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A fronteira (completo)

1. Lata velha

Tac, tac, tac, ponc, ponc. Ruído persistente e irritante. Patricia Clark olhava longamente através do vidro translúcido do pequeno compartimento. Escuro, imenso, espaço. Apenas algumas poucas luzes ao longe, inexistência de horizonte, cheiro a nada! Apesar da quase ausência de actividade (hoje em dia as naves gerem-se a sí próprias e aquele amontoado de lata não era excepção) sentia-se estranhamente fatigada.

Tinham passado já seis longos meses desde a partida de Poseidon 3 rumo a destino desconhecido. Seis meses sem história além da rotina entediante de manutenção naquela pequena lata espacial.

Sua única companhia era composta por três elementos de um grupo chamado tripulação onde ela não tem o privilégio de estar incluída. José, Ana e Francisca são exemplares da terceira fase produtiva de melhoramento. Obsoletos aos dias de hoje mas suficientemente capazes para pilotar e gerir uma nave como aquela. Exímios em qualquer disciplina científica como a matemática, a física ou a cosmografia. Físicamente perfeitos, capazes de resistir a condições de dureza extrema, alimentados  a hidrogénio, sempre direitinhos, sempre politicamente correctos...Bah! Há quanto tempo não via um humano de verdade...

Passava o tempo observando-os nos seus afazeres, sentindo-se algo inútil. Por vezes divertia-se tentando importuná-los, tentando fazer estalar o verniz por detrás de sua perfeição construída. Tudo tentativas infrutíferas. Adivinhavam-lhes as intenções, estavam sempre um passo à sua frente. No fim obtinha sempre o mesmo sorriso misto de cortesia e desprezo e o sabor amargo de mais uma derrota. Era tratada como se fosse uma criança ou uma relíquia. Duas entidades pouco habituais nos dias de hoje.

Agora Patrícia olhava a profundeza do espaço para lá da fina fronteira de vidro, não tendo qualquer certeza quanto a seu futuro próximo...

Agora...de repente lembrou-se. Da captura. Um processo rápido e ao mesmo tempo tão estranhamente previsível! Lembrou-se de Tom, de Alison, do grupo dos outros como ela, dos treinos, das juras, das promessas...da cidade! Será que ainda existia? Onde estariam todos?

De repente lembrou-se. Era importante...as instruções. Levantou-se rápidamente. O compartimento jazia à sua volta, a mesa electrónica sensível ao toque um pouco à frente de seus pés. Aproximou a mão e viu a luz surgir e entre ela a amálgama de letras e ícones.

- Bem vinda à UN, informações disponíveis para Patrícia Clark – proferiu
  a mesa.

A Universo Network ou UN como também era chamada era uma enorme rede que mantinha tudo e todos em comunicação à escala de todo o sistema solar.  Tinha tido as suas raízes numa rede bem mais primitiva, construída pelos humanos – a Internet. Apesar de englobar essas funções a UN não era no entanto uma simples rede de comunicação de dados. Era uma rede semântica uma rede auto adaptável de comunicação de conhecimento. A voz voltou a fazer-se ouvir

- Informações disponíveis para Patrícia Clark

A mão esquerda de Patrícia rodou um centímetro acima do ícone e imediatamente o pequeno espaço rectangular transfigurou-se aparecendo em seu lugar

        O Espelho reflecte certo
        Não erra porque não pensa
        Pensar é essencialmente errar
        Errar é essencialmente estar cego e surdo

Trata-se de um poema. O remetente é uma organização chamada A Fronteira. O autor é Alvaro de Campos. Podemos falar um pouco sobre isso? - rugiu a UN.

- OK. Que é um poema já eu sei! Mas...de quem se trata afinal? -
  Patricia era tudo menos especialista em poesia.

Então a explicação veio. Calma e pausadamente. Alvaro de Campos era um heterónimo criado por um poeta genial que um dia vivera num pequeno país. Isto acontecera faz muito tempo, num tempo em que os países ainda existiam. O nome do poeta era Fernando Pessoa. O país chamava-se Portugal. O poema enquadrava-se na...

Com um gesto, Patricia pôs termo àquela lenga lenga. Mas que raio? Ela até não era essas coisas para com a poesia...e de repente alguém denominado A Fronteira lhe estava enviando aquela quadra.

Deitou-se. Novamente a fadiga. Não era normal para uma mulher da sua idade. Além disso não se lembrava de ao longo dos seus sessenta e cinco anos se ter sentido alguma vez assim. Aconchegou-se, enrolando-se sobre si mesma. Com a mão direita ajeitou os seus longos cabelos negros para trás, os olhos raiados de sua bela face asiática fechando-se suavemente como uma concha. Depois a fadiga subiu, subiu e o sono veio tomando conta de todo o seu ser.

