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Missão de Resgate

O capitão Artur estava em sua cabine, tentando relaxar. Sua nave, a Kepler, seguia para uma região pouco habitada da galáxia. Na verdade, só havia uma pequena estação de pesquisa naquela região. E ele não se sentia nem um pouco entusiasmado com essa missão. Seria uma missão extremamente perigosa.

A Kepler era uma nave de combate que foi modificada, logo após o início da guerra, para se tornar uma nave de resgate. A tripulação era experiente, e já haviam participado de muitos resgates difíceis. Artur ainda se lembrava de quando salvaram toda a tripulação de um cruzador que caía em direção a uma gigantesca estrela vermelha. Os sobreviventes e a tripulação da Kepler ficaram todos espremidos na viagem de retorno, mas isso não era incômodo para quem estava para ser vaporizado a quinze milhões de graus na superfície de uma estrela.
As naves de resgate eram necessárias para recuperar sobreviventes de combates e de outros acidentes. Na verdade, algumas missões de resgate nem eram decorrentes de contingências da guerra. Como esta para a qual estavam indo agora, pensava Artur. Estação de Pesquisa Cronos. Isolada de qualquer planeta habitado por qualquer raça. E por um bom motivo. A estação estava na mínima distância razoável (se é que "razoável" se aplica) de um buraco negro. A estação Cronos era o maior centro de pesquisa conhecido sobre os efeitos da dilatação do tempo em organismos vivos.

O contato havia sido perdido há três meses. Quando o contato de uma estação, ou nave, era rompido, os motivos podiam ser muitos. Desde uma pane qualquer no sistema de comunicação até um mortífero ataque inimigo. Por isso, uma missão de resgate tinha que ser enviada. Porém, esta era uma missão muito perigosa. Além do buraco negro, a estação Cronos estava praticamente dentro do território inimigo. Devido à presença do buraco negro, ninguém se interessou pelos planetas da região, mas, ocasionalmente, esquadras inimigas passavam próximas à região. Nunca representaram perigo sério para a estação, mas agora poderia ser diferente.

- Capitão, sua presença é necessária na sala de controle.

O chamado do computador fez Artur se desligar de seus pensamentos e ir para a sala de controle.

- Senhor, já temos contato visual com a estação Cronos - disse o tenente Damon, movendo ligeiramente a cabeça, indicando um monitor a sua direita.

Artur olhou a estação Cronos pelo monitor. Não viu nenhuma evidência externa de ataque. Mas isso não significa muita coisa.

- Não foi atacada, senhor. Aparentemente, o problema é de outra natureza.

- Conseguiu contato? - perguntou Artur.

- Nada, senhor. Aparentemente, o buraco negro impede qualquer comunicação com a estação. Análises preliminares indicam que o sistema de propulsão não está operacional. Não detectamos nenhum outro dano. A tripulação ainda está viva, ao que tudo indica. Mas a estação está sendo atraída para o buraco negro.

O capitão Artur olhou e pensou que aquilo ia ser pior do que imaginara. Teria que arriscar sua tripulação, para talvez não conseguir nada.

- Tenente, solicite a engenharia um plano de abordagem viável. Precisamos também de uma análise de quanto tempo temos disponível antes que seja tarde demais para um resgate.

Em uma hora, Capitão Artur, o tenente Damon, o tenente Alvarez, líder do esquadrão de abordagem e o Capitão Salles, da engenharia, estavam reunidos, discutindo qual seria o procedimento.

- Segundo nossa análise - disse Damon - a estação ainda tem capacidade de sair do campo de atração do buraco, conquanto que possamos tornar operacionais seus propulsores. Conforme ela se aproxima do buraco, chegará um momento em que não terá mais como escapar da atração. Temos cerca de três semanas antes que seja tarde demais para fazer qualquer coisa.

- Retirar os tripulantes e abandonar a estação está mesmo fora de questão? - perguntou Alvarez, ainda com alguma esperança de resolver tudo de forma simples.

- Sim, tenente, respondeu o capitão Salles. - Nenhuma de nossas naves de abordagem tem condições de sair por conta própria da área de influência do buraco. A única opção é a equipe entrar com uma das naves de abordagem,  reativar os motores da Cronos e sair de lá junto com a estação. Eu sei os riscos que estão embutidos nessa missão, mas esse é o nosso trabalho. Também lembro que a recomendação da Terra é para utilizarmos todos os recursos para salvar toda a Estação, e não apenas a tripulação. A pesquisa é muito importante.

- Temos alguma hipótese de por que o pessoal da estação não conseguiu ativar os propulsores? - perguntou Artur.

