- Não viemos para fazer o mal. Só estamos aqui para conversar. - Disse um.
- É... só queremos paz ! - Disse a outra.
Uai ! Não é que eles falam a nossa língua?.
 Seu Francisco foi logo convidando os hóspedes porque sentia que eram de confiança. Dona Aninha pediu que se sentassem à sala, apertou suas mãos e foi para a cozinha preparar algo de comer para oferecer-lhes.
- Posso saber de onde vocês estão vindo ? - Perguntou Seu Francisco, curioso e esperto...
- Claro ! Somos do Planeta Vita Xis..
- Nossa missão em outras galáxias como a sua, é restaurar a flora, a fauna e a biofísica, as quais, ao longo dos séculos vão perdendo as forças vitais e ficando carentes dos componentes vitamínicos.
- Temos aqui, em nossas mãos uma combinação de calorias, sais minerais, carboidratos e concentrados vegetais capazes de desenvolver uma reação onde é aplicada.
- Estivemos estudando a botânica, a bioquímica do corpo humano, a mediunidade, as energias somáticas,  as auras da psique humana...
- Espera aí... Retrucou Seu Francisco  - Não entendo nada do que estão falando. E também nem sei por quê estão dizendo isto para nós!
- Desculpe a nossa empolgação. É que, é difícil encontrar alguém disposto a nos ouvir - Disse o sábio cientista do Planeta Vita Xis.
- Só para concluir - continua a doutora lourinha - descobrimos que a Terra irá passar por uma fase de extinção das suas riquezas naturais, do solo e do ar e que nos próximos cinquenta anos, poderá entrar em crise  ambiental e além-crosta  por falta de regeneração de seu clima. As constantes deflagrações  das bombas químicas e desmatamentos, se não forem freadas, a herança aos filhos será fatal.
Seu Francisco ficou de queixo caído...
- Mas, qual é a intenção de vocês ? - Perguntou curioso.
- Viajamos muito pelo espaço. Existem mundos habitados e mundos extintos... restando apenas as cinzas. Em outros fomos felizes, pois o milagre dos componentes que temos em mão renovaram o verde, a clorofila, a vida, o ar e hoje, em rápidas passagens, constatamos que conseguiram sobreviver ao flagelo de seus próprios erros e imprudências para com a natureza.
Na parede, suspenso por um prego, estava um violão que Seu Francisco dedilhava de vez em quando, cantarolando aquelas musiquinhas sertanejas. Aquele instrumento chamou a atenção dos visitantes.
- Como é o seu nome ? – Perguntaram
- Francisco das Chagas Mendes de Oliveira Souza, um criado...
- Francisco está bom para nós. Muitos nomes juntos para uma só pessoa representam desgaste numerológico de energia astral.
Nesse meio de conversa, Dona Aninha fritava bolinhos e o cheiro se espalhava pela casa junto com o café que estava sendo coado.
- Humm ... que cheiro bom !  Inspirou um deles.
- É a Ana que está passando o café.
- Seu Francisco, antes de nos retirarmos, gostaríamos que tocasse aquele instrumento e cantasse para nós.
- Se eu cantar, a sala vai ficar vazia.
- Como assim ?
- É que sou meio desafinado. Quer dizer... a minha esposa não reclama, mas...
- Deixa de prosa Seu Francisco. Solta a voz que nós queremos levar uma gravação de lembrança.
Seu Francisco pega o violão e todos ficam atentos à melodia.
Enquanto Seu Francisco tocava e cantava sua música,  Dona Aninha ia preparando os bolinhos de banana, as mandiocas, o café com leite puro da Fazenda, o pão caseiro com manteiga e mel.

" Lavrador, não lamente o seu suor.
Da terra tire alimento, razão do nosso sustento.
"Seu labor, há de ser o seu dispor.
Na terra - aquela semente. De sol a sol - um valente!"

"Também já fui lavrador,
Da enxada ainda restou
Os calos de um plantador,
Que a marca o tempo deixou."

"Você é esta raiz, que brota da natureza.
Riqueza deste país, gerando nossa grandeza."
"Deus te abençoe irmão, plantando pra nossa gente.
