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S.O.S

O ano é de 2019, o ano em que já não se podia negar mais

-Algo de muito estranho se está a passar no deserto Israelita.
-Descobriram os restos da Arca?
-Pior, muito pior…



                           S.O.S

A questão já não se resumia a saber se estávamos ou não sós.
A questão era sabermos se nos conheciam
 e se admitiríamos esse conhecimento


                               I


Os ecrãs de teleconferência de meia-dúzia de chancelarias acenderam-se a uma velocidade impressionante, mudando continuamente de frequência, como se dum zapping governamental se tratasse, perante a estupefacção da notícia. Só quando as primeiras imagens começaram a chegar se teve a certeza que não se estava perante um dos maiores embustes jornalísticos da história recente.
Depois do choque político veio o científico, e por fim o social. Ninguém queria acreditar, mas as evidências eram tão claras que praticamente se dissiparam as dúvidas iniciais. De forma a esclarecer definitivamente a hipótese de logro enviou-se uma equipa internacional ao atlântico norte. Durante dias a fio esquadrinharam a área onde o gigante mergulhara para dormir pensava-se que para sempre. Mas no fundo não encontraram nada, apenas pequenos objectos, restos do túmulo. Por fim, e depois de comparadas as fotografias começou-se a acreditar.



                               II


Naquele dia, como sempre, Ibraim atravessava o deserto a grande velocidade, tentando cumprir o prazo de entrega de material à escavação arqueológica. O pedido era urgente, e a tempestade que durava há já alguns dias impossibilitava a entrega por avião ou helicóptero. Só ele mais a sua caravana de veículos especialmente adaptados estavam à altura dessa missão. No pequeno quadrado à sua frente confirmava permanentemente a posição dos outros cinco veículos sem condutor. Normalmente tudo corria bem, mas os malditos radares guiados por satélite por vezes faziam das suas, não sendo a primeira vez que ele perdia um carro. Versão mais desenvolvida e especializada da antiga telemetria, podiam acelerar inclusivamente no escuro sem qualquer perigo, dado que qualquer obstáculo maior do que um lagarto era de imediato assinalado, e, em caso disso a rota corrigida.
Faltavam apenas quinze quilómetros quando foi dado o alarme. Uma das características do sistema era aumentar o volume de som consoante o grau de alerta. Por isso o jovem árabe pensou que a maquinaria estava a avariar de tal forma começou a gritar. Quase surdo, desligou a instrumentação quando se encontrava a vinte metros desse obstáculo. Apesar de toda a tecnologia, a tempestade era de tal forma poderosa que ele a olho nu nada via.
Decidiu esperar.
Quando esta passou Ibraim recusava acreditar na imagem com que insistentemente os olhos o bombardeavam : o casco enorme, dividido em dois de um navio, muito deteriorado e enegrecido pela água do mar e cobertos de algas ( e até alguns peixes que ainda se agitavam devido à falta do mar)  desafiava a lógica do deserto.
Ainda há poucos dias ele tinha feito o mesmo percurso sem nada encontrar, ou seja a coisa fora lá parar há pouco...
Sem sair completamente do transe, dirigiu-se à escavação e arrastou os espantados cientistas até ao barco.
A reacção destes em nada ficou a dever à do condutor, mas, mais rapidamente refeitos do espanto, passaram a examinar os destroços friamente, à procura de respostas…
Quando, na parte da frente do barco viram o seu nome, em vez de começarem a compreender perderam a lógica restante.
Meia carcomida pelo tempo, a placa ainda ostentava as outrora orgulhosas letras onde se podia ler TITANIC.
Alguém entre o grupo sabia a história do achado razoavelmente bem: fruto do fulgor tecnológico do século. XIX, a máquina tinha sido pensada e construída no início do século seguinte, possuindo o estado da arte da tecnologia da altura, albergando algumas soluções técnicas inovadoras, como o eram o casco dividido em secções estanques, a permitir em caso de choque o isolamento imediato das áreas afectadas, algo a garantir teoricamente a sobrevivência da embarcação em caso de desastre.
