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O perigo veio do passado.

O perigo veio do passado.


Amanhece sob a luz do astro - rei de nossa galáxia.
Pássaros e latidos dos cães orquestravam mais um dia de trabalho na aldeia.
Ramazom, uma pequena aldeia fincada no pé de uma das mais belas montanhas da América do Sul. Região tropical, palco de uma batalha climática onde não há clima vencedor. Num só dia é possível experimentar as quatro estações do ano.
Seus habitantes,  humildes camponeses, tinham no cultivo da batata e na atividade pesqueira a principal fonte econômica.

Eram pouco mais de dois mil indivíduos, entre homens, mulheres e crianças. Sem falar dos animais domésticos, em particular; algumas dezenas de cães. Fiéis amigos dos homens e em especial das crianças.

Suas casas, feitas de matéria local, não possuíam cadeados em suas portas e nem mesmo eram fechavam para dormir.  Sua localização não constava nos mapas oficiais. Era pequena demais em tamanho e seu cofre de tão pequeno não despertava o interesse dos arrecadadores de impostos da grande nação.

Assim, durante séculos seus habitantes viveram livres e com suas próprias leis e costumes. A produção era coletiva. Todos participavam da colheita, que depois de embalada era depositadas em grandes galpões à espera do momento certo para comercialização.
Normalmente, devido a  imensa distância dos centros de comercialização. Somente uma vez por ano, saia um barco grande e duas canoas carregadas com o excedente da produção. Singravam o sinuoso trajeto pelos rios, pois não havia estradas. O dinheiro arrecadado era dividido em quatro partes. Uma cota ia à conta de investimento num banco tradicional da cidade, outra para compra de alimentos, remédios e utensílios para o bem estar dos aldeões.
 A quarta cota era para custear a ida dos professores para educação das crianças.

A lua era crescente, a volta parecia tranqüila. Os barcos, como de costume, faziam o mesmo trajeto e numa velocidade sem pressa. Tudo havia dado certo. A cotação conseguida foi boa. A lista de suprimentos comprada.
Nas cordas de um violão, uma música invocando cantigas tradicionais de felicidade dos barqueiros. Podia-se ver a lua refletida na água. Uma jibóia passou rente à canoa, como se as canoas não existissem. Vagalumes solitários anunciavam a curva à direita do leito do rio.
Curva conhecida como o cotovelo da árvore torta. E a árvore era mesmo torta.
Enorme e inclinada para dentro do rio. Quando os barqueiros passavam  por ali abaixavam a cabeça. As folhas dos galhos roçavam a embarcações. Uma lenda antiga afirmava que ali findara-se algumas vidas por enforcamento e seus corpos jogados as piranhas do rio. Lendas...
Notaram um brilho forte na árvore. Um brilho incomum.
A luz foi aumentando. Todos olharam pra cima. A luz ia ficando mais forte. Tão forte que não dava mais para ver a lua. A temperatura começou a esquentar. As águas do rio pareciam ferver dentro de uma grande chaleira. Ruídos esquisitos por toda a margem. Pareciam animais fugindo...
Entre o inesperado e a concreta taquicardia o barco nos jogou para a água.
Falta de ar e medo. Morreremos afogados. Os jacarés nos farão de banquete.
Medo da morte. Medo do medo. Pavor que trouxe um silêncio. Silêncio com a música do além. A música sem notas. Onde tudo se foi. Onde o nada existe.

Acordaram todos, algum tempo depois. Os barcos estavam parados. Não havia sequer uma brisa. Todos se apalparam. Nenhum arranhão. Os barcos intactos. Tudo parecia normal, mas ninguém se sentia tranqüilo. Mistério!
Ninguém tinha a coragem de perguntar: o que houve?

Alguém tomou a iniciativa! ”Vamos embora daqui. Algo está errado. Posso sentir”. Todos concordaram. Começaram a remar as pesadas embarcações. Neste instante algo reacende o medo coletivo instalado.
Misteriosamente, começou a ventar. Ventar forte. Pararam de remar. Soltaram as velas. Os barcos navegaram em alta velocidade, acelerados por uma força invisível. Silêncio absoluto. Todos fixos como espantalhos. O medo infiltrou-se como adaga frias no cerebro e no espirito de cada um, perguntas sem respostas. O que está acontecendo? Fantasmas! Mas veio do céu. Serão alienígenas? Invasores de outro universo?  Diabos fora do inferno? Todos se perguntavam. Mas ninguém se atrevia a dar palpite. Foram em silêncio até a aldeia.

