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Beijo fatal...

Retiro o visor e elevo o olhar observando a imensidão sobre o horizonte pejado de vermelho claro, cibernético. Já me falaram em tempos da lenda das terras de Uhr, aquelas que se estendem para lá do vale. Já fui advertido mas a minha função de  expedidor de documentação confidencial urgente – deverei dizer correio - não deixa espaço para hesitações ou grandes confabulações. Restam apenas dois dias no ambiente virtual e não me é permitido falhar.

Estou bem equipado e habituado aos perigos usuais. A fibra do fato escuro protege-me e o laser que carrego no coldre já fez cair toda a espécie de bestas, até os temíveis cães bicéfalos... Por isso não será uma lenda estúpida que me atrasará, decido avançar e penetrar as paragens malditas antes que a noite caia.

Meu transporte, um híbrido entre prancha e “skate”  evolui sobre o terreno flutuando a baixa altitude e fazendo-me  avançar com eficácia. Prossigo por cerca de duas horas após o que procuro uma clareira onde montar equipamento. Imobilizo-me, pouso a mochila e estabeleço o perímetro de detecção de intrusos.

Retiro do saco um cubo-casa e primo o botão que inicia a leitura da codificação de info-matéria. Apenas mais cinco minutos e as duas assoalhadas estarão prontas, poderei pernoitar com todo o conforto. É nesse momento que ouço um barulho fraco vindo de lá, da orla. A mão direita baixa em gesto instintivo e no próximo segundo tenho a arma apontada.

- Por favor, ajude-me – diz a voz de mulher

O traje dela, parecido com o meu, inclui as botas justas, o cinturão e  o impermeável de fibra negra que se ajustam a cada milímetro do corpo e salientam as curvas das ancas e os seios bem torneados. Não tem o visor colocado e  cambaleia, a mão esquerda apoiando a coxa. Rosto longo de olhos fundos e lábios carnudos, cabelo negro comprido, a morena é dona de beleza incrível! Uma beleza cansada.

- Fique onde está. Mãos na nuca. – ordena o meu instinto
  de defesa
 
Aproximo-me e desarmo-a com facilidade ficando dono temporário do par de pistolas laser. Apoio o corpo no ombro e levo-o comigo. Irei passar os próximos quinze minutos tratando feridas e mazelas da desconhecida.

- Escapou por pouco. Quem lhe fez isto? A mulher de algum amigo
  seu? - pergunto à flor da ironia.

Os olhos negros fixam-me com aquela altivez de mulher inteligente encarando um idiota.

- Não brinque comigo Mr. Posso saber o seu nome?

- Zlatis. Mas por estas paragens também sou conhecido por
  mensageiro do vento. Deve ser uma alusão à importância dos
  conteúdos que entrego – a piada estúpida tem funcão fática mas
  não obtenho qualquer reacção.

- O meu nome é Lakshmi. Igual ao da deusa. Sou como você,
  o mesmo tipo de trabalho. Foram os Tork que me deixaram
  neste estado.

Ao ouvir a palavra dou um salto atrás, colocando-me alerta. Praticantes exímios da arte marcial, esses filhos de meretriz mercenários actuam em grupo e são adversários temíveis. Aparecem
e desaparecem num ápice semeando a morte e o terror.

- Eles vêm aí? Conseguiu despistá-los?

- Por enquanto não. Deixei-lhes um sombra. Mas o mais tardar
  amanhã por volta do meio dia irão descobrir tudo. Virão
  novamente no meu encalço.

Então ela usa sombras - penso, espantado. Um sombra é uma réplica perfeita mas de duração limitada que deixamos no cyber-espaço e só um pequeno grupo – que me incluí – tem acesso à tecnologia.  A minha curiosidade aumenta.

- Onde está? Conte me tudo. Quero saber de si.

