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Saudades de Carla

O céu, que não pode ser chamado de céu, está belíssimo. Os olhos de Danilo não vêem limites naquele emaranhado de luzes artificiais. O portal bidimensional se abre diante de sua vista e deixa passar por ele uma imensa nave, com quase meio quilômetro de extensão. Danilo finalmente poderá descansar. Já mandara seus documentos, não falta mais nada. Um pequenino robô apanha a bagagem de Danilo e o segue pelos corredores do deque da Estação Orbital. Ele deixara Ambrosia há pouco tempo. Sente saudades, decerto, mas já está na hora de seguir adiante.
Seus estudos de Exologia Antropomórfica o seguiram por oitenta anos de sua vida. Muita coisa mudou e aconteceu desde o começo de seu trabalho no século anterior na Estação Espacial Ambrosia até os dias de hoje. Seus ensaios, pesquisas, teses e monitoramentos modificaram em muito a visão do ser humano diante dos demais antropomorfos do universo conhecido. E seus alunos criaram alguns rebuliços interessantes nos Congressos Interestacionais de Exologia Antropomórfica, continuamente baseada no planeta Terra. Todas as velhas teorias tiveram que ser remodeladas. Realmente, Danilo acredita ter feito o necessário para agora poder descansar. Ele tem condições de trabalhar mais duzentos e cinqüenta a trezentos anos, sem nenhum dano mental, mas crê que está na hora de deixar os outros mostrarem seus talentos e que as coisas deixem de girar a seu redor.
— Senhor Danilo Filho, seu aposento é o 536. Nosso andróide irá conduzi-lo até ele. Tenha uma boa estadia em nosso Transportador.
O pequenino robô larga a bagagem e um andróide de altura alguns centímetros acima da de Danilo a apanha. Este vê um casal jovem passar à sua frente e fica triste. Lembra-se de Carla, que foi seu grande e único amor há oitenta anos atrás. Ele tinha acabado de se tornar PHD pela Universidade Terrestre de Marte em Exologia Antropomórfica. Tal curso era recentíssimo, portanto havia pouquíssimos na época. Ganhara, então, um convite para trabalhar em Ganímedes. Quando estava no deque de decolagem em Marte esbarrou-se com Carla, que distraidamente lia alguma coisa virtual. Danilo a achara linda e Carla o achara lindo, porém não passou do esbarrão, até aquele momento.
— Fique a vontade senhor Danilo. Qualquer coisa avise-nos que prontamente virei atendê-lo. Deseja mais alguma coisa?
— Não, obrigado. Só me deixe um pouco sozinho... — Falava como se estivesse diante de um ser vivo.
O aposento é modesto. Se bem que Danilo não precisa nada mais além do que está ali disposto. O rosto de Carla ainda permanece vivo em sua mente. Ele abre a mala e observa um pequeno cartucho de silício que anuncia em seu letreiro digital possuir trabalhos de pesquisa de 2376. Ele o introduz em seu pulso e diante de seus olhos surgem seres dos mais variados e que o fazem recordar de momentos incríveis de seu longo trabalho em Ambrosia.
Os telurianos proporcionaram um momento inesquecível e divertidíssimo. São um povo que ainda se divide em tribos no imenso deserto de Telúria e falam um número imenso de idiomas e dialetos. Gabriel foi quem descobriu Telúria e ao iniciar suas pesquisas aprendeu a língua norma, uma linguagem utilizada por todos no planeta para as relações comerciais. Gabriel passou os dados para Francisco, com exceção do lingüístico por opinião de Danilo. Francisco acabou aprendendo uma língua específica de uma das tribos, que por coincidência sempre evitava usar a palavra Ðäýď da língua norma devido a semelhança com Ðäýť que é o nome do órgão genital feminino nesse idioma. Ðäýď significa troco, porém preferem usar a expressão Ĭœŏţêß que significa devolução do não usado. Um dia, na cantina da Estação, Gabriel sentou-se perto de Francisco e notara que ele conversava animadamente com sua namorada e atendente Zélia. Em determinado momento, Gabriel resolveu impressionar e depois de pagar a conta virou-se para Zélia e disse-lhe que ficasse com o troco, porém na língua norma. Antes que pudesse traduzir levou um soco no rosto com tamanha força que acabou sofrendo uma micro-cirurgia no maxilar direito superior. Esta história correu Ambrosia por semanas.
Carla chegou na estação duas semanas depois desse ocorrido. Recém graduada foi atrás do Professor Danilo para iniciar sua tese de pós-graduação em um povo extremamente guerreiro: os puschates. Não se conheceram de imediato, pois Danilo estava em pesquisa de campo em Kúria, onde tentavam entender um pouco mais da puberdade kuriana, que apresenta uma peculiaridade interessante. Ela é muito bem marcada. Uma mancha surge nas costas, tanto do homem, quanto da mulher kurianos indicando que entraram no período fértil de suas vidas, desaparecendo quando entram na terceira idade. Porém, o que estava acontecendo nesse período da história kuriana é que muitos adolescentes passaram a desafiar a tradição deixando de usar os panos sagrados que escondiam as manchas durante as saídas de casa, gerando enormes discussões em todos os cantos do planeta. Como não possuíam ainda um sistema de comunicações, várias teorias foram formuladas para tentar entender o porquê disso estar ocorrendo em todo o planeta de uma vez só. E como uma das alunas de Danilo, Gabrielle, se interessou pelo assunto, ele foi acompanhá-la para mostrar-lhe os primeiros passos e depois deixar que ela prosseguisse sozinha.
