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Solidariedade

             Inspirado no filme Balada de Narayama


                         O primeiro ataque arrancou o braço. O sangue espirrando para todos os lados, os nervos na altura do ombro, parecendo pequenos ramos de árvores balançando ao sabor da aragem.
                         Em outra situação, talvez pudesse sentir pena do meu pai, seu rosto vermelho espelhando uma expressão mista de pena e medo.  Mas, que posso fazer? É a lei! O segundo parágrafo do artigo primeiro estabelece que é o filho quem deve levar o progenitor para a Reserva e eu sempre fui um fiel seguidor das leis do nosso país.
                         E sou obrigado a concordar que deve ser assim, sempre. Não seguíssemos, a anarquia tomaria conta de todos os redutos e os resultados seriam catastróficos..
                         Outros animais aproximam-se. Cinco deles, pude contar. Com certeza sentiram o cheiro de sangue e medo no ar e vieram  para o jantar.
                        Gostaria que não fosse assim. Preferiria mil vezes que a vida fosse igual às histórias da teve e tivessem finais felizes. Não é, e nada posso fazer a não ser rezar por um Deus que não creio e que tudo termine logo.
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                        Meus últimos dois anos foram uma tortura. Cada dia eu sabia, seria um dia mais perto de acordar de manhã e levar meu pai para ser trucidado pelas feras. E como foram rápidos! Cada dia, cada hora, cada minuto devorados pelo dragão do tempo, eu nada podendo fazer a não ser torcer que tudo fosse um sonho. Apenas um sonho mau onde eu acordaria banhado em suor, meus pais esperando na cozinha, o cheiro suave do leite morno impregnando o ar e o vapor do pão caseiro embaçando a vidraça. Minha mãe me aqueceria em seus braços depois de um beijo na testa. Meu pai daria um sorriso largo e perguntaria como estava indo na escola. Depois iríamos para fora e ficaríamos olhando os raios do sol infiltrando-se entre os ramos das árvores.
                       No entanto era o contrário que acontecia. Um sonho bom dentro de uma vida ruim. Que começou a desmoronar na ocasião da morte de mamãe. Meus oito anos não conseguiram entender como um acidente simples como o cair da escada podia acarretar o fim de alguém tão querido.E ele confortou-me, como só os pais conseguem fazer.
                       Nessa época não havia a obrigatoriedade de aproveitamento dos mortos e ela foi enterrada sob uma lápide onde estava escrito que a amaríamos por toda a vida, bem no lugar onde algum tempo depois foi construído um condomínio de luxo. Voltando para casa e ainda sem entender nada de tudo, meu pai falou-me, a voz embargada de lágrimas, da falta que ela faria, de como ele sempre a amou, das coisas da vida e como elas nos fortalecem, mesmo as mais dolorosas. Principalmente estas, sentenciou.
                       Hoje cedo, ao abrir os olhos e lembrar da minha missão, não consegui conter as lágrimas. Elas desceram vergonhosas pela minha face e se perderam no chão. Todos esses anos voaram como folhas ao vento, mas ainda me sinto um menino abraçado ao pai, conselhos sendo derramados  em meus ouvidos e um não entendimento do porque tudo ser assim como é.
                       Tomei um banho demorado e uma pequena caminhada depois, meu velho abriu-me a porta da sua casa. Beijei sua testa sem uma palavra sequer e juntos tomamos o café da manhã. Mas o leite não tinha o mesmo sabor de antes, nem o pão a mesma saborosidade, apesar de serem os mesmos de antes  Engoli-os acres, a garganta sendo arranhada , um meio sorriso forçado nos lábios.
                        Não havia muito a ser conversado.Aliás, havia e muito, mas as palavras teimavam em ficar escondidas na mente. Liguei a teve. Um documentário governamental falava da antiga Amazônia, quando seu imenso verde dominava todo nosso hemisfério norte, suas árvores monstruosas quase varavam o céu e os inúmeros rios corriam céleres rumo ao mar, no lugar do deserto com suas dunas ambulantes que conhecemos hoje.
                        Pressenti um soluço eminente e vi que o rosto do meu velho estava molhado.  E pude ver saudades nos seus olhos. Saudades de um tempo que ele também não tinha vivido, mas teria gostado. Sem vergonha nenhuma de parecer piegas, abracei-o e choramos os dois, mesmo sem sabermos dos reais motivos do choro.
                         Após o almoço tomamos várias cervejas folheando recortes antigos de jornais. Havia um amarelado pelo tempo, noticiando  que a população havia atingido a casa de 15 bilhões de pessoas no mundo e que o Conselho Mundial devia tomar sérias providências ou a Humanidade seria extinguida por falta de recursos materiais. Mais abaixo o articulista comentava que “todo ambiente sustentável deve ter xis pessoas para o consumo de xis recursos”,  Qualquer outra equação seria utópica.
