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Estranhos no ninho

 

   Participante do Mapa Cultural Paulista (Fases: Municipal e Regional ), 2003,2004.
 
     Era início de tarde no vigésimo andar daquele edifício, os transeuntes na rua não reparam, nem os vizinhos dão a devida importância. Na varanda daquele apartamento, uma jovem socióloga contempla a sua filha Karina que brinca entre as cadeiras exposta naquele pequeno espaço, vedado por grades, na sua descoberta das coisas mundanas.

    Os olhos atentos da mãe tudo observa e a pequena, com seus quase dois anos, brinca. Nas tantas horas de ócio entre o amanhecer e o por do sol, revive coisas do passado, planeja o futuro.

    Seu marido é representante comercial autônomo. Criativo e dono de larga experiência, mesmo antes de se casarem ele já buscava novos campos de trabalho se enveredando pela periferia da capital. Com algumas economias disponíveis, adquiriu por financiamento aquele apartamento, no vigésimo andar daquele prédio num bairro de classe média. Depois de casados, ali se instalaram vivendo até o presente. Dessa relação veio Karina e Stefânia optou-se por ser dona de casa e cuidar da recém-nascida. Não era por desconfiança das babás. Ela conhece a pobreza e sabe que entre os humildes há muitas pessoas de caráter; mas, ser prenda do lar por uns tempos, foi uma determinação sua e isso estagnou a sua vida profissional.

    Com seus conhecimentos sobre a vida animal, arriscava algumas teses sobre comportamentos e se questionava se o fato das pessoas se enclausurarem em apartamentos não seria um dos motivos dos temores e violências. Desde os últimos anos na faculdade ela já defendia esse ponto de vista tendo um estudo detalhado sobre o assunto.

    Com o ar abafado do início de tarde, Karina mostrava sinais de sono. Com carinho a toma nos braços e, cantarolando canções de ninar, faz com que ela adormeça. Os ruídos vindo dos vizinhos são poucos e a solidão toma conta daquela jovem com seus vinte e poucos anos. Viver trancafiada naquele apartamento - ou seria confinamento?- faz com que os indivíduos, mesmo os mais próximos, se tornem distantes. A proximidade excessiva deixa as pessoas vulneráveis e as particularidades, comuns na vida de cada um, nem sempre é respeitada. A prática mostra que para uma boa convivência é necessário que a amizade seja um tanto informal, o que evita excesso de intimidade e resguarda os seus segredos... Segredos. Essa palavra a faz lembrar do passado, um torpor lhe cora a face e ela se levanta e  caminha pelo terraço. Não lhe foge da mente os anos assombrosos dos tempos da faculdade.

    Tudo começou com a sua aprovação no vestibular. Residindo no interior e cheia de sonhos, durante a adolescência fez economias e o desejo de ingressar

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 numa grande Universidade era tentador. Assim, não medindo esforço e com muito estudo, pode festejar ao ver seu nome na lista de aprovados e participar de pequenos e inocentes trotes com os colegas. Quando a festa acabou restou a dura realidade. Para sobreviver alimentando aquele sonho foi necessário conhecer o céu e o inferno ao mesmo tempo. Se foi difícil ser a provada, se manter nos anos seguintes, estudando, seria outra grande prova. Sendo jovem e sem experiência, mas cheia de disposição, iniciou o ano letivo enquanto fazia pequenos trabalhos ora aqui, ora ali na esperança de um emprego melhor.

    Tornando-se conhecida não demorou surgir convites para freqüentar a noite, os desfiles, os shows noturnos. Nessas andanças, ocorreu-lhe a idéia de tentar a sorte naquele ramo. Montada em cento e setenta e cinco centímetros e bem distribuídos, fez o cabelo, a maquilagem e visitou todas as agências de modelos deixando em cada uma um “book” e permaneceu fiel aos estudos. Os dias foram passando, as economias minguando e as dificuldades chegaram. Das agências, pouco se tinha notícias. As mais conceituadas nunca lhe procuraram, só as menos expressivas que vez por outra lhe mandava um fax. Locada nas proximidades da faculdade, caiu em pesadelo. Na primeira visita a sua família, deu-lhes esperanças, as mesmas que ela já não tinha.