É sua esta canção, profissional da semente."

"Também já fui lavrador,
Da enxada ainda restou
Os calos de um plantador,
Que a marca o tempo deixou."

Dona Aninha vem para a  sala e convida os visitantes para o café.
Seu Francisco olhou para Dona Aninha e fez sinal de que eles não gostaram da música.
- Não, Seu Francisco, pelo contrário, a letra é linda e a melodia nem se fale...
- Mas  não é só a  música que é boa. O café de Dona Aninha está excelente! Um bom café e uma boa música completam o que achamos ser "uma vida feliz".
Seu Francisco, satisfeito da vida foi guardar o violão e Dona Aninha ficou sorrindo do elogio recebido pelo seu café. A Música foi gravada para ser reproduzida no Planeta Vita Xis
- Bem, - disse o homenzinho - acho que está na hora de irmos para outras regiões da Terra. Antes, queremos deixar nas mãos de vocês uma grande responsabilidade. A poção milagrosa!
E eles explicaram direitinho para os terráqueos como usar aquela vitamina que precisava ser misturada na água e usada com um conta-gotas para as plantas. Duas gotas para cada litro de água.
Seu Francisco foi ao depósito onde guardou o frasco da vitamina e trouxe duas lindas espigas de milho. Duas das melhores de sua colheita, para dar de presente aos visitantes.
Partiram e, num aceno meio emocionado, Dona Aninha deixou escapar uma lagrimazinha que rolou pela sua face.
- Gente boa! - Falou Seu Francisco.
- Ainda não estou acreditando no que vimos!
Os dois se recolheram. Foram cuidar das coisas da casa e se esqueceram do frasco que ficou no depósito. Duas galinhas acostumadas que estavam em ciscar por toda a área, andaram visitando o depósito e de tanto circularem, bebericaram algumas gotas da poção. Graças ao gosto esquisito, largaram de xeretear no que não lhes pertencia e voltaram para o quintal. Neste mesmo dia, Dona Aninha e Seu Francisco fizeram o que lhes ensinaram os extraterrestres: Duas gotas para cada litro de água e molhar as verduras e as flores.
A noite caiu e o assunto ainda era a surpresa do Disco Voador. Jamais esperavam que um dia pudessem encontrar gente de outro planeta. Mas encontraram! E ninguém, a não serem eles, acreditaria que o Universo está cheio de habitantes desconhecidos.
- Vamos guardar segredo, mulher
- É claro, mesmo porque, ninguém vai acreditar.
- Então vamos dormir.  Amanhã é outro dia.
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         O tempo prometia mais um lindo dia ensolarado e a chaminé da casinha  fumegava para preparar o café e outras guloseimas caipiras bem do tipo de Dona Aninha.
Seu Francisco pegou o regador e foi aguar as plantas usando a mesma dosagem do líquido fornecido pelos seres espaciais. As abóboras, as melancias e os pepinos já estavam vingando e a primavera apontava nos jardins da casa, com flores de todos os tipos e cores.
Depois, foi até o curral, tirou um balde de leite da vaquinha malhada, mas achou esquisito o latido insistente do seu cãozinho magricela na direção do galinheiro. De repente, uma surpresa! Galinhas gorduchas se destacavam das outras inquilinas que fugiam quando elas passavam de um lado para o outro do galinheiro.
- Uai! O que está acontecendo por aqui? - Balbuciou Seu Francisco, tirando o chapéu e coçando a cabeça. Após verificar a diferença dos galináceos, ficou surpreso e assustado. Mas, fazer o quê?
- Cruz credo! Nunca vi galinha do tamanho de  avestruz!
Correu a levar  o leite para a cozinha e chamou Dona Aninha para ver o que estava acontecendo. Lá se foram os dois que começaram a se assustar com o tamanho das galinhas.
Ficaram a observar o dia todo. Á tarde, o tamanho aumentava, como também a fome e a vontade de comer iam aumentando. Foi preciso debulhar muitas espigas para dar conta do apetite das aves gigantes.
- Você deu a vitamina a elas ? - Perguntou Seu Francisco.
