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O Viajante


Pela quarta vez ele consultou seu relógio. Os outros homens ao  lado fizeram o mesmo.
Estavam ali fazia quase vinte minutos e o  anfitrião não aparecia para os receber. Jamais imaginariam que João Machado fosse capaz de tamanho ato de grosseria para com conhecidos.
--- Mas o que está acontecendo afinal de contas? - perguntou Márcio Prado.
---- Sei não senhor, patrão ainda não chegou. Pode ter tido problemas.
A mulher gorda e baixa, retirou os pratos de salgadinhos que os havia servido e  pareceu que realmente estava nervosa, tanto quanto os homens ali presente.
---- Mas por que ele nos chamaria até aqui e depois nos faria esperar tanto tempo? Não há lógica nisso. - disse Pedro Bonnapetit - Que eu saiba ele nunca foi de fazer tamanha descortesia.
---- É, mas isso faz muito tempo Pedro. Não esqueça que faz quase vinte anos que não conversamos com ele, e nesse tempo a fama que se criou á pessoa de Machado é de que é um homem solitário e estranho. - disse um senhor com alguns cabelos brancos e um bigode grisalho. - Pois que estou curioso por saber o motivo que nos chamou. Depois de tanto tempo sem levarmos uma conversa, de repente reúne toda a turma da juventude, e até eu que pouco o conhecia.
---- Está certo senhor Maurício Dalambosta.  Acho que o único aqui que teve algum envolvimento com o Machado depois da época do verão de 1972, fui eu. - disse Márcio Prado - no entanto foi apenas uma vez, quando o encontrei por acaso no mercado público. Eram quase onze horas da noite, e ele pareceu se incomodar com minha presença. Foi em uma noite de inverno, acho que em 1974 ou 75, não me lembro bem. No entanto ele ficou bem nervoso quando eu o saudei.
---- Mas o que ele fazia no mercado público nessa hora? - disse Pedro.
---- Sei lá. O fato é que ele estava ali,  a olhar para as estrelas com uma expressão fixa no rosto. Seus olhos pareciam olhar para longe, como se não fosse aquele o local em que estava. Parecia mesmo estar estudando as estrelas, sei lá. Me cumprimentou, parecendo sair de um transe, e então consultou seu relógio de bolso, o velho relógio do vô dele lembram? - diz olhando para os presentes.
---- E daí? O que ele disse?
---- Não disse nada. Apenas perguntou se eu ainda tinha os mesmo ideais e princípios que tinha quando éramos amigos de sala de aula. Perguntou por vocês, também.
---- Muito gentil da parte dele. Mas pouco sabemos dele, desde que foi reprovado no vestibular de física, que havia feito em 72.
---- Eu sei. Então nós marcamos de jantarmos outro dia em um restaurante, onde serviam um belo peixe com camarão ao molho.
---- Só isso? ele não te disse nada? O que estava fazendo, seus planos, essas coisas?
---- Nada! E eu não quis ser indiscreto. Conversamos banalidades, futebol, militares, essas coisas.
---- e no jantar como foi?
---- Não foi.
---- como assim? - quis saber Pedro.
---- ele não apareceu! Nunca mais o ví.
---- Estranho! Jamais soube, pelo menos antes né, jamais soube que Machado houvesse faltado a um compromisso.
--- Vejam, o que encontrei! - disse Mauricio, que havia se levantado e prescrustava a sala com seus olhos vivos e curiosos.
---- O que é isso? Um jornal?
---- Sim, um jornal. Vejam, é de quando eu recebi aquele prêmio da fundação Cabral de Mello.
---- Quando fez aquela doação para a creche, na enchente de 1978? - disse Pedro se levantando e olhando o jornal na mão do homem de cabelos grisalhos.
---- Esse mesmo! E vejam só, tem mais um monte de recortes ali dentro daquele armário.- disse apontando para um baú velho que estava no canto da sala, atrás de cadeiras empilhadas.
