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CRIME EM EUROPA (Segunda parte)


CRIME EM EUROPA – SEGUNDA PARTE –

Ao chegar a casa encomendou, pelo serviço de cafetaria, o jantar, depois sentou-se na sala principal e ligou o televisor, basicamente um quadro de 100cm por 100cm e 4 mm de largura, material original da estação, mas já perfeitamente desactualizado pelas novas 3D. Todavia, além do seu ordenado de agente ser desadequado aos preços da tecnologia de ponta, a parca utilização e quase total indiferença em relação à maquinaria não directamente envolvida com a sua profissão, estavam longe de justificar a mudança.
Escolheu o menu das noticias uma hora antes, pois as da actualidade imediata ainda estavam a ser enviadas.
Nada lhe atraiu especialmente a atenção até chegar à letra E.-”Os governos dos países mais desenvolvidos, reunidos na cimeira anual G15 chegaram finalmente a um acordo no que toca à instalação de mais estações em Europa. A repartição será feita relativamente à capacidade material de cada um dos envolvidos conseguir instalar em condições operacionais todo o material num espaço de entre cinco a dez anos. Relativamente às cotas de exploração, os critérios são exactamente os mesmos. De forma a evitar um excesso de oferta limitar-se-ão as quantidades extraídas. Ficou também determinado a diminuição de pessoal armado como prova de boa vontade entre as nações envolvidas e no espírito de concórdia universal consignado na carta da exploração cosmologica pelas nações unidas. A primeira consequência directa do desanuviamento será a prioridade dada à colocação de novos agentes saídos das escolas. As estações constituirão assim parte de um treino, experiência “pré-ruas” destinado a experimentar psica e fisicamente os homens da lei. Toda a restante estrutura de pessoal, é mantida intacta.”
Dentro de um ano, no máximo seria substituído, não o lera, mas sabia-o. Os regulamentos obrigavam o substituto de um titular de longo prazo a deslocar-se mais cedo de forma a inteirar-se totalmente do serviço, e um ano seria o tempo que lhe restaria.
Embora longe de estar desiludido, não conseguiu evitar a nostalgia do local. Afinal dez anos eram dez anos...Certamente iria requerer a reforma antecipada, consciente da sua falta de capacidades na adaptação ao stress, novos métodos e criminosos mais...”refinados”. Conhecia demasiado bem as histórias de agentes regressados ao palco terrestre – Secretamente desejados pelos adversários, desastres autênticos cuja produtividade dúbia constituía grave obstáculo ao trabalho dos colegas. Quase sempre acabavam alcoólicos, drogados, suicidados, ou a guardar prédios decrépitos. Entre as classes baixas um zelador ex-polícia constituía um “must” irresistível, apesar de ser mais barato e seguro instalar qualquer sistema de segurança, quase independentemente do grau  de eficácia...
Levantou-se, vagueando, pensativo. Do frigorífico tirou a dose habitual de álcool e engoliu-a. Os médicos já o advertido para levar uma vida mais regrada, ao que respondia com as quantidades típicas das suas drogas privadas.
Lera e vira documentários de outros tempos, de homens iguais a si, desprovidos de qualquer tipo de sonhos a não ser a autonomia da sua própria irrisão. Ou então seria outra coisa qualquer, mas achando irresistível a frase, conservava-a, venerando esses seres obscuros do último dos séculos das ilusões. Para ele eram clássicos, modelos com quem se sentia bem equivaler. Os outros, os clássicos do resto do planeta não lhe diziam nada. Mal os conhecia, seria incapaz de citar um Platão, de nomear uma área de qualquer sinfonia, dizer o nome de um dos construtores da actual ordem mundo, era cego nesse campo, pois limitava-se a seguir os mestres escolhidos por si, entidades sem rosto, vegetando no pior dos meios humanos, irremediavelmente desprovidos de ilusões, cuja secura só se equivalia a um tenebroso realismo, mas sem os quais a situação nas ruas mal iluminadas, bem longe dos altares de sociabilidade e tecnologia (onde se comemorava a santíssima trindade composta pela Real Politic, Diplomacia , e Multidões felizes) seria virtualmente incontrolável. Como recompensa tinham as migalhas da grande ceia, despojos inúteis a outros, mas paliativo da sua não crença.
Tudo isto tinha Ernest na cabeça. Frases feitas, lugares-comuns alinhavados e, essencialmente uma enorme vontade de acreditar que tudo seria como ele pensava ser. Novamente a lógica da imprevisibilidade o assombrava, o verdadeiro, e porventura único fantasma a mantê-lo ali enclausurado.
Não sobreviveria ao regresso, sabia-o bem, porventura seria esta a única certeza a ter.
Alguém tocou à porta.
Era Berta.
Apesar de vir vestida informalmente e estar nitidamente pouco á vontade, achou-a elegante e bonita, interrogando-se como ignorara este aspecto à pouco.