- Bem... a história é longa, está disposto a ouvir? - sem esperar
  a resposta, continua - fisicamente encontro-me num pequeno
  apartamento nos arredores de Mumbai, capital do estado de
  Maharashtra. Mas a tecnologia faz com que esteja aqui consigo
  em partilha de vivência virtual.

- Como chegou a isto, como se tornou correio?

Não sou oriunda de família de parcos recursos. Meu pai era engenheiro informático e trabalhando para multi-nacionais estrangeiras conseguiu garantir-me um bom nível de vida e acesso às melhores escolas. Foi sem surpresa que lhe segui as pisadas e podia até ter trilhado o caminho mais fácil, um daqueles que terminam nos grandes empregadores. Mas minha rebeldia fez com que saísse de casa cedo para  partilhar apartamento com um colega de faculdade, formávamos um casal jovem e cheio de ideais. Depois... veio a desilusão! Um dia descobri que ele me traía e, contragosto, fiz o que era necessário para salvaguardar a dignidade e amor próprio, pu-lo a andar. Aceitei todo o tipo de biscates para sobreviver, sujeitava-me ao que ia aparecendo. Não podia apelar para a ajuda paterna – entre mim e meu pai estendia-se a barreira do orgulho mútuo. Finalmente chegou o tempo bom em que alguém reparou em mim e me propôs projectos mais ambiciosos. Então num desses trabalhos...
 
O silvo de um detector do perímetro interrompe súbitamente a conversa. Passo-lhe a arma.

- Fique aqui. Use-a sem hesitação caso veja gajos mais feios que
   eu – dou por mim num piscar de olho inevitável, sem obter
   qualquer resultado. A tipa não devia ter nenhum sentido de
   humor.

Saio com cuidado e, como temia não vislumbro ninguém. Agacho-me e lanço o sombra no sentido do detector. O outro eu inicia a corrida em ziguezague, chega em poucos segundos e agacha-se examinando-o dispositivo. É então que os dois vultos surgem do nada quase em simultâneo e preparam-se para a investida. Aponto, disparo e acerto. Uma e outra vez. Menos dois a chatear! Saio correndo, procurando novo abrigo. Estou quase a chegar quando sinto o impacto acima do tornozelo da perna esquerda. Surge dor e perco a força. Caio e a arma salta-me da mão. Viro-me e vejo ao longe o visor do filho da mãe que se aproxima sorridente.

Como sei que desarmado serei presa fácil, rolo e tento chegar à pistola. Um raio antecipa-se cortando-me caminho e acerta-lhe em cheio   transformando-a em pó. As coisas não estão nada boas, sei que não  restam muitas possibilidades. Olho para o meu oponente e em acção desesperada de instinto de sobrevivência levanto-me, apoiando o corpo na perna sã. Tento fugir. Outro raio. Dor! Lá se foi a segunda perna. Caio novamente e fico a olhar atónito para a ferida profunda.
 O adversário está quase sobre mim, os olhos vermelhos de ódio, ostenta um ar triunfante. Não vai usar o raio letal, prefere o sabre. Provavelmente não irá acabar comigo com uma única estocada. Fecho os olhos e preparo-me para deixar de ser.

Nada. Não acontece nada. Apenas silêncio. Estará à espera de quê? Abro os olhos novamente e volto a olhar, receoso. O corpo jaz prostrado sem vida a meus pés. Ao fundo a morena empunha a arma. Antes de desfalecer ainda agradeço aos céus a sua boa pontaria.

É de dia e estou deitado. A mão dela está na minha testa. O par de olhos negros observa-me com meiguice.

- Ei, que horas são – não podia fracassar.

- Quase meio dia querido. Não se preocupe, vou cuidar  bem
   de si.

- Mas... não entende. Tenho uma entrega para efectuar, o tempo
   urge.

