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REVOLTA NUM PLANETA MENOR (Primeira parte)

A todos aqueles e aquelas que lutam por um mundo livre, um mundo melhor


                     PREAMBULO


Era um planeta estranho.
Esquecido de tudo e de todos, a sua forma de vida era a guerra, e era para a guerra que tudo e todos viviam e morriam.
Todas as profissões eram para ela direccionadas, qualquer profissional que não fosse um guerreiro, ou tivesse uma ocupação que desse algum contributo às inúmeras batalhas, era condicionado para elas. A economia de guerra constituía um padrão a ser seguido por tudo e por todos, numa espécie de obsessão pela morte global, sendo a paz uma palavra estranha, a ser utilizada quase só estilisticamente ou como metáfora, dado ninguém de facto saber o que ela realmente representava, pois, e até onde ia a sua memória colectiva, tinham vivido em guerra perpétua.
E o mais estranho era não haver crianças neste astro.
Não havia, e ninguém parecia reparar nisso, tão envolvidos que estavam na lógica guerreira. Claro que alguns sentiam a falta delas, sentiam a falta do seu afecto, de dar e transmitir essa forma de afecto tão própria das relações humanas, mas este sentir era secundário, quase inútil ali, e por isso não valorizado,  pois  eles não eram humanos como estamos habituados a conhecer, eram guerreiros, e por isso as crianças não passavam de um eco esquecido nas suas mentes e corpos embrutecidos pela cadência quase interminável dos combates.
A guerra era o seu princípio, meio e fim.
A guerra era o seu passado, presente e futuro, sendo que nada mais existia, nada mais importava.



“Aquilo que fizermos na vida
Ecoará para eternidade”



Em 1933 Adolfo Hitler tomou o poder de uma forma perfeitamente democrática, estabelecendo num par de anos o mais temível de todos os regimes humanos, através de uma repressão política e racial sem igual na história.
Diz-se que a história se repete, mas nunca de uma forma igual, pelo que os novos campos de concentração não serão tão visíveis, serão igualmente hediondos, quase igualmente repressivos, mas de uma forma mais acética, mas de uma forma quase subliminar, e por isso mais sub-humana do que tudo o que foi inventado até ai.
Novos tempos virão, novas formas de terror surgirão, pois o mesmo espírito que gerou obras de arte sublimes também é capaz de gerar e recriar infinitamente o mais puro dos horrores



A democracia nunca morreu, adormecendo apenas em determinados momentos, para depois ressuscitar em força quando as consciências estivessem suficientemente amadurecidas para lidarem com ela sem a anarquizarem.
Sistema político que se afoga nas suas próprias contradições, ela é o símbolo da consciência humana que, como ela se quer livre e independente.
Todavia, houve uma altura em que ela morreu, por se desadequar aos novos tempos, por dar azo a uma liberdade de consciências incómoda.
Durante séculos um novo Sistema imperou, auto-intitulando-se perfeito, e pretendendo ser uma forma evoluída de democracia, usando os seus princípios, mas apenas de forma a se disfarçar a si própria, a dar novos nomes aquilo que poderemos chamar autocracia. Mantinha-se o sistema eleitoral embora só houvesse um partido, e as oposições não passassem de pessoas dentro desse Sistema, cujo papel era semelhante ao de um cosmético: disfarçava-se o rosto, mas apenas ocultando a sua fealdade. Este Sistema teve, a determinada altura, a tentação de se perpetuar, lançando mão a um conjunto de meios repressivos sem igual na história humana, independentemente das consequências que tal acarretaria. Apesar da repressão, o grupo típico de insatisfeitos fazia ouvir a sua voz, rapidamente e misteriosamente silenciada.
Até que, por um mero acidente, algo aconteceu,
Esta é a história do ressuscitar da democracia, a história da última revolução, que decorre num planeta esquecido, esta é a história da

                REVOLTA NUM PLANETA MENOR

“A guerra é o mais importante aspecto da sobrevivência de uma nação. É o caminho da existência e da não existência”

Uma paz prematura desemboca inevitavelmente numa guerra imprevisível, curta, de intensidade máxima e consequências imprevisíveis
Um homem pode mudar o destino
-Acabou a época dos conflitos cirúrgicos -