----- Escutem esse daqui! “Márcio  Prado faz doação para hospital de tuberculosos”! É a manchete sobre aquela minha primeira doação aos hospitais da região. E tem mais olhem! “ Pedro Bonnapetit cumpre sua promessa de natal. Doa presentes para mais de cinco mil pessoas”.
---- Mas o que significa isso?- disse Mauricio pegando outro recorte em mãos.
---- Parece que o Machado estava sabendo de tudo que acontecia conosco.
---- É dá para perceber, mas por quê? Qual a intenção dele com tudo isso?
Márcio Prado olha ao redor de si.
---- Vocês notaram os volumes que estão nas prateleiras?
---- volumes?
---- Os livros! Olhem, nosso amigo parece ter criado um gosto muito grande pela ciência. Observem. Ali, os cinco volumes de Dirac, Vejam, uma estante somente sobre física quântica.
Os três homens se levantaram e só então se aperceberam que estavam dentro de uma biblioteca.
---- Olhem aqui! “Princípios da física gravitacional”, nem sabia que existia isso!
----- Olhem só para isso! Quem diria? O Machado que nem passou no vestibular de física estudando esses gênios da ciências. Ali, tem Camus, aqui tem Galileu, vocês viram? Ciência molecular, energia subfotônica, estruturas moleculares.
---- Está explicado por que o homem...
Subitamente a casa começou a tremer. Sentiam seus pés e seus corpos se deslocarem para os lados, e no mesmo instante a energia acabou, para no minuto seguinte, antes que um desses homens se desse conta a luz voltar, e tudo acabou tão rápido como começou.
Ouviram passos apressados na sala ao lado.
---- O que foi isso?
---- Não sei! Parecia um tremor de terra!
---- Aos diabos com tremor de terra! Nunca ouvi falar de terremoto nessa região.
---- Vocês ouviram os passos? Será que Machado chegou?
Márcio Prado estava sentado, pensativo, enquanto os dois outros homens estavam de pé.
---- Em que está pensando Márcio?- quis saber Pedro.
---- Em como o....
Foi interrompido pela criada que naquele momento entrava na sala.
---- Sinto muito cavalheiros, mas acho que o Senhor Machado não poderá lhes atender hoje!
---- Como assim!? Foi ele que nos chamou até aqui! Eu deixei meu escritório para vir ter com ele! O Machado não pode nos tratar assim. É uma tremenda falta de respeito. - esbravejou Mauricio.
---- O que aconteceu? ele chegou?
---- Sinto muito, mas é só o que eu tenho para lhes dizer. Sigam por aquele corredor e o nosso motorista lhes deixará onde os pegou, na cidade.
---- Mas...mas... senhora, faz quase vinte anos que não o vemos. O que aconteceu? O que fizemos para sermos tratados assim.
---- Não sei, senhor Márcio Prado. Essas são as minhas ordens.
---- Eu sabia, o Machado agora está dando uma de todo poderoso. Está querendo nos ridicularizar. Mas que se dane, eu não o procuro mais.- disse Pedro saindo pela porta que dava ao corredor.
Mauricio o seguiu, balbuciando palavras de desagravo ao dono da casa.
Márcio saiu pensativo, olhando para as paredes da casa, toda de madeira e com belas gravuras penduradas.
---- Sabe o que me intriga Pedro?
---- O quê?
---- Da onde o Machado tirou tanto dinheiro assim? Essa enorme fazenda. Não vi uma cabeça de gado, e nem plantação alguma. Não há uma casa próxima que não esteja a mais de dez quilômetros. e não sei se vocês repararam, mas a casa está sobre uma enorme rocha, á beira de um precipício. Nem o melhor escalador poderia subir por aquele paredão.
---- É verdade! Até parece uma fortaleza a casa desse ingrato que não quer nos receber.
----- “Gostaria muitíssimo de tê-los em minha morada durante o dia tal. Seria para mim enorme honra ter de volta aos meus braços, amigos que ainda mantém os ideais de outrora e que mesmo assim conseguiram se destacar na nefasta sociedade em que vivemos os dias atuais. Meu motorista os apanhará a tal hora e os trará de volta a são e salvo. Não encontro motivos para não nos reunirmos novamente como fazíamos antes do verão de 1972. Cordialmente, seu amigo de sempre João Machado”. Grande merda.- disse Maurício atirando no lixo o bilhete que recebera e que era igual ao que os outros homens haviam recebido também.


