Chico e Beto

Chico e Beto

– ... e, na festa da inauguração, Jonas o meu amigo que é deputado me contou que está tramitando em Brasília uma proposta de lei que isenta ex-anencéfalos de ser duas pessoas – dizia o diretor de jornalismo ao seu repórter. – É oportuno fazer uma matéria a respeito desse tema. Aí vão os endereços do cientista e do primeiro ex-anencéfalo. – Encostou o indicador num ícone do painel do celular. – Você poderá escolher quem entrevistar primeiro; Bruna irá acompanhá-lo.

Tiago, sentado diante da mesa do diretor, olhou curioso para os endereços enviados ao seu celular e guardou o aparelho no bolso da camisa. Aquela missão o instigava.

***

Após vencer a estrada de Itaipava, distrito de Petrópolis, em frente à residência, Tiago, acompanhado por Bruna, acionou a campainha. Após um minuto de espera, soou uma voz pelo interfone. Tiago se apresentou, e ouviu-se o som no portão anunciando que a porta estava destravada. O repórter e a fotógrafa entraram sendo recebidos por um filhote de labrador de 5 meses. O cão deitou-se pedindo carinho sendo chamado e repreendido pelo caseiro para que não perturbasse os dois. Logo a porta foi aberta, surgindo Renato Akioka, médico aposentado, que iria ser entrevistado. Vestia um bermudão e uma camiseta azul. Após as visitas tomarem o café, a primeira pergunta foi elaborada, e o entrevistado passou a relatar:

– Morei no Japão na época em que pesquisas com células-tronco embrionárias eram proibidas no Brasil – relatava o anfitrião. – Eu me interessei por tais pesquisas e trabalhei nelas. Já de volta ao Brasil, uma reportagem me sensibilizou: pais souberam que teriam um bebê anencéfalo, e resolveram continuar com a gravidez. A criança nasceu e morreu de parada cardiorrespiratória em poucos dias. Eu fiquei meditando sobre o fato por dias. “O bebê poderia ter sido salvo?” Dias depois, ocorreu-me a seguinte lógica: se o cérebro de um ser funciona, é porque o ser está vivo; e uma imagem me veio à mente: uma célula-tronco tornando-se um cérebro. Empenhei-me, então, num projeto. Com os conhecimentos de genética que eu tinha, fazia com que cobaias nascessem com má formação no cérebro, e implantando a seguir um feito por meio de célula-tronco. Após cinco anos de pesquisas, fui bem-sucedido: um coelho nascido anencéfalo, com o cérebro implantado, passou a se portar como um coelho sadio. Não demorou para eu vir a saber de casos de casais que eram pais de feto anencéfalo. Fui procurar um casal em Volta Redonda a quem expus o meu projeto, e eles aceitaram ser cobaias. Expliquei como seria todo o processo, mas lhes pedi que mantivessem segredo até o implante do cérebro. Por meio de inseminação artificial, uni os gametas do casal, e se formou o embrião, do qual eu retirei a célula-tronco, para formar o cérebro. Após a criança ter nascido, analisei-a e verifiquei que tinha o mínimo de sistema nervoso necessário para sobreviver até a operação. Esta foi um sucesso, e a criança passou a ter vida saudável de um bebê normal. Divulguei então a minha experiência, e muitos foram contra; eram pessoas que não entendiam que, já que o cérebro do ex-embrião funcionava, estava vivo, logo eu não cometera nenhum assassinato. No ano seguinte, em 2008, as pesquisas com células-tronco embrionárias foram aprovadas no Brasil desde que fossem inviáveis e estivessem congeladas por mais de três anos. Às vezes, eu suspeito de que a minha pesquisa contribuiu para a consolidação uso de células-tronco embrionárias. Algum tempo depois, eu fui agraciado com o Prêmio Nobel de Medicina.

***

No bairro carioca de Santa Teresa, um veículo cinza, com logomarca e logotipo verde e preto de um jornal transitava lentamente. Enquanto Tiago dirigia, Bruna pegava o celular e pronunciava “Francisco Belini Gomes”; aproximou o aparelho ao ouvido. Alguém atendeu, e Bruna avisou que já estava em Santa Teresa.

– Já vou enviar o localizador – disse quem estava do outro lado da linha.