                           I
                       PRINCIPIO


                           1


Olhou tensamente para o céu, virou as costas e concentrou o seu olhar na secretária, onde o relógio lhe indicava faltarem dois turnos para ser substituído, marca irrelevante, porque acabava sempre por fazer o dobro ou o triplo do tempo.
Pensou na família, na mulher, filhos e netos que não via há muito, mas cuja próxima visita estava por meses que sabia nunca irem chegar, pois a sua vida era aquela Estação, e nada mais existia. Não que não gostasse deles, mas pela simples razão de que o motivo que ali o levara o impelia a evitar os seus. Tentando preservá-los, nunca tivera a coragem de lhes contar, inventando motivos oficiais, e comissões de serviço falsas, embora fosse de desconfiar: com uma folha de serviços impoluta, estaria destinado a trabalhar na metrópole, com todas as regalias a isso inerente, e não ali, naquele recanto obscuro da fronteira.
Mas houve uma altura na sua vida que quis mudar, desiludido, era lugar comum, mas fora isso que acontecera, obrigando-o a fechar-se sobre si mesmo, evitando o destino de outros que, como ele, também se tinham desiludido, mas que ao contrário dele não tinham mantido a boca fechada. No entanto o seu silêncio revoltoso fora notada, e a colocação para aquele posto fora além de um voto de confiança ameaçadora, também fora um aviso de que o seu destino poderia estar bem próximo se não tivesse cuidado…Por obra e graça do seu cargo hierárquico, a distância entre si os subordinados era imensa, pelo que, em silêncio viveria os seus dias, e desejando que tudo acabasse brevemente, alimentando no entanto uma sede de vingança, de justiça, que sabia ir chegar, para a qual estava preparado, pois ele tinha um plano que iria iludir a poderosa máquina do Sistema.
Já pouco o interessava, embora fosse o gestor do mais precioso dos bens - De inúmeras vidas, e era por elas e para salvar a sua alma podre que tudo iria mudar.
Sim, sem dúvida iria adiar por mais algum tempo a visita às únicas pessoas que amava, por vontade, mas também por motivos oficiais -Além de ir receber aquele que seria o seu braço direito, e ao qual seria necessário explicar quase tudo devido ao secretismo da missão e dos seus cargos, a última temporada de combates tinha sido de tal ordem violenta que novas levas de combatentes do exterior eram necessárias, a quem era preciso operar, equipar e depois enviar para milhares de quilómetros em direcção ao planeta que geria.



                           2


O comboio balouçava docemente, desacelerando e adornando de forma suave nas curvas, para depois voltar à velocidade normal quando resgatava as rectas perdidas. No entanto a velocidade não era demasiado grande devido ao peso invulgar das composições.
No seu interior homens de camuflado sentavam-se como podiam nas inúmeras caixas de munições, amontoadas à pressa e um tanto ou quanto inconscientemente nas composições de passageiros, fretadas à pressa para o serviço militar devido aos últimos e dramáticos acontecimentos.
Todavia no interior das carruagens a atmosfera carregada da guerra parecia ausente, devido à forma descontraída da maior parte dos seus ocupantes, veteranos na sua maioria, habituados a urgências como aquelas, e por isso insensíveis ao frémito da nação envolvida pelo pânico. Encolhido como podia a um canto estava uma excepção a esta regra. Chamava-se Pedro, e este era o seu primeiro combate.
Pedro estava abalado, confuso, mas estranhamente não sentia medo, apesar de ir debutar na arte da guerra. Aliás, sentia-se entranho, dividido, pois apesar de tudo ser novo, sentia-se de facto profundamente dividido -Por um lado as suas memórias indicavam-lhe que aquele era o seu mundo, que saíra apenas de uma cidade, onde sempre vivera e onde tinha uma tarefa de retaguarda no apoio aos combates para os combates reais, devido a uma temporária falta de soldados – a obrigar o recrutar de pessoal menor -; por outro, uma memória mais profunda fazia-o tremer: lembrava-se de ter sido piloto especial de combate (que tanto lutava aos comandos de um avançado caça-nave bombardeiro, como lutava como um vulgar soldado, quando tal fosse necessário e de modo a prepará-lo para o caso de ser abatido) quando caiu na parvoíce de ter manifestado uma opinião politicamente incorrecta contra o Sistema e de logo de seguida ter sido preso, separado para sempre da sua mulher e filhos, e de ter sido enviado para uma instalação militar secreta onde lhe fizeram uma estranha operação, e de logo de seguida estar a viajar numa nave, juntamente com outras centenas de homens e mulheres; viagem longa, a durar vários dias, até que chegaram a uma lua, onde lhes deram equipamentos militares que ele achou antiquados e também novas memórias, para logo depois terem sido enviados para este planeta. As suas memórias novas, eram as actuais, as memórias que lhe indicavam ter vivido sempre ali, mas ele sabia que isso era uma mentira! Ele não era um mero soldado raso, ele também era um piloto-oficial condecorado! Dividido, ainda abordara indirectamente o tema com um camarada recente, mas como o outro lhe desfiou que de facto aquela era a sua vida e nunca tivera outra, Pedro resignou-se pela sua diferença e decidiu mantê-la secreta pois algo em si lhe dizia que se estaria a pôr em sérios sarilhos se abrisse a boca.
Mais algumas horas de viagem e eis que o comboio parou, surgindo num repente oficiais que berraram para todos saírem o mais depressa possível. Depois, alinhados em formação, informaram-nos que o seu objectivo era a tomada de 3 ninhos de metralhadoras que dominavam uma colina; por detrás delas estava uma vila de interesse estratégico considerável, dado ser atravessada por uma estrada que acabava no maior e mais desejado dos objectivos daquela campanha: a principal cidade fronteiriça dos Países do Sul. O inimigo, segundo o que lhes contaram, planeava atacar brevemente, sendo os 3 ninhos o seu posto avançado, a sua linha de ataque que, se destruídas, abortariam o ataque.
Pedro ouviu com atenção, e com maior atenção ainda seguiu um jovem Tenente que se dirigiu ao primeiro ninho com um pelotão. Mas…Pedro sentiu que estava num mundo de loucos, pois os trinta homens seguiram a correr lado a lado, sem sequer se desviarem das balas, sem correr aos “esses” como ele lhe tinham ensinado de maneira a se desviarem do perigo ou se atirarem para o chão, de encontro a qualquer protecção de terreno! Mas esse conhecimento devia ser das outras memórias, pois ali os seus camaradas agiam como zombies! Eles corriam sem parar, apesar de caírem mortos ou feridos a uma cadência assustadora! Decidido a salvar a pele e a cumprir as ordens, agiu como sabia – correu aos “zig-zags”, atirou-se para o chão quando sentia as balas perto, e flanqueou a posição inimiga que ignorou o seu movimento. Depois rastejou até bem perto do ninho e saltou para dentro dele, matando um dos serventes da peça e prendendo os outros dois que pareceram estupefactos com o seu movimento. Quando alguns camaradas chegaram perto de si, ele continuou, e aplicou a mesma táctica aos dois ninhos restantes que caíram com a mesma facilidade do primeiro. Pedro estava exausto, mas também estupefacto – tivera tal atitude porque fora assim treinado, para poupar a conduta suicida dos camaradas, e porque achou tudo demasiado fácil. Não era um herói, não se lembrara de o ser, apesar de se recordar ter sido várias vezes condecorado nas memórias anteriores. Era apenas alguém que se limitou a fazer o que lhe tinham ensinado, apenas isso. Mas de repente encontrou-se rodeado pelos homens de vários pelotões que depois de se interrogarem sobre quem seria aquele estranho combatente, berraram o seu nome, espantados com o seu feito de armas.