Recebidos, como de costume, com uma grande festa. Música e dança e comida farta. Maridos com os presentes para esposa e filhos. Namorados e suas namoradas. Enfim, uma recepção digna da fartura e do amor que reinava naquela comunidade.

Boca de siri, como diz o dito popular. Ninguém falou nada sobre o acontecido.
Parecia até que nada de anormal havia ocorrido naquela viagem. Ou será que passaram por uma lavagem cerebral e realmente não se lembravam?

Os dias foram passando. Tudo parecia ter voltado ao normal. Homens e mulheres cumprindo suas tarefas. Crianças brincando e aprendendo e os mais velhos dando suporte a todos com suas experiências, seja na educação de seus netos, seja na elaboração dos projetos de trabalho dos filhos.

Era costume nesta comunidade, ao entardecer, todos se reunirem para uma espécie de meditação ao ar livre. Algo como sair da toca, passear, trocar idéias uns com os outros.
E foi assim que alguém percebeu algo diferente em algumas pessoas. Precisamente, oito delas não mais compareciam ao rito do entardecer. Ficavam meio isoladas e num piscar de olhos sumiam pelas trilhas e se embrenhavam nas matas.

Este alguém era o caçula da aldeia, que cheio de curiosidade começou a pesquisar quem seriam estes ausentes. Descobriu que eram os mesmos que fizeram a última viagem para comercializar a colheita daquele ano.

Numa das noites, com muita coragem, seguiu aquelas pessoas. Caminharam por uma trilha estreita até uma clareira. Lá, os homens de olhar fixo no céu aguardavam ou procuravam algo. Para seu espanto, um raio vermelho desceu do infinito trazendo uma coisa: meio homem, meio algo indescritível. Segurou o espantou. Enrijeceu os músculos da boca e das pernas que tremiam como vara verde. Brincou de estátua forçadamente. Nem respirou e observou a formação de um círculo de fogo. E, de dentro do círculo, um monstro enorme com os olhos vermelhos cobertos por uma luz que quase cega os olhos de quem vê.  Apavorado e com muito medo, retornou na carreira pra sua casa. Mas antes, de relance, notou que o monstro estava suspenso no ar. Seus pés pareciam que tinham asas.

Foi muito difícil dormir e graças ao bom Deus, nem pesadelo teve. Dormiu um sono de pedra.

Quando acordou, sua mãe esperava na mesa para o café. Seu pai sairá cedo para o campo de trabalho.
Ficou quieto e inquieto. Cheio de medo, dúvidas...

Mas guardou para si aquela cena incomum.

No pôr - do - sol do dia seguinte, contentou-se em perceber que os mesmos homens repetiram á mesma rotina, com um pequeno detalhe: agora eram onze.
O grupo misteriosamente aumentara.

Decidiu não segui-los naquele dia. Conseguiu segurar a ansiedade. O caçula se revelava um guerreiro forte. Com fibras de aço. Enfim, todos se recolheram e ele também.

Na manhã seguinte, o dia começou melhor. Seu pai e sua mãe estavam presentes no café da manhã. Isto o deixava mais calmo e feliz.
Desde seu décimo primeiro aniversário, resolveu que investigaria a fundo os inexplicáveis acontecimentos ligados àqueles homens. O que eles faziam durante o dia? Perguntou-se.
 Em primeiro lugar, descobriu onde cada um deles trabalhava; sem ser percebido, ficou de olho em cada movimento.
Fez esta pesquisa por três dias. Além de ter verificado que o número aumentara para oitenta e um, percebeu que eles tinham como atividades diárias algumas coisas estranhas.
Percorriam as hortas e enxertavam algum tipo de vacina nas batatas e a jogavam no rio.
Repentinamente, a aldeia vivia uma tristeza coletiva. Por um fenômeno inexplicável, os peixes apareciam boiando na superfície dos rios, mortos por algum tipo de envenenamento.
E ele, o mais jovem, talvez o mais inteligente da aldeia, tinha resolvido parte do mistério.