- Eu não!  Vai ver que elas andaram soltas pelo quintal,  que podiam pular a janela do depósito e espiar o que havia lá dentro! respondeu Dona Aninha arriscando um palpite.
- Vai ver que sim. Vai ver que sim, mas... e agora? O quê vamos fazer se elas não pararem de crescer ?
- Deus nos acuda, Francisco. Não quero nem pensar!
- Bom, por segurança vou fechar o galinheiro e cuidar para que elas não fujam daqui.
- Enquanto isso vou dar uma olhada nas plantas porque estou com medo do que estou pensando. - Disse Dona Ana.
As verduras e os legumes já apresentavam uma cor mais forte e os frutos maiores do que antes. As flores também cresciam e se destacavam das outras.  Coisa do outro Mundo! Uma maravilha assustadora porque o casal não tinha a menor idéia do que poderia acontecer nesse crescimento exagerado de tudo.
Nessa noite foram se deitar apreensivos. Resolveram não mais usar a poção estranha e a guardaram bem guardada... a sete chaves.
A noite foi longa. Com muito custo conseguiram conciliar o sono. Muito menos Sultão que, a qualquer movimento das aves, soltava seus latidos de vigilante.
No dia seguinte foram ver o resultado. Duas galinhas gigantes,  melancias e abóboras enormes!
As espigas eram três vezes maiores. Parecia um conto de fadas onde as coisas aconteciam num toque de varinha mágica. As flores cercaram a casa, envolvendo-a num paraíso florido. Cada flor tinha o tamanho de um guarda-chuva. Até o verde das folhas ficou mais verde.
Lá no estradão uma nuvem de poeira anunciava a chegada de alguém com seu velho carro todo desregulado, queimando óleo, soltando fumaça por todos os buracos enferrujados.
Era Seu Jacinto Pena e Dona Rita que vinham visitar Seu Francisco e Dona Aninha. E quando vinham, ficavam até para dormir.
Rapidamente começaram a perceber as coisas estranhas que estavam acontecendo por ali. Ficaram admirados de tanta novidade!
- Comadre Aninha, que milagre é esse?
- Pois é, comadre Rita, nem sei o que dizer. Foi gente de outro planeta que fez isso.
E foram ver outras plantas que ainda estavam crescendo... crescendo... crescendo...
- Compadre Chico, me conta isso direito. Ainda estou surpreso!
- Se o compadre Jacinto não rir da minha pessoa, eu conto tudo.
E assim, foram conversar num canto e as comadres no outro. As plantas continuavam crescendo... as galinhas crescendo... ciscando aqui, ciscando acolá, escapuliram e resolveram ir para a horta e devorar a couve-manteiga, a couve-flor, o almeirão, o repolho e os vermelhinhos tomates. Futucaram as melancias e as abóboras fazendo uma sujeira danada! Dentro de pouco tempo o estrago estava feito!
E as titicas? Cada montanha!
Eram tantas as titicas de galinha espalhadas por aquele terreno que um mau cheiro começou a invadir o ar. Ninguém aguentava ficar por ali. Seu Francisco e Dona Aninha, Seu Jacinto e Dona Rita não sabiam o que fazer com aquelas galinhas gigantes.
Vai daqui, vai dali, Seu Francisco argumentou:
- Vou guardar a poção mágica. Vamos esperar para ver se o efeito passa até amanhã.
Com muito custo prenderam as gordanchudas no galinheiro e trancaram a porteira.
No dia seguinte, mais surpresas!
O galinheiro estava que era só esterco. Acharam um ovo do tamanho de uma bola de futebol, encostado na cerca.
- Olhem que ovão! – Gritou Dona Rita.
- Que  lindo! - Exclamou Dona Aninha.
E correram para apanhá-lo.
- Vamos cozê-lo ou fritá-lo? – Pergunta Dona Rita que ainda não havia tomado café. Depois seguiram em direção à casa com o ovo no colo.
- Lá dentro resolveremos – Responde Dona Aninha.
Partiram a casca e encheram a tigela com a grande quantidade de clara e de gema que parecia uma laranja. Seu Francisco e Seu Jacinto Pena traziam uma abóbora daquelas compridas e tortas, do tamanho de um bezerro. Quase não podiam com tanto peso.