O carro parou no meio da rua, os quatro pneus deslocaram 90 graus; o automóvel andou de lado até parar rente ao meio-fio entre dois carros que estavam estacionados. Tiago acionou a campainha de uma residência. Cerca de meio minuto depois, o anfitrião, um homem de 30 anos com uma camisa da Seleção da Copa de 2034, já desbotada, abria a porta. Chegando à sala, cujas janelas estavam abertas para abafar o cheiro de tinta a óleo, o anfitrião pediu tempo para se limpar. Após se servirem de café, o dono da casa iniciava o seu relato enquanto Tiago aproximava o gravador dele.

– Como vocês já ouviram falar, durante um tempo eu fui o bebê mais comentado do mundo, ou será que eu devo dizer nós? É melhor eu começar a contar a história na terceira pessoa para não haver confusão. Em Volta Redonda, um casal soube que o filho que eles esperavam era anencéfalo. Apesar do apelo de amigos e familiares religiosos e ainda que fosse considerado crime, eles pensavam em abortar. Um dia, eles receberam o telefonema de alguém que dizia poder fazer com que a criança, futuramente, viesse a ter um cérebro normal. Esse cientista, que futuramente viria a ganhar o Prêmio Nobel, foi visitá-los e lhes contou como seria todo o processo. Eles aceitaram e, meses depois, nasceu a criança anencéfala, que recebeu o nome de Francisco. Mais tarde, o cérebro desenvolvido por uma célula-tronco embrionária foi implantado no bebê. A experiência foi um sucesso: a criança passou a chorar, sorrir, chupar o dedo...como qualquer bebê. Tudo indicava que o bebê teria uma vida normal, mas surgiu o primeiro entrave na época do cadastramento para o batismo. O pároco da igreja declarou que o bebê não era apenas um: eram duas crianças: o corpo era de uma criança, o cérebro pertencia à outra. Os pais da criança ficaram demasiadamente confusos ao saber que tinham dois filhos em vez de apenas um. O caso deu o que falar: houve discussões que envolveram Bispo, Arcebispo, Cardeal e Papa. Enfim decidiu-se que deveriam ser feitos dois batismos. O nome de batismo da outra criança seria “Roberto”. Semanas depois, recebendo um único banho da pia batismal, foram batizados Roberto Belini Gomes, o cérebro implantado e Francisco Belini Gomes, o restante do corpo.

Enquanto o anfitrião relatava, Bruna o focalizava com uma câmera. Encostou o dedo num ícone e a imagem do entrevistado passou a dar giros de 360 graus.

– Agora eu penso que já posso contar a história na primeira pessoa, isto é, o Roberto vai falar usando as cordas vocais de Francisco. Nos primeiros anos da nossa infância, crescíamos felizes, e os nossos pais literalmente nos tratavam como se fôssemos dois. Quando eu não estava muito a fim de comer, minha mãe punha a colher na boca de Francisco, dizendo “Você e seu irmãozinho, que está dentro de você, precisam crescer fortes e saudáveis”. Na época, eu imaginava que a boca era minha. Eu tinha uma ideia distorcida da situação imaginando que, dentro de mim, havia um menininho, com cabeça, braços, pernas, roupa... Muitas vezes, eu conversava com esse garotinho “Está muito escuro aqui, Betinho; mas nós somos dois. Se aparecer algum fantasma, seremos dois contra um”. Veio o tempo do colégio: no primeiro e segundo ano, as coisas correram normais. Mas comentários correm soltos, logo os meus colegas souberam que éramos dois. Ouvi perguntas como: “Você ouve o seu irmão?” “Você e seu irmão nasceram juntos?”, “Quando você briga com seu irmão, você dá socos na área dos miolos?” Passamos a ser tratados pelos colegas como dois, e veio o apelido “Chico e Beto”, em alusão aos esquilinhos Tico e Teco. Meu primeiro colégio só ia até a quinta série; passei a estudar num colégio de outro bairro. Eu penso que não sofri tanta amolação na primeira escola, porque já havia estabelecido amizades nos primeiros anos, sendo que os meus colegas moravam todos no mesmo bairro. No novo colégio, as coisa foram diferentes. Na 6ª série, a conselho dos meus pais, eu omiti o fato de sermos dois; na 7ª série, o meu caso tornou-se público. Por onde eu passava, ouvia-se saudações: “Oi, Francistein!”, “Bom dia, Francistein!”, “Cuidado com o Francistein!”. Eu tive que me acostumar com o apelido. Na 8ª série, uma ficha me caiu, e tomei noção de outra realidade: eu não era Francisco; era Roberto. Afinal, quem sentia e comandava o corpo era o cérebro; Francisco era o semivegetal da história. Passei a olhar para o espelho com a noção de que eu não via a minha imagem, e sim a de Francisco usando os olhos dele. As únicas imagens que eu tinha visto de mim foram por meio de fotos de tomografia.