Mas ainda não achou que deveria contar para seus pais, ou para algum outro membro da aldeia. Resolveu guardar para si tudo o que sabia, apesar do medo que sentia.
 Como havia faltado a suas obrigações rotineiras, achou melhor parar por um dia sua investigação.
Foi à biblioteca comunitária para fazer uma pesquisa solicitada por um daqueles professores que assistiam sua comunidade.
Ao folhear uma revista, levou um grande susto. Estampada na capa de uma revista, a foto de um  “Allien”. Horrível! Uma antiga noticia sobre um extra- terrestre com cara de monstrengo.
 E o pior. Uma criatura desconhecida em seu universo, mas idêntica à que ele vira dentro do circulo de fogo formado pelos homens de sua aldeia. Aqueles de hábitos estranhos. Seu pavor aumentou...

Agora, não dava mais para segurar sozinho. O coração parecia que ia explodir. A ansiedade era incontrolável. O que era mistério, por seus esforços começava a ser desvendado.
Foi cedo para casa e ficou aguardando seu pai. Tinha que conversar com ele. Ao ouvir os passos, correu em direção à porta. Na garganta, um grito que se abriu junto com a porta.
Pai! Preciso de você. Algo terrível está acontecendo na aldeia.

O homem abraçou o jovem filho e sussurrou várias vezes no seu ouvido: calma. Calma, seu pai está aqui e tudo vai se resolver.
Deixou o filho no sofá e foi à cozinha. Voltou com um copo de água misturada com açúcar.
O garoto apresentava sinais de pânico.
Calmamente, com um forte abraço, acalmou os prantos e soluços.
Por instantes ficaram assim. Quietos! Nem uma palavra. O jovem sentia o calor paterno e aos poucos sua respiração voltou ao normal.

Agora, disse o pai. Conte-me o que está acontecendo.

O jovem, ainda sob forte tensão, relatou tudo o que sabia. O pai ouviu atentamente. Homem simples, camponês e de muito bom senso, não se julgou apto a tomar qualquer decisão a respeito de um fato tão incomum.
Na realidade um fenômeno para lá de esquisito - coçou a cabeça e pensou alto: vamos falar com o sábio!
Saiu a caminho da casa do sábio da aldeia. Na verdade, um ancião. Homem com mais de cem anos. Cheio de sabedoria. Ele, talvez, pudesse ajudar ou pelo menos indicar caminhos para enfrentar o desconhecido.
Seguiram por mais de duas horas pelo meio da floresta, até avistarem uma casa toda de pedra. Uma porta que parecia mais uma fortaleza. O rapaz, maravilhado, ficou com a curiosidade aguçada. Quem seria o homem que viveria em total isolamento e ainda dentro de uma casa de pedra?

Ao redor da casa, muitos animais. Pássaros, corças, onças - pintadas, tatus, jabutis e muitos outros.
Aqui parece até a arca de Noé. Você não acha pai.
O bondoso homem respondeu com um carinho de mão na cabeça do filho.
Seu sorriso tímido demonstrava uma profunda preocupação.
Curiosamente, os animais não se assustaram com a presença deles.
Um sino de porte pequeno, esticado por uma linha de aço, ou algum material parecido, indicava ser a maneira tradicional de chamar o sábio. Tocaram o sino. Uma. Duas. Três badaladas. Um som suave e seguido de eco. Era como se por trás das montanhas houvesse outros sinos em sincronia, fazendo o coro da segunda badalada, seguidos do silvar de varas de bambu surradas pela ventania. Decididamente era um sino especial! Algo que tocava a espinha.

