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A Última Noite da Terra (Primeira Versão, uma visão diferente do mesmo acontecimento)

Este conto é muito diferente do mesmo que possue o mesmo nome e que aqui publiquei. Ao passo que o anterior se centrava na visão de dois cosmonautas, e no que sentiam ao ver o seu planeta, a sua raça, a extinguir-se, este centra-se na visão de quem está no planeta. Em prosa esta foi a única vez que repeti um título, algo de arriscado, mas decidi assumir o risco dado o enorme potencial que julgo ter esse título. Espero não vos ter defraudado, boas leituras!


“Chovia, chovia apenas, no entanto as gotas de água intensa pareceram-me a morte, porque me souberam a morte, quando os lábios involuntariamente as beijavam”Na noite escura, além da luz ténue que se aproximava pela porta principal da terra,  os relâmpagos eram os únicos elementos que se atreviam a iluminá-la, pois nada nem ninguém ousava  penetrar na escuridão, de a ousar violar, de certa forma quebrar o “pacto de escuridão” e de silêncio que todos tinham estabelecido para as últimas horas. Apesar de tudo estar aparentemente na mesma, das necessidades físicas e espirituais serem as de sempre, uma espécie de hibernação invadira tudo e todos, quer fossemos nós, os elementos racionais, quer fosse a natureza, verdadeira e feliz ignorante sobre a sorte próxima. Mas até ela de certa forma parecia humedecida de toda a sua saudável espontaneidade; os pássaros encolhiam-se nos ninhos, os próprios predadores alados pareciam tocados por uma súbita falta de apetite, bem como as suas presas, dados todos primarem pela ausência. Até mesmo os insectos se mantinham escondidos, temendo qualquer praga vinda do escuro que os levasse à morte mal se atrevessem sair para o exterior, nada, nem mesmo o vento, porque com ele também viria o barulho deste ao lamber a natureza e as grandes cidades, nada apenas os relâmpagos e a chuva interminável  teimavam em quebrar esse luto antecipado.Fumou mais um cigarro, enquanto olhava para os vários écrans incrédulo. Olhou os soldados e cientistas nos olhos, mas este educadamente recusaram, preferindo perder o olhar, ou então também fixar os écrans. Tinham-lhe prometido que as coisas jamais chegariam a este ponto, que tudo estava controlado, que não havia lugar para preocupações, enfim, tinham-lhe jurado a salvação, mesmo antes desta palavra terminal ocupar a boca e os espíritos de todos. Marcou-se até a cerimónia em que se poria fim ao medo emergente, com as belas câmaras a filmar o homem mais importante do planeta a carregar num botão que destruiria o maior perigo para o planeta. A solução era de facto bonita e até engenhosa, mas nada mais do que isso...Os últimos recursos ocuparam então as mesas e os pensamentos da elite que tinha na mão o destino de biliões, mas à medida que tudo falhava o desespero consumiu as últimas esperanças. Sob um determinado ponto de vista ele até nem estava mal: protegido num bunker indestrutível, rodeados de confortos que durariam anos, esperava apenas que surgisse o momento, para depois a vida continuar, com o pormenor (in)significante desta palavra de quatro letras ser património de apenas um minoria risível da população.Pensou nos seus eleitores, e nos biliões que nele tinham confiado, e pensou também que naquele momento deveria ser o homem mais amaldiçoado do cosmos...Pensou no desespero sentido por toda aquela gente, e pensou que deveria parar de fumar, pois ao ritmo que o fazia as reservas de anos durariam meses...Tentou imaginar a dor e aquilo que ia na cabeça da humanidade; em vão, a tarefa vislumbrava-se tão Homérica como o de parar a ameaça literalmente pendente sobre as suas cabeças.Olhou mais uma vez o rosto daqueles que o rodeavam, e teve uma vontade súbita de os matar, pois com raiva contida considerava-os os responsáveis pela terrível situação, sendo o