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Clones - Parte 1

"Somos todos clones
Todos são um e um são todos."

Alice Cooper

 


Ruídos em um local de pouca iluminação.

Tiras de couro sendo puxadas; presilhas e fivelas de metal mordendo o couro, agarrando-o para não soltarem mais.

Dispositivos sendo acionados. Zíperes sendo puxados juntos. Botões de pressão estalando em um só clique ao serem apertados quase todos de uma vez.

Cordões são amarrados de modo idêntico por muitas mãos revestidas por luvas também idênticas, escuras, marcadas com linhas claras.

Elmos negros cobrem juntos um contingente inteiro de cabeças. Visores também negros são baixados, cobrindo trinta rostos de um só golpe.

Faz-se o silêncio.

Teclas de látex são pressionadas por dedos ágeis em uma seqüência complexa. Diferentes tipos de beeps soaram, à medida em que os botões eram pressionados.

Uma das lâmpadas fluorescentes do teto estava piscando.

O lugar estava abafado. Respirações compassadas podiam ser ouvidas, trinta fôlegos em um.

A série de tons digitais indicando a confirmação do código digitado se fez ouvir.

Textos rabiscaram em um verde fulgente a tela de cristal líquido.

Código confirmado.

Acesso garantido.

Portas fortemente vedadas abriram-se, empurradas para fora de encaixes e moldes perfeitos por golpes de ar comprimido que produziam sibilos estridentes.

Corpos se ergueram. Pernas fortes marcharam, e uma fila indiana de trinta silhuetas esguias se formou. Todos os vultos usavam uniformes de couro preto com finas linhas brancas, rigorosamente iguais tanto em combinação de cores quanto nas medidas.

Enfileirados, os trinta corpos lembravam bonecos recém saídos de uma linha de montagem. Bonecos de plástico, injetados. Mesma altura, mesmo formato, mesmo peso...

Meia volta volver!

Ordinário, marche!

Um a um, os integrantes do pelotão marcharam. Pernas fortes revestidas por botas cobertas de couro e metal pisaram o chão, ao mesmo tempo, em um mesmo ritmo. Direita e esquerda. Direita e esquerda.

A milícia aproximou-se do único de seus integrantes que se encontrava em posição diferente dos demais. Próximo da porta hermética que havia sido aberta, o trigésimo primeiro membro do pelotão usou de movimentos rápidos e repetidos para distribuir duas potentes armas de fogo, uma grande e outra pequena, e mais uma faca dotada de um ameaçador aspecto militar, aos demais, à medida que estes estacionavam, um após o outro, à sua frente, e a marcha era suspensa.

As armas estavam envolvidas por coldres feitos de um tipo de material plástico maleável, os quais iam sendo metodicamente aderidos por velcros estridentes a pontos estratégicos nos uniformes blindados de cada soldado. E cada soldado aderia os coldres de suas armas de igual maneira.

Ao terem recebido suas armas, um depois do outro, eles reiniciavam a marcha: o primeiro passo com o pé direito, a arma grande sendo pendurada à direita, logo abaixo da cintura; o segundo passo com o pé esquerdo, a arma pequena era grudada no quadril oposto; o terceiro passo, a perna direita sendo elevada mais alto do que o normal de modo a permitir que o coldre da faca fosse afixado na bota.

Todos os três movimentos dos trinta soldados foram idênticos quando estes receberam e posicionaram suas armas, e todos os três movimentos do trigésimo primeiro soldado também se repetiram, trinta vezes, sem falhas nem desvios, a cada conjunto de armas que este entregava aos companheiros.

A precisão das ações era surpreendente. Não havia nenhum equívoco, nenhum titubeio.

Era assim que devia ser.

Marchando, sempre em frente, os soldados chegaram ao final da sala comprida onde estavam. Atravessaram uma porta, onde um após o outro, viraram à esquerda e seguiram por um corredor de cerca de trinta metros. Outra dobra para à esquerda ao final deste revelou escadas, que a fileira de soldados desceu sem pestanejar, como uma centopéia humana, todos os pés pisando praticamente os mesmos pontos do chão.

Adentraram um amplo salão, e só então houve uma mudança na atitude do grupo. De súbito, a formação se desfez. Como formigas, os soldados sabiam de forma quase instintiva o que deviam fazer, e cada qual caminhou, ou correu para um ponto distinto, e houve até mesmo alguns deles que permaneceram parados, em posição de sentido.

Palavras-chave e coordenadas alfanuméricas reverberavam pelos alto-falantes dos comunicadores instalados dentro de seus capacetes. Ordens, em um linguajar muito técnico e específico.

Ordens que eram seguidas sem hesitação pelos super soldados.

Veículos negros, carros, motociclos e furgões, abandonavam espaçosos estacionamentos, e a fúria de vários motores rugiu pelas estradas, alguns indo em direção ao centro da cidade, outros dirigindo-se para os subúrbios.

Ordens em mente, o destacamento de policiais seguia implacável para cumpri-las.

Enquanto isso, outros vinte e oito soldados portando uniformes idênticos e apresentando idênticas fisionomias retornavam de suas missões. Aos poucos, eles foram se apresentando, e formando a tradicional fila indiana, que marchou escada acima rumo aos quartos de banho e dormitórios. Muitos dos uniformes estavam sujos, ou rasgados, e uns dois ou três buracos de bala podiam ser vistos de longe. Um dos policiais tinha seu capacete com o visor partido ao meio, mas ainda firme, afixado pelas presilhas laterais.

Era a troca de turnos.

Missões especiais, que não poderiam ser interrompidas, tinham sido atribuídas aos dois membros ausentes daquele pelotão de trinta.

Eles se apresentariam depois, quando do término de suas obrigações, quer isso acontecesse no dia seguinte, ou na semana seguinte.

Todos estes soldados eram especiais, e cumpririam suas missões mesmo que a ordem de retorno e a confirmação de "missão cumprida" levasse um ano inteiro para acontecer.

Ficariam sem comer, e sem respirar, se preciso fosse...

... mas cumpririam suas missões.

(continua...)
Fabian Balbinot
Enviado por Fabian Balbinot em 16/03/2006
Código do texto: T124150
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Sobre o autor
Fabian Balbinot
Caxias do Sul - Rio Grande do Sul - Brasil, 44 anos
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Fabian Balbinot