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Um ano depois, em um certo dia, encontraram-se por acaso Pedro Bonnapetit e Márcio Prado, na entrada de um restaurante.
--- Ora, mas que prazer revê-lo!
---- O mesmo digo eu! A ultima vez se não me engano foi quando estivemos na casa do Machado.
---- Isso mesmo. Aquele insensato! Mas vamos sentar-nos, tomar um bom vinho e conversaremos melhor.
---- Claro! Claro! - disse Márcio e procuraram um lugar sossegado para sentarem-se.
O garçom os atendeu e eles começaram a conversar.
---- e o Mauricio? O tem visto?
----  Nunca mais tive notícias dele! E você o que tem feito ultimamente?
---- Viajando por aí! – disse em meio sorriso Márcio
---- Ah, vida boa! Eu queria fazer isso, mas o escritório me mantém preso.
---- Eu imagino!
---- Mas você não estava trabalhando em um escritório quando fomos até a casa do Machado na última vez em que nos vimos?
---- Estava! Mudei de ramo.
---- E por falar no Machado, tem tido alguma notícia dele?
---- É justamente isso que quero lhe falar Pedro. Sobre o Machado.
---- Ora, e o que o Machado pode ter de importante, depois do modo como fomos tratados quando lá estivemos.
----- Olha Pedro é uma história cumprida e meio sem pé nem cabeça, pelo menos eu pensava assim.
----- Pois então aproveite. O vinho daqui é muito bom, e eu estou louco por comer uma boa pizza.
---- Bom, quando saímos da casa do Machado a um ano atrás, estávamos todos os três desapontados com o proceder dele. Mas não conhecíamos seus motivos.
---- E quais foram esse motivos? – disse Pedro tomando um gole.
---- é que uma semana depois, eu recebi um novo bilhete dele, me convidando, ou melhor, pedindo minha ajuda, para ir visitá-lo.
---- Ajuda? Ajuda em quê?
---- Bem, o Machado, ele está envolvido em alguns... alguns...
---- Alguns o quê? O homem está algo ilegal? Contrabando? Drogas? – parecia curioso e não fazia questão de esconder isso.
---- Alguns experimentos científicos! - soltou as palavras como se tivesse se livrado de algum peso - Experimentos não legalizados, diga-se de passagem. Mas deixe-me contar como tudo aconteceu.
“ Então o motorista dele apareceu no dia marcado no bilhete. O homem, como da primeira vez em que lá fomos, não pronunciou uma palavra o caminho todo. Ao chegarmos lá, observei o silêncio e o quão retirado do mundo estava vivendo Machado. O motorista foi abrir a porta para mim descer e só então reparei em seus olhos, fixos, vítreos, naquele instante eu poderia jurar que ele não era humano. Chegou a me dar arrepios esse pensamento. Entrei na enorme casa, que aquele dia por chegarmos já bem tarde do dia e este estar nublado, não conseguimos ver a verdadeira dimensão da propriedade. Era enorme. Acho que do tamanho de um campo de futebol, sem exagero. No entanto pensei no porquê de tudo aquilo, visto que ali só havia o Machado, a criada e o motorista. Bom, passado este instante de contemplação abismada, a criada me levou até um canto da mesma sala onde estivéramos na outra vez. Observou para não mover-me dali em hipótese alguma e então de repente as luzes se apagaram e no instante seguinte, eu estava em outro local da casa. Em um quarto. Eu abria a boca e queria gritar, mas me controlei a tempo quando notei debaixo dos lençóis o meu amigo Machado. Aproximei-me, e vi dor em seu rosto. Parecia bem mais velho que realmente era. Sua face estava toda exaurida, como se fosse sugada toda vitalidade de seus poros.