pior dos cenários o de ter de conviver com eles até ao fim imprevisível no subterrâneo. Depois recordou-se de ser também responsável, devido aos orçamentos irrisórios destinados aos programas espaciais que poderiam ter detectado a besta mais cedo, e assim se hipoteticamente se poder arranjar melhores soluções com mais tempo para a varrer dos tempos.Recordou-se ainda do dispendioso programa anti-missil que tornava o seu país imune aos inimigos terrestres, mas não ao extraterrestre. Biliões e biliões gastos para nada, um mimo de tecnologia que em breve não passariam de uma espécie de múmias robótica, depois de assistirem à passagem do pedacinho de cosmos que iria silenciar para sempre os seus criadores.Biliões para nada, quando poderiam ter significado tudo, se devidamente aplicados, mas, caramba! Quem poderia adivinhar?Podia e devia ele e os seus assessores, dado terem à sua disposição a nata de toda a ciência e dos meios de destruição, à distância de um telefonema, mas era tarde demais.Olhou os dígitos que marcavam o fim dos tempos, acendeu mais um cigarro, achou-se um miserável privilegiado, rogou aos deuses por perdão e ignorou as lágrimas de arrependimento que lhe corriam pelo rosto.O homem da ciência olhou desconsolado pela janela durante alguns segundos; depois voltou para a secretária, onde o lápis refez pela milésima vez os cálculos que sabia estarem demasiado certos. Procurou loucamente uma falha, um motivo que alterasse a sua razão, e que lhe devolvesse a esperança. Nunca em toda a sua vida falhara um cálculo, nem na altura da escola, onde os erros formavam os homens do futuro, por lhes indicarem serem falíveis, lhes indicarem a existência de outros caminhos. Mas ele nunca falhara, sendo por isso motivo de admiração, respeito, e sendo olhado como um exemplo ao qual todos recorriam quando a tecnologia provava estar errada. Nunca falhara e orgulhava-se obviamente disso, até àquela altura, em que a existência de um erro provava a existência de uma salvação que todos sabiam ser impossível.Os lápis consumiam-se quase á mesma velocidade desse último tempo, enquanto a ponta negra teimava em dar sempre os mesmos resultados. Ou talvez tudo e todo estivessem errados, fosse tudo uma suprema ilusão, sendo por isso que interrompia a ciência manual e se dirigia à janela, na esperança louca que a terrível luz que se aproximava se afastasse e provasse finalmente que ele estava errado.Mas tanto a luz como a matemática teimavam em concordar consigo.No templo escurecido, apenas uma luz ténue chocava com a enorme rosácea de vidro e entrava no interior da casa de Deus, dando-lhe uma triste mas bela semi-obscuridade.De pé, mãos atrás das costas e olhar suplicante, o sacerdote apelava vezes sem conta a Ele, suplicando-lhe não a habitual salvação espiritual dos seus, mas a física, porque naquele momento essa necessidade secundária sobrepunha-se à primeira.Numa qualquer outra ocasião de catástrofe, o templo estaria a abarrotar de gentes desesperadas que buscavam naquele homem o apoio intermediário da figura suprema, que bebiam nas suas palavras as do grande pai, mas agora, naquele último momento, todos se tinham refugiado em casa, ou entre os seus iguais a protecção e consolo para os últimos momentos. Não era uma questão de falta de fé repentina, era apenas a necessidade de se sentirem a si próprios, juntos de si próprios num momento que sabiam ser o último, pois nem o maior dos crentes acreditava numa salvação por todos dita e acreditada como impossível.Menos ele, que continuava a suspirar por um derradeiro milagre no qual a sua religião era fértil. Rogava aos céus o impossível, porque lhe tinham ensinado que dos céus poderia vir o impossível. A luz não natural era a prova perversa desse dito, da aproximação do inconcebível. Mas ele continuava a acreditar, Talvez num derradeiro momento aparecesse um exército de anjos