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OS SENHORES DA CRIAÇÃO (parte II)

                           III
                        A Catedral

Faço agora uma pequena pausa na minha história, para te dar uma imagem do aspecto físico dos Sacerdotes, já que, juntamente com a Catedral, eles pairavam sobre nós, quase como deuses, inspirando o mais sagrado dos respeitos a impedir qualquer tipo de contestação ás suas decisões. Antes de te descrever o seu papel, fica a imagem, pois sem ela acharias que estes não passariam de religiosos comuns, como os há no nosso mundo comum, algo que definitivamente estavam longe de ser...
Ao contrário do resto da população, eles eram indivíduos invulgarmente altos  entroncados, e belos, possuindo um olhar que tinha tanto de sereno e amistoso como frio e duro, enfim, um olhar misterioso... A voz era suave, tanto que as suas palestras nos embaiam, fazendo-nos sentir envolvidos, queridos, protegidos. Por outro lado, era também firme, feita da fibra dos homens providenciais que, através da sua gravidade e convicção nos faziam acreditar em praticamente tudo o que saísse dos seus lábios. Credo sedimentado fortemente nas palavras sábias da religião.
Vestidos com uma túnica preta de um negro incomparável, a cobri-los do pescoço até aos pés, todos os gestos, quer se tratasse do vulgar andar até ao gesticular sereno com que envolviam as suas palavras, em gestos largos e graciosos (onde as mãos cobertas por luvas também pretas eram escondidas pelas enormes mangas do traje e raramente vistas) eram majestosos, solenes, quase míticos, exercendo o tal efeito de sedução a que nenhum de nós estava imune.
Escolhidos entre os melhores dos melhores, eram enviados na primeira infância para escolas secretas situadas algures na Catedral, onde permaneciam isolados até à idade adulta, na qual seriam devolvidos ao povo, completamente transfigurados, quer física, quer psicologicamente. Obviamente que os treinos e o prodígio de uma alimentação de características tais a transformá-los em quase fenómenos físicos eram de todos os mais bem guardados dos segredos. Estranhamente nunca conheci ninguém que tivesse tido a enorme honra de ser escolhido, dúvida tornada inócua pela explicação que um Sacerdote nunca exercia na cidade onde tinha nascido, por motivos nunca explicados, o que os transformava em dogmas da religião, e por isso inquestionáveis...
Estranhamente a sua esperança média de vida era a mais baixa de toda a população, pois, ao fim de três anos de sacerdócio quase todos morriam. Tal devia-se, segundo os próprios ao invulgar desgaste proporcionado pelas suas funções, indiferente para eles, pois o seu número nunca se reduzia. O enterro e o local onde permaneciam os féretros eram tabus, vedados ao povo, mas julgava-se, eram feitos nas catacumbas da Catedral, pelo menos era isso que nós imaginávamos, não deixando de fantasiar sobre os rituais secretos e certamente sumptuosos que tais seres reservavam para si e para os seus.

 


Ao todo não sei bem quantas cidades existiam, sei apenas que eram muitas, situadas a grande distância umas das outras, e separadas por enormes desertos. Cada uma dessas cidades era razoavelmente autónoma, pelo que deslocações entre elas só se justificavam quando havia um défice de empregos numa e um excesso noutra. Isso aconteceu com a minha família pois, quando era pequeno tivemo-nos de mudar para outra cidade devido ao excesso de pessoas especializadas na profissão do meu pai.  Estes fluxos migratórios eram relativamente raros e, claro, devidamente controlados pelos Sacerdotes de maneira a evitar a sobrelotação de um espaço e o vazio de outro. Contudo, essas deslocações só poderiam ser feitas uma vez por ano, dado as enormes e devastadoras tempestades que assolavam, praticamente sem cessar, os desertos. Alguns, poucos, temerários ousaram desafiar (e com grande pompa e circunstância, partindo em caravanas, mal vistas pelos Sacerdotes, mas inevitáveis perante a alegria das cidades) os ventos, e nunca mais foram vistos. Houve um altura em que essas expedições eram até comuns, mas perante a acumulação de fracassos reconheceu-se a razão dos Sacerdotes e aventura nunca mais foi ousada.