Sem nada puxando  -  pelo menos aparentemente - a porta lentamente se abriu. Dentro, outro espetáculo inexplicável. Um jardim cheio de esculturas de animais. Todas feitas de materiais preciosos. Brilhavam tanto que parecia haver a luz do sol vinda do solo para iluminar todo o ambiente.
Junto com a densa flora -  flores, árvores de pequeno e grande porte -  formavam um jardim iluminado. Era intrigante olhar para aquela mistura de metais, plantas e pedras num mesmo espaço completamente harmônico.
A lógica dizia que alguma outra explicação haveria de existir.
Um homem bem alto vestindo uma túnica azul do pescoço aos pés e de longas barbas apareceu. Ele era sorridente e tinha olhos de pura bondade.
Bom dia! Numa voz bem forte, mas mansa e gostosa de ouvir.
Confesso que fiquei decepcionado. Imaginava um sábio vestindo roupas parecidas com a de bruxos, onde se desfilam capas, vassouras e cajados. Nada disso; estava diante de um cidadão comum, pelo menos na aparência.
Uma túnica para quem vive em retiro não necessariamente uma excentricidade.

Há dias estou esperando vocês. Seu filho é muito corajoso, completou.

O garoto arregalou os olhos e o pai também; apesar de manterem as aparências, sentiram calafrio. Receita que mistura medo com espanto.
Como este homem, que morava tão longe, poderia saber da nossa vinda?

Era realmente um sábio!