    Em meio à desilusão da cidade grande, às vezes lembrava de Felipe, seu namorado e velho amigo que sempre a recebia com festa; isso, quando não a surpreendia visitando a república de forma inusitada. No geral, acreditavam que ela estava bem, mas os sinais de gastrites e de insônia já se manifestavam. Não tendo mais dinheiro, a partir do segundo ou terceiro mês, teria que trancar a matrícula e voltar pra casa.

    No convívio social conheceu jovens que trabalhavam como acompanhantes. Por não ser  preconceituosa, convivia pacificamente com todas, mas desabonava suas condutas. Elas, no entanto, bancavam as mensalidades estudantis e ainda viajavam sem o menor pudor. Vendo o que ocorria, num momento de fraqueza, foi até um orelhão e telefonou a um dos seus contatos indagando sobre um dos convites que recebera. A resposta foi insuficiente o que a levou á agência. Lá, soube das condições gerais da proposta.Seu trabalho seria acompanhar pessoas que se diziam interessadas na sua aparência. Eram homens, mulheres ou mesmo casais que buscavam por parceiras para “complementarem”  seus momentos de prazer. Soube, também, que era um trabalho sem garantias, mas que podia escolher as propostas e, até mesmo, fazer exigências, visto que era desejada para tal. Ainda mais, com dois ou, no máximo, quatro programas por mês já poderiam custear as despesas com os estudos e nada a impediria de se manter em seus trabalhos esporádicos. Seu maior problema seria a virgindade, mas isso
                                 
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  não a incomodava. Numa tarde ensolarada, na adolescência, numa cachoeira a céu aberto, junto com Felipe dedicaram a explorar os chamados “prazeres adultos”. Começaram com um banho nas águas geladas e acabaram por se deixar levar. Foi algo inusitado e, antes que tomassem conta do faziam, ambos haviam se deflorados e, mesmo entre as folhas e areia, um local nada confortável, mesclando medo, ansiedade, curiosidade; na medida que se entregavam, foram conhecendo um prazer infinito que se renovava a cada olhar. Iniciaram, ali, uma relação baseada no sexo, mas que se arrastava até aquela data.

    Visto que não dispunha dessa barreira, não ignorando a aids que assolava o mundo, mas sabendo dos métodos para evitá-la, tomou coragem e aceitou o primeiro convite. Muitos outros vieram e a jovem Stefânia, ao final do curso, tornou-se Doutora Stefânia, socióloga credenciada por uma importante faculdade de seu estado.

    Seu romance com Felipe continuou sem que ele nada soubesse. Acabaram por ficarem noivos, casarem e, desde então, ela luta para subjugar o passado.

   Seu marido, cada vez menos presente e se lamentando a quebra nas vendas, lhe apresenta poucos rendimentos. Ela, nem tanto preocupada com esses detalhes, ocupava mais com seus próprios remorsos. O apartamento era o abrigo e seus temores a fazia se sentir só mesmo rodeada de vizinhos. Embora seu passado a fizesse calar, mas a faculdade também lhe ensinou sobre números, os comportamentos animais e humanos e, principalmente, daqueles que eram capazes de teatralizar em todas as circunstâncias. Inquieta, leva Karina para a rede e vendo que seus lábios entreabertos enquanto dorme, espera.

 Felipe passeia pela praça com Eleonora. É uma relação conflitante. Ela exige que ele a abrace e a beije em todos os lugares. Tem um apartamento quitado em seu nome e quer administrar a sua conta bancaria.

    O segredo dessa conturbada relação vem da cidade de ambos. A própria vinda para a cidade grande atendia a necessidade para ocultarem esse romance. Um fato trágico que iniciou na infância.Desde que Stefânia se mudou para a capital, Eleonora e Felipe nunca mais se largaram. O que os mantinha unidos era um sentimento que aparentava ser natural, mas se tornou obsessivo, intolerável e poderia, a qualquer momento, assumir uma postura impensada. O lado doloroso da questão veio a tona quando ela descobriu que não podia engravidar. O que seria algo bom para Felipe, o próprio não imaginava era o descontrole que o caso tomaria nos últimos anos. Hoje,Eleonora, obcecada por ter sido a segunda desde a adolescência, exige seus direitos.