---- Aproxime-se Márcio. - disse ele em um fio de voz, abrindo os pequeninos olhos, quase secos na órbita ocular - Que bom que veio! - pegou em minha mão - Me desculpe se no outro dia, me comportei mal para com vocês. Não era essa minha intenção.
---- Ora! Estás mal Machado! – disse lhe passando a mão na testa -Todos nós entenderíamos o que aconteceu a ti! Por que não nos avisou antes.
---- Márcio, estou no meu fim. Tenho um legado, e acho que você é a pessoa indicada para ficar com ele.- ele tossia baixinho.
---- Que legado é esse Machado? por que tanto mistério sobre sua doença?
---- Depois do que lhe contarei aqui, você entenderá. Sente-se, pegue uma cadeira e sente-se ao meu lado- eu o ajudei a recostar-se na cabeceira da cama.
Peguei uma cadeira e sentei-me ao lado da cama.
---- Tudo começou logo depois do meu fracasso no vestibular de física em 1972. Fiquei com inveja do modo como você, o Maurício e o Pedro, conseguiram passar com facilidade.
---- Mas sabe que nenhum de nós seguiu aquela disciplina. Eu estudei o primeiro semestre e depois fiz economia, o Pedro fez Direito e o Mauricio fez línguas.
---- Eu sei. E todos prosperaram. Parabéns. Mas como  ia dizendo, eu me senti ridicularizado, o menor de todos. Então resolvi me dedicar com mais afinco a física.  Esqueci de todo o resto do mundo. Nada mais me importava. Nada tinha mais valor. Em dois anos aprendi muito e fui fazer vestibular na França, um amigo, hoje já falecido, me arrumou dinheiro para os estudos e durante quatro anos eu fiquei ali metido em meio a laboratórios e pessoas metidas a intelectuais. Desenvolvi uma tese de projeção temporal molecular. Ganhei uma bolsa e me dediquei por mais dois anos ao estudo. Mas logo cortaram minha bolsa. Voltei ao Brasil e com uma pequena quantia que me sobrara da herança de meus pais, que agora eu já podia usufruir, montei um pequeno laboratório.
---- O que é essa tal de projeção temporal molecular?
---- As moléculas ocupam o espaço diante de nossos olhos. Moléculas de carbono, de oxigênio e hidrogênio. E o vácuo é ocupado pela matéria inativa. Ou seja partículas elétricas. Elétrons, prótons, neutrons e posítrons. Quando há uma projeção de moléculas no vácuo essas partículas elétricas, se arranjam para formarem mais espaço, pois o espaço é infinito, olhando sob o aspecto universal. É como uma teoria de um hotel com número de quartos infinitos. Quando chega um número de turistas, o atendente verifica que os quartos estão todos ocupados. Então o gerente arruma lugar para todos, pega o cliente do quarto 1 e coloca no 2, pega o cliente do 2 e coloca no três Pega o cliente do quarto 3 e  coloca no quarto 4 e assim por diante, até ele conseguir colocar todos os hóspedes. É mais ou menos o que ocorre com a projeção molecular.
Bom, então eu trabalhei nessa tese. Mas daí um dia, indo de carro até o centro, eu observei o quanto estávamos atrasados para chegar até o horário previsto. Pedi para o motorista acelerar o carro e o tempo que levaríamos para chegar diminuiu, pedi para acelerar mais e observei uma coisa, uma coisa que todos já perceberam. Quanto mais ele acelerava mais próximo do local nós ficávamos, e o tempo decorrido era sempre menor.
---- Realmente isso todos sabem. É uma das leis da física. Se aprende no segundo grau.
----- Aí é que está! De repente eu vi meu trabalho todo ter sentido. Se para chegar em tal lugar eu gastaria vinte minutos com aceleração X,  se minha aceleração fosse 2.x eu chegaria no local Y em dez minutos. E assim, me propus trabalhar em cima da física do movimento, juntando meus conhecimentos da projeção molecular.
---- Mas, você deve ter levado em conta o atrito, a gravidade, pois que...
---- eu sei, eu sei...Essas teorias foram estudadas uma a uma, e é por isso que tive de me reclusar em um lugar distante, assim que consegui a primeira experiência.