                            3


-Meu Marechal, algo de muito espantoso se passou perto da fronteira sul!
-Sim, eu sei, um soldado sem preparação tomou alguns ninhos de metralhadoras sozinho!
-Isso foi há 15 dias! Hoje ele…e apenas alguns camaradas capturaram a vila!
-A vila que já nos matou uma data de gente?! Como é que conseguiu?
-Parece que ao invés de se dirigir em ataque frontal como é hábito, ele flanqueou as defesas…Os soldados dos Países do Sul só tinham as armas colocadas em frente da povoação como seria de esperar, por isso ao flanqueá-los ele apanhou-os desprevenidos!
-Claro…Esse homem ou é um génio ou um louco! Flanquear? Mas que diabo é isso? A arte da guerra, aquela que nós sabemos, não entende isso! Isso são modernices de excêntricos! E como é que os oficiais se deixaram comandar por um soldado raso?
-Os oficiais morreram quando tentaram tomar os ninhos…
-Então a tropa devia ter esperado por novos oficiais!
-Que demorariam tempo a chegar…Parece que o nosso homem tem táctica e carisma de sobra…Escolheu a dedo os seus melhores camaradas e tomou a vila, sem perder nenhum e fazendo quase todos os nossos inimigos prisioneiros…
-Fazer prisioneiros?! Outra inovação! Normalmente matasse essa gente! Esta é a forma de se combater neste planeta desde que a guerra é guerra! E onde raio vou colocar eu prisioneiros???
-Numa casa civil ele improvisou aquilo que chama uma prisão onde interrogou os prisioneiros…E ao que parece eles mostraram-se tão agradecidos por estarem vivos que nos deram informações importantes sobre a cidade que o Meu Marechal tanto quer capturar…
-A sério? - O Oficial Superior coçou a cabeça e tentou reflectir um pouco…Não estava habituado a pensar, era um homem de acção, e o novo soldado baralhava o muito que conhecia da guerra…Há 20 anos que combatia, sempre com resultados medíocres, só sendo promovido pois era o melhor entre os seus pares; tentou pensar, mas de facto não conseguia…Deixou-se guiar por um sexto sentido.
-Quero conhecer esse homem, traga-mo o mais depressa possível!