que no último momento conseguissem fazer aquilo em que a ciência e os militares, apesar de todo o seu esplendor tinham fracassado: deter a fera rochosa que se aproximava inevitavelmente.Ou talvez...Aquele fosse o tão profetizado final dos tempos, e início de outros, mais gloriosos, que iriam lançar a humanidade numa nova e mais gloriosa era. Este pensamento tranquilizou-o, e lançou-o ainda mais nos caminhos espirituais, por onde tentou ver, muito para além do Armagedão presente.Ajoelhou-se, juntou as mãos em prece e desejou com toda a sua fé que, independentemente das próximas e dolorosas horas, o melhor pudesse aguardar a humanidade nesse futuro nebuloso.Entre o enorme e insustentável silêncio, só a voz sibilina do homem a rezar se ouvia.“Chovia, chovia apenas, no entanto as gotas de água intensa pareceram-me a morte, porque me souberam a morte, quando os lábios involuntariamente as beijavam”Pus a cabeça de fora, fechei os olhos e, enquanto a chuva me beijava involuntariamente os lábios, deixei-me molhar pela água fria. Apesar das pálpebras encerradas momentaneamente, a realidade da luz forte que anunciava a morte e as dos trovões fantasmagóricos devolvia-me essa realidade. Por isso associei a chuva à morte anunciada, por isso a chuva soube-me a fel. Olhaste-me com os olhos onde não morava o desespero, pois até ele nos tinha abandonado, mas falar de tristeza é demasiado pouco, porque nesses olhos habitava a realidade, muito mais tenebrosa do que qualquer sentimento ou palavras existentes. Neles não havia um apelo, no entanto não resisti em abraçar-te e afagar-te longamente, porque esse apelo estava em mim.Olhei-te mais uma vez, mas não encontrei os teus olhos, porque estes tinham mergulhado no meu peito à procura de um refúgio que ambos sabíamos fictício, dum refúgio físico, duma fortaleza, a mais poderosa já criada. Por absurdo que parecesse, a minha pele frágil e permeável dava-te a sensação procurada, talvez devido ao seu calor e às emoções que pulsavam no seu interior, onde se misturavam amor e o desejo de te dar um futuro que ambos sabíamos ser contado em horas e não em anos.Queria-te dizer tanta coisa que protelara por julgar ter tempo para to dizer, no tal futuro que nos tinha sido roubado; queria-te dizer de quantas formas e maneiras te amei e amava, mas não havia forma de to dizer, por ser tanta coisa, e ao mesmo tempo se resumir a tão pouco no que toca às palavras. Amo-te. Meu Deus! Só 5 letras num universo de milhões! Num universo que vinha a caminho de biliões de nós, o pior dos ladrões que a uma velocidade louca vinha ao nosso encontro para num impacto breve nos transformar em nada, sem nada que pudéssemos fazer contra o pior roubo da história, da nossa história, da história de todos os tempos, existentes e por existir.Nunca tinhas sido capaz de adivinhar o tamanho do meus sonhos, algo que sempre lamentei, e um dos únicos locais de mim onde não conseguias penetrar, mas agora sentia-me aliviado, pois essa incapacidade fazia-te também cega à dimensão dos meus pesadelos que estou a viver agora, apesar da tua doce e única presença.Aumentei a sensação de fortaleza, apertando-te com mais força, e perdendo a conta aos beijos, os últimos e mais importantes que te daria.Olhei pela janela e consegui ver a luz que antecedia a chegada do assassino global, chorando silenciosamente, de forma a que não te apercebesses que a fortaleza estava a abrir brechas.Os afectos foram-se perdendo naquele quarto à medida que as horas se esgotavam, à medida que o meu amor não parava de crescer.Era a nossa noite mais triste, a nossa última noite, a última noite da Terra.

Conto protegido pelos Direitos do Autor
Miguel Patrício Gomes
Enviado por Miguel Patrício Gomes em 17/03/2006
Reeditado em 14/09/2015
Código do texto: T124475
Classificação de conteúdo: seguro

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