---- A primeira experiência? Que experiência?- eu estava atônito com o que ouvia.
---- Você não vai acreditar Márcio! Eu mesmo não acreditei! Finalmente depois de quase dez anos, eu tinha conseguido.
---- Conseguiu o quê? Que merda homem, está me matando com esse suspense todo.- na verdade eu tremia diante da expectativa de que meus pensamentos não me traíssem .
Machado então sorriu e eu achei seu sorriso como se fosse o de um demente, ou melhor, como se eu fosse para ele um demente.
---- Na primeira vez eu apenas voltei uma hora. Antes de iniciar a experiência, o ato próprio dela, eu havia deixado todos os escritos em uma gaveta, trancada a sete chaves, e as chaves no cofre, caso algo me acontecesse. Marquei com um X maiúsculo no chão, o local de onde eu partiria,e anotei ao lado do X as horas. Deixei uma fita gravada no gravador com instruções.
---- E conseguiu? Deu certo.
---- Claro que deu. Quer dizer, a cápsula era enorme, e teria que convergir sobre mim mesmo para que eu pudesse voltar, pois não há maneira de fazer um espaço voltar no tempo, somente um objeto ou algo não muito grande, caso contrário romperia muitas moléculas e dispersaria muitas ondas eletromagnéticas ao redor do globo podendo romper com o fluxo material que conhecemos, para poder organizar as moléculas elétricas.
---- e você voltou para o passado?
---- Voltei exatamente uma hora. No momento em que me dei por si, estava na cozinha conversando com Maria,- como eu não sabia quem era Maria , ele explicou - a minha criada. No instante eu não percebi o que havia acontecido, pois minha mente regrediu juntamente com o corpo, a uma hora antes. Logo eu me vi no laboratório fazendo os preparativos para a viagem, então quando abri o cofre as letras no caderno de anotações me diziam o que eu havia feito. Tentei ouvir a fita, mas só havia chiado. Acho que a cápsula provocou uma interferência na máquina. mas as anotações estavam ali. Eu já havia viajado no tempo.
---- Sério mesmo? não está gozando da minha cara!? – gostaria na época de perguntar, como pudera encontrar as anotações pois voltando no tempo tudo que escrevera anteriormente desapareceria, mas me contive e deixei-o continuar.
---- Eu jamais faria isso, meu caro! Depois de quase vinte anos, sem lhe ver, eu jamais faria isso. Mas deixe-me continuar. Levei mais cinco meses, para conseguir resultados melhores, ajuste de controladores de rotação, e também de timers, comprei geradores mais fortes e consegui, antes de fazer a segunda experiência, um lugar mais seguro para meus trabalhos. Foi quando vim para cá. Por causa de curiosos, fiz a mudança toda de noite. O que levou quase uma semana só fazendo a mudança, por causa da fragilidade e cuidado com que os aparelhos deveriam ser manuseados. Então me preparei para a segunda experiência, eu queria fazer algo voltar no tempo, mas queria também programar em que tempo esse algo iria voltar. Então eu peguei uma maçã, a mordi e a coloquei na máquina. Mas antes, coloquei no meio da maçã um pedaço de papel. Saí então para a feira e medi a distância que teria da minha casa até um determinado local na feira. Feito isso voltei, coloquei os dados na máquina e apertei os botões. Em seguida tentei fazer algo inusitado, pois como eu poderia pegar a mesma maçã? Afinal eu não tinha voltado no tempo, apenas a maçã, então como saberia se alguém, no passado tinha pego a maçã? Não poderia saber jamais, pois eu estaria então no futuro, em relação a fruta. pensando nisto, consultei alguns registros anteriores e fiz...
---- o que você fez?
---- Fiz a nossa casa voltar no tempo, um dia, que foi o dia em que mandei a maçã para a feira. Esperei, munido de anotações sobre o que havia feito.
---- Mas as anotações não estavam dentro de sua casa? Se você fez a casa retroceder um dia no passado, então o teu caderno não teria essas anotações. Estaria em branco.