                            4


Passeava pelo corredor há já várias horas, olhando, de vez em quando o horizonte. De corpo direito, mãos atrás das costas em posição de descanso, tudo em si transparecia calma, normalidade, tal como ele queria, embora estivesse longe dessa calma, especialmente cada vez que chegava uma nova leva de prisioneiros. Discretamente, procurava de quando em quando nomes conhecidos nas listas, pedindo a sua visualização, e olhando, pela última vez, algures no seu passado lhe tinha dito algo, para depois encerrar esses nomes nas mãos dos funcionários anónimos, que encaminhariam essas pessoas para o novo transporte, que Leviathan não deixaria de olhar com enorme tristeza. Cada nome a ecoar em si lançava-o nas suas trevas pessoais, cada nome injusto fazia-o recordar o errado daquilo tudo, a enorme perversão que o levava a trabalhar ali, e a pôr tudo aquilo em causa. Por isso, antes de cada desembarque procurava mentalizar-se para não ler esses nomes -para não procurar ninguém, porque nada poderia fazer por eles - porque se sentiria inevitavelmente sujo, embora falhasse tristemente, pois a sua memória não o deixava esquecer-se. Talvez um dia tudo pudesse ser diferente, talvez um dia o seu pesadelo e os de milhões no planeta do qual era de certa forma responsável tivesse um fim. Talvez…Apesar de ter um plano, ele já não acreditava, já não tinha fé, mas como lutador nunca desistiria, nem que se reformasse ou morresse entretanto.
Entretanto era a hora de quebrar a rotina, hora de falar livremente sobre o seu segredo, e que melhor e única ocasião teria do que a vinda do seu novo ajudante de campo?
Precisamente, ele estava quase a chegar.
Foi até à sala de rastreamento do espaço exterior e perguntou ao oficial responsável a hora da chegada da nave.
Depois de ter sido informado que o veículo estava a cumprir o horário previsto, isto é, estaria na lua dentro de uma hora, foi até ao seu gabinete e decidiu esperar, olhando para o planeta à sua frente, por mera distracção e tentando abstrair-se das batalhas invisíveis a olho nu, mas demasiado presentes no seu espírito.
Um misto de sentimentos invadia-o quando pensava no seu novo ajudante        -Estava curioso em receber este homem, que desconfiava fazer parte da leva de jovens oficiais servil e fanaticamente obedientes ao Sistema, mesmo quando soubessem da monstruosidade que ele escondia, algo de ignóbil que em breve iria ser autorizado revelar, mas ao mesmo tempo desconfiava que a vinda dele representava a chegada do longo braço do Sistema que nunca parara de desconfiar de Leviathan, apesar deste não demonstrar sinais de descontentamento havia muito. Era um “pau-mandado”, um instrumento para controlar os seus passos, mas nem imaginavam que o Comandante tinha adivinhado por antecipação a jogada dos Senhores do Sistema e que de uma forma tremendamente simples os iria enganar, seguindo aparentemente as ordens e os regulamentos a que tão fielmente obedecia.
Por isso seguiu-o com o olhar, pelos ecrãs do gabinete, mal este desembarcou e cedo constatou que não se enganara no seu juízo de valor: de semblante rijído, pouco falou, limitando-se aos meros monossílabos típicos dos militares empedernidos. Aproveitando os seus privilégios o Comandante observou-o mesmo quando este se fechou nos seus aposentos, de maneira a trocar a sua farda de viagem pela de serviço com a qual se iria apresentar, tendo sido na altura em que apertava o último botão que escolheu ser a altura de o chamar, sabendo que com isso o jovem se iria aperceber de ser vigiado, mas isso até lhe dava jeito, pois queria que o novato soubesse estar sempre debaixo da sua alçada.
E no entretanto que mediava até se encontrarem, o Comandante começou a pensar no tempo em que tinha a idade do jovem, no percurso que o levara àquela Estação, no tempo em que fora jovem e ingénuo; mas esse tempo já tinha desaparecido há muito, ele hoje era um oficial de alta patente altamente qualificado (e em certos círculos do poder central até popular) um homem duro, duma têmpera quase em extinção, que ganhara fama e proveito no debelar do último foco rebelde, que tivera lugar em Marte (primeiro planeta habitado pelos humanos havia muito -depois de transformada a atmosfera - e que também se tornou no primeiro a rebelar-se) há mais de trinta anos, precisamente quando tinha a idade do jovem que estava prestes a receber. Não queria pensar no passado, mas era inevitável, pois fora esse passado que o transformara naquilo que ele era hoje: antes de ser disparado o primeiro tiro, ele era o exemplar típico da elite saída das academias do Sistema -Altamente doutrinado, fanático, cego pela obediência canina aos seus mestres, dotado duma frieza quase mecânica e duma capacidade de raciocínio notável, a permitir-lhe uma constante adaptação às mudanças nos combates, dotado de uma tal agilidade técnico-tactica notável que cedo deu nas vistas. E foi assim, assim continuou nos combates (local ideal para a total explanação dos seus sinistros talentos) a eliminar aqueles que se ousaram opor ao Sistema, num ódio cego, quase demencial, até que a guerra extravasou os campos e céus de batalha e avançou para as últimas cidades rebeldes, que albergavam na sua maioria civis inocentes, dado a maioria dos combatentes ter morrido já, no seu exterior, a tentar protege-los, cidades que constituíam o derradeiro foco de liberdade de todo o Sistema, e que por isso deveriam ser arrasadas até aos alicerces, ignominia permitida por uma Lei de Excepção aprovada pelo Senado do Sistema, composto esmagadoramente por homens e mulheres afectos à sinistra ordem e que fariam tudo para a perpetuar. Durante esses combates, o futuro Comandante não pensou, não teve tempo para pensar, agiu como se esperava, como uma besta de guerra implacável, mas no final, impressionado pelos imensos corpos sem vida, corpos inocentes, pelas cidades vazias de vida, e pela destruição sem paralelo, ele deu consigo a começar a pensar e a sentir, começando então a duvidar da verdade que o haviam imbuído desde o berço, começou a sentir-se sujo pelo sangue daqueles que começou a olhar como inocentes. Deu consigo a ter vontade de chorar pelos mortos, mas não podia, a férrea disciplina a que fora sujeito e o olhar dos camaradas de armas obrigavam-no a suster a transpiração de emoções para o exterior, deixando que nada transparecesse a não ser um enorme silêncio. Se antes já era metido para si próprio, depois dos dramáticos acontecimentos mais circunspecto ficou. Continuou a participar nas manifestações de apoio ao Sistema, em reuniões políticas, em acções de propaganda, mas nunca mais se pronunciou politicamente, nunca mais dos seus lábios se ouviram as palavras esperadas a um oficial coberto de glória nas últimas batalhas da história do Sistema; o seu corpo continuava presente, mas o seu espírito já trilhava o campo da dúvida que nunca mais abandonou, dúvida cada vez mais forte com o passar dos anos pois constatou que a vitória sobre os rebeldes e as chacinas das cidades passaram a ser celebradas anualmente como um feito épico do Sistema sobre os “ignóbeis infiéis que recusaram a luz da civilização e que pagaram a ousadia com as suas inúteis e descartáveis vidas”; mas ele esteve lá, ele participou e sabia da dolorosa verdade tão vergonhosamente disfarçada.
Esse silêncio foi olhado duma forma comprometedora pelos Senhores do Sistema, que embora o quisessem condenar, além de não existirem provas concretas da sua dissidência (mas obstáculo perfeitamente ultrapassável por provas falsas, tornadas verdadeiras, ou por qualquer Decreto-Lei prorrogado pelo Senado que tanto odiava); mas existiam, no entanto, três obstáculos de monta à sua queda -Ele era um herói amado e estimado pela população -ironia das ironias, pelos mesmos “feitos” que tinham originado a sua revolta - Era unanimemente considerado como o oficial mais dotado de todo o Sistema, e era também estimado pelos círculos menos conservadores do Sistema, minoritários, é certo, mas suficientemente fortes para impedir a sua queda. Restou pois a solução de compromisso entre os diferentes poderes que se digladiavam em silêncio – Colocá-lo ali -onde estava actualmente – num cargo suficientemente importante (apesar de oficialmente não existir) e ao mesmo tempo distante dos círculos de poder que duma forma quase subliminar ameaçava. Em suma, com esta simples colocação sossegavam-se os seus apoiantes e mantinham-no de rédea-curta.
No tempo actual, não parava de pensar que, se pudesse voltar trinta anos atrás ter-se-ia posto ao lado dos rebeldes, pois achava no fundo do seu ser que a razão estava de facto ao lado dos últimos combatentes pela liberdade extinta, mas eles estavam mortos há muito, e há muito que ele já se sentia cansado, gasto, não se rendendo ao Sistema pelo muito que vira e que continuava a ver. A razão livre, o livre arbítrio morrera com os rebeldes, e ele se pudesse, se fosse mais novo, regressaria a ela, mas tudo morrera com o massacre de Marte, pois uma nova rebelião estava posta fora de causa por um Sistema cada vez mais forte e opressivo.
Pelo menos era o que todos pensavam, menos ele.
Eram nove horas da manhã pelo tempo oficial da Estação que nunca dormia, sendo o tempo marcado apenas para coordenar os turnos e as rotinas dos seus habitantes.
Eram nove horas, a hora de explicar o mistério que rodeava o planeta do qual era senhor, e um dos segredos mais bem guardados pelo Sistema.
O ajudante chegou por fim ao seu gabinete. O Comandante olhou-o bem nos olhos e como constatou que este era invulgarmente alto, para não lhe dar a confiança de o olhar por baixo, pediu-lhe, depois de aceitar e responder à continência gestual com um simples e frio acenar de cabeça, para se sentar na cadeira em frente à sua secretária, estando os dois assim mais ou menos em igualdade de estaturas. Abriu o resto do painel atrás de si, deixando propositadamente que ficasse enquadrado no planeta em questão, ou seja, o jovem teria como primeiro foco do olhar o Comandante, e logo depois o planeta; efeito cénico perfeitamente ideal e lógico para a explicação que se iria seguir.