-Julgava ser apenas mais uma adjunto, mas ficará como a última -Disse procurando assunto de conversa.
-Como?
-Estou de saída, a ordem das comissões foi alterada. O meu substituto deve chegar dentro de alguns meses. Depois é o tempo de lhe ensinara lidar com esta pasmaceira e regresso, talvez consigo...
-Não sei o que dizer...
-Compreendo...não viu as notícias.
-Quando saímos da terra...
-Minha cara, distantes mas acessíveis. Longe vai  a altura em que as novidades chegavam somente nos transportes...
-Estamos ligados?
-Completamente. Melhor, indirectamente pois a distância obriga as imagens a chegar uma hora e picos mais tarde. Tal diferença revela-se irrisória aos saudosistas da terra. O isolamento mede-se na velocidade da luz. Mas...Ora, ora, aqui estou eu a dar lições a uma Dra...
-Estará a esquecer as suas próprias palavras? Somos iguais...o grau académico ficou no lugar de embarque.

Ernest olhou para o rosto oval onde cabelos à egípcia olhos médios, boca carnuda e faces vermelhas, denunciavam a juventude da agente e achou particular gozo no rumo que estava a conferir ao diálogo.
Podia evitar ser desagradável, não tinha necessidade disso, mas o mau-humor decorrente das novidades tinha de ser descarregado sobre alguém, ora esse alguém era Berta...
-Os coordenadores do Projecto Vivências não estariam mais em desacordo.
Berta empertigou-se e prestava-se para ripostar quando se recordou do posto e do poder que Ernest detinha, preferindo adoptar uma postura mais branda, tentando perceber as intenções do seu chefe.
-O projecto nada tem a ver com isto.
-Nada? Seria absurdo desperdiçá-la no reino do ócio...peço-lhe para não me insultar a inteligência. Embora tenha gostado pouco de ter sido ignorado, vou facilitar-lhe a vida. Amanhã terá na sua secretária vários nomes e moradas de gente adequada para servir de cobaias ao seu estudo.
-Eu...
-Dispenso agradecimentos. Fará um favor aos dois, ocupando-se e ocupando-me essa gentinha...
-Mas não posso deixar de o fazer. Mas, francamente esperava encontrar nesta estação um caldinho de problemas maior...Por exemplo, parece-me no mínimo estranho a ausência de crimes por estes lados. No mínimo, a solidão, potencia a eclosão de um tal surto de conflitos que nem mesmo a “anestesia” da medicação controlaria totalmente.
-Houve um caso...
-Não mencionado na folha de ocorrências. Espero não me levar a mal, mas de forma a saber o que me esperava li todos os seus relatórios...
-Era de calcular...mas a razão é simples. Tratou-se apenas de um deslize do responsável pela secção de refrigeração. O desgraçado fez uma fixação qualquer com a mulher, insistindo que esta o traia com toda a gente.
-Delírio de ciúme...
-Ou isso. Após sessões de pancadaria monumentais, ela queixou-se e eu encerrei o desgraçado numa cela. Custou-me bastante pois ele era, tal como eu, um dos mais velhos da estação.
-Posso observá-lo?
-Infelizmente não. Recambiei-o no mesmo transporte que a trouxe. Parecia-me cada vez mais agitado e chegou mesmo ao ponto de se tentar suicidar. Com ele chegou o único relatório que fiz sobre o assunto destinado ao grupo cínico que se irá ocupar dele.