---- Exatamente! Pegou a coisa!- disse animado. Parecia que conseguia forças para contar-me a fantástica estória. - Só eu que ao colocar a casa toda no fluxo da dispersão molecular, retirei o caderno e o pus na caixa de correio ao lado de fora, pois era hábito toda manhã abrir a caixa do correio, longe da casa quase um quilômetro. O Boris, o motorista, sempre ia até lá. Era a sua programação.
---- Programação?
---- Sim. Boris é um autômato! Não havia percebido?
---- Não! Quer dizer...
---- Bom, deixa pra lá. Então Acionei a máquina. Eu estava na sala de leitura quando o Boris, chegou com os jornais da manhã e a correspondência do dia. Maria tinha ido a feira, e ele aproveitava para comprar jornais. Quando ele colocou as coisas em cima da minha mesa, perguntei a ele por que meu livro de registro estava ali no meio, ele não soube me responder. Eu o abri e comecei a ler lembrando-me das minhas experiências, no entanto sem lembrar especificamente o quê. Em instantes eu li a nota explicativa e corri para a cozinha, onde Maria estava lavando as frutas para as colocar na geladeira. peguei as maçãs e comecei a cortá-las ao meio, depois de estragar quase todas as frutas de Adão eu encontrei em uma delas um pequeno pedaço de papel. “parabéns”.
---- Não acredito! Se você, no presente, come uma fruta, como você disse mordeu a maçã e colocou um pedaço de papel, quando ela voltar ao passado ela não terá mais o papel, pois o papel foi colocado dentro dela no futuro.
---- Era assim que eu pensava também. Mas como o fluxo das moléculas somente interagiram sobre a regeneração do objeto, no caso a maçã, ela conservou seu espaço, ou seja vácuo, no momento da reestruturação celular. E nesse vácuo, intemporal, o papel não interagiu com o seu recipiente. manteve suas características.
---- É impressionante!
---- Na verdade em 1927 Dirac, já havia ditado algumas normas para uma pesquisa nesses termos. Mas ninguém o levou a sério. Darwin também tinha um estudo sobre esse tema.
---- No entanto só você o conseguiu?! Machado isso é uma revolução mundial! Precisamos contar...
Ele apertou minha mão com força. Toda a força dos seus músculos cansados. Seus dedos secos e esquálidos apertaram os meus.
---- Espere, tem mais...deixe-me acabar. Dali em diante eu mesmo servi de cobaia. Meus recursos estavam acabando, então resolvi ser um pouco calhorda também. Por várias vezes, já sabendo o resultado do jogo do bicho, eu voltava até o dia anterior e apostava sempre no número vencedor, Claro que sempre em bancas diferentes e também em diferentes cidades.
---- Agora está explicado como mantém essa casa.
---- Pois é, mas tudo que é bom, acaba um dia. Comecei a ir mais longe em minhas viagens. A princípio, tinha por regra escolher e estudar muito bem o lugar, coordenadas, para onde iria aportar. Mas entorpecido pelo que meus olhos viam e as coisas que aprendia, as pessoas com quem falava, comecei a me descuidar desses detalhes tão importante. Já imaginou, se não estudasse essas coisas tão miúdas, de repente poderia ir parar no meio do oceano, e daí?  ou então debaixo de uma carroça, ou até mesmo em meio a alguma guerra. Não, o estudo dos lugares era primordial. Levava ás vezes, quando a viagem não era de um dia ou dois, levava meses estudando o local onde ir.
---- Mas não sei para que tanto cuidado? Afinal morrer você não podia pois senão nunca chegaria a construir a máquina.
---- Essa é uma teoria interessante, no entanto, não quero pô-la a prova. O fato é que cheguei a ir até as índias no tempo de Ghandi, mas não sabia o que falar. Ficava só observando, como um surdo-mudo.
---- Mas como você fazia para voltar? digo, a máquina ia junto com você?
---- Não, na verdade eu tinha um relógio solar, e planejava sempre o tempo em que ficaria naquele local. Na máquina havia um cronômetro para de tempos em tempos fazer a varredura no local pré-diagnosticado, buscando por um DNA específico, no caso o meu.