-Seja Bem-vindo à lua do planeta Y2, designação pouco romântica e longe dos lirismos dos astrónomos ou astronautas que costumam baptizar os novos astros, porque ela e o planeta oficialmente não existem; são propriedade do Sistema e estão sob tutela exclusiva dos militares e debaixo da alçada de apenas um Senador; além dele apenas mais alguns – poucos – políticos da mais alta confiança sabem do que lhe vou dizer.
Tudo quanto se passa aqui é altamente secreto, sendo que não deve comentar com mais ninguém a não ser comigo ou dignitários devidamente credenciados com um passe exclusivo do Sistema. Todos os elementos que trabalham nesta Estação estão mais ou menos a par desse segredo, e guardam-no com a própria vida quando saem para o exterior, pois é a sua vida que está em jogo se falarem.
Eu sou o principal responsável de tudo o que se passa aqui, que é provavelmente o maior e mais bem escondido segredo político e militar da história.
Sou eu que comunico com o Sistema e nenhuma comunicação com o exterior é autorizada, a menos que eu concorde, mas sempre supervisionada e vigiada por mim.
Durmo cerca de duas horas terrestre, estando presente cerca de 22h em todos os serviços desta Estação. Não tenho vida pessoal, a minha vida é isto. Mesmo quando descanso tenho monitores no quarto, pois para o caso de haver alguma anomalia eu tenho de ser informado de imediato pois mais ninguém deve tomar qualquer tipo de decisões pois, apesar de o poder fazer, eu não delego funções, a não ser as menores e insignificantes
Mas antes de ficar a par do segredo, vamos a um pouco de história, para o enquadrar…:

Quando por fim partimos e nos espalhámos pelo espaço, ao contrário do que muitos pensavam, a humanidade não se uniu debaixo de um só estandarte. Não, partimos isolados e isolados estabelecemos um sistema de possessão de colónias semelhante ao das descobertas marítimas, dividindo o espaço em zonas nacionais. Ocasionalmente havia colaborações científicas, mas estas eram uma mera excepção à regra nacionalista, e as tensões internas terrestres (já delicadas) aumentaram enormemente devido às pretensões dos países menores em relação à partilha espacial. E as tensões aumentaram de tal ordem que o espectro de uma guerra mundial foi-se tornando numa ameaça cada vez mais real.
Foi então que, perante a perspectiva de uma guerra que pusesse fim à civilização humana, alguns dos mais influentes e poderosos homens da Terra se reuniram e conseguiram formar um governo mundial, governo único a que chamaram Sistema, para evitar o colapso civilizacional eminente. Claro que houve resistências iniciais, havia demasiada gente que tinha demasiado a perder, mas esses resistentes foram silenciados, naquilo que se transformou na actuação padrão do Sistema cada vez que alguém o enfrentava e não alinhava nas suas decisões. O facto de estar em causa o bem comum da humanidade calou muito boa gente, gente que alinhou na feitura de uma nova e inovadora constituição global, onde se fez tábua-raza de boa parte das liberdades individuais em prol do tal bem comum. Nessa altura os senhores eleitos pelo Sistema agiram livremente e criaram novas leis, que segundo os velhos e entretanto desaparecidos democratas – pelo rumo dos acontecimentos – seriam exercícios de autocracia e despotismo extremos, mas que na nova lógica predominante eram as medidas adequadas que se impunham.
Como primeiro reflexo de um Sistema de poder unificado, a exploração espacial sofreu um salto gigantesco, dado não serem já 3 ou 4 potências a correr isoladamente para um objectivo, mas sim uma com o poder e energias delas todas combinadas numa só.
Ainda não se sabe bem se foi uma coincidência ou se por causa da criação do Sistema (embora tudo aponte para esta última hipótese), o que é certo é que surgiu uma era espantosa de realizações e descobertas científicas que se repercutiram no bem-estar social de toda a humanidade, sendo que esse bem-estar calou praticamente as vozes contrárias que ainda se opunham ao Sistema, pois afinal havia plena igualdade de sexos, havia eleições para Senado do Sistema, havia prosperidade e até as guerras tinham acabado. A liberdade no seu sentido clássico fora varrida do mapa político, mas o que isso interessava se todos viviam bem? Novos tempos exigiam uma nova política, e o Sistema era essa nova política, essa nova sociedade.
Quanto à resistência…É claro que ela nunca acabou definitivamente, pese embora os esforços repressivos do Sistema – porque o ser humano tem essa capacidade perturbadora de nunca se conformar completamente, de nunca se calar em definitivo – ela existia muito para além dos círculos intelectuais onde ela reside com maior facilidade e de forma quase inata. Havia de facto uma vontade clara de ter uma alternativa ao Sistema, apesar de este se revelar ideal, “porque há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não…”. E como já dispúnhamos de várias colónias espalhadas pelo espaço, sendo que em cada uma delas havia uma minoria contestatária, e porque se juntas constituíam milhões de adversários, uma verdadeira e séria ameaça ao Sistema, foi necessário calar essas vozes de uma forma definitiva, mas sem dar demasiado nas vistas, sem encher as prisões da ordem, o que poderia levantar dúvidas (e consequentemente gerar mais hipóteses de contestação) naquele que se queria o povo feliz do Sistema.
Estudaram-se várias hipóteses, até que houve alguém que teve a ideia genial de aproveitar um número indefinido de pequenos planetas habitáveis já referenciados, mas fora das cartas espaciais e praticamente inúteis em termos comerciais por pouco terem que se aproveitasse para além de uma atmosfera respirável e solos minimamente férteis – mas não o suficiente para se fazerem deles exportadores de produtos agrícolas –. Era para lá que iriam os opositores, num misto de prisão e de exílio além de campo de batalha. E a ideia mais genial era o facto de lhes fornecermos de armamento desactualizado (que de outra forma ou seria armazenado ou destruído) e de por os prisioneiros a lutar uns contra os outros e assim se matarem, poupando o trabalho sujo e incómodo ao Sistema! Claro que os rebeldes conscientemente nunca lutariam entre si – pelo contrário, a tendência natural era unirem-se, pois afinal eles eram aliados na sua luta comum –, pelo que, para os induzir à batalha cada um seria sujeito a uma lavagem cerebral inovadora: através duma operação secreta (eu próprio não sei como ela se processa -mentiu descaradamente pois ele estava a par de tudo -) cada pessoa ficava sem memórias do passado, ficando em seu lugar aquelas que nós colocaríamos para substituir as anteriores.