2. O sonho

A pequena povoação estendia-se abraçando a baía em todo o seu perímetro. Ao entardecer as luzes reflectiam a superfície da água projectando pinturas imaginárias de mil cores.

Estava calor. Ela vestia uma saia clara, a camisola curta realçava os seios bem torneados no corpo bronzeado. Patricia estava sentada na esplanada improvisada e aquele já era o terceiro chopp da noite.

Um grupo recém chegado de turistas de camisas às flores era atendido com toda a amabilidade por dois perfeitinhos de primeira geração. As mesas fervilhavam com actividade – só gente jovem, entre todos a média de idades não devia ultrapassar os cinquenta. Passava uma melodia neo bossa nova -Julinho da Fonseca, muito bom. Muito legal. Não reparou nos dois que se aproximavam.

- Hei garota, meu nome é Fernando. Quero-lhe apresentar meu mano
  caçula - O moreno com nariz de pugilista e porte atlético era seguido
  de perto pelo lingrinhas.

- Sorry, i don't understand. What do you mean? - Retorquiu. Desviou o
  olhar fixando-o num ponto distante onde a baía terminava e a terra
  dava lugar a uma continuidade de mar. Esperava que o estratagema
  resultasse. Não estava particularmente interessada naquela
  companhia.

Ele não se deu por vencido e logo voltou à carga. Chamou o perfeitinho mais próximo e confiante largou

- Ó cara! Me dá aí três chopp. Dois pra nós e mais um aqui para a
   moreninha boazona

Patricia levantou-se. Pagaria a conta na recepção deixando aqueles dois babaca falando sózinhos. Afinal de contas era a melhor maneira de evitar encrenca. Foi aí que sentiu a mão forte agarrando a sua – mas que diabo...

Rodou e fez o que anos de treino intenso não permitiam esquecer. Segundos depois o pugilista voava velozmente sem asas indo estatelar-se com estrondo, derrubando os biombos ao lado do balcão improvisado. A lâmina florou na mão do lingrinhas – Agora q'tu vai ver. Vou te espetar. Vai morrer sua... O pé esquerdo de Patricia rodou como um relâmpago fazendo a pequena navalha saltar. Correu. A rua terminava logo ali. Uma porta entreaberta esperava-a.

Entrou para a escuridão da gruta, palmilhou envolvida pela negritude, vislumbrou ao longe a luz de uma saída. Trepou. Trepou. Trepou. Saíu.

Para seu espanto estava junto a uma pequena praça numa aldeia perto do sopé de uma montanha. Ao longe onviam-se melodias de gaita de foles. As casas estavam cuidadosamente decoradas, todas empiriquitadas para festa. Aqui e ali as pessoas acotovelavam-se em pequenas varandas. Nada daquilo fazia qualquer sentido.

No centro de tudo estava ele. O velho arlequim rodava e dançava sempre rodeado pela pequena multidão. Segurava nas mãos duas bolas coloridas que fazia girar com perícia. Os seus olhos azuis pareciam cuspir fogo. Dizia

        Na voz do ilustre sabedoria existe
        Entre dois tempos no centro do momento
        O valioso está onde menos esperamos
        No reflexo de um espelho...a fronteira

3. Algures em Nova pequim

O homem alto com seus olhos azuis bem claros, face pálida e bigode louro farto assemelhava-se em tudo ao nórdico típico. Do seu escritório em Nova Pequim situado no trigésimo-quinto piso do enorme edifício de estrutura helicoidal podia ver-se o toda a extensão do espaço-porto e a actividade constante das naves a ir e vir, ir e vir, ir e vir.

Aproximou-se da extremidade da sala, inclinou-se devagar  sobre a pequena fresta e tacteou. Uma pequena pancada na superfície depressa revelou a presença do pequeno quadrado cinzento que tomou em suas mãos. Premiu suavemente. Logo o estranho objecto cresceu, cresceu e se abriu em L. Sentou-se e começou...

Agora Thomas Green, Tom para os amigos, digitava rápidamente no teclado do pequeno computador. A pressa e o olhar deixavam fácilmente perceber o perigo. Há muito que tinham proibido dispositivos de entrada como aquele, desprovidos de capacidades de prospecção semântica e com capacidades de armazenamento local. O que estava usando assemelhava-se aos meios de computação pessoal usados no fim do século XX e início do século XXI da era humana. Ah, se fosse apanhado...