Nesse momento Raquel entrou apartamento.
Ernest fez as apresentações deixando as duas mulheres a conversar enquanto devorava novo bloco de notícias enquanto esperava o jantar.
Não se mostrou minimamente preocupado com a possibilidade da companheira revelar a Berta alguns pormenores da sua vida mais íntimos, simplesmente porque Raquel quase nada sabia sobre ele.
O jantar e o resto da noite foram passados em amena e inútil cavaqueira e as tentativas da companheira em “despachar” o mais educadamente possível Berta. Como esta ignorava os estranhos hábitos de Raquel naquela estação, não percebeu, sendo que, á medida que as horas passavam a segunda ficava cada vez mais irritável. Quando, por fim, ela saiu Ernst viu-se a braços com uma das cenas habituais.

-Criaturinha irritante.
-Exageras, é antes de mais uma excelente profissional...a folha de recomendações chega a impressionar...
-Excelente...!
-Querida, vamos para a cama,  já só nos restam algumas horas.
-Pois, e tu a pensares nela!
-Raquel...
-Dormes sozinho, sozinho não, a pensar nela, e quem sabe, talvez até lhe telefones!!!
-R...
-Adeus.

Se fosse no tempo dos seus modelos, a porta tinha sido fechada com tal violência que todo o piso estremeceria. Ali o som suave do metal deixava apenas a entender a saída de alguém, feliz, irritada, indiferente, fazendo lembrar que até o som era monótono.
Olhou para a entrada e cheirou o ar. Raquel deixara a presença no perfume. Tudo o que lhe restava de uma noite preparada para ser especial.
Sentou-se na cama, acendeu um cigarro e bebeu um pouco de álcool puro. Amaldiçoou o idiota que se lembrara de proibir bebidas alcoólicas nas estações, sob o pretexto duvidoso de estas potenciarem a instabilidade. Por acaso, só por acaso, conhecidos na terra tinham-lhe contado que esse mesmo idiota perdera a primeira concessão desses produtos. Por acaso, só por acaso, poucos meses se tinham passado quando surgiram vários estudos de especialistas de renome a alertar para o perigo da utilização dessas bebidas em ambientes não-terrenos.
Todos sabiam a utilização pouco médica dada ao líquido favorito de Ernest, as remessas anormais eram disso prova insofismável, mas como ninguém se queixava e as entidades responsáveis pelo controlo de produtos proibidos se mostravam estranhamente inactivas, a situação perpetuava-se
Apesar da passagem dos anos e da perseguição sazonal, os “lobis” continuavam a condicionar decisões, cuja delicadeza exigia total isenção. Mas isso fazia parte do seu mundo podre que até ali, na última fronteira humana lhe tocava de perto.
Por estas e por razões nenhumas decidiu embriagar-se.
Na madrugada seguinte, ou seja dai a três horas, o despertador pagou a sua enorme dor de cabeça.
Após meio maço de cigarros chegou ao escritório.
Havia muito que não se sentia tão mal. Até as diferentes cores suaves de que era pintado o interior da estação (segundo os especialistas estas cores tinham uma função terapêutica, relaxante) lhe pareceram agressivas tanto que os inevitáveis ocúlos escuros fizeram a aparição no visual do polícia. Pelo caminho passou pelo do hospital da zona e, por uma vez, aderiu ao mundo das drogas; importava, a todo o custo conseguir um mínimo alivio, pelo que mal se importava de sacrificar alguns princípios, pequeno-almoço e o treino.
Sentou-se à secretária, como o fazia desde à dez anos , e esperou as mensagens habituais.
Ignorava-o, aquele dia estava destinado a ser o primeiro de uma série a mudar a sua vida para sempre.


                                II

Berta chegou pouco depois de si. Cumprimentaram-se, ela preencheu as folhas de presença, marcou várias sessões de treino e saiu.
Faltavam poucos minutos para a hora de almoço quando Ernst recebeu uma mensagem pouco comum. De imediato dirigiu-se até ao apartamento onde fora emitida a queixa.
Era a zona onde moravam os exclusivismos prospectores.
Foi encontrar um ser estranho, totalmente desalinhado, cabelos no ar, base mal posta, olheiras a rivalizar com as suas e a inconfundível voz arrastada do “totalmente agarrados” (gíria policial para os habitantes que durante a estadia na fronteira eram “os melhores clientes do posto médico”)

- O meu marido desapareceu -Disse
-Há quanto tempo?
-Três dias.
-E só agora nos contactou?
-Mmmm...Levantei-me esta manhã e não o vi.
- Compreendo...