                         O resto eu sabia de cor.
                         O cálculo matemático do planeta não suportar mais de um bilhão de pessoas. A islamização tomando conta do planeta. A conversão forçada de qualquer praticante de outras religiões. O Conselho dos Mártires incentivando grupos de extermínio a matar pessoas com algum tipo de defeito  para a real melhoria da raça. Chegou-se até a cogitar na proibição de casais gerarem filhos, mas essa solução foi descartada. Umas dezenas de anos e a raça humana se extinguiria por si só. O governo mundial estabelecendo a idade limite de 50 anos para qualquer ser pensante.Algum burocrata inventou de , unindo o útil ao necessário, cada cidade em cada país criar reservas onde alojaram os poucos animais selvagens restantes para a preservação da espécie e auxiliar na ecologia mundial. Algum naturalista importante pensou na alimentação das feras. Algum economista pensou nas despesas economizadas com a supressão das injeções letais. A humanidade tornando-se bela e perfeita e o restante. . . bem, o restante  todo mundo conhece.
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                        Não acredito nessa balela  das pessoas após serem devorados pelas feras o espírito delas se incorporar nos animais e viverem eternamente, mas a teve nos massacra tanto com essa “verdade” tantas vezes todos os dias, que às vezes tenho minhas dúvidas. Seria bom se assim o fosse. Daria a sensação de ser um pouco mais útil quando chegar a minha vez. No entanto sobram algumas perguntas. Meu pai sempre disse que gostaria de passar a eternidade ao lado de minha mãe. Ela foi sepultada, ele será devorado. Ficarão juntos depois? E quando um é devorado numa reserva e o parceiro ou a parceira noutra? Mesmo que as feras não se encontrem, conseguirão se ver? E quando o animal morre, para onde vão os espíritos alojados nele?
                        Talvez seja daí, dessa minha capacidade de formular perguntas irrespondíveis, que venha minha descrença. Não sei.
                        Oramos na mesquita, eu nem tanto, reli apenas alguns trechos do Corão suplicando graças ao Profeta para que a morte dele fosse rápida e nada mais. Que mais podia pedir?
                         Pouco falamos durante o caminhar. Sugeri irmos andando na esperança que algo acontecesse. Mas o que poderia acontecer? Um anjo de Alá  rasgar as nuvens com uma espada flamejante e nos deter? Todo o planeta se modificar de um minuto para outro? Alguém do Conselho ordenar que as coisas haviam se modificado sem mais nem menos? Eu voltar aos meus sete anos e aproveitar todo o amor de meus pais?
                        O que sei, e me dói, é que deixei meu pai, meu velho pai, recostado no tronco de uma árvore no centro da reserva para ser devorado daqui a pouco. Falta pouco para chegar ao portão. Vinte metros? Dez? Menos.
                        Aí estaco. Apenas agora lembrei de algo importante: quem me acompanhará quando chegar minha vez? Não tenho filhos nem pretendo tê-los um dia. Este mundo é cruel demais para gerar alguém. Se pudesse ter escolhido, eu mesmo jamais viria.
                         Então, sem pensar um instante volto pelo mesmo caminho. A mesma trilha, as mesmas pedras, nossos mesmos rastros no chão úmido. Mais uma curva. Outra e o vejo. Recostado na árvore, cabeça baixa, resignado com a sorte, meu velho pai ostenta no rosto a expressão pura de uma criança. Um pouco, efeito do anestésico fornecido para não sentir dor, a maior parte no entanto. . .
                        Ele apenas olha e sorri levemente quando sento ao seu lado. Lentamente segura minha mão como se com esse gesto pudesse dar coragem. Aperto levemente, retribuindo. Por um instante sinto-me pai do meu próprio pai e quero protegê-lo não sei do que nem de quem. Sinto-me bem fazendo isso.
                        Apanho o anestésico sobressalente no bolso do paletó sob o olhar amoroso do meu pai e injeto no braço. Um urrar animalesco ao longe aproximando-se .
                        Olho do lado, admirando a beleza do meu pai e sua serenidade.
                        Acendo dois cigarros. Um para mim, outro para ele e ficamos assim. Nos olhando, nos sorrindo, nos amando. Até as feras chegarem e nos destroçarem.
Nickinho
Enviado por Nickinho em 09/08/2006
Reeditado em 20/09/2007
Código do texto: T212422
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Sobre o autor
Nickinho
Ibitinga - São Paulo - Brasil, 63 anos
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