---- Já imaginou se trouxesse para cá um Einstein da vida? - falei sorrindo e achando fantástico tudo que ouvia.
---- Essa era uma das preocupações. Um Einstein, ou mesmo alguém com algum vírus desconhecido.
---- Viajou por muitos lugares?
---- Os mais variados. É incrível o que nossos antepassados faziam. Na idade média, as meninas de doze anos já eram negociadas para casamento, ás vezes com quatorze já tinham dois filhos. E na Grécia então, quanta beleza, quanta grandeza, mas mesmo assim, quanta desigualdade.
---- E o que te chamou mais a atenção?
---- Isso. Foi por isso que eu chamei vocês três aquele dia aqui. A desigualdade é o que me chamou mais a atenção. Em todo tempo, em todo lugar, sempre houve exploração do ser humano. Os mais poderosos sempre se diziam amar os pobres, no entanto, os mantinham sempre pobres para poderem deles se servir.
--- O que temos nós com isso?
---- Eu tenho seguido os passos dos três. Me orgulho muito do que vocês tem feito. São exemplos da maior hombridade e honestidade possível.
---- Por isso que me perguntou, naquela noite quando nos encontramos se ainda tinha os mesmo ideais?
---- Naquela noite, foi apenas um teste, eu estava viajando, me assustei por vê-lo ali. Não era o momento de saber.
--- Então por isso que não compareceu ao jantar?
---- Exatamente! Meu eu do presente não lembrava disso. E quando eu voltei, tive que ir até Einstein devolver uns escritos que pegara escondido dele. Fiquei lá por quase um mês.
---- Mas, a máquina comportava todo esse tempo? digo, uma viagem de um mês no passado?
---- Bom, aquela foi a primeira vez. Mas o perigo não era bem a máquina, era eu mesmo.
---- Como assim?
---- Eu corria o perigo de interferir no passado podendo isso acarretar mudanças no presente, ou seja futuro da onde eu estava.
---- Entendo!
---- É!  Acontece que descobri que nada que se muda no passado pode alterar o presente. Pois se alterasse então eu não poderia construir a máquina. -- ele começou a tossir forte. Logo Maria entrou no quarto e lhe deu uma dose de um remédio que não sei o que era.
---- O que aconteceu com Você? - perguntei.
---- Voltei 500 anos, dentro do Brasil.
---- 500 anos? na época do descobrimento?
---- É! E uns índios me trataram como Deus, vindo dos céus, chegaram mesmo a desenhar em certas cavernas. Mas logo um índio adoeceu e me pediram para curá-lo. Não o consegui, e então me colocaram em um lugar onde logo teria fogueira. Foi quando outro índio entrou gritando alguma coisa e todos correram para a praia. Sozinho, cortei os cipós com um canivete. Ainda bem que me deixaram com as roupas e a bota. Saí correndo para o local onde a máquina faria o rastreamento. Então surgiu a minha frente um índio enorme, pelado, com uma enorme lança ele avançou sobre mim. Me esquivei do seu ataque ao mesmo tempo em que o derrubava com uma rasteira. Em seguida ouvi uma gritaria enorme. Eles tinham notado minha fuga e agora estavam no meu encalço. Desesperado, consultei o relógio solar, apesar da pouca luminosidade por entre as arvores, vi que faltavam menos de vinte minutos para a próxima seção de rastreamento da máquina. Corri o mais que pude, meio que desorientado, mas com as anotações na bota, verifiquei que teria que atravessar a aldeia, pois o local onde cheguei ficava do outro lado. Então tomei uma resolução. Subitamente parei de correr. Tirei um isqueiro do bolso e o acendi. Os índios como que não acreditando, não atiraram mais nenhuma flecha nem lança contra mim. A chama alta fez com que os índios me deixassem passar por entre eles, abrindo passagem como um corredor. Na aldeia poucos estavam. Ou eles estavam na praia olhando ao longe as caravelas que se aproximavam, ou estavam agora atrás de mim. O gás do isqueiro estava quase acabando eu rezei para que durasse. Faltavam ainda cinco minutos para a máquina me resgatar.