- Vamos fazer um tacho de doce. Vou preparar o fogo.
O dia foi inesquecível. Fizeram omelete, maionese, suspiros, farofa de gema, doce de abóbora e assaram uma galinha das pequenas. Parecia dia de Natal!
- Compadre Jacinto gostaria que ninguém soubesse o que está acontecendo por aqui. Promete não contar?
- Claro compadre. Já pensou no escândalo?
- Vou devolver a poção ao seu dono. Aqui na Terra essas coisas não se combinam.
- Verdade. As pessoas não estão preparadas para isso. Algumas, podem até ficar doidas.
- E usar a poção para outra maldade – lembrou Seu Francisco – Já pensou num cachorro bravo, num boi assustado, num corvo fedorento?
- Credo, compadre! Já pensou se um mamão daqueles bem grandes caísse na nossa cabeça? Isso sem falar na jaca, no coco e nas mangas “coração de boi”!
Enquanto discutiam, as comadres estavam admirando as flores que emanavam perfume e atraíam abelhas e insetos.
- Comadre Rita, ainda não estou acreditando!
- E eu? – Retruca a outra.
- Sabe, estou ficando muito assustada. O povo da cidade não pode saber o que está acontecendo aqui.
- Nadinha de nada! – Confirma comadre Rita.
- Bom, a comadre não vai "soltar a língua"  por lá, vai?
- Pra me chamarem de doida? Eu, hein?
Eles não sabiam o que fazer. Ficaram se perguntando como resolver aqueles fenômenos que podiam cair na boca do povo e as coisas iriam ficar bem piores do que estavam.
Chegaram à conclusão de que o mundo em que vivem não deve ser diferente. A terra, desde que foi criada, não agüentaria uma mudança radical, como se suas estruturas, seres e plantas dessem uma guinada de trezentos e sessenta graus. Grandes transformações gerariam tragédias e confusões entre o povo, pelas inversões das coisas já existentes.
Os quatro pensaram e repensaram bastante chegando à conclusão de que a natureza, para ser restaurada, não precisa de aditivos, de enxertos e de milagres. Basta apenas não ser bombardeada com agentes químicos perigosos, devastadores de tudo o que encontram pela frente.
O verde será sempre verde porque Deus é a sua força criadora e reprodutora. Os mares serão sempre mares se os homens não o poluírem com suas armas destruidoras e não contiverem a matança generalizada dos peixes e dos milhares de seres que habitam as águas e precisam do seu oxigênio.
A preservação da fauna e da flora não precisa de poções milagrosas nem de inventos de laboratórios que mudem sua natureza porque podem alterar o equilíbrio do seu vigor.
A espécie humana está acostumada a ver o que vê e é só isso que importa. De nada adianta uma fruta ter quatro vezes o seu tamanho se não temos a certeza de que a sua polpa seja digerível, se suas raízes vão absorver maior quantidade de seiva sem resultar na secura do solo, o que acarretaria grandes desertos na face da Terra.
Os animais, como as galinhas, os bois, porcos, peixes e crustáceos, usados como alimento caseiro, não podem encher mais do que uma panela. O Homem não tem o estômago preparado para comer uma galinha que tenha uma coxa de oito quilos, nem geladeira grande para guardar tanta carne. Logo o enjôo e o fastio tomariam conta de todos. Não estamos, nem estaríamos preparados para tais mudanças, nem para pagar o preço de tais mudanças.
Mas, o que fazer quando estamos diante destas realidades? Essas eram as perguntas que exigiam uma boa resposta dos compadres.
- Pesando tudo isso, – disse Seu Francisco – temos que achar um jeito de acabar com a fantasia. Ana vá buscar a poção.
- Olha compadre Francisco, eu e Ritinha até podemos acreditar que existam seres de outros planetas, mas as outras pessoas não estão preparadas.  A poção deve ser útil para outro planeta diferente do nosso,  não acha ?
- É verdade. Será que eles se enganaram?
- Quem? – Pergunta Dona Rita.
- Os dois, lá do Disco Voador – Responde Dona Aninha, trazendo a poção.
- Ué! Então eles têm que voltar para resolver este problema que eles mesmos criaram. Mas, como fazermos que voltem?