No caso deste planeta, que é o menor de todos os novos “Planetas-Prisões”, dividimos assim este planeta em várias zonas – no caso deste há os Países do Norte, a Nação do Planalto Central e por fim os Países do Sul – e dividimos os prisioneiros por essas zonas, onde basicamente se chacinariam. E o armamento, e os novos combatentes como o conseguem? Perguntará você. Simples, respondo eu – Neste planeta criamos “Zonas Interditas (pelos mais diversos motivos, desde territórios contaminados por guerras anteriores, ou serem fisicamente inalcançáveis etc…) onde periodicamente, e consoante as necessidades dos combatentes, Naves-Cargueiros, das maiores que dispõe o Sistema, e de que temos alguns exemplares nesta lua, despejam lá material bélico e combatentes que depois encaminhamos para os respectivos países. Aliás, esta lua além de ser um centro de controle das actividades bélicas não passa de um gigantesco arsenal, dado sermos quase perfeitamente autónomos em relação ao poder central do Sistema -Aqui fazemos a operação aos combatentes, aqui os armamos, e daqui os levamos até à sua “última morada” – Para evitar que eles decidissem fazer a paz entre eles, nas novas memórias induziríamos um enorme ódio em cada ser, com, por exemplo, episódios de torturas e de morte de familiares que obviamente nunca aconteceram mas o suficiente para os deixarem ávidos pela vingança. Quando a coisa não resultasse (não há planos perfeitos) e quando eles estivessem perto da paz, introduzíamos agentes no terreno para sabotar as hipotéticas tréguas. Haveria ainda o perigo de uma das facções se superiorizar a outra em termos militares, perigo que abortámos através de duas medidas preventivas – para começar cada um dos campos teria mais ou mesmo armamento que a outra e aproximadamente um número de combatentes idênticos; depois -e isso, a par das novas memórias, era a “maravilha” das maravilhas introduzidas – inserimos no cérebro deles uma total ausência de conceito táctico, ou seja, eles não perceberiam nada de tácticas militares nem seriam capazes de as ter pela experiência acumulada porque o seu cérebro limitado seria incapaz de tal…; em suma, eles combateriam como zombies, deixando-se ingenuamente massacrar…mesmo a utilização dos meios aéreos e navais é completamente absurda, pois eles não bombardeiam objectivos estratégicos como fábricas de alimentos ou depósitos de munições, não eles limitam-se a arrasar os centros populacionais, o que aumenta o ódio dos bombardeados e a vontade de retaliar da mesma maneira, sem saírem disso… Há! Para além do mais eles nunca fazem prisioneiros, e por isso lutam até ao fim, ou suicidam-se quando julgam ir ficar cativos. É uma prática comum entre as três facções o que só aumenta o ódio entre elas…Em termos meramente militares eles usam tecnologia do início Século XXI, perfeitamente inofensiva aos nossos exércitos actuais, mas sem armas nucleares, sem naves, sem telescópicos pois de forma alguma podem conhecer a lua…Além de algum material antigo guardado para alimentar os seus paióis, há em paralelo uma mais ou menos secreta indústria de reprodução desse armamento antigo, industria lucrativa que gera os sempre necessários imensos postos de trabalho. O Sistema, para não dar nas vistas, dispersou no entanto essas indústrias, sendo que nenhuma fábrica completa um produto inteiro, apenas componentes, que depois são montados em instalações seguras, para onde depois são recambiados para bases como estas. Para o caso de termos algum problema mais sério, dispomos de 3 naves e de uma força de 1500 homens com equipamento moderno, praticamente invulnerável às armas dos prisioneiros que poderão intervir no terreno se uma das facções se superiorizar a outra. Não são tropas de combate pura, não, são agentes escolhidos a dedo pelo Sistema devido à sua lealdade, uma espécie de guardas prisionais, porque francamente não se justifica o dispêndio de tropas de choque neste tipo de planeta, dado a situação estar perfeitamente controlada. Esta tropa existe apenas como uma mera medida preventiva.
Uma pergunta que possivelmente quererá fazer – Como se esconde esta gigantesca operação à população do Sistema? Muito simples: oficialmente eles são meros prisioneiros de delito comum condenados por fraudes fiscais, assassínio, violação, etc…(as provas são facilmente forjadas) e condenados a pesadas penas a serem cumpridas em colónias inóspitas da fronteira,  sem contacto com o exterior. Para corroborar isto, estudamos o perfil psicológico de cada um e, por vez deles, escrevemos cartas às famílias, dizendo que tudo corre bem. Como morrem, dizemos apenas que foram vítimas das duras condições de trabalho, de doenças novas próprias das colónias. As famílias, amigos e familiares engolem esta história, quem não o faz e começa a protestar é simplesmente silenciado pelos meios habituais, e, não raras vezes, vêem parar a planetas deste tipo.
Ah! Não menos importante, e para julgar que não somos bárbaros – Nestes planetas não existem crianças, pois não nos queremos sujar com o sangue delas, nem elas são culpadas pelos crimes dos pais. Além do mais, todos os homens e mulheres que vêem para estes locais são previamente esterilizados, dado, fora dos combates, terem uma vida minimamente comum, onde podem amar e obviamente terem relações sexuais, dado nos querermos dar-lhes a máxima impressão de normalidade.