Mais alguns meses se sucederam. Karina, além de ativa, goza de boa saúde.

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      No fechamento das contas do mês, o extrato bancário sobre a mesa tinha vários cortes. Nele não constava mais despesa com a TV a cabo, ginástica, cartão de crédito e o seguro contra incêndio. Só restou naquela agenda, circundado com tinta, a despesa com o plano de saúde que seria descartado no próximo mês. As poucas notas fiscais armazenadas mostravam logotipo de pequenas lojas, o Shopping Center virou programa de luxo. A página seguinte mostrava vários endereços de hospitais e clínicas administradas pelo poder público. Com olhar distante ajeita tudo na gaveta e fica, por instante, pensativa. Nos próximos dias ela irá visitar todos aqueles nosocômios. A partir daquela hora, a bem estar de sua família vai depender deles.

Sangue suga. Stefânia repetia carinhosamente, para Karina, essa expressão. Já era início de tarde e, apesar da menina ter quase dois anos, ainda, vez por outra, a amamentava em seu seio. Até o hábito de adormecer enquanto mamava, ela mantinha. Mas quando isso acontecia, bastava um leve toque na fronte e os olhinhos se abriam e ela retomava o ato. Sentada junto ao computador, ela fazia suas anotações enquanto Karina se entretinha. Era uma das poucas oportunidades porque a menina não dava sossego. Bastava um descuido e ela mexia com o teclado, com o mouse, choramingava ou gritava tirando, assim, toda a sua concentração. Nesse ínterim, chega Felipe.  Portando o já tradicional ar de abatido, as beija tentando fazer um gracejo com as duas.

     Aproveitando para tomar um banho, deixando a filha com pai, Stefânia sai. Eles brincam no escritório enquanto a água morna envolve seu corpo, naquele momento único em que ela se ausenta dos compromissos e se concentra em si mesma. Fim do banho. De roupão ela adentra ao escritório e Felipe se mostra amistoso. Fingindo não entender, ela nota que a proteção de tela, programada para cinco minutos, ainda não entrou o que mostra que o marido, em sua ausência, tentou ver seus arquivos. Seu raciocínio, agindo rápido, não deixa que ele nada perceba e, retomando Karina, deixe-o livre para o banho. Só quando a água jorra abundante no box é que a tela do computador se alterou. Sob o chuveiro, ele tem a certeza de que sua esposa, definitivamente, lhe oculta algo protegendo com senha os seus ensaios.

 
No dia seguinte, assim que anotou a relação de itens solicitada pelo cliente, Felipe aproveitou para tomar um café naquela lanchonete. A conturbada relação com Eleonora e os maus tratos que vem dispensando a Stefânia se atenuam quando ele está envolto pelo trabalho. Naquele momento ele aproveita e procura entre as pessoas que circulam, uma jovem senhora, possivelmente,

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 com uma menina nos braços lhe ensinando tudo o que ela quer saber. Elas não aparecem. Tudo se resume à velha rotina. Os eternos estranhos do dia-a-dia continuam a ocupar as calçadas e a desafiar o trânsito lento que insiste em atravessar por aquela multidão sempre apressada.