- Senhor, podemos formular várias hipóteses, mas não vão passar disso. Pode ter faltado alguma peça de reposição, pode ser um dano estrutural irrecuperável,  pode ser que o defeito seja em algum módulo que ninguém a bordo tenha conhecimento de como repará-lo.

- Ou seja, podemos ir e talvez não possamos fazer nada para ajudá-los. - concluiu Artur.

- Sim, senhor - disse Damon - Mas é o risco que temos que correr.

- Eu sei. Só quero saber quais são as nossas chances de sucesso. Temos que entrar numa estação sem saber o que aconteceu lá, já que não temos contato. Arrumar os propulsores que os próprios tripulantes não puderam arrumar. E, mesmo que façamos tudo certo, ainda assim podemos virar poeira num buraco negro. Artur começava achar que o risco era desnecessário: nada podiam fazer.

- O que você acha, Alvarez? - perguntou Artur. Embora capitão da nave, quem comandava a equipe de abordagem era o tenente.

- Somos uma equipe de resgate. Vamos fazer o melhor que pudermos.

A nave de abordagem foi carregada com toda sorte de peças que pensaram pudesse ser necessária ao conserto dos propulsores da Cronos. Também levaram equipamentos que permitiam moldar novas peças, se fosse necessário. O grupo de abordagem foi composto pelo Tenente Alvarez, pelo Cabo Juan e Cabo Russell, ambos técnicos de manutenção de motores, pelo Tenente Stanley, médico e pelo Sargento Bertrand, piloto da abordagem. Durante todo o tempo da missão, a Kepler permaneceria numa distância segura da atração gravitacional do buraco negro.

A abordagem foi rápida e eficiente. O grupo abriu a escotilha e preparou a formação padrão de abordagem, com as armas reguladas em baixa potência para não furar o casco da nave. Mesmo que tudo indicasse o contrário, precisavam estar preparados para tudo.
No entanto, não foi necessário. Quando abriram a escotilha, do outro lado haviam apenas três dos tripulantes da Cronos. Todos usavam uniformes padrões de cientistas e pareciam normais. O mais velho deles se aproximou e estendeu a mão para Alvarez, já que este era o mais próximo.

- Não esperávamos que viessem. Eu sou o professor Jones. Lamentamos que tenham que ter vindo até aqui – disse o mais velho dos três, e o que tinha a fisionomia mais abatida e cansada, notou Alvarez.

- Viemos o mais rápido que pudemos - disse Alvarez. - Qual é a situação, professor Jones? perguntou, logo em seguida.

- Bem, todos os sistemas estão operacionais. A tripulação está em boas condições. O nosso problema são os propulsores. Como vocês devem saber, a estação Cronos está próxima do buraco negro CRD-44. Devido a grande influência gravitacional, a estação não é estacionária, mas permanece numa órbita acelerada e indefinida, que varia em função da atração gravitacional do astro. Os computadores da estação mantém a estação sempre na posição mais próxima que for segura, pois isso é vital para nossos experimentos. Até que, há algum tempo, os propulsores falharam e apagaram. Com isso, a estação começou a ser atraída  para mais próximo do buraco. Nosso pessoal de manutenção fez tudo que estava a seu alcance, mas não conseguiram mais que ligar os motores por poucos minutos.

- Compreendo. - disse Alvarez. - Solicito que conduza meu pessoal de manutenção até os propulsores para iniciarmos uma avaliação.

- Sim. - disse, com certa melancolia.

- Obrigado, professor. Espero que todos saiamos dessa.

Alvarez havia notado a expressão de profundo desânimo do professor Jones e de seus companheiros. Aparentemente, não acreditavam que sua equipe de resgate pudesse fazer algo. Talvez não soubessem do que uma equipe de resgate era capaz.

Nesse momento,  o comunicador de Alvarez começou a dar um sinal.

- Câmbio - Alvarez?

- Há muita estática.  Não posso ouvir com clareza. - respondeu.

- ...algo errado... abordagem... demais... imediatamente...

Alvarez olhou para o comunicador, que apenas emitia ruídos.

- Talvez seja melhor usar os comunicadores da nave.  Professor, podia me levar até a sala de comunicações?

O professor Jones fez um sinal afirmativo e a companhou pelos corredores estreitos da estação até a central de comunicação.

Ao entrar na sala, Alvarez sentiu um alívio ao ver, nos monitores, a Kepler. Após ouvir aqueles fragmentos de comunicação, ficou receoso de que podia ter havido algo com a nave.

Jones disse para um dos operadores:

- Xavier, por favor tente estabelecer contato com a nave do tenente.
O operador, que estava num estado de completa apatia, virou-se para ele:

- Mas, professor Jones, tenho tentado contato desde que a nave surgiu, e não consigo. Não consigo.