Mesmo um novato compreenderia o valor nulo do testemunho da queixosa, por isso não insistiu mais, sabendo ter de ser ele a achar o marido. Felizmente para si a velha e estafada frase “Quanto mais sofisticada for uma civilização, menos privacidade existe”, facilitava-lhe a tarefa. Aquele era a estrutura humana mais vigiada, por isso bastava carregar nalguns botões para se descobrir a pessoa procurada. No entanto, sentiu-se suficientemente bem-disposto para prolongar as coisas e marimbar-se para a tecnologia. Iria fazer as coisas à moda antiga, e por isso tomou de imediato a direcção do poço, certo de encontrar o “desaparecido” a trabalhar calmamente.
Enganou-se. O individuo em causa tinha de facto desaparecido. Parcos em comentários, os colegas limitaram-se a justificar qualquer que qualquer ausência só deveria ser comunicada à polícia pelos parentes da vítima.
Um pouco irritado mas conformado, Ernest deixou os “métodos antigos” de lado e despachar a questão. Verificou quem estava de serviço à central de ecrãs e dirigiu-se a esta. Pelo caminho convocou Thomas, o homem que vigiava a zona a quando da ocorrência.
As indicações fornecidas foram inconclusivas. Nada tinha acontecido de anormal, pelo menos foi o que lhe afiançou Thomas, conhecido pelo seu rigor profissional, por isso digno da confiança do polícia, que nem quis verificar as imagens gravadas dos locais por onde, supostamente andara o desaparecido.
Pelo sistema interno de televisão, emitiu a imagem e um pedido de informações sobre o desaparecido. Se este se “tivesse ausentado voluntariamente” para bem longe da sua “ausente” esposa, poderia ter sido visto por alguém.
Chegou a pensar em accionar a directiva que lhe permitiria accionar as câmaras dos aposentos, mas toda a tralha burocrática consequente a esta acção atemorizou-o. Um simples desaparecimento com o final previsível (um regresso ao lar depois de uma facadazita ao matrimónio...) não valia esse expediente.
Afinal bastava-lhe esperar.
Mas dez horas de espera no escritório depois desfizeram-lhe as ilusões.
“Como descobrir o tipo sem a merda da directiva?”
“Simples”, procuram-se locais pouco lógicos onde ele esteja, e que por causa disso mesmo não mereceram a colocação de uma câmara...
Ligou o ecrã do computador e preparou-se para uma directa.
Sózinho, preferira ignorar Berta por nada confiar na sua preparação, “demasiado académica.”
Esta era uma missão de busca típica, para polícias puros, ou pelo menos para homens como Ernest, que sem mais nenhuma preparação a não ser a de polícia só isso sabia fazer, sem o estorvo de outras especializações dedicaria todos os seus recursos à missão.

  -Mapa da estação e respectivas subdivisões.