    Aquela manhã de setembro era igual a todas as outras. O odor da poluição vai se dissipando e mostrando aquele emaranhado de arranha-céus que inunda todo o vale. O sol, essa dádiva natural brilhava de forma esplendorosa, algo que a rotina ignorava. De repente, algo mudou. Nas vitrines das lojas de eletrodomésticos, as pessoas se aglomeravam. O mesmo acontecia com os estabelecimentos menores, assim como os rádios. Todas as emissoras - em cadeia nacional - alardeavam para aquele fatídico acidente em que um avião se chocava com uma das torres do maior símbolo do capitalismo mundial, o W.T.C. Incrédulos, todos vêm e revêem as imagens enquanto um novo projétil, vindo do nada, atinge violentamente o segundo prédio. O espanto foi ainda maior. Ficou provado que tudo aquilo não era um mero acontecimento.Foi um atentado. Pela primeira vez ele sentiu medo e ligou para Stefânia. Pelo celular ela respondeu que não estava em casa. Encontrava-se, há mais de uma hora, num saguão de um hospital de periferia aguardando a vez de ser atendida. Era um exame de rotina, mas, para tal, foram necessários vários dias de espera. Em alguns casos levava, até mesmo, meses. Do que estava acontecendo ela nada sabia, mas ia permanecer ali aguardando sua vez. Temendo pelo bem estar da mulher, Felipe anotou o endereço e partiu em sua direção. Mais tarde, já no apartamento, soube de que se tratava de quatro aviões que foram seqüestrados sendo: dois deles atirados contra as Torres, um atirado contra o Pentágono e o outro havia caído nos arredores da Pensilvânia. Atento aos detalhes jornalísticos sobre o acontecimento, amargurava o seu fracasso. O que ele sentia pela mulher era algo estranho. Com todo aquele transtorno mundial, ela se mantinha misteriosamente calma, mas, no fundo ele sabia: seu mundo também estava ruindo. Aquele abuso cometido contra a humanidade mostrava que, para alguns radicais, a vida não vale nada.

    Era a primeira tarde em que passavam juntos num dia de semana e, mesmo depois de vários anos, Stefânia comportava-se como uma estranha. No decorrer das horas ele pode observar o porque das manchas bronzeadas no colo, nos braços e nas pernas. Ela tinha que caminhar por horas a fio pelo sol abrasador na luta para manter a sua saúde e de Karina. Acabou por compreender o motivo daqueles modelos extravagantes de peças em seu guarda-roupa, ou das bijuterias em suas gavetas. Esses produtos eram comercializados por camelôs, nas calçadas, e sua esposa se tornara uma de suas freguesas. Da mesma forma, uma negra que atendia pelo nome de Zuca cuidava e se mostrava íntima de sua filha.

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 A corrida até aquele hospital periférico mostrou o mundo pobre em que sua família estava se envolvendo. Era inadmissível imaginar Karina crescer entre negros, drogados, prostitutas e traficantes. As palavras atenciosas de Stefânia não surtiam efeito. Ela pensava que era a tragédia Americana que o atormentava, mas, o que lhe entristecia de fato, não era só as dificuldades que o mundo iria enfrentar depois daquela atrocidade sem perdão, mas, também, da miséria que ele estava se metendo em função de sua incompetência. Era o mesmo motivo que estava fazendo emergir a imagem da socióloga. O convívio com os miseráveis despertou seu lado profissional e ela se engajou.  Todo o prazer extravagante que Eleonora lhe proporciona tem um objetivo: roubar os seus pertences; mas é com a esposa que ele divide o fel, a dor e a insegurança. Corroído pelos temores, notou que seu celular começou a chamar. Durante toda à tarde ele não fez outra coisa a não ser dar explicações e anotar os pedidos cancelados dos grandes clientes que trabalhavam com importados e, ali, junto daqueles que ele mais amava, via seu mundo desabar. Desligou o telefone. Era menos triste ignorar a realidade. Nas horas seguintes, andando de um lado para o outro, provou de guloseimas exóticas feitas pela mulher. Com o cancelamento da assinatura da TV a cabo, ela se entretinha com esses programas que ensinam culinária e não foi difícil constatar de a socióloga Stefânia havia se tornada doutora também na cozinha. Felipe, abatido com os acontecimentos, pegou Karina nos braços e foi para a cama. Sua mulher, sempre que estava carente, dormia abraçada com a filha. Funcionou. Logo eles ressonavam calmamente.      Quando acordou, pelo tom ameno do barulho oriundo das ruas, notava que já era madrugada. Depois de atormentada tarde e da noite de insônia, Felipe desperta. Instintivamente vai até o celular e aciona a sua memória. Os chamados nele registrados são, na maioria, clientes pedindo tempo para os pedidos e os demais, de Eleonora.Sai imediatamente e sem ruído.