O professor olhou primeiro para o operador, depois para Alvarez.

- Por favor, tente usar a mesma freqüência deste meu comunicador. - disse Alvarez. O reestabelecimento da comunicação seria fundamental para melhorar o ânimo da tripulação da estação, pensava Alvarez. E isso parecia ser muito necessário.

-Sim senhor.

Após quinze minutos de tentativas infrutíferas, o operador anunciou que nada havia a fazer.

- Sinto muito, tenente. - isse o professor. - Acreditamos que o campo gravitacional do buraco negro está impedindo as comunicações. Captamos apenas ruídos.

-Comprendo. Bem, agora teremos que esperar o pessoal da manutenção.

Alvarez pensava como os cientistas da Cronos eram diferentes do pessoal da Kepler, atentos e dispostos sempre a lutar até o fim para efetuar os salvamentos, mesmo ao custo de suas próprias vidas. O desânimo da tripulação daquela estação contradizia tudo que conhecia na vida militar. Ficava se questionando se isso era motivado por ser um grupo de cientistas, e estarem numa situação de risco. Será que a tripulação da Kepler ficaria assim, se toda sua esperança se baseasse num grupo de resgate?

Três hora após, o Sargento Bertrand veio falar com Alvarez.

- Boas notícias, senhor. Localizamos o defeito nos propulsores, e temos as peças necessárias para o conserto. Mas houve um pequeno vazamento  e será necessário algum tempo para descontaminação.

- Qual o tempo necessário para a estação estar operacional?

- 150 horas, senhor.

- Obrigado, sargento. Dispensado.

O professor Jones olhou para o tenente, com um leve sorriso, mas era evidente seu pouco entusiasmo com a notícia.

- Professor, essa é a melhor notícia que ouvi nos últimos dias, e o senhor continua com uma expressão preocupada. Acha que teremos mais problemas?

- Estamos caindo em um buraco negro. Não podemos ter mais problemas do que isso. Se já tivessemos caído, tudo estaria resolvido. Só posso lamentar ter colocado sua equipe nessa situação.

- Nossa missão é de resgate, professor. É o que fazemos, e por isso estamos aqui.

- Tenente, nós não pedimos socorro.

- Mas mesmo assim viemos. Os resgates tem que vir sempre que há falha na comunicação. Mesmo que vocês não tenham conseguido emitir um sinal de socorro, a própria falha na constante comunicação assinalou que existia um problema.

- Você não entendeu, tenente. Não pedimos socorro porque sabíamos que não poderíamos ser salvos.

Alvarez não discutiu mais com o professor. Fez uma anotação mental para dizer para seus homens ficarem atentos. Aparentemente, a tripulação da Cronos começava a aparentar sinais de demência.

No outro dia de manhã, Bertrand veio falar com Alvarez, sozinho.

- Senhor, gostaria de falar-lhe.

- Sim, pode falar.

- Preferia que fôssemos a nossa nave, senhor.

Alvarez entendeu que Bertrand queria que ninguém ouvisse, o que significava que era algo sério. Parecia pouco a vontade.

Quando estavam isolados na pequena nave de abordagem, Bertrand falou:

- Senhor, usei nosso equipamento de comunicação e também não consegui contato com a Kepler.

- Sim, provavelmente o buraco negro está atrapalhando as comunicações, mas nada podemos fazer até terminarmos de reparar os motores. Vamos conseguir sair daqui a tempo, Bertrand.

- Sim, eu entendo senhor, mas é que, aproveitei o tempo livre para fazer algumas experiências...

- Que tipo de experiências, sargento? - perguntou Alvarez.

- Bem, senhor, o campo gravitacional do buraco negro é tão forte que provoca uma alteração até na variação temporal, não é?

- Sim, na verdade,  esse é o objeto de estudo da estação Cronos.
- Vou lher mostrar o que captei, senhor. São apenas fragmentos, mas eu acho que dizem algo.

Bertrand tocou as mensagens que tinha captado.

- Não tem nada além de ruído  - disse, surpreso, Alvarez.

- Eu sei, senhor, mas eu reprogramei o computador para considerar a distorção temporal nas comunicações. Vou tocar de novo - disse Bertrand, acionando novamente a gravação.

- Câmbio, Alvarez.  Há algo de errado por aí? Atenção, qualquer um da equipe de abordagem, droga!... Câmbio... Saíam daí antes que seja tarde demais... O prazo já se esgotou... Saíam daí imediatamente...

- Tem mais, senhor - disse Bertrand.