Idealizado para a travessia do atlântico com bens e pessoas, o gigante era na altura a maior máquina jamais construída pelo homem e fazia parte da estratégia comercial de uma companhia marítima, a permitir a conquista monopolista dos mares. Na altura, ainda com a aviação a não passar de um quase sonho, e com o automóvel na infância, o transporte de mercadorias era sobretudo feito por via-férrea ou marítima. O acordar inevitável dos Estados Unidos tornaram então ainda mais intensas as trocas comerciais entre os dois continentes. Era no mar que se decidia esta guerra e, cientes disso, os proprietários desenvolveram uma campanha publicitária inusitada para os padrões da época e classificaram o barco como inafundável, tão que (suprema heresia!) nem o próprio Deus poderia enviar esta invenção para o fundo dos mares...
Na viagem de estreia anunciaram inclusivamente que iriam bater o record da travessia do atlântico.
Quando na manhã de 9 de Abril de 1912 o portento deixou Southampton com destino a Nova York muitos acreditaram estarem na presença do limiar de uma nova era.
Dai a três dias o destino desmentiu a vontade arrogante do homem quando, sem ligar particularmente aos avisos sobre a existência de icebergs nas proximidades, o comandante manteve a mesma velocidade. Quando um desses blocos de gelo surgiu à sua frente foi tarde demais. Não obstante a eficácia da tripulação em desviar rapidamente o rumo, o navio ainda raspou de lado na montanha fria. Apesar dos compartimentos estanques terem sido de imediato accionados, seis encontravam-se danificados, número que condenava a perda do Titanic por serem em demasiado número. Com cinco a flutuação ainda seria possível, mas com seis a catástrofe era inevitável. A acrescer a este azar, os ideólogos da máquina, cientes da inafundabilidade desta, recusaram (por motivos estéticos...) apetrechar o barco com botes salva-vidas para todos os passageiros, afinal se ele não se podia afundar...
O saldo desta arrogância revelou-se particularmente dramático pois “à priori” se o barco se afundasse mais de metade dos embarcados estaria condenada. A agravar ainda mais as coisas, as águas frias do atlântico norte não permitiam a sobrevivência mais do que breves minutos.
Num apelo desesperado o telegrafista lançou uma mensagem “Save Ours Souls”, cujas iniciais ficaram na história como o código internacional de socorro.
Demasiados distantes, os outros navios destinaram-se a recolher os escassos sobreviventes que tiveram a sorte de caber nos botes.
A partir dessa altura o Titanic repousou partido em dois pela pressão da água aquando do naufrágio, a cerca de dois mil metros de profundidade.
Desde cedo exerceu enorme fascínio o naufrágio, fascínio que aumentou ainda mais quando, em 1985 os restos foram descobertos e fotografados. A partir dai várias expedições visitaram esses destroços e recolheram pequenos objectos e pedaços do navio, no máximo com algumas centenas de quilos. A profundidade e a respectiva pressão impediam que se retirassem objectos ou partes do navio de maiores dimensões.
Por isso o achado não tinha lógica.
Depois de se isolar toda a área, de fazer a contra-informação habitual, de se pintar a questão como sendo esta apenas mais um filme em preparação, tentou-se raciocinar pausadamente, embora tudo fosse contra o mais elementar lógica...Para começar, quando o navio assentou no fundo do mar, as duas partes ficaram distanciadas algumas centenas de metros, sendo que agora, no deserto, se encontravam praticamente juntas. E depois a questão mais problemática : como tinha ele ido para lá parar se não havia tecnologia para tal? E mesmo que houvesse, o mundo já se tinha, em bloco, comprometido a não violar o cemitério das mil e duzentas vítimas.
Sem respostas, optou-se por reunir a inevitável equipa de cientistas do domínio de saberes que pudessem esclarecer o mistério.