    Duas horas da tarde, um carro esportivo aguarda no acostamento esperando o momento de entrar na auto-estrada para seguir em direção à cidade grande. Em meio a tanto movimento, ninguém se interessa por aquele casal que acaba de deixar o motel. Era um desses estabelecimentos que oferecem almoço executivo num ambiente discreto onde os amantes se encontram com total privacidade. Ganham a rodovia. Felipe ao volante, dirige dividindo a larga pista com automotores e populares. Ao seu lado, Eleonora, sua amante que se mantêm calada oculta pelas lentes do raibam solar. Eles tinham discutido sobre suas exigências. Seu maior desejo: trocar de carro. O fato de ver que seu modelo atual perdia valor dia-a-dia a incomodava. Tinha tudo o que pedia, mas, naquela hora, Felipe estava impassível. Envolto em seu silêncio ele se condenava. Não

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 conseguia compreender suas próprias atitudes. Amargava-lhe o fato de se ver gastando com luxúria em seus encontros, desperdiçando os benefícios que seriam de sua filha e daquela que o aguardava, todos os dias, com uma calma assustadora. Atemorizado pelo presente confuso em que vivia, ele estava preparado para se calar mediante a qualquer exigência, mas sua esposa nada pedia.

   Numa esquina desceu Eleonora, nervosa. Na inquietação do seu vai-e-vem, ele sabia que a socióloga existente por trás de sua mulher, há anos já se manifestava. No fim da guerra étnica da Yugoslávia, ele viu anotações em seu

escritório com teses sobre a restauração psicológica daquele povo. O mesmo havia ocorrido com o Timor Leste; isso, sem falar nas páginas e mais páginas com tratados para com o povo Africano. Outras tantas laudas foram escritas sobre os últimos acontecimentos do Oriente Médio; seus Tratados abordavam a influência do Islã, de seus líderes radicais, das riquezas naturais daquela região e do interesse das grandes potências sobre elas. Era como um vulcão prestes a expelir as suas lavas e a idéia de ver sua mulher disputando o mercado de trabalho, nesse mundo carnal da cidade, o atormentava; mas como impedi-la se ele não tinha autoridade para tal?...Nesse devaneio, chega a mais um dos seus contatos e se distrai momentaneamente.

    Os dias iam passando. Não tardou e um jornal diário falava de um  Simpósio que seria realizado na capital. A Onu, diante do desgaste das negociações com o Iraque, decidiu discutir com todos os continentes as novas tendências do comportamento mundial. O tema era vida e todas as suas facetas. O Homem e seu Meio, título um tanto inexpressível, mas que abordaria o efeito da pobreza, religião e a má distribuição de renda, saúde e educação. Vários especialistas estavam inscritos. Nomes da Europa; dois deles, da Inglaterra; alguns da América do Norte e vários sul-americanos. Entre os latinos, o grupo tinha como destaque a jovem doutora Stefânia, socióloga e líder comunitária. Na foto que estampava a matéria, uma jovem senhora bronzeada, tendo ao fundo imensos vilarejos de alvenaria e sem acabamento. Instintivamente, Felipe foi até a esposa e, demonstrando alegria pela conquista, lhe desejou sorte. De novo envolvido pelo silêncio, se fez calado. Não havia como deter o avanço social de sua mulher. Inexplicavelmente, para ele, aquela figura pacata falava a língua do povo.

    O plano era perfeito. Decidido não viajar para a Capital Federal em seu primeiro evento como socióloga, pretendia buscar uma solução para o seu caso com a esposa.Fingido ter perdido a hora do vôo, ele passaria no saguão do aeroporto. Para tal era necessário que ele visitasse alguns pontos e os descreveria, mais tarde, para ela.
                 
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 De muda de roupa nova e ao lado de Eleonora, deixou várias promissórias assinadas na revendedora de veículos enquanto ela, toda orgulhosa, pilotava seu modelo popular alemão. Após muita discussão, chegava ao fim aquele martírio. De posse de um carro novo, selava-se ali aquele passado conturbado. Era preciso um tempo para por a casa em ordem.