Em toda a nossa história a vontade dos nossos religiosos fora sempre observada, exepto naquelas incursões suicidas. O seu malogro foi pois o sinal absoluto da superioridade dos sábios e da nossa menoridade perante eles.
Hoje penso que eles permitiram (se é que não estimularam...) essas aventuras, sabendo de antemão o fracasso a que estariam condenadas, com o consequente reforço do seu poder, mas este tipo de conjecturas só faria parte de mim mais tarde, devendo, por ora, regressar à história...
  A maior parte do tempo, passávamo-lo fechados nas cidades, protegidos pelas grandes muralhas e aparelhos ventilatórios, suficientemente poderosos para nos manterem imunes às tempestades, e atemorizados pelo som terrível dos furacões que, em determinada altura, se sobrepunha mesmo a todos os barulhos feitos pela dinâmica da urbe. Pessoalmente só conhecia outra cidade, praticamente igual à minha, e onde me tinha deslocado na esperança, gorada, de um emprego. Para lá chegar tive de atravessar, durante mais de uma semana o enorme deserto de Leon, cujo nome “exótico” fora atribuído em homenagem ao seu descobridor, um Sacerdote dos primeiros tempos, e cujo trabalho ajudara a traçar as rotas actuais entre os centros urbanos.
Como já percebeste e te expliquei, as nossas vidas giravam em torno da, e para a, Cidade, e esta, por seu turno, vivia em torno da Catedral e para ela. Sem ela a Cidade perdia qualquer significado e nós por arrasto.
O edifício da Catedral situava-se bem no centro da cidade, devendo esta crescer sempre de uma forma uniforme, de maneira a manter a Catedral dentro da sua importância geográfica. As suas origens remontam aos primórdios, recordados na religião e no desgaste das paredes gigantescas, que se elevavam a várias centenas de metros do topo dos edifícios mais altos.
A Catedral era, basicamente, constituída (a grande escala, claro) por um rectângulo, cujas quatro faces tinham encostadas, cada uma, e em “escada”, outros rectângulos. Estes rectângulos eram naves, em cujo interior se realizavam as diferentes e quase inúmeras actividades, tanto sociais, culturais, políticas, passando pelas judiciais; enfim, todos os pilares básicos de uma sociedade desenrolavam-se dentro da venerável construção. Se, no nosso mundo, a socialização é feita em torno, da família, bairro, cidade, país, e até à escala planetária. As escolas ficam num determinado sítio, o comércio espalha-se por toda a cidade, bem como quase tudo. Se quisermos qualquer coisa, apesar da sua rápida acessibilidade, temos ir a diferentes locais para a obtermos. Mas, no meu mundo as coisas eram bem diferentes. À excepção dos empregos e de algum pequeno comércio (por exemplo mercearias de bairro, padarias etc...) tudo se concentrava na Catedral e tudo era supervisionado pelos Sacerdotes. Além de religiosos, eram também juízes, representantes do povo no parlamento destinado a deliberar quais as novas construções, a aprovação de novas leis, versando os mais diferentes assuntos, entre outros, supervisores do comércio (estipulando preços mínimos e máximos e evitavam a concentração de possíveis monopólio actuando como retalhistas, vendendo qualquer produto em grosso aos comerciantes, não havendo nenhum outro local onde estes se pudessem abastecer) e, claro, eram os únicos com a nobilíssima função de educar, primordial para a manutenção da ordem: todas as escolas, independentemente do seu grau, estavam concentradas no grande edifício, abrigadas nas naves, onde os nossos jovens seguiam as indicações de centenas de diligentes religiosos. Indisciplina nas aulas, absentismo e insucesso escolar eram praticamente nulos. Apesar de entre nós haverem , indivíduos menos dotados, tal como há em todo o lado, o sistema de ensino era suficientemente elástico para dar a cada aluno uma função. Por exemplo, os mais dotados ocupariam as especialidades mais avançadas, tal como a supervisão da Fábrica, ou seriam os ajudantes dos Sacerdotes nas suas múltiplas funções, ao passo que aqueles “cognitivamente mais fracos”, seriam destinados aos trabalhos braçais, mas recebendo o mais apurado treino, sendo por isso altamente eficientes e, melhor do que isso, sabendo-se sempre apoiados e acompanhados, não se sentindo de forma alguma descriminados. Toda a ordem de princípios deveria pois ser dada pelos Sacerdotes. Questões tão basilares como o respeito pelo outro, a amizade familiar, princípios de moral, enfim, algo que no teu mundo é dado pela família, deveriam ser, numa primeira fase incutidos na Catedral e depois, só depois, de se verificar que as famílias eram dignas de cultivar esses princípios é que os seus membros eram autorizados a tal, mas sempre debaixo da orientação de um Sacerdote devidamente orientado para o efeito.