O celular do entrevistado tocou no bolso da calça. Pegou o aparelho e atendeu:

– Jorge, ligue mais tarde: o pessoal do jornal chegou – Devolveu o aparelho ao bolso. – Era o meu sócio do ateliê da Almirante Alexandrino. Bem, continuando, na 9ª série, arrumei uma namorada que estudava em outro colégio. Num dia, fui buscá-la na porta do seu colégio para irmos à sorveteria. Quando fui beijá-la, ela virou o rosto, e depois me olhou como que para um alienígena. Alguém contara a ela sobre a minha natureza, e ela foi pesquisar na internet para confirmar. Ela terminou o nosso namoro alegando que todo mundo a veria como galinha, por namorar dois ao mesmo tempo, e foi embora. Quando eu pensava que e o meu dia tinha terminado, me deparei com um colega que me alertou: estavam espalhando um boato maldoso me envolvendo. Como não se sabia a que sexo pertencia o embrião do qual foi retirada a célula-tronco, o que estava na minha cabeça poderia não ser Roberto, e sim Roberta. A princípio, eu me tranquilizava ao me lembrar de que sempre gostara de garotas, jamais de rapazes. Meses mais tarde, eu assisti a uma reportagem na qual uma garota, educada como menino desde bebê, se comportava como menino e sempre gostara de garotas. Na mesma época, eu assisti a uma aula de biologia que explicava como os hormônios influenciavam no comportamento. Meditei que o testoterona do Chico poderia estar influenciando a minha pessoa, sendo eu feminino ou não. Pirei de vez com aquilo. Não sabia mais o que eu era. Passei a cabular; mais tarde, a me viciar em entorpecentes. Pouco estava me lixando se eu maltratava o corpo, ele não era meu mesmo. Fui internado numa clínica para fazer psicoterapia. Na terapia, eu me toquei de que, se o Francisco nascesse com o cérebro normal, eu não existiria. Logo, cheguei à conclusão de que era melhor existir governando o corpo de outro do que jamais ter existido. Com 17 anos, eu e meus pais nos mudamos de Volta Redonda para a Cidade do Rio. Descobri que tinha talento para artesanato e pintura: desde então eu ganho a vida nessas atividades.

Bruna e Tiago passaram a ouvir sons de gente entrando na casa; com o seu aparelho, Bruna visualizava a imagem do entrevistado em forma de holograma. Entraram na sala uma mulher acompanhada de uma menina de 5 anos usando o uniforme do jardim de infância de uma escola; e saudaram os visitantes. Ao ver os copos vazios, a mulher prontificou-se a passar mais café.

– Logicamente a garotinha é a filha biológica do Francisco, mas morro de amor por ela – continuava o entrevistado. – Não sei como irei explicar a situação a ela quando for maior – ficou silencioso por alguns segundos – melhor dizendo, não terei que explicar nada, a não ser que ela pergunte. Quando Regina quis me namorar, eu contei a situação a ela, e continuou me vendo como se eu fosse apenas um; por que então terei a obrigação de contar a verdade para minha filha de criação?

***

Passou pouco mais de um ano após a reportagem. Francisco deu o último retoque na pintura que retratava um modelo antigo de bonde transitando pelo bairro. Ouviu o som de mensagens do celular, que estava no móvel. “Exibir!”, gritou permanecendo sentado. O holograma se formou acima do aparelho. “Cem centímetros!”. A mensagem enviada pelo cartório expandiu. Sorriu sentindo-se como que nascido de uma fusão. “Cessar!”. O holograma sumiu. Pegou um pincel, embebeu os pelos na tinta preta e assinou numa extremidade da pintura “Francisco Roberto Belini Gomes”.