A discussão ia longe quando... de repente,  um ronco começou a chegar aos seus ouvidos.
- Será que estão ouvindo o mesmo que eu? – Perguntou Seu Francisco.
- Sim. Também estou ouvindo – Responde Seu Jacinto Pena.
- Serão eles, de novo?
Para o alívio e surpresa de todos, o Disco Voador estava de volta. Se voltavam era porque alguma coisa haviam feito errado.
Entre luzes, poeira e emoção a nave repousa calmamente e em seguida abre “as portas da esperança”. Os seres do espaço saem do Objeto e acenam para os terráqueos, convidando-os a entrar na nave.
- Eu, hein? – Retruca Dona Rita.
- Acha que devemos ir compadre Francisco?
- Eles parecem ser boa gente. Vamos lá.
E lá se foram os quatro. Entraram no Disco Voador. Seu Jacinto e Dona Rita foram apresentados e todos se dirigiram à cabina central.
- Seu Francisco, qual foi o resultado da poção que deram às plantas?
- Bom, as galinhas ficaram grandes, as flores e as verduras também, mas o que está assustando a gente são as galinhas!
- As galinhas?  Não fizemos a poção para as galinhas, Seu Francisco!
- Está bem, mas eu acho que elas se meteram onde não foram chamadas e beberam do líquido.
- A vitamina era para as plantas e o resultado delas, acrescido dos componentes vitamínicos e absorvidos por elas é que deveria ser dado aos animais – Disse o homenzinho do outro mundo, meio aborrecido.
- Mas o senhor disse que as flores e as plantas também cresceram? – Pergunta a criatura feminina do espaço.
- É verdade, dois dias depois de aguá-las – Responde Dona Aninha.
- Deixe-me analisar a poção que lhes dei.
- Aqui está – Entrega Dona Aninha.
Enquanto os compadres ficavam examinando o Disco Voador, as criaturas faziam análise da poção. Verificaram que houve uma grande falha por parte da mistura de elementos vitamínicos e se aborreceram.
- Nós queremos pedir desculpas pelos transtornos causados na sua Fazenda. Acabamos trocando a poção que deveria ser levada ao Planeta Ônix e por isso ela não combinou com o sistema hormonal e a cadeia alimentar dos animais e plantas daqui.
- Uai! E agora? – Retrucou Seu Francisco.
- Agora temos que reverter o quadro das aves gigantes porque as plantas não podem voltar ao seu tamanho normal. Felizmente o tempo de vida das plantas e flores é curto e elas desaparecerão.
- Aqui esta o líquido que fará suas aves voltarem ao normal. Bastam algumas gotas no bebedouro e pronto.
Depois de muitas explicações, os homens e mulheres saíram do Disco Voador e os estranhos partiram para sondar outros planetas.
Os compadres ficaram maravilhados de conhecer aquela máquina por dentro e admirados pelo avanço tecnológico da ciência que “tudo pode” ou “quase tudo”.
Colocaram as gotas no bebedouro das galinhas gigantes e foram dormir porque as plantas e as verduras iriam secar com o tempo e morrer.
E eram lindas enquanto vivas! Pena não terem ali, naquele momento a máquina fotográfica para registrar uma foto histórica.
Na manhã do segundo dia, as aves estavam no seu tamanho normal e foi grande a euforia entre os casais, mas no terceiro dia...

- Ah! As galinhas!
- Meu Deus, elas encolheram!
- As penosas ficaram nanicas!
- Ficaram do tamanho das galinhas garnisés!
- E agora, “Seu Júlio?”.
- Agora?
Bom...  Daqui para frente é uma outra estória a ser contada, porque, para Dona Aninha, Seu Francisco, Compadre Jacinto Pena e Comadre Rita, esta “estória” vai ficar pra sempre -  na “história” .

FIM
 










Júlio Sampietro
Enviado por Júlio Sampietro em 15/03/2006
Reeditado em 15/03/2006
Código do texto: T123776
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Sobre o autor
Júlio Sampietro
Curitiba - Paraná - Brasil, 73 anos
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Júlio Sampietro