De certa maneira a religião acabava por ser uma lei única de todos nós, dado orientar toda e qualquer actividade do povo, quer se tratasse de algo físico ou espiritual, dado ambas se fundirem devido ao objectivo para o qual tínhamos nascido: a extracção interminável do minério.
Em suma, os Sacerdotes e, seguindo as indicações da nossa religião, orientavam a vida na cidade, supervisionando o comércio, de juízes, e representantes do povo no parlamento municipal destinado a deliberar quais as novas construções, a aprovação de novas leis, compra e venda de terrenos, atribuição de novos alvarás de exploração, etc...Como a Catedral era a dona de toda a cidade, na prática todos éramos inquilinos dos Sacerdotes. Graças à sua lendária competência e ao respeito angariado, os problemas típicos dos grandes centros estavam reduzidos a pequenas questões que não chegavam a perturbar a ordem global, já que ninguém se atrevia a questionar nenhuma das suas decisões, pois, se o fizessem corriam o risco de ser excluídos de toda a socialização, condenados a errar pelos desertos onde a sobrevivência, como já to disse, era impossível. Talvez por isso entre nós não havia prisões ou a pena de morte. Além da pena de exclusão existiam apenas sanções económicas aplicáveis aos pequenos prevaricadores. Claro que os Sacerdotes nunca executavam fisicamente as sentenças, isto é, eles não expulsavam ninguém, nem aceitavam as coimas; nisso eram substituídos por alguns de nós, escolhidos a dedo, e uma sombra dos nossos mestres por toda a cidade. Se quiseres uma imagem, penso que de certa forma os poderia equiparar a polícias, ou a vigilantes, embora estivessem muito longe de ser incómodos, pelo contrário, a relação com o resto da população era óptima, talvez porque representassem a vontade dos Sacerdotes e nunca tomassem uma iniciativa sem os consultar. Não raras vezes chegavam até a fechar os olhos a pequenas e pontuais intrujices, desde que o seu autor não repetisse a façanha, pois nesse caso a condescendência benévola desaparecia, com tudo quanto de mau que isso acarretava...
E o sentido de justiça inflexível ficará sempre na minha memória depois de ter presenciado a exclusão de um grupo de garotos que praticara vários assaltos no seu bairro. Foram identificados e avisados uma vez, e ignoraram-no, até que à segunda os Sacerdotes intervieram e os condenaram ao previsível -Toda a população da zona foi convidada a acompanhar, em cortejo, a execução da pena: à frente os prevaricadores, logo seguidos pelos vigilantes e, por fim, os Sacerdotes, de rosto impassível. Por detrás deles e a uma distância respeitosa estava a população, silenciosa.
Tal cena foi também transmitida por televisão a toda a cidade, que parou para assistir.
E como esquecer as palavras duras na voz grave e solene dos Sacerdotes que serviram de sentença e também de despedida?

-Ide e não voltai mais. Sois a vergonha da cidade, a tristeza da Religião e a desgraça de todos nós.