Convidados a sentar ao redor de uma mesa já posta no jardim com muitas guloseimas e sucos.
O conforto se completava com as cadeiras esquisitas. Cadeiras de troncos de árvores que eram as próprias árvores. Foram plantadas e o crescimento de seus troncos direcionados. Seguramente podia-se chama-las de árvores cadeiras. Colocadas de uma maneira que deixava uma incerteza: estavam aqui sempre ou caminharam até aqui para este momento? Sei lá. Como nada se mexia, exceto meu coração disparado, não questionei mais nada. Fiz-me de bobo.
 E o sábio disse:
-  Sirvam-se. Não dá para raciocinar de barriga vazia. Aproveitem, tem suco de melancia, laranja, tangerina e biscoitos que eu mesmo fiz.
Aprendi com minha bisavó. Que Deus a tenha!
O monstro apavorou vocês? Certo.
- Como o senhor sabe? Perguntaram, em coro, pai e filho.
- É uma longa história. Prestem atenção. Esta criatura que vocês viram veio de um planeta muito distante e muito avançado. O pai e a mãe desta criatura, que antigamente não eram monstros, passaram por uma grande transformação em função de um fato histórico. Quando criança seus pais, aproveitando um período de férias, fizeram as malas e compraram uma passagem na Nave Estelar Lion II, muito conhecida por todos os habitantes daquele cantinho da galáxia. Claro! O motivo da viagem eram as praias do balneário de Romanaka, onde diversos tipos de seres, com altíssimo grau de desenvolvimento, passavam férias com suas famílias.
Acontece que, quando passavam por um desfiladeiro de meteoros, foram atingidos. Com muita habilidade, o piloto tentou levar a nave avariada para um lugar seguro para pouso. Um pouso impossível. A chuva de meteoros se intensificou e destroçou a cabine de comando. Piloto e co-piloto tiveram morte instantânea. A força gravitacional do planeta escolhido puxava o que restara da nave com uma força descomunal. Pessoas foram arremessadas para fora do que sobrou daquele veículo intergaláctico. Dizem que o estrondo será ouvido ainda por bilhões de anos, bem como será sentido o forte cheiro de fumaça saída da queima de materiais e de corpos humanos. Seguida de muito calor que se desprendeu formando uma corrente de energia que vaga por aquela região do espaço.
Nessa época, o monstro era ainda garoto e comemorava seu sétimo aniversário. E aquela era sua primeira viagem espacial.
Milagrosamente, após um período desacordado, ele desperta. Chama pelo pai e pela mãe e ninguém responde. Nem os pais. Nem ninguém. Só ele sobrevivera.
Não se sabe por quanto tempo chorou. Dizem as lendas populares que chorou tanto que um oceano de água cristalina se formou. Tão limpa que quem a olhasse de cima, pensaria estar vendo um cubo de vidro com total transparência. E depois com o calor se evaporou, formando uma nuvem de vapor densa que, por sua vez, se transformou num pequenino satélite de baixa órbita daquele planeta, para manter viva na memória aquele dia triste para todos os seres dos universos.
Neste local: há períodos de frio intenso, muito abaixo de zero e picos de calor insuportável. Frio e calor em segundos.
Acontecimentos sobrenaturais de toda espécie acontecem por lá.
Neste planeta onde foram parar os destroços da nave, não se sabe como; este menino sobreviveu.
Ele venceu a fome e a sede. Cresceu sozinho. Meio ermitão. Meio esquisito. Vivendo e falando o estritamente necessário com ele mesmo e com o que por lá aparecia. Dizem que seres interplanetários se tornaram seus amigos...
Mas o tempo foi passando. Ele, não tendo ninguém para conversar, a não ser com as supostas energias noturnas que iam e vinham, mas nunca dispostas a acrescentar nada daquilo que ele precisava. Queriam somente fazer peraltices. Deixá-lo com medo. E isto ele já tinha superado. Então elas nada lhe acrescentavam. O que ele queria era afeto. Carinho. A saudade dos pais, dos amigos de escola. O dia- a - dia dos garotos de sua idade no seu planeta natal.
Perdera sua identidade. Sem parentes. Sem lar. Estrangeiro em um planeta com o qual não se identificava.
Foram quatro décadas nesta agonia. Ele aprendera muito. Aprendeu a lidar com as fontes de energia. Aprendeu a lidar com a natureza.
Descobriu a fonte da matéria. E então se tornou muito forte. Comia de tudo. Até pedra.
Seu antigo e delicado estômago virou um processador de alimentos. E a sua falta de afeto virou raiva.  O sol vermelho daquela região virou seu Deus. E todo pôr – do - sol, ele subia na montanha mais alta e ficava olhando horas e horas para aquele sol. E, somente naquele instante ele sorria.
Tempos depois, começou a arquitetar uma maneira de sair daquele planeta. Queria ir embora. Nem mesmo sabia por quê. Tinha esquecido quem era totalmente.
Dominando muito bem a energia, calculou e verificou que a força gravitacional daquele minúsculo planeta não era tão grande. Verificou que, além do pequeno satélite, milhares de pequenos meteoros passavam por ali. Fez um aparelho para lhe dar oxigênio em doses pequenas. Ele, na realidade quase nem precisava mais de oxigênio para sobreviver. Conseguia manter seu corpo por muito tempo com alta taxa de carbono e o mínimo de oxigênio. Depois de tudo calculado, fez um tubo em que mal cabia seu corpo.
E foi para o ponto mais alto, onde normalmente fazia suas preces ao seu Deus Sol. Quando sentiu ser a hora, entrou na máquina de lançamento e começou a pular como se fosse um enorme canguru. À medida que dava impulso, suas pernas ficavam parecidas com molas. Foi acelerando os movimentos e o pula-pula aumentando.
De repente, lançou-se a uma altura tão grande quanto os olhos podem ver. À medida que seu corpo estava no ar foi se sentindo mais leve e, de repente, nada sentia. Estava flutuando, flutuando. Nebulosas e estrelas passavam como um sonho. Quando acordou, estava dentro de uma nuvem. Delicadas moças olhavam com ternura para ele. Após muitos anos, ele voltou a chorar. E a sensação foi tão boa, que desmaiou.
Ao acordar novamente, estava embriagado de felicidade. Ficou eufórico. Queria se comunicar e não mais sabia como. Quando quiseram tocar-lhe o corpo, fechou - se como uma tartaruga. Não tinha lembranças. Por isso, tudo soava como agressão. Até aquela data, só tinha usado o instinto de sobrevivência.
Com muita dificuldade, levaram - no para o planeta azul. Lá reinava Dom Quantanum, homem de princípios e senhor da alquimia.
Mestre da Metamorfose. Tocado pela criatura que recebera em seu reino, resolveu ensinar-lhe os princípios fundamentais da sua filosofia.
Reservou um quarto só para ele, ao lado das filhas e dos irmãos do monarca. As aulas iniciaram-se rapidamente. Após, é claro, aprender a falar a língua local. Demonstrou grande inteligência intuitiva. O primeiro período foi concluído rapidamente. Nas suas folgas conheceu alguns habitantes da região. Não dava para saber quantos eram. Porque, de uma maneira misteriosa, apareciam e desapareciam. Podiam sair de trás de uma árvore, ou de uma coluna da cidade. Parecia que havia mundos paralelos. Estas coisas de dimensões que se interligam.
Finalmente, o terceiro período foi concluído. Parecia um ser reintegrado na sociedade galáctica. Até se enamorara de Cantaléia.
Foi no final do segundo período de sua educação, em uma festa em homenagem ao monarca. Conta-se que foi ela quem deu o primeiro passo, tirando-o para dançar. Deu certo! O namoro já contava com a aprovação dos pais e a aliança já estava a caminho.
Parece que o destino foi implacável com nosso estranho ser.
Como recém - diplomado em alquimia, não podia faltar aos congressos realizados num pequeno planeta a 360.000 quilômetros dali.
No máximo, cinco minutos para ir e voltar até a plataforma; um segundo para ir e outro segundo para voltar. Um tempinho para o congresso.


