Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Culpa

Dentro de alguns minutos eu serei morto. O modo que serei morto? O tradicional, desintegração nuclear. Os novos métodos, como choque matéria-antimatéria não me agradaram, apesar do governo preferi-los, para poder aposentar os velhos desintegradores, em uso há mais de 40 anos. Além do mais, certa vez disseram-me que existiam certos paradoxos não considerados no encontro matéria-antimatéria . Algo como a alma entrar em contato com a anti-alma e ambos deixarem de existir. Não que eu tenha qualquer crença religiosa, mas se houver mesmo uma alma imortal, e eu possa ter outra chance aqui ou em outro lugar, não quero perder a oportunidade. De qualquer maneira, na atual crise em que nos encontramos, qualquer energia a mais é útil para o governo.

Vocês devem estar se perguntando porque vou morrer. Segundo meus juízes, cometi um crime. Matei um soldado, um servidor incorruptível do sistema, uma pessoa justa e decente. E matei-o enquanto ele estava cumprindo seu dever. Mas acho que não sou uma pessoa tão má assim.

Nunca fui nada na vida. Era operador de equipamento numa nave de transporte. Mas até que minha vida era boa. Tinha minha casa, meus passatempos. Vivia recluso, sem participar de revoltas ou movimentos anti-governistas. Aceitava todas as novas leis sem questionamento.

Mas chega um dia em que o velho instinto toma as rédeas e nos tira a razão por alguns instantes. Cinco segundos bastaram. Um ato que em outro lugar e em outros tempos significou bondade e justiça foi o meu erro.

Talvez vocês queiram saber também como uma pessoa simples como eu pode mencionar algo sobre padrões de justiça de outros tempos e lugares. Bem, eu disse que tinha meus passatempos. Um deles era passar horas em bibliotecas. Pode-se aprender muito em lugares assim. Aprendi, por exemplo, que houve um tempo em que as pessoas conversavam e discutiam sobre todos os assuntos em público. Isso era chamado amizade. E haviam outros conceitos semelhantes. Camaradagem. Comunidade. Democracia.

Mas o conceito mais importante que aprendi foi liberdade. É tão complexo que não pode ser explicado com palavras. Precisa ser vivida, possui-la, para saber o que significa. Agora, que estou nesta cela, sinto que sei o que significa. Sim, eu estou preso, não sou livre, mas tenho liberdade. É algo diferente de apenas poder andar por todos os lugares. Bolas, eu disse que é um conceito de difícil compreensão.
Os carcereiros vieram me buscar na hora certa. Sigo-os pelos corredores do presídio. Aquela construção estava em más condições: muitos lugares estavam perdendo a pintura e muitas câmeras do sistema de segurança estavam desativadas. Eu nunca havia estado num presídio antes, mas acho que este estava realmente precisando de reparos.

Sou levado à sala de controle, onde encontro meu carrasco, um técnico encarregado de ligar as máquinas que dariam um ponto final na minha vida. Por alguns momentos observo os painéis que dominavam a sala. Tenho um pequeno pensamento de satisfação: todo aquele equipamento só para mim. Pena que era para acabar comigo.
Os guardas me levam até a sala de execução. É um grande salão, de uns quinhentos metros quadrados. No centro, uma simples cadeira. No teto em abóbada, um imenso cano que parecia um canhão. Era chamado túnel da morte, pois era por ali que ela viria me buscar; e eu esperava que fosse por ali que minha alma saísse deste lugar. Novamente estou falando de religião. Deve ser a situação que estou vivendo que me traz essas idéias. Sentado na cadeira, observo os coletores de energia nas paredes, que irão armazenar tudo que restar de mim. És energia, e a energia voltarás.

Disseram-me que após fechar o condenado na sala, a execução seria rápida. Devo ter poucos segundos, agora. Nesses derradeiros instantes, em que aguardo meu aniquilamento instantâneo, recordo-me, pela última vez, dos fatos que me trouxeram até aqui. Lembro-me de quando matei aquele idiota. Mas não tive intenção. Eu o empurrei, ele caiu e bateu a cabeça. Eu não estava aguentando assistir aquilo tudo. Eu estava cuidando das cargas da nave e o soldado não parava de bater nas criaturas. Afinal, elas iriam morrer mesmo, por que precisava maltratá-las? Matei-o e pagarei por isso, mas tenho a consciência livre. Aquelas criaturas nasceram humanas. Que culpa tinham se eram matéria-prima para os geneticistas? Pensando bem, meu pecado não foi tão grande.

Chega disso tudo. Agora quero saber como é estar morto. Finalmente um estalo.

Agora, penso. Mas me enganei. Era a porta, que havia sido aberta.

- Pode sair. O desintegrador está defeituoso.

Saio meio atordoado. Volto para minha cela e fico pensando, tentando descobrir o que aconteceu. Ouvindo os comentários dos carcereiros, descobri qual era o problema: eu havia escolhido a desintegração, mas o presídio não podia realizá-la, pois o desintegrador estava quebrado. Levaria meses para consertá-lo. A lei garantia ao cidadão o direito de escolher como ia morrer e os direitos dos cidadãos jamais poderiam ser feridos, e a minha escolha pela desintegração estava assinada, autorizada e arquivada. Também não podia ser transferido para outro presídio que tivesse um desintegrador em condições de uso, pois o trânsito de condenados à morte era proibido por lei. Ocorria um problema devido às diretrizes legais.

Passei mais uma semana em minha cela, sem novidades, até que, na hora da refeição do domingo, o carcereiro vem com as mãos vazias. Ele abre a porta da cela e me olha. Em seu rosto há um discreto riso irônico.

- Pode ir. Está livre.

Não ia adiantar fazer perguntas. Saio do presídio com meu passo lento, porém com dignidade, sem voltar os olhos para trás.
Kleronomas
Enviado por Kleronomas em 23/10/2007
Código do texto: T706003

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Kleronomas
Osasco - São Paulo - Brasil, 43 anos
6 textos (402 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 18/08/17 04:39)