Eram apenas crianças, e li nos rostos daqueles que me rodeavam a vontade de perdoar, de voltar a dar mais uma oportunidade àquelas almas ingénuas e perdidas, mas, tal como eu, sabiam que a remissão era impossível, e que a sua juventude estava destinada a desvanecer-se entre as areias das tempestades. Apesar de no fundo dos nossos corações querermos que ficassem, quem éramos nós para contradizer os Sacerdotes?
Nunca mais foram vistos
A exclusão era de tal ordem temida que bastava existir esta figura de lei para assegurar uma ordem quase sem crimes.
Mas acima de tudo eles eram os supervisores da ordem, ordem regida mantida pela religião. Baseada Esta assentava em oito livros sagrados, que o Grande Criador legou ao seu povo de todas as cidades em tempos recuados, a seguir à altura em que o macaco ganhou a capacidade de pensar, sendo premiado por Ele com as suas leis sagradas, a religião era o garante da diferença entre nós e os elementos não racionais.
Segundo ela, nós, humanos, conquistáramos a capacidade e a honra impar de pensar para construímos nós próprios o nosso destino, destino a ser conseguido através do trabalho. Se, por um enorme azar ou displicência nossa, a sociedade parasse, se todos nós dedicássemos as vidas ao repouso, à diversão, regrediríamos à condição simiesca, voltando aos instintos primários, apagando o raciocínio dos nossos cérebros, e atrofiando os avançados membros, (dos quais os seis dedos eram a perfeição absoluta) fruto da evolução, instrumentos especializados, filhos do intenso labor produtivo que nos caracterizava. O trabalho era pois a condição humana máxima, a capacidade de o exercer o privilégio dos eleitos. Quanto mais se trabalhasse, mais humano alguém seria, e mais honraria os antepassados, cujo esforço erguera as nossas impressionantes cidades, de tal forma poderosas, que nem mesmo os ventos ciclópicos do deserto poderiam destruir.
Fora a nossa capacidade de transformação que vergara as violentas forças da natureza, e seria ela, um dia, a permitir-nos acabar com esses ventos, terrivelmente limitativos da nossa capacidade de movimentos, e principal obstáculo à ligação permanente de todas as cidades. Todos sonhávamos com isso, e a religião lá estava, profética, a garantir-nos esse objectivo desde que trabalhássemos para isso. O facto de termos cada vez melhores veículos e meios de transmissão a permitirem um melhor contacto entre todos, era a prova incontornável de que o esforço e dedicação haveriam de permitir a capitulação final da natureza.
A reforçar tudo isto fôramos premiados com jazidas imensas de um poderoso mineral, de capacidades energéticas tais que alimentava todas as Cidades. Situado nas montanhas, cuja proximidade permitia a prospecção durante todo o ano, sem temer os ventos, o seu aproveitamento era relativamente simples: com jazidas a céu aberto, com a ajuda de instrumentos cada vez mais especializados (dado ser extremamente duro, a  extracção revelava-se morosa) bastava despejá-lo em pequenos poços situados no interior da Fábrica, a maior construção logo a seguir à Catedral, e este de imediato se transformava em energia, dado ser absorvido espontaneamente pelo solo que distribuía as suas qualidades por toda a cidade. Bastava a cada edifício ter uma ligação à terra, para ter energia ilimitada. Por isso as cidades estavam sempre com luz, nunca às escuras, o que a tornava alegres e convidativas. A razão de só depositarmos esse mineral na Fábrica, segundo os Sacerdotes, baseava-se na localização geográfica desta, o melhor local de distribuição da energia descoberto, por um mero acaso, por um dos nossos primeiros antepassados inteligentes que, por mero acaso lá depositara uma pedra bonita arrancada ao seu abrigo das montanhas. Verificando que a área de imediato se tornou quente, ele repetiu o gesto várias vezes e com quantidades maiores de pedras, dando, de certa forma início à civilização. Foi o poder da fonte de energia que permitiu construir a Catedral e à sociedade de que éramos agora herdeiros. À medida que íamos evoluindo, a quantidade de minério necessária era cada vez maior, pelo que a prospecção aumentava a cada dia que passava. Para um observador mais atento, o volume despejado na Fábrica excedia em muito as nossas necessidades, mas os únicos observadores atentos eram os Sacerdotes, e para esses o minério era sempre pouco, o nosso esforço indigno dos antepassados, pois estes, proporcionalmente, tinham-se esforçado muito mais.
