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O Rapaz que Controlava o Tempo



Faz muito tempo que ele caminha, e sua dor é a de um ancião.
Sente que séculos se passaram em sua jornada, mas para ele o tempo não existe.
Se fosse permitido a alguém vê-lo diria que tem uns trinta anos.

Mas ele tem mais, muito mais.
Greg é um matusalém com cerca de oitocentos anos.
Caminha pelas ruas de São Paulo e suas lembranças lhe causam intensa dor.
 
As pessoas congeladas em seus momentos cotidianos apontam para a imensa bola de energia.
Ele as havia congelado e também ao mundo todo.
Sem saber, todo o universo está preso em seu instante de terror.

Desde pequeno havia percebido seu dom de parar o tempo.
No começo por poucos segundos, porém na medida em que crescia, seu controle sobre o tempo tornou-se cada vez maior.
  Notou que enquanto as coisas estavam em êxtase, pois foi assim que ele apelidou esses momentos, tudo adquiria um peso extraordinário.

Por exemplo, uma maçã que caísse de um pé, para que ele pudesse tirá-la do lugar seria como carregar um tijolo.
Um bebê pesaria como um bloco de concreto e um adulto era humanamente impossível de ser movido nesses momentos.

Quando criança se divertiu muito espiando vizinhos e trocando coisas de lugar.
Durante sua juventude observou mulheres nuas e casais fazendo amor.
Adulto, tendo mais consciência salvou diversas pessoas da morte certa.
O ano era dois mil quinhentos e um e o Brasil era sacudido por extensos conflitos.

Tudo indicava uma guerra iminente.

A África ameaçava constantemente nosso país.
Em um agradável dia de abril começou a guerra, sem aviso algum.
Greg e Carolina, a garota que ele ama, tomavam um suco de clorofila em um bar.
Estavam na capital do Estado observando as crianças brincarem, quando os dois se assustaram com uma bola de fogo que caiu ao longe.

O barulho foi tão forte que parecia a mão divina golpeando o solo.
A onda de choque veio antes da energia, jogando-os ao chão.
Greg viu a onda de luz desintegrando tudo.
Com um esforço intenso parou o tempo.
O barulho crepitante cessou e uma longa gota de suor desceu pela sua testa.

Ele abriu os olhos assustado.
Seu desespero não teve limites. A onda de energia estava suspensa no ar.
Muitas pessoas choravam seus últimos instantes de agonia entre eles Carolina.
O corpo da mulher já havia sido atingido, seu rosto e braços ainda intactos.

Nos olhos da garota uma lágrima escorria em um pedido mudo de ajuda.
Greg sabia que ela estava além de qualquer salvação.
Por um longo período chorou até fortificar o espírito para sua missão de vingança.

Primeiro levou um século tirando as crianças de todas as casas ao redor de cem quilômetros da explosão.
Ele não podia envelhecer.
Passou anos em bibliotecas aprendendo a ler a língua africana e quando se sentiu fluente o bastante começou a andar em direção ao continente negro.

Em seu estado de êxtase não precisava dormir ou se alimentar, pois nunca se cansava, sentia-se como se separado do universo.
Após séculos chegou lá, junto com soldados brasileiros imobilizados no ato do desembarque na costa.

A travessia pelo mar fora difícil, pois mesmo sem mergulhar a lama tinha uma textura de uma lama funda.
Descobriu onde ficavam os silos das bombas de nêutrons.
E sob as gargalhadas congeladas dos generais acionou os explosivos mortais.

Trancou as saídas dos silos e sabia que as bombas explodiriam dentro dos complexos militares.
Repetiu a ação dentro de um sem número de quartéis militares.
Foi ao palácio do Governo e com um afiado canivete, que pesava como uma barra de ferro em suas mãos rasgou a garganta do presidente, de todos seus ministros e assessores.

Visitou os cidadãos eminentes do continente unificado após séculos de guerras tribais.
Assassinou-os sem dó nem piedade.
Matou todos os líderes sindicais e qualquer um que pudesse liderar o país quando o tempo voltasse ao seu curso normal.

Após sujar as mãos com o sangue de incontáveis africanos refez todo o caminho de volta até o Brasil.
Quanto mais se aproxima de casa mais seu peito doía de saudade.
Já enxerga a bola de energia ao longe, porém antes de chegar ao local resolve visitar uma última vez sua querida mãe.

- Mamãe... – sussurra ele.

Dá um forte abraço nela e vai à direção da praça onde seu amor o espera.
Segura nas mãos dela e chora uma última vez beijando-a com força.
Olha Carolina nos olhos e deixa o tempo seguir seu curso normal.

Ouve o crepitar dos nêutrons.
Um segundo depois não é mais nada.
Na África as bombas explodem dentro dos silos e com os representantes do governo e do povo mortos, o país mergulha em uma guerra civil passando em dias de um dos lugares mais civilizados do mundo para a plena idade das trevas.

O espírito de Greg flutua perdido nas profundezas do nada.
  Sua alma está saciada.
Sua vingança feita.

Fim.

Saturno o Vampiro
Enviado por Saturno o Vampiro em 03/10/2007
Código do texto: T679378

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Sobre o autor
Saturno o Vampiro
São Paulo - São Paulo - Brasil, 466 anos
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