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NEM TUDO MUDA.



No ano de 3018, os poucos sobreviventes das várias catástrofes pelas quais a Terra havia passado já haviam estabelecido uma nova colônia em Omnitron, um pequeno planeta descoberto pelos cientistas alguns anos antes da destruição total do nosso antigo planeta, em 2347. Os pouco mais de vinte mil habitantes viviam em paz e sob uma ordem nunca antes vista. Finalmente, tinham conseguido se organizar de modo que tudo funcionava perfeitamente. Os doentes eram atendidos e tratados rapidamente, havia trabalho para todos, as casas eram confortáveis e dotadas da mais alta tecnologia e não havia ninguém passando fome ou sem ter onde morar. Parecia que os humanos, finalmente, tinham aprendido a lição com todos os problemas que haviam passado enquanto viviam na Terra. O único problema era que, em Omnitron, não havia praia, mas até com isso todos já estavam acostumados, principalmente os sobreviventes brasileiros, cuja quantidade, a essa altura, já era pequena no novo planeta, se comparada ao número de pessoas de outros países.
No início da transferência para o novo planeta, ocorreram alguns problemas em relação à divisão de trabalho, à distribuição da renda e ao controle das verbas para investimento em melhorias no novo lar dos terráqueos. No entanto, os cientistas resolveram tudo com a invenção de um sistema cibernético que vigiava todos os passos de cada cidadão, a fim de inibir os que pensassem em cometer algum crime ou tramar algum plano que pudesse pôr em risco a confiança da população na Administração Partilhada, como era chamado o órgão responsável por governar a cidade. A partir daí, os casos de fraude, por exemplo, tornaram-se raríssimos, a ponto de o sistema de controle ser quase esquecido pela população. As novas gerações sequer eram informadas da presença constante do olho permanente sobre cada um. Com isso, alguns séculos depois, o controlador cibernético já era citado como uma espécie de lenda, embora ele ainda continuasse ativo, monitorado por indivíduos cuidadosamente escolhidos entre o povo. A missão desses homens era absolutamente secreta e, após treinados durante alguns anos, passavam a viver exclusivamente num prédio do governo, ao qual ninguém mais tinha acesso e de onde só saíam uma vez durante a vida, a fim de recrutar novos agentes.
Em Ominitron, o progresso era evidente e uma possível expansão dos domínios para outros planetas já era uma coisa prevista para muito em breve, devido à necessidade de mais espaço para as plantações e para as indústrias (todas construídas visando à preservação do meio ambiente). A pouca quantidade de água existente no planeta não preocupava muito, haja vista que a própria população fazia um controle rigoroso do consumo. Aliás, o desperdício, tanto de água quanto de comida, era quase nulo. Enfim, parece que o futuro daquelas pessoas e das próximas gerações estava plenamente garantido.
Entretanto, em se tratando de humanos, nem tudo muda. Durante a implantação de um projeto de irrigação artificial para uma das muitas áreas de plantação de trigo, um membro recém-empossado do conselho de administração da obra decidiu que era hora de lucrar um pouco mais do que o acordado em assembléia. Um dia, enquanto trabalhava, fez algumas alterações nos valores do contrato de construção dos canais coletores de água, de modo que pudesse desviar uma quantia considerável para sua conta particular. Porém, logo que as obras foram começadas e as primeiras parcelas foram pagas ao construtor, o sistema de controle constatou o problema e logo identificou o autor das alterações. No dia seguinte, a esposa do fraudador, ao acordar, deparou com o corpo do marido ao seu lado, já morto. Desesperada, chamou a polícia, que prontamente veio e constatou a morte do conselheiro, ocasionada por eletrocução cerebral. Sem saber direito o que havia ocorrido, a viúva foi pedir explicações aos outros membros do conselho, os quais, após consultarem a Administração Partilhada, voltaram com a resposta para o mistério: o jovem conselheiro havia sido executado por tentar fraudar a licitação da obra que ele ajudava a administrar. Só então a viúva descobriu que, ao nascer, todos os habitantes de Ominitron recebiam o implante de um dispositivo eletrônico, que servia para monitorar tudo o que as pessoas faziam, mas também como instrumento de punição para os criminosos.
É claro que a notícia correu rapidamente pelas ruas e, em pouco tempo, era só do que se falava. A maioria se mostrava surpresa com a tentativa de fraude, já que aquilo não acontecia há muito tempo. O que mais chamou a atenção do povo, no entanto, foi o comentário do membro mais antigo da Administração Partilhada, feito durante a cerimônia de exposição do morto ao público:
- Felizmente, esse era o último brasileiro da nossa civilização!

08/08/2007

Everton Falcão
Enviado por Everton Falcão em 08/09/2007
Código do texto: T644334
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Sobre o autor
Everton Falcão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 56 anos
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