Por isso não parávamos, e por isso o ritmo para eles era sempre demasiado lento. Só no dia em que os Sacerdotes se mostrassem satisfeitos é que nós nos poderíamos considerar satisfeitos.
Mas esse dia nunca estava destinado a chegar.

                          IV
           A câmara secreta dos Sacerdotes


O meu emprego neste mundo era de técnico de aparelhagem sonora, nada de muito sonante ou importante, mas suficientemente estimulante para me sentir realizado profissionalmente e mediamente monetariamente. Sendo conhecido entre os meus por conseguir cumprir os prazos mais apertados, fora recomendado aos Sacerdotes precisamente devido a esta qualidade.
O trabalho para que me tinham contratado merecia bem todo o dinheiro pago. Afinal, consertar e voltar a instalar todo o sistema áudio da nave principal era algo de gigantesco.
Devido à dificuldade inerente a essa obra concederam-me um prazo alargado bem como um passe especial que me permitia circular por lugares onde só muito raramente entravam os não -Sacerdotes.
Quando comecei a trabalhar verifiquei até que ponto os privilégios não o eram: teria de fazer um andaime com mais de cinquenta metros de altura (encostado por imposição superior à parede direita) e de perfurar as paredes de pedra o suficiente para que lá coubessem parafusos capazes de suportar o sistema de áudio cujo peso ascendia a várias toneladas, além de, claro, mais tarde ter de eriçar este, embora para isto tivesse a promessa do auxílio de máquinas inventadas para o efeito e mantidas dentro da Catedral.
Por natureza gostava de trabalhar só, mas abstive-me de pedir tal, pois era conhecido o rigor e poucas palavras dos Sacerdotes; temendo ofendê-los, mentalizei-me para sacrificar este capricho, e interiorizei a pasmaceira de ter que aturar um qualquer companheiro desencantado algures, e só desejando que este tivesse tido um problema de nascença que envolvesse o sério atrofiar da sua língua.
Encarei então com natural espanto a bondade dos meus patrões, que, justificando-se na especificidade da tarefa me informaram que iria ficar sozinho e que nunca seria incomodado, nem mesmo por eles.
Motivado por tal à vontade, e achando o andaime demasiado incómodo, engendrei uma forma mais cómoda de executar o trabalho. De facto instalei o andaime mas só para fixar um gancho exactamente no cimo do tecto. Tal serviria para passar por lá uma corda, no cimo da qual estaria eu pendurado.
Descobrira pouco antes que as paredes apesar de serem de pedra, tinham metal em quantidades suficientes para permitir a afixação de pequenos imanes (tal característica não me espantou dado ser a própria Catedral minimamente conhecida pelos crentes e tida como misteriosa e local dos cultos secretos dos Sacerdotes e podendo também albergar outros segredos, tal como o da sua construção, demasiado fantástica, mesmo para os nossos antepassados) . Assim, depois de ter comprado cerca de doze imanes, fixei seis às solas dos sapatos e o resto nos braços. Desta forma ficaria “colado” a essas paredes, podendo escalá-las como uma vulgar aranha. Esta agilidade permitiria acelerar o ritmo do trabalho, acabá-lo antes do tempo e assim conquistar o bónus merecido para esta eventualidade.
Em meio dia tinha fixado a corda e começado a perfurar a parede, dando-me então conta da sua extrema rigidez, insuspeita mesmo naquela que era considerada a melhor pedra de todas. Experimentei várias brocas, com resultados desanimadores, decidindo então passar aos grandes meios. Lembrei-me então da conversa que tive com um amigo; entre vários copos, disse-me que para extrair o mineral de locais mais difíceis existiam algumas máquinas fabulosas, de acesso mais ou menos restrito, excepto a ele, o principal capataz...que contornaria a dificuldade emprestando-me uma tida como reserva.