Esta nova forma de resolver os problemas com os contestatários dura há já uns séculos, e secreta como é, reforça a opinião da população que não há repressão política, o que proporcionou uma paz humana inovadora, até que há mais ou menos 30 anos a colónia Marciana se revoltou por um raro lapso do Sistema: como eu lhe disse, oficialmente não havia repressão política, e sem darmos por isso, secretamente os contestatários foram-se reunindo neste planeta e deram inicio a um movimento de autonomia que proclamou Marte como planeta independente e único lugar verdadeiramente livre de todo o Sistema. Foi apenas um planeta, mas o perigo representado por este movimento era enorme – se o Sistema não reagisse estaria a fomentar mais rebeliões que poderiam colocar todo o equilíbrio humano em perigo! Reuniu-se então um gigantesco corpo de intervenção e autorizou-se à comunicação social algum acesso aos campos de batalha. Foi uma guerra atroz, uma pura carnificina perante a desproporção dos meios em combate, pois os rebeldes dispunham de poucas armas, ao passo que o corpo de intervenção tinha a nata das natas do armamento, mas todos os povos do Sistema ficaram a saber da implacabilidade do Sistema perante quem o ousava enfrentar. Podíamos ter enfiado toda a gente nas prisões como esta? Poderíamos, mas como a maioria dos políticos e militares desconheciam-nas, um tal movimento iria dar nas vistas…E eu sei quanto a última de todas as guerras foi dura, porque lá me tornei no homem que sou hoje – acrescentou o Comandante num tom amargo e dualista que o outro desconhecia, não tendo reparado por isso nele.
Não menos importante, mas no entanto quase que me esquecia de referir…Controlamos toda a actividade em Y2 através de uma sofisticada rede de Satélites que orbitam em torno do planeta e que controlam praticamente tudo quanto lá se passa, satélites invisíveis aos combatentes, pois, como já lhe disse, eles não dispõem de qualquer capacidade espacial, mesmo a mais rudimentar.
E quais serão as tarefas para as quais fez tão longa viagem, até aqui, os confins da fronteira? Quererá saber…
Você fará um pouco de tudo na Estação, desde ver se os arsenais dispõem de armas para os futuros combates, a receber as comunicações menos importantes do Sistema para esta Estação, supervisionar as instalações de todos os habitantes e velar para que nada lhes falte, e pouco mais…-Disse com um sorriso subliminarmente irónico, pois com estas atribuições menores acabava pura e simplesmente de tornar inúteis as eventuais intenções do Sistema personalizadas no jovem. Como a Estação era praticamente autónoma e o subordinado não podia comunicar para o exterior a não ser que essas comunicações fossem supervisionadas pelo Comandante, tudo ficaria como dantes. E a maior ironia de tudo era que fora o Sistema a dar-lhe esses plenos poderes, que julgava ínfimos por aquele ser mais pequeno e insignificante dos planetas habitados por terrestres.
-Eu…-Balbuciou o jovem.
-Tem alguma coisa a dizer? - Perguntou de forma arrogante e intimidadora o Comandante.
-Só duas…E como é que eles se organizam…politicamente…?
-Os governos…Os governos são compostos sem excepções por um Marechal, o mais experiente dos combatentes, ou apenas aquele que sobreviveu a mais combates e viveu para contar tal, e que domina o respectivo país com mão de ferro, tipo autocracia militar. Uma vez por outras há golpes de estado feitos por Generais mais velhos que pretendem mudar o rumo de uma guerra sempre com os mesmos resultados – isto é, impasses militares – mas depois voltam a cair nos erros daqueles que substituíram por obra e graça da operação a que foram sujeitos nesta lua…Salvo erro nunca interferimos nestas lutas intestinas pois são inócuas no que toca ao equilíbrio dos combates, enfim, deixamos que se chacinem alegremente…
E a outra coisa que me queria dizer…?
-Eu, eu… pensava que as minhas atribuições seriam maiores, isto é, de maior responsabilidade…
-Quer maior responsabilidade do que zelar pelo arsenal e bem-estar de todos os habitantes desta lua?! Meu “caro amigo” não sei o que lhe disseram de onde veio, mas aqui a Lei sou eu! Um projecto desta dimensão não pode sobreviver se delegarmos responsabilidades, aqui o poder tem de ser concentrado na mão do mais competentes dos chefes, e essa pessoa sou eu, ou não sabe quem tem à sua frente?! - Rematou em tom ameaçador.
-Sim eu sei, o senhor é…
-Eu sei quem sou! Escusa de vir com elogios ou de repetir o meu currículo, pois sei-o melhor do que ninguém! E mais uma coisa, se tiver a péssima ideia de se querer queixar ao Sistema de que não lhe atribui as tarefas que idealizou, de imediato eu mando-o lá para baixo, para o Planeta! Nem preciso de inventar uma desculpa para o fazer! Digo que morreu e pronto! Detesto traições, detesto traidores, por isso nem sequer sonhe em trair a confiança que lhe depositei; basta um deslize e acabo consigo!
E o breve dialogo acabou assim, sem mais palavras.
O plano do Comandante estava em andamento, bastava apenas ter uma ponta de sorte e esperar.
O tempo era o seu maior aliado.
E a história estava prestes a começar a ser alterada.

(Conto protegido pelos Direitos do Autor)
Miguel Patrício Gomes
Enviado por Miguel Patrício Gomes em 05/05/2006
Reeditado em 27/06/2008
Código do texto: T150645
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