Depois, inseriu o código confidencial da polícia e requereu a informação menos acessível, respeitante a áreas de acesso exclusivíssimo.
Em termos puramente analógicos, a estação baseava-se em conceitos antigos, datados do século XX e XXI. A própria estrutura assemelhava-se, mas tudo o resto diferia enormemente.
Surgida do desespero devido ao esgotamento das fontes minerais de energia, e perante a incapacidade física do rápido desenvolvimento das chamadas fontes de energia limpa, foi com imenso grado que se receberam notícias indicando a existência de alguns recursos, semelhantes aos desaparecidos, na lua de Vénus baptizada ‘Europa’. Mas essa tarefa implicou um esforço titânico, mesmo para a avançada tecnologia: houve problemas novos a superar, desde a distância (resolvido com o aparecimento dos primeiras grandes naves de transporte bem como da melhoria substancial das condições de voo) à própria problemática inerente à instalação de estruturas complexas em terreno alienígena. O mais grave, aliado a este, era o facto de Europa estar coberta de gelo e, por debaixo deste, existir um enorme oceano. Havia que destruir esse gelo e depois fazer as primeiras prospecções. A ajuda inestimável de satélites revelou-se fundamental na detecção das áreas de maior interesse, mas surgiam continuamente complicações atrás de complicações, adiando e desmotivando os mais crentes na ousadia.
A empresa esteve por um fio, mas, devido ao agravar da situação global as necessidades superaram em muito qualquer outro obstáculo. Ao fim de cem longos anos de intenso trabalho, a raça humana começou a segunda parte da sua evolução ao instalar a primeira cidade fora do planeta de origem.
Devido à sua própria natureza, as estações constituiriam os núcleos populacionais mais especializados da história. Cada ser dispunha de tarefas bem específicas que deveria articular com os seus colegas de especialidade diferente e da melhor forma possível. Para a conciliação em muito contribuiu a urgência quase “histérica” imanente à façanha.
Em termos meramente científicos, as novas descobertas constituíram por si só um avanço assinalável. Desde a física aliada à química na procura dos materiais ideais, à biologia onde se testaram as plantas e animais ideais a serem transportados para o ambiente artificial, passando até pela psiquiatria e psicologia, traves mestras do novo homem da fronteira, mais sociável, profissional, produtivo, etc..., passando por todos os outros ramos de saber. Impôs-se uma análise global para um problema terminal.
Os resultados revelaram-se acima das melhores expectativas. Concomitante ao sucesso da prospecção, as estações tornaram-se, elas mesmas, estrelas de primeira grandeza. Passou a ser moda viver numa delas, viver no seu interior constituía um sinal de importância quase transcendente. Todavia, como estes eram definidos em função da competência, excursões de curiosos endinheirados fizeram de Europa o destino da nova elite monetária ( isso das viagens espaciais de grande turismo para a população em geral continuava a ser uma visão feliz de ficcionistas populistas). Estrelas das passerelles faziam-se fotografar tendo elas como fundo, astros do cinema disputavam papeis em filmes de alto orçamento onde as replicas das estações obscureciam os actores destinados a chamar o público, miniaturas eram vendidas aos milhões a crianças totalmente intoxicadas pela propaganda, antigos tripulantes faziam milhões dando entrevistas e autorizando biografias, engenheiros e técnicos envolvidos no projecto ganhavam prémios Nobel atrás de prémios Nobel, os políticos prometiam a pé juntos fazer tudo para que esta corrida jamais parasse, evitando assim a enorme lacuna temporal a separar o célebre discurso de J.F Kennedy (que “empurrou o homem” sete anos mais tarde para o solo lunar) e a conquista de Marte quase cinco décadas depois.
As pressões internacionais mobilizadas pelos média chegaram até a obrigar à redesignação do nome das estações. Assim, as anónimos E1, E2, E3, E4, E5, passaram a ser conhecidas por Armstrong, Aldrin, Collins, Gagarin, Shepard, alguns dos mais proeminentes astronautas dos primeiros tempos, embora, para os seus habitantes as designações iniciais continuassem a ser usadas. A euforia chegou ao extremo de se considerar as instalações zonas livres de pessoal militar, onde apenas existiria o corpo policial indispensável à manutenção da ordem.
Ao fim de alguns anos, só as estruturas estavam longe de desiludir. A comida era comestível mas praticamente intragável, após o enorme falhanço dos diferentes modelos e escolas na resposta impossível à solidão da fronteira, cientistas esgotados preferiram receitar doses de barbitúricos, calmantes e medicamentos semelhantes, adiando ; ‘sine die’ a questão (certamente esperando o surgimento de qualquer outro paradigma suficientemente complexo e esotérico para lhes agradar) desejando ser esta a solução ideal para evitar a implosão dos tripulantes.
O público tinha-se cansado, e os grandes colossos de entretenimento e informação viraram-se para outros mercados “menos saturados”. O esvaziamento da novidade redundou numa inevitável desmotivação por parte dos candidatos mais qualificados, o que levou a um “abrir de malhas” no processo de selecção. Candidatos de segunda ocuparam assim os postos da antiga elite, indo a excepção para os prospectores, técnicos do mais alto nível com os salários mais caros e melhores condições. Cientes da sua importância, as chefias promoveram a diferenciação, optando por, deliberadamente, marcar bem a importância dos “seus “ homens de mão; estes eram abrigados a um regime de excepção quase espartano, sendo proibidos de consumir qualquer tipo de estimulante ou calmante, devendo restringir os contactos pessoais com outras especializações a um mínimo essencial. Assim, apesar das mudanças, os minérios continuavam a chegar à velocidade esperada. Como sempre, a dura perspectiva dos números substituíra qualquer veleidade idealista que pudesse ainda subsistir. Estava escrito que qualquer iniciativa humana só existiria quando o lucro a locomovesse. O espírito pioneiro, a exploração pela pura e ingénua vontade de conhecer estava destinada a teses de doutoramento, quase meros exercícios de estilo, perenes de retórica, mas frequentemente visionários, e à delicia de alguns media. Sem corporações não haveria evolução esta era a sua sina e por isso mesmo Ernest deixou-se de filosofias regressando à realidade, deixando a história para trás, e debruçando-se sobre os complexos esquemas.
Olhou o esquema tridimensional de E1, levantou-se, fez um pouco de café e acendeu um cigarro. Coçou o queixo, semi-cerrou os olhos, tentando concentrar-se na imagem. Onde estaria o homem, qual a razão das câmaras de vigilância não o detectarem? Onde? As câmaras só não cobriam a zona da maquinaria, ainda demasiado confidencial, e só conhecida pelos técnicos responsáveis pela sua manutenção, sendo o acesso ainda mais proibitivo. Neste caso, só se um deles encontrasse qualquer coisa é que poderia dar o caso como finalizado.
A estrutura Armstrong parecia desafiá-lo. Enorme quadrado de 3 x 4 quilómetros de lado por vinte andares de altura, erguendo-se duzentos metros sobre o mar e gelo, fortemente alicerçada  numa dúzia de maciças colunas, estava  dividida em apartamentos da habitação, instalações de suporte e manutenção, centrais energéticas, hospitais, escritórios, restaurantes, áreas de diversão, departamento policial e respectivas instalações para treino, Espaço-porto (no último piso, incluindo o tecto) e finalmente o sector mais exclusivo constituindo sessenta por cento da área total. Sendo a prioridade a actividade extractora, a estação tinha sido construída em função desta. Assim, não seria de estranhar a total subordinação de todas as outras a esta. A própria silhueta da estação era bem o espelho deste conceito. Uma enorme torre com perto de quatrocentos metros de altura erguia-se no horizonte marítimo de Europa. Tudo o resto constituía um mistério para os  não-especializados. Qualquer visita teria de ser autorizada e, quando realizada, era-o sempre sobre apertada vigilância de alguns guardas privados; embora a plataforma pertencesse a um ou mais países, esta indústria era património das corporações, bem como o corpo de segurança. Nem mesmo a polícia tinha autonomia para investigar esse local, só em casos bem definidos e de gravidade extrema.
Ora não era esta a situação e Ernest estava longe de querer consultar os superiores na terra. Teria de esperar, dando a si próprio cinco dias.
Sentiu alguém a entrar na sala.
Era Berta, de semblante carregado.