E foi num destes congressos que tudo aconteceu.
Despediu-se de sua amada como de costume. Entre beijos e abraços prometendo não demorar mais que os segundos necessários que o congresso lhe exigisse.
Pois não agüentava ficar longe dela.
Quando chegava ao centro de vôos espaciais, ao tirar o cartão de viagem, seu celular de pulso tocou. Era uma das secretárias do Congresso, comunicando que o planeta estava sob uma forte tempestade eletromagnética e o evento havia sido adiado.
Triste por um lado e feliz por outro, entrou na esteira móvel e digitou o endereço de Cantaléia, via túnel do tempo. A pressa era para levá-la ao Holistiquecinema para assistir ao filme tridimensional sobre a vida dos terrestres. Ela era apaixonada pelas proezas da raça humana, em particular pela peça de Romeu e Julieta.

Entrou na casa sem bater ou se fazer anunciar.
Ah! Um berro. Um soco na mesa. Era o urro de um leão ferido. Cantiléia, sua víbora!.
Dizem que foi um urro que toda a galáxia escutou.

Cantiléia estava de amores e sem roupa com o seu melhor amigo. A mesa ficou arrebentada no chão. Este foi o último acontecimento que se sabia dele.
Simplesmente desapareceu. É como se ele fosse morar no vazio. Onde não há. Onde não se vê!
Até coisas estranhas começarem a acontecer em alguns universos. Todos relatam ver uma grande luz descer do céu e, depois, como num passe de mágica, todos os seres tocados pela luz passarem a adorar o Deus Sol, seguido de completo segredo sobre suas atividades.
Aparentemente, ele recruta pessoas. Primeiro hipnotiza - as com uma espécie de luz ofuscante. Em seguida usa a alquimia para se transformar num monstro aterrorizante, o que lhe garante completo domínio sobre as pessoas.
Tudo indica uma recaída. A mágoa e a raiva voltaram a dominar sua mente e, consequentemente, uma grande carga de ódio por tudo o que é feliz.
Quantos na sua aldeia já foram dominados?
 - Acredito que mais da metade. - disse o caçula!
 - O que podemos fazer? Em coro saiu á pergunta de pai e filho.
- Ele se alimenta de ódio. Portanto, vamos descansar e amanhã pensaremos num plano para resolver a questão.

Posso adiantar que lá no planeta deles o diagnóstico foi mutação interna de personalidade ocasionada por uma carga de sofrimento gigantesca.