Procurei seguir a lógica dos favores: o meu amigo queria um sistema de áudio, cuja exigência de mão-de-obra altamente especializada e a morosidade da sua instalação o tornava proibitivo. Sacrificando algumas horas vagas, consegui a afamada broca.
Poderia ter utilizado o meu material, o serviço seria feito na mesma, mas, sendo os Sacerdotes a ordenar a empreitada, decidi esmerar-me. Além das naturais remunerações extra, poderiam vir a contratar-me para mais serviços, o que agradaria imenso a Silvie e ao seu sonho de arranjar um espaço maior para dar azo à sua criatividade, e, em consequência disso, ao meu distanciamento dessas “diletâncias” e maior sossego. Era o que dava, amar e ir casar com uma artista...
Se soubesse onde me iria meter, não me tinha dado ao trabalho de tanto afinco, e mandado às ortigas o perfeccionismo. Mas como poderia saber, como imaginar que a broca, mais do que perfurar a parede iria fazer o mesmo entre a ténue barreira que separa a ficção da realidade?
Assim, mergulhado na ignorância que ainda rodeia os meus, dediquei-me de corpo e alma ao trabalho, fazendo pontaria a uma pequena cruz que tracei pouco abaixo do tecto.
De início julguei ter sido enganado, pois as diferenças entre este e o outro material eram mínimas, mas, alguns minutos após o surgimento das primeiras dúvidas, a broca começou a provar o que valia. Demais...Ingenuamente, e no afã de fazer a coisa bem feita, nem me tinha interrogado como ela trabalharia. Quando a parte de cima da parede se desmoronou, revelando uma divisão paralela, apesar de ser estranhamente espessa, comecei a compreender. A função desta perfuradora era de perfurar superfícies muito mais duras do que aquela parede, dai o estragos...No entanto, poderia ter de imediato avisado os Sacerdotes, tentando redimir o disparate, mas a curiosidade, que nem era uma característica muito vincada em mim, apossou-se do corpo e da alma e fez-me ir de encontro àquele espaço negro que desafiava teimosamente o meu destino.
Destino. A palavra hoje soa-me como uma premonição e não como a linha a seguir previamente traçada
Admito-o, admito-o claramente, que tive medo, ou receio. Provavelmente seria apenas um pressentimento, mas como poderia adivinhar que naquele espaço sem iluminação estaria o meu futuro? A sua negrura puxou insidiosamente a minha curiosidade, pareceu chamar algo em mim...Por isso o tal pressentimento foi confundido com o natural medo pelo desconhecido.
Poderia eventualmente não ter “cedido à tentação”, mas penso que de nascença não possuía só os cinco dedos, mas também algum impulso louco que, vim a saber mais tarde, sobejava aos Sacerdotes  mas  que escapava aos meus irmãos de berço.
Seguindo está lógica, apetrechei o capacete protector com o par de lanternas para o qual ele estava de resto preparado ( não esquecer que o meu emprego obrigava a ter luz própria, destinada a verificar a correcção das perfurações e ligações eléctricas).
Com alguma ginástica esgueirei-me pelo buraco estreito, entrando numa espécie de caixa de ar, da largura do meu corpo, a tresandar a humidade, o que denotava não ser limpa à imenso tempo... Deitado olhei em frente, e no fundo deste pequeno túnel vi uma luz fosca. Depois de rastejar cerca de dois metros encontrei, do meu lado direito uma rede, e por detrás dela uma sala do tamanho de um apartamento. O túnel esse devia prolongar-se por toda a Catedral, convidativo por isso a uma exploração, mas a minha curiosidade já tinha encontrado o objectivo...
Aquilo que perfurara fora afinal um antigo sistema de ventilação.