- ... podia ser feito. A intensa força gravitacional nos impediu de fazer qualquer coisa. Lamentamos o fracasso da missão. Câmbio.
O Tenente Alvarez ouviu e abaixou a cabeça.

- Você tem meios de saber quando foram emitidas essas mensagens, Bertrand?

- Não sei, senhor. Talvez o pessoal da estação tenha meios para fazer isso. Eu queria mostrar ao senhor antes, pois não queria provocar problemas.

- Eu sei, Bertrand. E você tem razão. Mas vamos tentar fazer algo.

Mas algo em seu íntimo dizia que não havia muito a ser feito.

O professor Jones ouviu o material gravado. Deu um suspiro.

- Esse material coletado não é contínuo. Ele foi emitido com intervalo de meses.

- Mas como isso é possível? - perguntou Alvarez.

O professor Jones explicou.

- É o buraco negro. Quando caimos em sua atração, caímos na área de distorção temporal. O nosso tempo se dilatou, de tal maneira que não podíamos entender as transmissões de sua nave, pois a escala temporal era outra. Um segundo para nós equivale a horas, para eles. O sargento Bertrand foi muito engenhoso em considerar a distorção na comunicação.

- Sim, mas o que isso significa?

- Significa que o tempo para nós é mais devagar que para o mundo real. Que o prazo que vocês tinham para consertar os propulsores se escoou muito antes de vocês subirem a bordo. Vocês não podiam nos ajudar. Eu lamento. Lamento não ter dito a vocês antes. Mas achei que isso não ia ajudar em nada.

- Mas, os motores estão quase prontos... mais dois dias de trabalho e poderemos sair daqui, sem ajuda exterior.

- Não, tenente, não podemos. Já é tarde demais.

- Como assim, professor?

- Nós já estamos tão próximos do buraco negro que não temos como sair ou, muito provavelmente,  a estação Cronos já foi reduzida a átomos pela imensa força gravitacional.

- Profesor, tem algo errado na sua teoria. Nós ainda estamos aqui! - disse Alvarez.

- Não, tenente. Não estamos. As mensagens captadas pelo sargento prova que já fomos sugados pelo buraco negro. Provavelmente a tripulação da Kepler viu isso, antes de irem embora.

- Estão, como estamos vivos? Fomos sugados para outra dimensão?

- Não, algo mais simples e mais real. O tempo, para nós, está se dilatando. Quanto mais nos aproximamos do buraco negro, mais ele se dilata. Acredito que ele se torne infinito, em um momento.

- Mas os equipamentos não acusam nada disso.

- Os equipamentos, como nós, estão todos dentro da zona de influência do buraco negro. Nenhum resultado, aqui, é confiável. Aqui, o tempo e o espaço agem de uma maneira completamente diferente da que conhecemos. Mas essa relação não vale para o resto do universo, compreende?

- Então, embora ainda tenhamos conciência e, digamos assim, existimos, para o resto do universo isso não é verdade.

- Sim. É isso. E mesmo que consigamos consertar os motores, não podemos sair daqui. O próprio ato de tentar sair daqui mudaria a dilatação temporal e faria com que deixássemos de existir. Ao tentar sair, cairíamos mais rápido no buraco negro.

-  O senhor sabia, professor. Desde quando sabia?

- Se eu soubesse desde o começo, tenente, teria sido o primeiro a tirar a estação daqui. Os nossos experimentos com o buraco negro mostravam que havia um ponto a partir do qual não podíamos mais ter contato com nossas sondas. E que o contato visual também se extinguia. Quando os propulsores falharam e caímos aqui, encontramos uma de nossas sondas. Devia ter sido esmagada pelo buraco negro a meses, mas ainda estava aqui, nessa "zona fantasma" como eu chamo. Encontramos outras sondas, e nossas pesquisas tem progredido muito mais rápido do que antes. E continuaremos, enquanto pudermos. Isso tem servido para manter a sanidade da tripulação. Quem sabe um dia os humanos, ou outra raça, tenham tecnologia suficiente para resgatar, se não nossos ossos, pelo menos os resultados de nossas pesquisas.

- Você sabia desde que chegamos.

- Sim, mas não tivemos culpa de nada. Vocês vieram porque nossas emissões de comunicação pararam, eu sei. Não tiveram culpa, também. E, a partir do momento que chegaram,  não tinham mais como sair. Só posso lamentar por vocês. Sinto muito.

Alvarez também nada mais podia fazer, apenas esperar o tempo passar.


Kleronomas
Enviado por Kleronomas em 18/10/2007
Reeditado em 28/07/2009
Código do texto: T699837

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Sobre o autor
Kleronomas
Osasco - São Paulo - Brasil, 43 anos
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