-Porque me manteve incógnita sobre o caso? - Disparou repentinamente.
Sem tirar os olhos do ecrã, ele acendeu novo cigarro, esperando uma reação da sua antagonista.
-E...
- Se acha justificável pode desde já começar a investigação. Quanto ao fumo, consulte a folha de multas onde verificará estar tudo em ordem. Mais alguma coisa?
-Acho somente estar a ser pouco informada...
- Porque havia eu de o fazer? Isto não é um caso, é uma ocorrência, uma banalidade igual a milhentas que já resolvi, sem a ajuda de ninguém... E mesmo que fosse um  qual é a sua experiência? Análises psicológicas e conceitos abstractos de pouco me valem. Se além das habilitações por mim conhecidas for médium começa a trabalhar de imediato!  Este está longe de ser o primeiro desaparecimento e nem será o último. Faz parte da rotina desaparecer-se durante alguns dias...
-Mas trata-se de um prospector...
-Sim, e depois? Apesar do tratamento diferencial, eu considero-os iguais a todos os outros e assim o irei tratar. Fique descansada. No hipótese duvidosa de precisar dos seus serviços não hesitarei em a consultar.

(Continua)

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Miguel Patrício Gomes
Enviado por Miguel Patrício Gomes em 20/05/2006
Código do texto: T159719
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