A rede saiu facilmente dado estar apenas encaixada.
A sala, que se encontrava tenuemente iluminada por uma claridade que vinha de luzes escondidas no tecto, dispunha, de alguns enormes armários de parede, uma cama,  duas secretárias e várias dezenas de ecrãs de televisão, semelhantes, mas muito mais avançados do que os nossos. Neles podiam-se ver todas as naves da catedral, através de diferentes ângulos proporcionados por inúmeras câmaras. Sei-o, porque experimentei alguns dos botões numerados que ladeavam os ecrãs, sendo que a cada girar dos botões uma nova perspectiva me era oferecida.
Sala de teleconferências, divisão destinada a controlar as actividades das diferentes naves da Catedral, um mero quarto, de qualquer das maneiras era, no mínimo, pecaminoso eu estar a violar um espaço de tamanha importância. Mas se já lá estava...Atraído pelas portas de madeira maciça do armários de parede, e motivado pela curiosidade com anos que me fez querer saber de que material  seriam feitas as vestes dos Sacerdotes, mais depressa do que leva a contar, abri as portas e o meu olhar quase cegou perante as dezenas, (ou centenas?) de exemplares da nobre peça! Imensos fatos! Tantos que certamente que cada Sacerdotes deveria ter várias mudas de roupa, ou esta permanecia de reserva...E o impulso mais uma vez actuou, pois dei comigo, quase inconscientemente a passear com as mãos num tecido desconhecido, uma espécie de fibra sintética que, não obstante a sua espessura era extraordinariamente leve; facto nada estranho, pois inseria-se no secretismo a rodear este grupo, nos seus inúmeros mistérios que só mentalmente ousávamos questionar.
Mas, infelizmente ousei transpor esses limites mentais, embevecido como estava pela proximidade única dos trajes do fato não me espantou, não deixando por isso de os querer experimentar, experimentar a sensação de ser um daqueles veneráveis e honrados homens, a sensação de ser um semi-deus! Devo dizê-lo que, na altura, me senti envaidecido pela forma como me ficava o fato, apesar de ficar um pouco “à larga” dentro dele...Num acesso de vaidade exacerbada, procurei um espelho e, perante este, tentei imitar alguns dos gestos dos Sacerdotes que a minha memória preservara, citando várias passagens dos diferentes livros sagrados. Esquecido do tempo, fui teatralizando, imaginando-me a dominar o olhar hipnotizado do povo, seduzido pelo meu próprio desempenho perfeitamente dentro do papel até que...Reparei que faltava qualquer coisa. Claro! As luvas! Como me pudera esquecer das luvas! Raramente vistas, eram mais um elemento a exercer um fascínio enorme, o fascínio das raridades. De um preto reluzente, ligeiramente mais claro que o fato, as luvas pareciam mágicas quando nas mãos deles, dando expressividade aos gestos largos e envolventes, parecendo ulular no ar, cortando-o majestosamente, seguindo a voz grave e séria com que Sacerdote falava. Ou talvez fosse meramente um fetiche meu...De qualquer das formas o que importava era o facto das luvas não poderem faltar à minha simulação. Procurei-as perto dos outros fatos encontrando-as numa pequena gaveta.
Infelizmente a simulação seria parcial devido à minha deficiência física, sentiria sempre a falta de qualquer coisa, a ausência do maldito dedo, aparecendo este murcho na luva. Mas se...a ideia na altura pareceu-me óptima, pelo que tirei das minhas calças alguns pedaços de pano, com os quais limpava os buracos feitos na rocha, decidido a preencher o espaço em falta.
Sentado na cama preparei o simulacro, e foi então que comecei a deixar de perceber.
Para meu grande espanto, o espaço que iria ocupar nas luvas estava já preenchido. Poderia ser uma forma de manter as luvas direitas, mas esta hipótese era negada por só o sexto dedo estar preenchido!
Que raio! Isso só poderia dizer...Procurei outros pares de luvas, e em todos encontrei o sexto dedo falso, ou seja aparentemente não se tratava de uma deficiência, mas antes de uma característica comum a todos os religiosos!