O sistema actual, na sua imensa justiça previa duas possibilidades para quem violasse a lei: A aniquilação indolor no banho dos anjos ou a exclusão social permanente com a deportação para uma das luas de Júpiter. Mas antes, certificavam-se cuidadosamente sobre a culpa – a existência do acto de erro. Por isso era um sistema imensamente justo.

A pressão correcta, no ponto correcto e o L se fecha numa estrutura que mirra, mirra, até restar apenas novamente um pequeno quadrado. Tom recolhe-o e encaminha-se para a porta. Dois. Apenas dois corredores até ao sistema de transporte. Tenta manter a calma. Apesar da pressa, mantém o passo lento e aparentemente descontraído. Um já está! Falta outro. Já se vê ao longe o pequeno cilindro de transporte.

- Hei, Tom. Hei Tom – ele conhecia aquela voz. Parou.

- Tem programa para logo à noite querido? - Justine, a secretária de
  piso a quem apelidavam também de miss Legs sabia como ser
  insistente...

- Eu, huh, ahh...não

- Legal. Passa para me pegar às oito e meia gato. Tenho um programa
  óptimo para nós dois. Vai recusar não viu ...

- Bem, é que eu ... - Tom não tinha o mínimo jeito para desculpa
   esfarrapada

- Humm...então está combinado. Falta não meu bem ... – Antes que
  pudesse esboçar qualquer reacção ela pegou nele e lhe deu um beijo
  rápido mas intenso.

Olhou em frente. Vinte metros até ao pequeno cilindro. Limpou os vestígios de baton deixados por aquele assalto repentino. Ia conseguir! Prosseguiu. Chegado ao fundo do corredor, uma palavra de ordem e a estrutura cilindrica entreabria. Entrou, indicou as coordenadas e ficou rápidamente em sono induzido à medida que seu corpo avançava deixando-se levar pela enorme velocidade.

Vinte minutos depois Tom abria os olhos e abandonava o meio de transporte. Não havia tempo a perder. A entrada para o sub-solo estava um pouco à frente. Teria então de encontrar o dispositivo de simulação semântica deixado por Allison.

Desceu pela abertura e avançou ao longo do túnel percorrendo um corredor estreito. Após fazer a segunda curva, achou. A mochila e o pequeno objecto metálico estavam quase imperceptíveis, invisíveis para qualquer olhar menos treinado.

Acoplou os aparelhos. A transmissão durou apenas uns segundos. Na superfície do pequeno cilindro encontram-se gravadas algumas letras. Pode ler-se claramente

                              A FRONTEIRA.

4. Em órbita

As duas linhas finas abriram-se devagar, deixando em seu lugar as ovais povoadas pelo belo par de olhos negros. Estranho sonho. E...novamente as mesmas referências...espelho, reflexo, fronteira. Ao lembrar-se dos dois babaca não pode deixar de sorrir.

Levantou-se e olhou em volta uma e outra vez. Iria percorrer os corredores, faria um pouco de exercício e em seguida voltaria para consultar novamente a UN. Avançou para a porta metálica que se abriu automáticamente de imediato. Olhou para  ambos os lados. Não viu vivalma. Melhor! Ficaria bem à vontade sem aqueles espantalhos por perto. A sala de treino ficava apenas uns metros à frente. Segunda porta à esquerda. Entrou.

Patrícia era boa de luta. Tinha velocidade e reflexos mas também força e concentração. Obedecendo prontamente a um gesto seu o fato de realidade virtual desceu e moldou-se a seu corpo envolvendo-a completamente. O holograma à sua frente  era uma representação perfeita de lutador chinês.  Exibia confiantemente as suas matracas e ia ser o seu primeiro adversário.

Os desafios com hologramas apesar de toda a sua virtualidade nada tinham de inofensivo. O sistema encarregava-se de administrar eficientemente e sempre dentro dos limites que o participante conseguia suportar, a dor e sensações correspondente aos vários golpes.

- Próximo. O simulacro de chinês conseguiu aguentar apenas 10
  segundos antes de K.O.

Após cinco oponentes derrubados achou que já tinha a sua conta. Agora nada como um bom banho e depois...Bem, tinha umas quantas perguntas a fazer.

O ruído irritante e piscar de luzes nos mostradores fizeram sua apresentação repentina e quase em simultâneo – Entrada na atmosfera em cinco minutos, espero instruções para corrigir ângulo de aproximação...instruções para corrigir ângulo de aproximação...instruções para corrigir ângulo de aproximação...

Dirigiu-se rápidamente para a sala de comando. Nem vivalma! Apenas o ruído e as luzes intermitentes e os números desfilando rápidamente. Aqui e ali mostradores com indicadores em verde e vermelho davam conta de um computador central bastante afadigado.