                              III


A assistente pediu para entrar na sala do professor. Este, imerso em trabalho sorriu-lhe levemente e com gestos indicou-lhe que se sentasse junto da sua secretária. Havia mais de uma semana que não pregava o olho, desde que lhe tinham pedido aquilo, e por isso, embora o desejasse, tinha primeiro que acabar de conferir os dados antes de falar com ela.
Sentiu-se aliviado por ver chegar Silvie. A jovem ao menos poderia servir como depositária da sua angústia, sem achar particularmente estranho o facto.
Considerado um mestre em astrofísica, este antigo astronauta era tido em muito boa conta pela comunidade científica internacional. Dotado de uma rara eloquência, era um comunicador nato, disputado por inúmeros institutos nos quais expunha as suas ideias inovadoras sobre o futuro da humanidade, numa súmula muito particular entre a sua astrofísica, antropologia, sociologia a e filosofia.
A imagem de um cientista não muito novo, mas a vestir-se e a falar como se ignorasse a idade era por demais sedutora por aproximar a ciência dos leigos contribuintes.
Talvez por isso o tivessem convidado para o Conselho Mundial da Ciência, especialmente reunido de forma a analisar o “Caso Titanic”, designação oficial pelo qual passou a ser conhecido e analisado o fenómeno.
Embora não se quisesse empolar este caso, a pressão dos média (quem num raro momento de lucidez se recusaram a aceitar a versão oficial), e um certo mal-estar resultante da ausência duma explicação lógica, levaram os países mais avançados a agirem, constituindo o indispensável grupo de inteligências destinadas a dar as respostas que todos ansiavam. A coisa deveria passar por uma iniciativa da sociedade civil, mas para prevenir a descoberta de algo “incómodo”, além de se terem introduzido os cientistas militares do costume (controláveis por uma questão corporativista), obrigou-se todos os membros a não prestaram declarações públicas individualmente. No fim dos trabalhos haveria a versão oficial divulgada pelo porta-voz do Conselho Mundial.
Embora habituado a algum mediatismo, Franck assustara-se perante a responsabilidade de o terem considerado suficientemente importante para integrar tal elite.
Felizmente existia Silvie.
Silvie fora uma das suas alunas mais dedicadas e inteligentes, o suficiente para ler todas as suas conferências e de as discutir nas aulas, sem o mínimo de pudor em o criticar, se tal achasse necessário. Quando ela acabou o curso, convidou-a como assistente pessoal, passando a leva-la consigo para todo o lado, e a discutir as suas palestras antes de as proferir. Como antagonista, ela era simplesmente brilhante, dotada de uma inteligência rápida e espírito audaz, além de, desde cedo, ter começado a criticar, e pôr mesmo em causa, determinado pressupostas científicos considerados por ela ultrapassados, ou desadequados. Perante tal ousadia, só a protecção dele impedira Silvie de ser prejudicada.
Simpatizando com ela, além de a proteger, Franck promovia os seus artigos, sendo que recentemente começara a ter uma exposição em revistas especializadas quase tão grande como o seu mestre.
De certa forma invejava-a, invejava a frescura, a ousadia, a irreverência, que em tempos também tinha sido sua. Mas tomara ele ter metade do talento da sua protegida...E como não o possuía, projectava nela a carreira que gostava de ter tido.
Via nela uma alma académica gémea, sentindo-se quase em família, e não hesitava sequer em desabafar com ela, quando algo o perturbava ou confundia, como naquela ocasião.
Perfeitamente extenuado, pressionado para apresentar uma versão para o que se estava a passar, lutava contra uma falta de ideias, e com a perspectiva de ir defraudar algumas das expectativas que todos tinham em relação a si. E o pior, era Silvie não poder ser o seu sustentáculo naquela ocasião, dado que só poderia discutir as suas ideias entre os seus novos colegas de ocasião.
Depois de ter revisto aquilo que, na aflição, pôde arranjar, fez sinal à assistente para se sentar na sala de estar a seu lado.