Um galo cantou. Pássaros responderam em coro.
 A bicharada anunciava o café da manhã.
O sábio nos surpreendera levantando cedo e deixando a mesa pronta.
Após uma conversa informal, ele nos relatou uma maneira de solucionar o problema:
 - Prestem atenção! Vocês devem levar este pó mágico. Escolha na aldeia a garota que tenha uma grande capacidade de amar, que seja pura de alma. Cheia de ternura e dê a ela este pó.
Ela tomará banho com pétalas de flores. Após o banho, deve cobrir todo o corpo com o pó e ir ao círculo, onde os homens se reúnem à noite.
Quando o monstro aparecer, ela deve se ajoelhar como se ajoelha diante de um rei. Fazer-lhe a reverência formal das grandes rainhas.
Voltaram para a aldeia em total silêncio. Pai e filho, antes dois grilos falantes agindo como siris. Nem um pio.
Entraram na rotina. Na hora do almoço, a mãe, estranhando tanto silêncio, perguntou o que acontecera.
O pai tomou a palavra e contou o perigo que estava rondando todos.
Indiara! Exclamou. Sim, Indiara é desejada pelos homens por sua beleza simplicidade e pela sua extrema educação.  E sua ternura é confirmada pelo apego que todas as crianças da aldeia demonstravam por ela.
Os pais de Indiara e a própria a princípio não gostaram da idéia, mas em prol da salvação de todos, toparam o sacrifício.
Agora a questão era: como se infiltrar no meio dos homens?
Sabiamente, as mulheres a vestiram de homem. Um boné. Uma calça do pai um pouco larga para o gosto feminino transformaram a linda Indiara num forte camponês. E o resto ficou por uma rápida aula sobre a etiqueta masculina dada pelo caçula.
Sente com as pernas bem abertas. Dê uma cocadinha nos genitais de vez em quanto e umas cuspidas secas para um lado e para outro é o suficiente.
Sorrateiramente, no meio dos homens, que já somavam mais da metade da aldeia, Indiara tinha seu segredo testemunhando pela lua cheia, imperadora dos céus naquela noite.
Multiplicados pelas sombras, os homens se posicionavam como uma multidão de pingüins fugindo do pesado frio dos pólos terrestres.
No centro, como num piscar de olhos, as chamas de uma grande fogueira colocando a língua para fora. Língua que se confundia com a figura do lendário monstro. Meio homem. Meio animal. Meio tantas coisas que a razão não define.
Falava de uma nova raça, cujas qualidades seriam a supremacia da força e com ela o domínio do universo. Aldeia por aldeia. Planeta por planeta, até o completo domínio do universo.
Sua língua, inflamada como brasa cuspia palavras apimentadas afirmando em seu discurso aterrorizador seu domínio de todos os elementos da natureza que compõe o universo.
Ágil como uma serpente e movida pela lógica feminina, Indiara chega frente a frente com o monstro.
E, para surpresa de todos, começa a dançar e a se despir. Seus movimentos belos são tão perfeitos que parecem estar acompanhados de uma música mágica, tocada por uma orquestra de mestres.
Aos poucos cai o boné. A camisa e a calça são jogadas na fogueira e no instante seguinte se revela mulher:
O caçula e o pai ficam amarelos de medo. Ela não estava seguindo as instruções do sábio.
O plano ia por água abaixo. Pensaram em fugir.
Tremulas suas pernas não obedecem...
Ouve-se um rugir coletivo dos machos e ela se ajoelha em reverência na frente do monstro que, ao vê-la, deixa escapar num tormento: Léia. Minha Léia...
 - Sim, meu amo: Léia, Maria, ou Indiara: uma em todas ou todas em uma.
Sua criada e amante por toda eternidade.
Ele diz:
 -  Levanta-te!
Sua cor vermelha começa a passar para o amarelo, depois para o verde e depois o azul infinito.
Ele a pega nos braços e por um instante a lua explode.  Instantes de escuridão e silencio.
Sua sombra e a de Indiara suspensa no ar envolta por um manto de luz azul.
A fogueira começa a crescer com chamas vermelhas de sangue. A luz intensa que ofusca os olhos dispara um raio de todas as cores em direção ao infinito: ninguém respira. A coruja pia. Os morcegos saem à caça.
(...)

O dia amanheceu e todos voltaram ao trabalho. Cada um tem uma história:
Alguns dizem que o monstro e Indiara moram na lua, outros que eles moram em uma pequena aldeia como seres humanos normais e já possuem quatro herdeiros.


Última gota.

Atravessei o deserto escaldante. Sem beber uma gota de água.

Depois, uma planície de geleiras. Sem sentir sede.

Olhei para o céu de muitas estrelas. Não havia brilho nos meus olhos.

Encostei meu corpo na mama terra. Não senti calor em meu corpo.

Adormeci ou hibernei?

Jaeder Wiler

The end















































jaeder wiler
Enviado por jaeder wiler em 26/08/2006
Código do texto: T225910
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Sobre o autor
jaeder wiler
Mantena - Minas Gerais - Brasil
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