Um olhar rápido esclareceu as suas primeiras dúvidas – a cápsula de transporte tinha sido usada poucos minutos atrás. Estava só numa pequena nave com um habitante cibernético súbitamente muito preocupado!

A pequena tela ecoava duas linhas. Uma delas era calma e apresentava de forma estática, a verde, a palavra password. A outra, linha-mãe, um pouco acima, linha histérica e intermitente exibia a vermelho a frase Modo manual. Aprove correcção de ângulo de aproximação.

Os seguintes três minutos e vinte segundos foram gastos numa luta intensa com o teclado. Experimentou um pouco de tudo. Nomes conhecidos, palavras que ouvira comentar aos três perfeitinhos cobardes, combinações destas palavras com sequências numéricas simples. Por fim, em desespero de causa, até o seu nome colocara. Nada. Apenas a reencarnação sucessiva das mesmas duas sequência de letras, filha calma e mãe histérica. De repente...lembrou-se. E se?! Impossível, não podia ser tão simples!

A sua face desceu para o pequeno teclado e os dedos foram pousando à vez pelas várias teclas: A, F, R, O, N, T, E, I, R, A. Pronto! ENTER! Foi então que mãe e filha morreram quase em simultâneo e deram lugar a um computador muito mais feliz.

5. Julgamento

O bigode grande e fino conferia ao homem um certo aspecto cómico, qual Geppeto saído de história para crianças. A sua face exibia no entanto uma expressão severa, austera.

Após o enorme raio laranja ter envolvido a bola brilhante – a nave foi puxada e dirigida a bel prazer de interesses terceiros. Em poucos segundos as comportas abriram e fecharam-se e Patrícia foi cercada, dominada e encaminhada para este local pleno de solenidade.

“Estamos aqui reunidos para avaliar de culpa da cidadã Patrícia James Clark, acusada do crime de infracção repetida da norma 3214/XZ-EA”

A norma 3214/XZ-EA correspondia na verdade a um crime terrível: conspiração contra a ordem e os poderes instituídos. Os motivos poderiam ser vários – o mais provável seria tentativa de efectuar engenharia inversa sobre a UN.

O que se seguiu foi um diálogo entre duas partes: A institucionalmente correcta, que tudo inquiria e tudo sabia e a outra - presumivelmente criminosa, que se limitava a fornecer informações respondendo ao caudal de perguntas.

Foi sumariamente julgada e condenada. Ficaria na casa triangular o tempo equivalente a vinte revoluções completas de lótus – a lua mais distante. Depois terminariam com a sua vida e todas as suas preocupações mundanas.

6. Casa triangular

O quarto era pequeno e sóbrio. Tinha, tal como todas as outras divisões, a forma de triângulo. A parede em frente à cama exibia o móvel antigo com um espelho de formato oval enquanto um pouco à esquerda - autêntica relíquia, o pêndulo do relógio ia e vinha e ia e vinha, em ritmo compassado, sempre igual.

A mulher estava no entanto demasiado preocupada com o problema da sua sobrevivência para reparar em pormenores estéticos. A mente treinada começou a laborar nas possibilidades – estava desarmada, é certo, mas poderia dar luta e talvez eliminar os dois guardas que vinham com regularidade trazer a alimentação e fazer o controlo de presença. No entanto isso não eliminava o problema fundamental – depois… para onde ir? Onde seria possível esconder-se?

A porta abriu-se um pouco, apenas o suficiente para que a figura encapuçada empurrasse o tabuleiro com os víveres. Patrícia olhou de relance.

“Espere!” disse para a porta que se fechava sem resposta.

A cena repetiu-se vezes sem conta. Ninguém respondia a condenados. Era como se já não existisse, como se a sua presença não fosse mais que a aparição de um fantasma encarnando aqueles ossos e tecidos. Não encontrara qualquer solução de fuga e o tempo foi passando igual, cheio de momentos gémeos verdadeiros e desinteressantes. Finalmente chegou noite de véspera do dia. A porta deixou entrar o ser pequeno ladeado pelos dois guardas.

“Deixem-nos sós um momento” ouviu num sotaque francês perfeito.

Apesar das vestes humildes de padre, o forasteiro, tinha um aspecto cuidado que impunha respeito. Olhou para um e outro lado, após o que se baixou e encostou o ouvido à superfície metálica da porta de entrada. “Já se foram, agora podemos falar”. E começou…

Sabe, nada acontece por acaso – o acaso é apenas fruto de nossa mente despreocupada e limitada, da nossa incapacidade para entender uma ordem maior, os planos deles. Imagine um canídeo – o que pensará ele dos passeios matinais e de fim de tarde? Nada. Sabe apenas que aquela hora e naquele momento, o dono estará para o levar. E no entanto os passeios obedecem a um plano, uma estrutura organizativa que o animal é incapaz de perceber. Assim estamos nós para eles…

“Eles? Eles quem?”