-Professor, para começar queira desde já aceitar os mais sinceros parabéns pelo convite.
-Pois, pois...o problema é esse...
-Problema? Julgava ser uma honra a escolha, Faz parte do maior conjunto de inteligências jamais reunido na história da ciência humana! Cinquenta dos maiores sábios da terra!
-Entre os quais não me julgo de forma alguma de estar à altura. Acima de tudo sou um divulgador, uma espécie de tradutor cientifico. Limito-me a transformar essa coisa abstracta que é a ciência na linguagem do homem da rua.
Que irei eu fazer entre sábios, entre génios?
-Mas os seus estudos? Esquece, ou menospreza o contributo que teve para a concepção dos últimos e avançados telescópios lunares? Foi graças a si que agora incluímos nos mapas estrelares mais meia-dúzia de planetas.
-Sim, mas de que serve isso no Caso Titanic?
-Professor, creio que se está a precipitar...A resposta que quer estará certamente circunscrita às reuniões do Conselho Mundial, é demasiado complexa para ser tida por um só homem...
-Claro, tem razão. Peço-lhe desculpa por esta fraqueza...
-Pelo amor de deus!
-Sim, desculpas porque uso e abuso da minha baixa auto-estima e massacro-a a si.
-Pode crer que no seu lugar eu estaria muito mais nervosa e hesitante. Isso pouco tem a ver com a auto-estima. Pouca gente no mundo possui as suas responsabilidades. Acredite em mim, é uma honra ouvi-lo, e acho até injusto pedir-me a mim, apenas uma mera aprendiz, qualquer opinião. O professor é demasiado inteligente para se sentir diminuído por tão pouco.
-Talvez tenha razão...Agora, se me permite, tenho de ir apanhar o avião, pois não quero fazer o Conselho esperar.
-A propósito, posso acompanhá-lo às reuniões?
-Não, o assunto exige sigilo e máxima descrição, e nem poderei comentar o discutido consigo, apenas a versão oficial.
-É que eu tenho vindo a trabalhar numa teoria...
-Acredito que sim, mas isso de nada me serve. Sou eu e eles. Mas continue os trabalhos, nunca se sabe o que poderá descobrir.

Franck mentia descaradamente. A teoria, ou as teorias de Silvie poderiam salvá-lo, mas, farto de tanto brilhantismo, preferia ir de mãos a abanar do que apresentar o trabalho de um subordinado, mesmo que fosse o dela.
Se fosse um santo estaria num convento, e não a leccionar cadeiras numa universidade, e a fazer milhões em palestras...
Ao contrário do que toda a gente pensava, a reunião foi extremamente rápida, durando apenas duas sessões. Contrariamente às discussões acaloradas e da luta dogmática costumeira e interminável entre académicos, houve um enorme e estranho consenso. Os resultados deveriam então ser divulgados passadas 48h.
Mas Franck não pôde esperar. Apanhando o primeiro voo, convocou a assistente e reuniu-se com ela mal desembarcou. Aproveitando o facto dela o ter ido buscar ao aeroporto, começaram a discutir mal entraram no carro dela.

-Professor, durante a sua ausência fui ver o barco. É qualquer coisa de...Só estando lá! Apesar de actualmente as suas dimensões já não terem o impacto da época em que foi construído.

Ele sorriu perante a falta de palavras da jovem, e imaginou-a a explorar o Titanic. Com os olhos muito abertos, entre os destroços enferrujados, cheios de animais, memórias e plantas marinhas entretanto ressequidas pelo calor do deserto.

-E depois -Continuou ela -subi por uma corda e fui desde o convés ao fundo. Foi como que...enquanto a luz das minhas lanternas iluminava as paredes carcomidas...Confesso-lhe que me esqueci um pouco da minha função técnica e deixei-me envolver pelo ambiente...não era bem fúnebre...era avassalador...tanta coisa, tantas memórias, tanto o sentir da ausência de quem ali viveu os últimos momentos, e depois a ilógica “daquilo” ali estar no meio do deserto.
Palavra de honra, não conheci ninguém ali que conseguisse ficar indiferente.
-Folgo por a ver tão animada, mas tirou algumas conclusões da visita?
-Não. Prefiro ouvi-lo, pode ser que as vossas conclusões sejam as mesmas.
-Muito resumidamente. A explicação é a de que o Titanic foi transportado por um portal dimensional do atlântico norte até ao deserto, sendo que aqui veio parar meramente por acaso . Por mera sorte, acrescento eu, basta imaginar que se ele fosse parar a uma auto-estrada em hora de ponta...
O mistério está pois resolvido e não se vai mais discutir o assunto. Provavelmente o tema, pela sua controvérsia, ainda dará motivos para alguns debates mais acalorados em programa de duvidoso gosto pelos tolinhos do costume.