    Sozinho e mostrando-se simpático, Felipe passeava pelo saguão do aeroporto. Um bom lugar para marcar presença era a sala vip. Sem cerimônia para lá se dirigiu e, para a sua surpresa, Stefânia e um grupo de personagens bem trajados, aguardavam. Um atraso no vôo e a viagem que os participantes do Simpósio obre a evolução humana foi retardado. O plano gorou. Ele não esperava tão desagradável surpresa. Vendo o marido ela se emocionou. Foi até ele se perguntando o porquê de sua visita inesperada. Confuso e ciente de que Eleonora se encontrava nas proximidades, disse-lhe de seu desejo de acompanhá-la em sua viagem. Uma nova surpresa. Além de Stefânia, ele também fora contabilizado e, além de sua vaga, havia as reservas para a babá e Karina. Por se tratar de uma viagem rápida, ambas concordaram que Zuca ficaria em sua casa cuidando da menina. Assim, Felipe não pode sustentar a sua farsa e teve que concordar com a decisão. Bastou um telefonema e tudo havia sido ajeitado. Dirigindo-se ao avião de forma inusitada, ele tentava imaginar o que estaria passando na cabeça de Eleonora.

    Aguardando no estacionamento ela estaria contando os minutos para o seu retorno. Mais tarde ele lhe telefonaria.

    Já acomodados viram quando o aeroporto começava a ficar para trás. Taxiando o aparelho foi ganhando altura deixando sua amante, sua filha e toda uma cidade que nos últimos meses tinha sido cúmplice de seus fracassos. Dava para imaginar a babá Zuca, como uma deusa negra de cabelos rastafari, mostrando para Karina – hábito que ela herdou de Stefânia - o avião que se tornava pequeno e ia sumindo na poluição que envolvia a urbe. Há quase dois anos que ele não viajava mais de avião. Após o dia onze de setembro de 2001, com a queda brutal de suas vendas e as despesas com a concubina o afastaram desse conforto. A presença dos prédios ainda lhe faz reviver as imagens do World Trade Center em chamas e se tornando em migalha. Isso, no entanto, era passado. Sua guerra atual era admitir o seu erro e abordar o assunto com Stefânia. Ela, sendo obrigada a conviver com as dificuldades, transformou a dura realidade em um mundo de sucesso. Provida de extrema singeleza, aquela personalidade o encarava com piedade.

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 Certamente já sabia de tudo e o acolhia como um ato de misericórdia. O que ela não imaginava era o plano que Eleonora estava prestes a por em prática: forjar-lhe um fragrante de adultério e tirar-lhe a posse de Karina para que, junto com Felipe, pudesse levar uma vida em harmonia.

    Uma das aeromoças distribuiu um envelope que continha uma calorosa saudação dos organizadores e detalhes do evento. De forma simpática Stefânia abriu o envelope, assimilou a mensagem e se viu tomada por momentos de pleno vazio emocional. Um dos assinantes daquele comunicado ela conhecia. Aquele assistente, membro do governo, já fez parte de sua vida e o que eles juntos viveram não será tão facilmente esquecido. Era onipresente os grunhidos daquele velho com seu hálito embriagado a lhe proferir palavras desconexas em sua busca por detalhes de seu corpo que nem mesmo seu grande amor não tinha ousado.A sua tentativa de repeli-lo era contida pela visão das notas verdes que se espalhavam pela cama redonda do motel. Tudo, porém, faz parte de um passado que a beca negra escolhida pelos formandos de sua turma, como em luto, selava; mas as recordações, embora estando ela com outra fisionomia, a incomodava. Movida de um impulso abraça Felipe. Em silêncio eles se mantêm ouvindo outros debatedores em suas conversas amigáveis. Enquanto ele deixa momentaneamente o seu inferno, ela segue ao encontro dos demônios que a vida lhe deu.A realidade está os pondo em choque. Talvez, após o Simpósio, longe de casa e dos amigos, seja o momento que eles esperam.Embora ainda jovens eles sabem que não podem mais se conter. Ambos vêm sofrendo com seus segredos. Está chegando o momento em que eles terão que conversar.

Fim.2003.

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Ciro do Valle
Enviado por Ciro do Valle em 29/03/2006
Reeditado em 09/11/2009
Código do texto: T130647
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Sobre o autor
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