“Os humanos Mademoiselle. Não desapareceram como vulgarmente se pensa”

“Uh” Patrícia estava surpresa. “E qual é o meu papel no meio disso tudo, porque me está contando essas coisas?”

Bem… a Mademoiselle foi escolhida. Mas terá de passar por uma prova final”

“Prova?”

“Sim. Fugir. Tem menos de vinte e quatro horas”.

E, dito isto, levantou-se e virou as costas. Antes de chamar os guardas ainda teve tempo para dizer “Lembre-se demoiselle, o sonho, a UN, nada acontece por acaso”.

Ficou ali, na semi-escuridão pensando.”Então era possível, só tinha de encontrar como encaixar a última peça de puzzle”. Lembrou-se das palavras do arlequim

        Na voz do ilustre sabedoria existe
        Entre dois tempos no centro do momento
        O valioso está onde menos esperamos
        No reflexo de um espelho...a fronteira

“Entre dois tempos no centro do momento… espera lá, o pêndulo, só podia!” empurrou o banco para debaixo do velho relógio e subiu. Quase imperceptível, atrás do braço pendular, estava uma pequena caixa. Com cuidado, colocou a mão e retirou o objecto. Dentro, o papel tinha apenas uma palavra escrita

        Pessoa

7. Fuga

Ficou desiludida com aquele achado. Esperava no mínimo uma chave, algo que pudesse usar com facilidade para se escapar dali para fora. Sentiu-se novamente em ponto de partida. Tudo o que tinha era a palavra, tinha de ser uma espécie de chave, um código mas…

Não existia qualquer aparelho, qualquer “fechadura” para chave possível. Na escuridão tacteou com cuidado as paredes procurando um botão ou um controlo sensível ao tacto. Demorou uma hora e meia nisso. Sem resultados. Nada. Estava perdida.

Sentou-se, desconsolada e observou no espelho o par de olhos cansados. Nunca saberia bem se foi apenas brincadeira ou obra de intuição – ergueu o braço e o indicador da mão direita desenhou na superfície os caracteres: P, E, S, S, O, A.

 Nesse mesmo momento, a superfície espelhada desapareceu, dando lugar ao portal. Do outro lado, o Português magro, de bigode e chapéu proferiu “Venha. Não há tempo a perder”.

Assim que saiu para o mundo paralelo, uma sua réplica entrou e assumiu papel de prisioneira. Seria executada a tempo e horas de acordo com os procedimentos e todos se congratulariam por a lei ter sido cumprida.

“Você é o poeta? Julguei que ele tinha morrido há séculos” perguntou. Ele riu e retorquiu “Não. Na verdade o meu nome é Jorhl e não tenho sequer grande jeito para  a escrita. Mas aqui todos tomamos a forma que pretendemos. E eu sempre fui fã do poeta Português”

Assim foi conduzida até à sede do conselho, onde em reunião de ilustres estavam presentes à mesma mesa a rainha Elisabeth, o guitarrista Baden Powell, Leonardo da Vinci, Marie Curie, Sócrates, Shakespeare e Demóstones.

Rapidamente e sem grande rodeios eles contaram-lhe. Aquele seu mundo era paralelo e parasitário. O “fazer certo” e “tudo poder” tinham retirado a alma e o interesse às vivências. Necessitavam da confusão, do caos – e isso encontravam no mundo de onde Patrícia era proveniente – universo que controlavam à sua vontade e sempre com objectivo de manter situações de conflito.

O caso dela não era único – o mesmo já se tinha passado com muitos outros, sempre que emergia alguém capaz de mudar as coisas, era necessário agir. Desta vez se nada tivessem feito, ela e o seu grupo rebelde teriam conseguido derrubar os poderes instituídos e estabelecer uma nova ordem. O que era inaceitável!

É certo que apesar de todas as comodidades, seria penoso viver com eles, uma vez sabido o motivo pelo qual tinha vindo ali parar. Mas, agora que tinham contado tudo, poderiam encaminha-la para “a máquina” e o equipamento especializado substituiria toda a memória antiga. Nasceria outro ser. À Patrícia, tal como se conhecia não restavam mais do que cinco curtos minutos.

José Espírito Santo
Enviado por José Espírito Santo em 04/11/2007
Código do texto: T722919

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Sobre o autor
José Espírito Santo
Portugal, 51 anos
155 textos (7496 leituras)
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