Entretanto tinham chegado ao seu destino, pelo que saíram do automóvel e dirigiram-se ao gabinete.
Mal chegaram, ela observou-o durante alguns minutos. Apesar do ar convicto, detectou nele uma hesitação estranha a um dos principais defensores da conclusão do Conselho. Ela sabia-o pois isso era voz corrente e motivo de orgulho naquela casa. Finalmente Franck conseguira a glória, e dai ela estranhar o seu ar quase abatido.
Se não tivesse tanta estima e confiança nele não teria ousado, mas tinha, e deu a sua opinião.

-E no entanto...há alguns dados que apontam noutros sentidos...
-Quais?
-Para começar a teoria das portas dimensionais é apenas isso, uma teoria e nunca provada, nem sequer em modelos computorizados, talvez porque ninguém a tenha achado credível, pelo menos até agora...E até (acrescento eu) demasiado frágil para servir de explicação  a um fenómeno destas características.
Se me permite, acho até que o facto do Conselho a ter utilizado revela, antes demais um enorme vazio de ideias indigno das sumidades que o constituíam. Se se auto-denominaram a elite  tinham a obrigação de fazer mais...

Apesar de muito estimar a jovem, ele achou que a coisa estava a ir demasiado longe.

-Põe em causa nomes e carreiras algo sobranceiramente...Essas pessoas que tão gratuitamente critica representam uma carrada não negligenciável de prémios Nobel.
-Cuja atribuição é muitas vezes duvidosa.
-Seja, mas o resto não o pode negar...O enorme contributo cientifico entre o qual se encontram algumas das mais brilhantes e inovadoras ideias conceitos e produtos físicos jamais criados.
Se a decisão foi esta é porque ela é a única, a melhor, a mais coerente.
Ou ainda tem outros brilhantes argumentos a contrapor às evidências?
-Sim, o de quererem esconder outras evidências.
-Explique-se...
-Acho que portas dimensionais são bem mais fáceis de encarar do que a existência de um poder superior ao nosso e logo dificilmente concebível pelas mentes heliocêntricas da nossa fina flor cientifica...

A paciência de Franck não aguentou mais e ele acabou por explodir.

