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E TU ÉS MEU AMIGO?

                        1

   Sinto-me o homem mais poderoso do Planeta!...
   Aliás, eu sou o homem mais poderoso deste Planeta!
E no entanto, nem sempre foi assim, pois ainda há pouco tempo eu não passava de um farrapo humano. Quem haveria de dizer que o ser desesperado e perdido, se iria transformar naquilo que sou hoje…
   Forte, enorme e extraordinariamente poderoso como nenhum ser humano jamais sonhou!
   Bem sei que ainda pouca gente se apercebeu do homem que sou e daquilo que meus novos atributos conseguem atingir, mas logo toda a Terra se curvará a esta nova força que me protege.
   Irei mostrar o quanto pode ser importante uma amizade!...
   E quando recordo tudo o que passei antes de aqui chegar, meus sentimentos alteram-se e sinto o ódio invadir todo o meu corpo…
   Ah, malditos seres humanos! Tanta maldade!
   Quem diria que a minha salvação estaria numa situação extrema, quando precisamente a minha vida não valia um cêntimo furado…
   Sim! A minha salvação deveu-se àquele acaso extraordinário, naquele dia sujo e triste…
                      2

   Depois de todas as desgraças que atingiram a minha vida, numa sequência infernal, eu vagueava pela cidade, perdido nos meus pensamentos suicidas.
   Já estivera junto a uma falésia, pensando em dar o último passo; já estivera junto da linha vendo o comboio passar mesmo à minha frente; estivera no mar, onde bebi um pouco de água salgada, mas nadei para a vida…
   Sentia-me definitivamente um cobarde! Sempre fora um cobarde na vida e agora continuava cobarde para enfrentar a morte!...
   E perdido nos meus obscuros pensamentos e na minha desgraça, vagueei horas sem fim pela insensível cidade. Passei perto da casa que fora minha e cujas prestações deixara de pagar; passei perto do cemitério onde estavam esquecidos meus filhos e minha mulher; chorei desesperado perguntando-me porque não morrera também eu naquele trágico dia…
   A minha vida sempre valera pouco, mas naquele instante sentia-me a mais, e tudo me era estranho e indiferente!
   Sem me aperceber fui parar a um bairro problemático da cidade e quando fui a dar por isso, vi-me cercado de tipos duvidosos que avançavam vagarosamente para mim. Provavelmente ainda havia na minha figura esbatida, algo que despertava a cobiça dos amigos do alheio. Lembrei-me que ainda trazia vestido meu fato de marca e no pulso tinha minha única riqueza: o relógio, oferta inestimável de minha falecida esposa.
   Estávamos num beco escuro e o dia já há muito que fugira. Fiquei angustiado, algo estranho para alguém que desejava a morte. A hipótese de ficar sem o relógio, o meu único tesouro, deu-me uma coragem insuspeita e dei um pontapé no baixo-ventre do meliante mais próximo que caiu enrolado. Navalhas brilharam na escuridão e a minha vida que antes não interessava a ninguém, deixou de ter qualquer significado, a não ser para mim próprio. Ainda tentei fugir, mas senti-me agarrado pelo pescoço por uma mão brutal. O tipo que eu pontapeara, levantara-se e de faca na mão, aprestava-se para fazer aquilo que eu não conseguira executar…
   Eu fechei os olhos e comecei a rezar uma oração!