Quando retornou a Ambrosia, dois dias depois da chegada de Carla, deparou-se com ela na cantina. Zélia lhe disse que ela era a nova aluna enviada de Vênus e que queria conhecê-lo. Danilo ainda se lembrava do seu rosto distraído no deque em Marte, bem como ela dele e jamais poderia imaginar que o encontraria de novo. O assunto demorou a entrar no que realmente interessava aos dois. Ficaram conversando sobre a tese dela. Horas mais tarde falavam de si e como um buraco negro que de repente se abre em meio ao vácuo, estavam juntos um pouco antes do relógio marcar 0600.
A campanhia do aposento 536 avisa que há um andróide na porta. Danilo retira o cartucho de silício e ordena ao computador que abra.
— Senhor Danilo, está sendo servido um grande jantar em homenagem ao Doutor Professor Eduardo Cosme. Quando ele soube que o senhor estava a bordo fez questão que o senhor comparecesse. Posso confirmar sua presença?
— Claro, faz tempo que não vejo Eduardo — novamente fala como se estivesse diante de um ser vivo.
— O jantar começa as 2030. Com licença.
Danilo senta-se na cama e de novo olha para sua bagagem aberta. Há algumas fotos impressas. Ele as apanha e se vê junto a Fernando, Gabriel, Zélia, Gabrielle e Samantha. Fora Carla quem tirou a foto. Isso aconteceu no dia em que eles descobriram os maltecos. Um povo muito bonito. Lembram em muito, fisicamente, os humanos. Possuem a pele negra, em tom quase azul marinho, e os olhos de um amarelo ou vermelho muito fortes. São de alta estatura, uma média de um metro e noventa, cabelos encaracolados na cor castanho ou cobre. Lembram anjos, como disse Carla. A alegria era extrema em Ambrosia. Carla e Danilo já estavam juntos há dois anos e meio e no dia seguinte à essa descoberta partiram em direção a Puschat com o intuito de finalizar a tese.
Danilo se veste e se olha no espelho. Não está mal. Ele apanha um outro cartucho de silício cujo micro-letreiro digital afirma que possui músicas selecionadas por Gabriel. Danilo tinha diante dos olhos uma infinidade de escolhas de uma seleção imensa de músicas dos mais variados povos do universo conhecido. E uma lista ainda maior de opções de um dos povos mais musicais já descobertos, os quelucas. Com um sistema fônico semelhante ao das baleias terrestres, toda a sua linguagem soa como música aos ouvidos humanos. Possuem instrumentos musicais ainda mais bonitos. Uma das músicas do cartucho é de Carla e está com uma bela dedicatória. É ouvindo esta música que Danilo entra no salão.
Eduardo, quando o vê, se aproxima e lhe dá um forte abraço.
— Já faz uns quarenta anos, não é mesmo, meu amigo?
— Pois, é! Desde a descoberta dos mubarianos! Que povinho formidável!
— E pensar que atualmente eles estejam a ponto de serem o primeiro povo a fazer contato conosco, já que estão entrando em sua era espacial... E você... e você quer descansar?! Que loucura! Não está na hora ainda! Tem muito o que fazer...
— Já está na minha hora...
— Não consigo ainda aceitar que você pretende descansar...
— Já tomei minha decisão e nada do que me digam vai me fazer mudar de idéia. Fiz tudo o que tinha de fazer, e tenho muitas saudades de Carla...
— Vamos mudar de assunto, então, não é mesmo?
Tem muita gente na festa e isso faz com que Danilo se recorde da estação espacial Ambrosia. Professor-mestre da estação, tinha quase cerca de cento e vinte alunos perante sua coordenação e estava em pesquisa em mais de quarenta povos antropomórficos. Sempre, no final do trimestre, todos os alunos se reuniam para as discussões e relatórios trimestrais, mas a bagunça era tão generalizada que muitas vezes havia mais festa do que reunião. Depois da homenagem, o professor voltou a seu aposento e dormiu tranqüilo.
Quando acordou, um andróide veio avisá-lo de que pousariam em poucos minutos.
— Já estou indo, muito obrigado! — Danilo não parecia perceber que falava como se estivesse diante de um ser vivo.
O Recinto de Descanso já o aguardava. A caminho dele, Danilo se lembra do dia em que perdera Carla. O módulo de pesquisa sofreu uma pane e o sistema de camuflagem acabou sendo desativado. Visualizada por um grupo de guerrilheiros paschutezes acabou sendo abatida de forma violenta, fazendo com que um incêndio a matasse. O resgate não conseguiu chegar a tempo. Danilo ficou sozinho durante toda a sua vida e por isso se entregou ao trabalho. Fez de tudo para manter-se com a cabeça ocupada e pensar o menos possível em Carla, mas isso é impossível. Danilo se cansou. O Recinto preparou-lhe um leito. O professor deitou-se e antes de tomar o veneno ainda ficou olhando para o céu estrelado acima da cúpula de vidro. Danilo escolheu falecer no mesmo dia em que Carla morrera, pois quer voltar a ela, como se ela ainda estivesse viva.
David Scortecci
Enviado por David Scortecci em 26/10/2005
Código do texto: T63804
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Sobre o autor
David Scortecci
Irati - Paraná - Brasil, 39 anos
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