Seriam os cinco dedos a marca que levava à escolha para Sacerdotes? Mas, se assim o fosse, porque não fora eu escolhido?! E, além disso, este facto parecia-me inverosímil pela simples razão dos Sacerdotes não controlarem os nascimentos e pouco saírem da Catedral! Pelo contrário, fora do templo e das suas obrigações a liberdade pessoal de cada um era, precisamente deixada a cada indivíduo. Nunca, em tempo algum os Sacerdotes ousaram penetrar na casa de um de nós! E se controlavam os fluxos migratórios, apenas o faziam em relação a grandes massas de indivíduos e nunca em relação a ninguém em particular. O facto de nunca ninguém ter falado na existência de seres com cinco dedos era mais uma prova da sua raridade, por isso este não poderia ser um factor de escolha. Ou seria? Afinal, os meus pais tinham mudado de cidade mal começara a frequentar a escola e a esconder a minha diferença, sendo que nesta cidade, à excepção de Julie e da minha família próxima mais ninguém estava a par da diferença...
Perfeitamente confuso tentei perceber, não o conseguindo, por muito que o tentasse.
Contudo, mais do que as luvas dos Sacerdotes com cinco dedos, houve algo que me impressionou e me levou a decifrar o mistério em que vim a descobrir estar mergulhada toda a nossa existência.
Desorientado pelas dúvidas, decidi mexer em todos os botões dos ecrãs, procurando , respostas que dessem alguma lógica à minha descoberta. De inicio nada aconteceu, repetiam-se os ângulos da catedral, mas após ter feito uma combinação entre alguns dos botões surgiram outras imagens. Numa delas aparecia a Fábrica e milhares (ou milhões?) de linhas que se estendiam por toda a cidade. Decidi ampliar aquela que passava pela minha rua, mais precisamente o meu prédio descobrindo então que essa linha saia para o exterior, precisamente no local onde se ligava a construção ao suposto solo rico em energia. Ou seja, a ligação não fora casual, fora feita num local preciso e determinado.
As suspeitas avolumaram-se.
Girei mais uma vez os botões, e, desta vez obtive novas imagens, da Fábrica com apenas três grandes linhas que se dirigiam ao deserto de Leon. Nova ampliação. As linhas não eram mais do que gigantescos tubos, ou túneis, cujas dimensões permitiam a suposta circulação de pessoas e veículos. As imagens tinham sido tiradas do céu, a uma altitude razoável, e com métodos desconhecidos, além de não dispormos de aparelhos voadores nem de balões, e, claro de aparelhos que conseguissem  fotografar o subsolo.
O mistério adensava-se, ao mesmo tempo que, aparentemente, se simplificava.
Havia, não restavam dúvidas, uma ligação entre a Catedral, a Fábrica e o deserto.
Mas, se havia túneis, porque é que não era permitida a nossa circulação durante quase todo o ano? O que levaria os Sacerdotes a desaconselhar tal?
Foi está dúvida que me levou a visitar o deserto de Leon, e a começar a descobrir toda a verdade.
Para minha sorte ou tremendo azar, todas as imagens dispunham das respectivas coordenadas geográficas, pelo que uma ida ao deserto se mostrava já como irresistível. Sentia ter na mão instrumentos suficientes que me permitissem esclarecer todas as minhas dúvidas. Podia, claro, ter ignorado tudo aquilo, voltar à minha vida, esquecer os mistérios, integrando estes nos dogmas intocáveis dos Sacerdotes.
Mas era tarde demais, aquilo que sabia era suficientemente inquietante para me deixar em paz, tinha obrigatoriamente de saber o que se passava.

(Continua...)

Conto protegido pelos Direitos do Autor

Miguel Patrício Gomes
Enviado por Miguel Patrício Gomes em 15/05/2006
Reeditado em 27/06/2008
Código do texto: T156351
Classificação de conteúdo: seguro

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Miguel Patrício Gomes