Ela não respondeu. Ao invés, avança agora sobre mim encostando, pele na pele. Posso sentir o seu calor aconchegante. Mão nos meus cabelos, a boca avança pedindo, fremente. Fecho os olhos e recebo o beijo primeiro com suavidade, sentindo o sabor de lábios húmidos se colando nos meus. Depois... depois não me contenho, avanço com tudo e minha mente recua subitamente no tempo. Recordo minha infância, o tempo de escola, como me fiz homem e cheguei a esta profissão. Mergulho em mar de ser onde vejo espalhadas à volta todas as  memórias. Que vêm e vão, que fogem quando chamo. Pouco a pouco perco a noção e o sentido de tudo e o tempo e espaço dão as mãos rodopiando sobre mim em ciranda alegre. De repente vejo o meu ser, ao longe, situação estranha, impossível - eu fora de mim. Sou simultâneamente o que faz e o que observa, o leitor crítico e o escritor.

Caminho nu pela praia vazia. As ondas vão e vêm enquanto o luar ilumina a areia sem pegadas. Ao longe a montanha tem forma de topo de face de mulher morena com cabelo longo e olhos negros fundos. Que me observa. Deparo com o objecto metálico que é  um cilindro alto e deve ter uns bons dois metros de altura. No exterior estão escritas em relevo as palavras

   Corporação da águia vermelha. Confidencial.

Contornando chego até à abertura de onde espreita a folha de papel, gigantesca. Puxo-a para fora usando ambas as mãos e começo a ler em voz alta. Vou avançando linha a linha, perdendo de imediato a memória do que visualizo. Até chegar ao fim onde me espera a única frase que não desaparecerá, que permanecerá na minha memória

   Foste apanhado, cabeça de vento. Um beijo desta tua amiga

Emerjo da realidade virtual. À minha frente, o programa de computador “mensageiro do vento” parece doente tão cheio que está de ícones alarmistas, pintados a vermelho. Por todo o lado a frase “Alerta. Intrusão. Segurança comprometida”. Mais um pouco e entendo tudo. Aquela vaca da indiana! Fora apanhado e deixaria de ser útil para  passar a ser incómodo. Na melhor das hipoteses terei cinco minutos até à chegada da equipa de limpeza. Que vem para me erradicar!

Nada a fazer. Impõe-se o plano B. Reuno alguns pertences, guitarra incluída, corro, abro a escotilha e entro de rompante no cilindro de transporte. Os dedos tremem quando dou as coordenadas da periferia da metrópole. Serei um proscrito condenado a viver fora dos registos do mundo cibernético, nunca mais poderei voltar mas sobreviverei! Carrego no botão e espero pelo sono induzido durante o qual serei levado a grande velocidade.

O tempo passa e eu passo por ele, não dou por nada. Trinta e poucos minutos depois...

Acordo tarde, quase noite em zona periférica. Saio da escotilha mochila às costas e guitarra no ombro, corro para a floresta. Continuo avançando rápidamente e sem olhar para trás durante mais uns quatro ou cinco quilómetros, não sei bem. Ao fim dessa jornada sento-me para descansar um pouco. Tenho sede, a minha mão desce e sobe levando o cantil à boca, que bom, que gostosa a água fresca! Ouço a voz ao meu lado que aparece do nada, num repente.

- Sê bem vindo forasteiro. Aqui não fazemos perguntas, por isso
   não vou inquirir quem és ou ao que vens. Vejo que trazes uma
   guitarra, isso é bom! Pode ser que consigas animar as nossas
   noites de comunidade e quem sabe, talvez até o pintor espanhol,
   o Pablo, goste tanto que um dia resolva imortalizar-te em óleo de
   tela. Aqui todos ganham nova identidade ao sair da cidade. Acho
   que vamos chamar-te “o guitarrista”. Que pensas disso?

E enquanto fala, ela inclina-se e dá-me um beijo fraterno na bochecha esquerda. E eu lembro-me do beijo. Do outro. Beijo fatal.
José Espírito Santo
Enviado por José Espírito Santo em 23/10/2007
Reeditado em 23/10/2007
Código do texto: T706492

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Sobre o autor
José Espírito Santo
Portugal, 51 anos
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