-Esquece-se  que não passa de uma mera assistente, brilhante, sem dúvida, mas que nunca alcançará o génio de muitos daqueles que critica!
-Talvez, mas apesar de todas as minhas falhas ainda possuo discernimento suficiente para “ousar” conceber uma outra teoria bem mais lógica e credível, como o facto do acontecimento poder ser obra de uma civilização superior à terrestre. Os dados são evidentes: em 1912 o Titanic emitiu um S.O.S que também foi para o espaço de onde poderia ter sido escutado por “eles”.
-Sim, é uma hipótese a ter em conta mas...o sinal ainda não teve tempo de alcançar algumas galáxias onde se presume existir muito remotamente vida, e muito menos uma civilização tecnologicamente avançada. Até o sinal lá chegar podemos estar extintos há já algum tempo...
-Correcto, mas se nós dispomos e enviamos receptores um pouco para todo o universo conhecido, porque não eles? Em vez de perderem tempo a explorar o cosmos, poderiam ter enviado sondas e esperar um sinal, e sendo mais avançados, as sondas poderiam ter ido mais longe e estar no nosso sistema solar quase perdidas, mas...à espera de um sinal que os fizesse avançar.
Assim, um deles poderia ter captado o sinal e ter comunicado isso à central deles. Mobilizaram então uma equipa de busca e salvamento e...
-Então porque, se detectaram vida, não comunicaram directamente connosco, ao invés de ir resgatar um destroço?
-O problema reside num velho pressuposto humano.
Nos concebemos qualquer vida como tendo os ingredientes básicos da nossa. Apesar da extensão do espaço, os elementos químicos são os mesmos, ou seja, a vida tem sempre os mesmíssimos elementos...
O que pode condicionar a forma dessa vida são outros factores distintos a condicionar a sua forma: desde a constituição da atmosfera e a sua diferente distribuição de gases, à gravidade (isto condiciona entre outros a estatura e, num estado mais avançado, a facilidade com que se pode sair para o espaço -recorda-se certamente que grande parte do combustível dos foguetes da primeira era espacial era utilizado para eles se libertarem da gravidade terrestre-).
Idealizamo-los assim, porque assim pensamos que nos idealizam.
É aqui que penso as coisas estarem incorrectas: a nossa visão é puramente antropocêntrica. Idealizamos tudo em função dos nossos conceitos, da nossa ciência e queremos que tal seja bilateral, isto é, queremos que eles sejam conforme as nossas leis (que quer queiramos quer não julgamos serem universais).
Por exemplo, e partindo da mesma hipótese dos elementos serem os mesmos: imaginemos uma civilização física avançadíssima  que ao fim de alguns milhares de anos se transformou em semi ou totalmente biónica.
O rumo da nossa própria história isso indica: o homem apesar de ser a criatura mais perfeita da natureza, tende a incluir em si elementos da sua tecnologia: desde as próteses dentárias a ossos metálicos e o próprio coração, o centro do seu próprio sistema...Quanto mais avançada a civilização, mais elementos mecânicos ou artificiais incorporará nos seus criadores.
Passados vários milhões de anos, e se a engenharia genética não fizer, falo-emos nós com metal ou ligas: olhos mais perfeitos, cérebros com aceleradores de raciocínio e excitantes de memória, caixa torácica com mais oxigenação, etc...
Não se esqueça que desde o aparecimento do homo-sapiens é considerado um produto natural acabado. Se quisermos evoluir teremos de o fazer por nossa conta, pois a mãe natureza já nos considera emancipados...
Essa civilização idealizaria uma vida semelhante à sua segundo os seus padrões. Mas imaginemos novamente...os criadores acabaram por se extinguir em si o legado físico, e aprenderam a renegá-lo, a considerarem-no “sujo”, ficando no seu lugar as máquinas por eles criadas ou seja, a civilização física deu lugar à metálica, que herdou alguns dos principios dos seus criadores, princípios ou directivas, entre os quais poderiam estar o procurar de vida no universo. Vida semelhante à sua, vida mecânica...Ao receber um sinal codificado e (se interpretado conforme os seus emissores pretendiam) responderiam à chamada, e de acordo com tal...Para eles o Titanic representaria vida, vida mecânica, vida igual...ao passo que nós, carne e osso, não representaríamos absolutamente nada...
Assim eles resgatariam um igual.
O barco no fundo do mar representa um semelhante num ambiente físico natural, hostil.
Assim, depois de receber o sinal vieram em socorro de um igual a si...pondo-o a salvo num deserto, onde não há vida, onde não existe o tal elemento hostil. Nunca o poriam numa auto-estrada porque ela está cheia de vida orgânica. A sua lógica pode muito bem ser esta, tanto não nos consideram como nos querem violentamente evitar.
O S.O.S  demorou naturalmente algum tempo a chegar a um receptor deles. Como foi o primeiro sinal, é perfeitamente natural que respondam a outros, mas daqui a algum tempo, mas sempre com o cuidado de nos evitar, porque nós somos humanos, não-máquinas, não-puros...
E a coisa não fica por aqui. Antes de virem até aqui certamente terão observado o planeta e captado as nossas comunicações. Como não lêem a voz humana, é provável que saibam ler a matemática dos códigos, ou seja, eles saberão comunicar connosco se quiserem. O que é um S.O.S? Um código. Traço-ponto-traço. Talvez um pouco confusos não tenham arriscado um contacto por não saberem bem quem é que mandava em quem, se nós nas máquinas, se as máquinas em nós...Não arriscando, mas não querendo perder a viagem, salvaram o barco, mas antes trataram de nos cegar. Toda a nossa tecnologia é mais ou menos a mesma coisa, obedecendo aos mesmos princípios, ou seja uma acção avançadíssima de contra-medidas electrónicas (aquilo que permite cegar os radares) poderia permitir a sua entrada na terra sem serem detectados...
-E os operadores dos sistemas de alerta, não teriam olhinhos para ver que a maquinaria estava avariada...?
-Não se as interferências nos sistemas indicassem o contrário. É a imagem clássica de alguém que quer roubar algo de uma sala e que introduz nas câmaras de vigilância uma imagem falsa indicando que tudo está a correr bem.
Uma outra tecnologia poderia fazê-lo facilmente
-Hipótese arrojada...
-Obrigada.
-Não tome isto necessariamente como um elogio. A sua ideia...
-A minha teoria -Corrigiu de imediato Silvie, como que adivinhando o que se iria seguir -
-A sua teoria esta pejada por demasiado elementos probabilísticos...não dispões de um único elemento concreto, são meros encadear de hipóteses, cada uma delas mais hilariante do que a precedente...
-Os computadores aceitaram a hipótese, e os modelos por eles fornecidos provam a sua possibilidade. O computador desta instituição, depois de ter recebido os dados dá-me 90% de probabilidades da minha teoria poder ser real...
Ou seja muito mais do que a divulgado pelo Conselho.
Por isso tomei uma decisão.
-Que decisão...?
-Se o Conselho continuar com a mesma opinião lançarei os meus resultados nas diferentes Net.
-Pelo amor de deus, ameaça-nos? Não estou a reconhecê-la!
-Não é uma questão de ameaças, é uma questão de verdade, de revelar a verdade. Somos cientistas, e o nosso dever será sempre de estar perto daqueles que nos pagam os ordenados, porque somos privilegiados por podermos entendermos essa ciência, porque temos o dom de a poder simplificar, especialmente o senhor ou seja temos a obrigação de não nos deixar cegar por interesses ou dogmas.