                          3

   Foi de olhos fechados que ouvi um voz estridente, perguntar:
   - Amigo?...
   Abri os olhos e vi o tipo que se aprestava para me estripar voltar-se e investir na direcção contrária. De súbito o seu braço descreveu uma estranha trajectória, e ouvi o som da faca a rasgar carne. O homem caiu, lançando um grito lancinante, e ao cair pude ver os seus olhos vítreos, transmitindo um horror infinito. Foi completamente aterrorizado que eu vi os outros meliantes virarem-se para a nova ameaça.
   De novo se ouviu a mesma voz, perguntar:
   - Amigos?...
   Eu continuava preso pelo pescoço, pelo bandido que me agarrara e que gritava para os outros:
   - Matem esse cabrão!
   Facas brilharam na semi-escuridão; braços descreveram trajectórias sinistras e espetaram-se nos próprios corpos que as seguravam. Três corpos tombaram em simultâneo, enquanto se ouviram os gritos da morte. Um outro, mais afastado, tentou fugir aterrorizado.
   O homem que me mantinha bloqueado largou-me e puxou de uma pistola. Eu caí no chão, meio agoniado e sem forças. Um estranho vulto aproximou-se de braço estendido e ouvi aquela voz voltar a perguntar:
   - Amigo?...
   Ouvi um disparo e o homem que fugia além, já bem distante, deu um salto estranho, como que numa estranha dança de morte. Levantei os olhos e vi o homem da pistola gritando desesperado, enquanto o suor lhe escorria pela face. A sua mão executava um movimento contrário à sua própria vontade, como que forçado por uma força invisível, e o cano dirigiu-se para a sua boca aberta que lançava gritos aterrorizados;  de súbito ouviu-se um estampido e a força destruidora duma bala despedaçou-lhe o cérebro. O homem caiu e o sangue quente saltou-me para o rosto. Senti um vómito acudir à minha garganta e vomitei o que ainda havia no estômago. Nesse instante, enrolado e meio cego, ouvi aquela voz sinistra:
   - Amigo?...
   Podia estar desesperado e assustado, mas burro nunca fui e ouvi-me balbuciar:
   - Sim, amigo!... Sou amigo…
Senti uma mão forte levantar-me, ouvindo a mesma voz num tom satisfeito:
   - Finalmente um amigo! E ouvi aquilo que se poderia dizer uma gargalhada... Não ouvi nem vi mais nada e senti-me desmaiar; mas mesmo semi-inconsciente, tive a sensação que me encontrava a voar…

                             4

   Acordei confuso e desorientado como que acabado de despertar de um pesadelo. Estava num apartamento luxuoso e olhando para mim próprio, vi-me de pijama e limpo. Aturdido pela estranha situação divaguei pelo apartamento, e espreitei pela janela. Reconheci a zona e apercebi-me que estava num prédio alto no centro da cidade. Olhei em volta. As paredes estavam repletas de quadros pintados com motivos da cidade. Consegui identificar alguns dos motivos criados pelo artista. Viam-se pinturas de prédios, carros, ruas, árvores, flores, do metropolitano, do comboio, de aviões, de homens, de mulheres… De homens caídos, de olhar aterrorizado, mergulhados no seu próprio sangue…
   Olhei em volta, assustado. Não via ninguém. Aproximei-me de um cavalete de pintura e olhei para o quadro que estava a ser criado… Era eu! Ainda não estava pronto, mas vi que era eu deitado no sofá, dormindo!...
   Olhei novamente em volta… Tenho de reconhecer que nunca tive tanto medo na minha vida. O suor caía-me pelo rosto… Tive uma estranha sensação que estava ali alguém, olhando para mim. Rodopiei várias vezes e gritei angustiado:
   - Aparece! Que me queres?...
   De súbito uma voz estranha mas familiar soou nas minhas costas:
   - Amigo!
Voltei-me como que impulsionado por uma mola e não vi ninguém!...