---- E o binga agüentou esse tempo todo?
Ele sorriu.
---- Na verdade não. Mas quando vi que estava no fim, eu peguei um maço de capim e coloquei fogo, formando uma coluna de fogo entre eles e eu. Seus gritos de raiva se perdiam na mata. Então incitei novamente uma corrida louca por entre a mata, caindo, tropeçando, caindo, levantando, caindo novamente, até chegar ao local do resgate. Quando cheguei no local, estático de pé, um índio atirou-me uma flecha. Ainda vi ele arregalar os olho, assustado e assombrado, quando a máquina começou a evolução celular.
---- Mas, o que tem isso a ver com sua doença?
---- Veja!- Ele levantou o lençol e eu vi uma enorme ferida em seu peito, como se alguém lhe houvesse perfurado.- Maria tirou a flecha para mim. Foi naquele dia em que vocês me esperavam na sala. Eu queria trazer-lhes uma lembrança daquela época para provar-lhes.
A ferida estava necrosada.
---- É grave!? - perguntei.
---- Eles usavam curare! Veneno extraído de plantas! Não há nada para se fazer. Verifiquei no laboratório quando ainda podia ficar de pé. Misturaram com veneno de Aranha. Era para as guerras tribais.
---- Mas por que não volta no tempo e tenta modificar isso?
---- Não entendi?! - disse ele. Pela primeira vez era eu que iria explicar alguma coisa.
--- Ora, volte no tempo até o instante em que iria viajar para lá, e não o faça! Deixe alguma anotação.
---- Pois você acha que durante essa semana toda não fiz isso? Não adianta, como eu disse, o passado não pode mudar o presente. É uma lei que aprendi a duras penas. Durante dois dias fiquei indo e vindo na máquina. E isso acabou com minhas forças, pois a radiação emanada é muito forte. Entendi então como aquela primeira vez o toca fitas não gravou nada. As ondas eletromagnéticas, aos poucos vão diminuindo a recomposição celular. Cada viagem dessa, por mais breve que seja, consome um certo grau de energia de suas células, e no fim, não lhe resta muito.
---- Mas talvez isso possa ser repensado! Tem que ter um jeito! O que você fez foi uma maravilha para toda a ciência do planeta! Hoje em dia a tecnologia podia dar um jeito nisso. Ou então por que não deixou algo com Einstein, ou Darwin? Deve haver um jeito.
---- Se há eu não sei, mas sei que Einstein ou Darwin, nada poderiam fazer pois estão no passado. Talvez o futuro possa resolver esse problema da recomposição celular.”

---- E foi só isso que vocês conversaram? - disse Pedro comendo outro pedaço de pizza.
---- Bom! Foi! Daí na saída ele me deu dois presentes.
---- Arre! que história idiota Márcio, não me diga que acreditou.
---- É, acho que acreditei sim.
---- O que é isso que você tem nessa bolsa, ai do lado? Veio do shopping?
---- Na verdade eu trouxe para você! É uma lembrança do Machado!
E Márcio tirou de dentro da bolsa, um flecha.
Tinha um pouco de sangue, na ponta de pedra. E trazia umas penas coloridas ao redor da base.
---- O que é isso cara?! Tá querendo me impressionar?
---- Bom, eu tenho que ir! - disse Márcio se levantando, e se posicionando como um militar ao largo da porta.
---- Hei! Que é isso! Hei cara?! Márcio?!
---- Tchau Pedro, te vejo um dia desses.
Então um tremor ocorreu no restaurante e subitamente as luzes apagaram-se.
---- Que diabos...-  pedro olhou ao redor de si.
Márcio já não estava mais ali.
---- Essa é boa?! Viagem no tempo!? Ora bolas! Garçom, traz outro vinho.










Ivair Antonio Gomes
Enviado por Ivair Antonio Gomes em 15/09/2005
Código do texto: T50610

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