Franck ficou a olhar para ela silencioso. Era algo bonito de ver, a inocência em estado quase puro, a crença no papel “quase humanitário” da sua profissão.

-Muito bem, pelo menos vou ver o seu trabalho, e se concordar falarei com os meus colegas. Ainda dispomos de algumas horas.
Tem ai o material?
-Sim. -E entregou-lhe uma pasta.
-Sabe, Silvie, você dispõe do raro dom de me pôr a pensar...
Ela sorriu e saiu animada, ignorando o possível sentido dualista das últimas palavras do mestre.
Passaram vinte e quatro horas.
O Dr. Franck recebeu-a com o melhor dos sorrisos, convidando-a a sentar, desta vez sem a habitual espera.

-Tenho boas notícias. Depois de ler as suas coisas achei que de facto merecia ser consideradas, e mostrei-as a alguns colegas meus.
Estamos fascinados. O seu trabalho é notável, genial até. Diga-me, fê-lo totalmente sozinha?

Sem conseguir disfarçar uma certa vaidade juvenil

-Sim, sozinha, e mais ninguém  está a par. Sabe, existe sempre o risco de plágio pela parte de alguns colegas menos escrupulosos...Mas acha que este trabalho poderá servir como base do meu doutoramento?
-Com certeza. Para isso e para muito mais...Tem ai o resto do material? Creio que o que me deu é apenas um resumo.

A jovem deu-lhe mais três pastas.

-É tudo?
-Tudo.
-Peço para me deixar só. Quero agora estudar estes dados e confirmá-los com as minhas ideias. Quando acabar conctala-ei.

Mal ela saiu, o Dr. ligou o comunicador.

-Corpo de informação?
-Sim.
-Ela acabou de sair. Detenham-na conforme o previsto.

Silvie tinha-se aproximado demasiado de algo delicado, o suficiente para abalar e desfazer os laços de fidelidade que ligavam o seu mestre a si.
Ciente disto, ele não hesitara. “Valores mais altos se levantavam”.
Tipico.
De uma gaveta tirou a foto, classificadíssima, a que só ele e o Conselho tiveram acesso. Foi essa foto que determinou a versão oficial forjada.
Essa foto fora tirada pela máquina antiquada de uma amador quase encontrava nas imediações do leito marítimo do Titanic.
Essa foto mostrava uma gigantesca nave de modelo desconhecido a resgatar o Titanic do fundo do mar.

                            FIM


                        Maio, Junho
                           1998
             Corrigido em Fevereiro de 2000

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Miguel Patrício Gomes
Enviado por Miguel Patrício Gomes em 23/05/2006
Código do texto: T161197
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Miguel Patrício Gomes