                         5

   - Onde estás?... Gritei.
   De súbito ali mesmo em frente de mim, vi algo que nunca julgara possível: Um ser estranho e de baixa estatura, apareceu vindo nada.
   Eu estava verdadeiramente siderado e senti-me como que preso ao piso, sem me poder mexer… Finalmente via as feições e o corpo, daquele ser estranho que povoava minhas ténues recordações. Percebi imediatamente que não era ninguém do meu planeta e fiquei mais tranquilo quando ele me estendeu a mão, repetindo:
   - Amigo!...
   Estendi a minha mão e quando senti aquele toque frio, confesso que me arrepiei todo. Como é que uma pessoa pode reagir a uma situação destas?
   Acho que ninguém está preparado!
Olhei de alto a cima e percebi nele algumas feições, que se poderiam dizer, humanas. Seus olhos e cabelos eram negros; sua testa enorme; o nariz quase inexistente; a boca pequena e as orelhas enormes…
   Senti um braço forte apertar a minha mão e de repente deixei de sentir qualquer receio. Pensando bem: Eu não tinha nada a perder…
   Ouvi-me perguntar:
   - Quem és tu?...
Ele riu em voz alta e disse numa voz amigável:
   - A pergunta que todos fazem, mas poucos conhecem a resposta!...
   - Bom, se não queres dizer, não digas…
Ele respondeu, segurando o meu braço com mais força:
   - Porque não haveria de dizer? … Afinal és meu amigo!
Fez uma pausa e continuou:
   - Sou ZZult e vim de Marte!
   - O prazer é meu Zult… Eu sou o Marco!
   - Prazer Marco… Mas o meu nome é ZZult com dois “Z’s”!
   - Certo ZZult… Mas que fazes aqui na Terra?
   - Pinto, não vês?... Sou pintor; descobri que a Terra é um paraíso para os pintores. Existem mais como eu por aí pintando as maravilhas deste Paraíso!
   - Ah, sim? Mas que coisa extraordinária! Mas… Porque não se dão a conhecer aos humanos?
   - Não queremos! Descobrimos que são uma espécie cruel e má…
   - Mas tu também não foste nada meigo para com aqueles tipos!
   - Nós não costumamos perdoar aos nossos inimigos e os humanos são considerados inimigos!
   - Então achas que eu sou teu inimigo?
Ainda com a mão segura na minha, respondeu com um esgar:
   - Não tenho motivos para te considerar inimigo… És apenas um ser que vagueia à toa pela cidade!
   - Ah, mas tu já me tinhas visto antes?...
   - Claro que sim! Nós temos esta facilidade de circular por todo o planeta sem sermos vistos, por isso testemunhamos tanta brutalidade entre vós. Conheço um pouco da tua história e sei que perdeste o sentido da vida. Sei que foste injustiçado como tantas outras pessoas; que a vida te corre de forma adversa… E depois sempre precisava de um modelo para as minhas pinturas!... - E riu-se na minha cara, o sacana!
   Olhei em volta e perguntei:
   - Como é possível viver aqui em cima e ninguém estranhar?
   - Nós temos muitas outras faculdades que tu nem sonhas… – E transformou-se ali ante meus olhos num irmão gémeo que eu nunca tive.
   - Bolas! Isso é espantoso… Quem me dera ser assim!
   - Tu podes ser assim!... Bom, pelo menos podes aprender alguns dos meus poderes… Mas, por exemplo, voar não é possível!...
   - Voar?... Tu consegues voar?... Por isso eu tive aquela sensação antes de desmaiar!... Seria bom aprender algum desses truques!
   - Não são truques!... São faculdades inerentes à nossa condição de seres evoluídos. Os homens também poderão um dia ter algumas destas faculdades, se não se destruírem antes disso. – E riu com a sua última frase.
   Eu estava maravilhado e via novas hipóteses para a minha vida.
   Ficámos à conversa horas intermináveis.
   Confesso que minha vida sofreu uma reviravolta inacreditável!

                           6

   Muitos dias se passaram, e eu fui ganhando novos hábitos de vida. Apenas comia alimentos vegetarianos; Aprendi a pintar e descobri que tinha vocação para muitas coisas… Acho que em tornei um aluno exemplar: Já consigo ficar uns minutos invisível e com o tempo a coisa vai lá; já me consigo transformar na pessoa que quiser!... Só tenho pena de não conseguir voar! Mas o meu amigo leva-me pelos ares e viajamos por todo o lado. Recordo aquele dia em que fomos até junto do tipo que conduzia alcoolizado quando destruiu a minha família… Lembro com enorme alegria, o momento em que ZZult lhe perguntou:
   - Amigo?...
   Nem queiram saber o que eu ri quando vi o tipo ser transformado numa enorme massa de carne sangrenta!...
   - Ah! Ah! Ah! – Ainda hoje me rio desse momento memorável!...
O meu amigo ZZult bem me avisou que estou ficando cada vez mais parecido com os humanos, mas que hei-de fazer: Não posso renegar a minha própria espécie!
   E aquele outro dia em que fomos visitar os tipos do crédito que me ficaram com a casa; e depois o juiz que me tramou a vida; e todos os tipos que embirraram comigo durante anos e anos…
   Como ficam divertidas as suas expressões sempre que ZZult pergunta:
   - Amigo?...
   Caramba! Sinto-me o homem mais poderoso de toda a Terra…
   Sei que sou o homem mais poderoso da Terra!
   A pintura tornou-se um vício irresistível. Tornei-me especialista e até ZZult diz que já sou melhor pintor do que ele… A minha especialidade?
Pintar corpos sangrentos nas mais estranhas posições! Para isso, precisamos sair duas ou três vezes por semana, em buscas de novos  modelos!...
   - Ah! Ah! Ah! – A vida corre-me às mil maravilhas. Imaginem, tudo apenas, porque eu sei dar valor à palavra amizade!...
   E tu aí, que me lês, és meu amigo?...


HENRICABILIO
Enviado por HENRICABILIO em 16/07/2006
Reeditado em 18/12/2007
Código do texto: T195374
Classificação de conteúdo: seguro

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Caldas Da Rainha - Leiria - Portugal, 55 anos
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