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O horror do cativeiro

        Esse conto é para todos os que não têm noção do que é ser sequestrado. O negócio é mais ou menos assim:

I
        Abriu os olhos.
        Sua cabeça latejava. Sentia o sangue escorrer. Dor! Havia um ferimento ali.
        A escuridão era quase total, mas ele conseguiu distinguir um teto baixo e paredes por todos os lados. Estava deitado numa espécie de colchão fino.
        Amarrado!
        Cordas prendiam seus pulsos nas colunas da cama de casal. Os pés também.
        Encontrava-se deitado, pernas e braços abertos e devidamente amarrados. Usava calça jeans e camisa de algodão, meia-manga. Tênis. A carteira porta-cédulas havia sumido. Claro.
        O quarto era pequeno, provavelmente 3x4m, e, além da cama, só havia uma mesa de madeira e uma cadeira. Sobre a mesa, um copo de plástico. Duas portas. Uma fechada: da saída. A outra aberta: do banheiro. A luz que iluminava parcamente o aposento provinha da fresta da janela fechada. Sozinho, preso num quarto sujo. Cabeça ferida apoiada num travesseiro.
        O que devia fazer?
        Esperar.
        O tempo seria seu mais forte aliado.
        Tentou soltar-se e seus pulsos doeram. Amarração bem feita, cordas novas, cama de madeira de primeira qualidade. Sentiu sede. Daria tudo por um copo com água bem gelada. Ou mesmo uma cerveja. Cerveja! Por que pensou em cerveja, neste momento de crise?
        Mas... não estava com medo! Receio, sim. Medo, não.
        Incrível!
        Apesar da dor de cabeça... não tremia. O medo não o dominava.
        Mantinha o sangue frio, tentando pensar porque fora escolhido.
        Tinha 21 anos, alto, moreno, magro, universitário. Seu pai era um simples comerciante de São Paulo, dono de uma empresa que vendia peças de carro. Viviam bem, mas não eram ricos. O que chamou a atenção dos seqüestradores?
        Teria sido pêgo por engano?
        Lembrou-se da noite fatídica.
        Saíra da universidade no seu Astra azul (de quatro portas - com um som maneiro, sim senhor), sozinho, após mais uma noite de estudos. Iria para casa, numa sexta-feira de verão. Antes, havia ligado para Patrícia, sua linda e doce namorada. Pretendiam ir a um bar, tomar cerveja, conversar, namorar, ver amigos e, mais tarde, dançar numa danceteria. A noite prometia ser superprazerosa.
        No entanto...
        O horror surgiu na forma de dois carros!
        Numa das ruas de São Paulo. Próximo de sua residência.
        Foi fechado pelos carros. Um Corsa e um Fiat Uno. Ou seria um Palio e um Monza? Não conseguiu captar, devido à rapidez dos atos. Quatro homens. Com meias cobrindo a cabeça. Roupas pretas. Luvas pretas. Apontando armas. Gritando. Ostensivos. Maquiavélicos. Com intenções sinistras! Um deles o atingiu na cabeça. A dor foi lancinante! Um fio de sangue escorreu.
        - Sai do carro! Sai do carro! - ouviu um deles gritar.
        Obedeceu. Assustado. Sem ter tempo de reagir.
Alguém colocou um saco de pano em sua cabeça. Não via mais nada. Amarraram seus pulsos por trás das costas. Foi empurrado e jogado no que parecia ser o porta-malas de um carro. Sentiu o veículo se movimentar.
        Teria viajado por uma hora? Duas?
        Os músculos das pernas doíam. Naquele momento, sentiu medo pela primeira vez. Medo de morrer, principalmente.
        Pensou em seus pais. Pensou em sua namorada; nos amigos; nos demais parentes. Iria morrer? Seria torturado? Cortariam algum membro seu? Um pedaço de sua orelha? Choque elétrico? Drogas nas veias? Fome? Pressão psicológica? Pancadas na cabeça que deixariam seqüelas? Seria colocado num buraco imundo e fétido, lotado de ratos? Quanto tempo duraria sua agonia? E se o resgate não pudesse ser pago?
        Sua mãe. Sofria do coração! Meu Deus! Aquilo poderia matá-la! Como reagiria, ao receber a notícia?
        Lágrimas desceram de seu rosto.
        Sentiu ódio daqueles homens. Ódio mortal. Eram covardes. Psicopatas sem alma. Insensíveis a ponto de cometerem o mais brutal de todos os crimes. Mereciam morrer. Os mataria, se pudesse. Lentamente. Ouvindo seus gritos. Não sabia como poderia matá-los, mas o faria. Seria tão insano quanto eles. Se tivesse a oportunidade...
        O carro parou.
        O porta-malas foi aberto. Quase não conseguiu ouvir os homens. Eram monossilábicos, falavam baixinho e não davam pistas. O conduziram até o quarto.
        E agora estava ali. Sozinho. Triste. Impotente. Com dores na cabeça.
        Mas não estava com medo. Receio, sim; medo, não. Por enquanto.
        O ódio sobrepujava o medo.
        Tinhas esperanças de escapar com vida. Era uma possibilidade.
        Bem, pelo menos não fora colocado num buraco fétido. Por enquanto. Menos mau.
        Mas teria que se preparar para os próximos dias.
        Tudo poderia acontecer.

II
        Havia dormido.
        Um sono profundo, apesar da situação em que ora se encontrava.
        Quando acordou, levou um susto!
        Havia uma mulher ali! Parada. Hostil. Olhando para ele. Como poderia descrevê-la? Usava uma máscara preta, tipo Zorro. Morena. Baixinha. Magra. Rosto comum. Cabelos curtos. Usava blusa e calça pretas. Luvas brancas nas mãos. Havia alguma coisa em sua mão direita.
        Notou que um novo dia se iniciava, provavelmente o sábado.
        Ela sentou-se na cama e deu uma olhada no ferimento.
        - Escute... eu... - tentou dizer, baixinho, controlando-se para não demonstrar receio.
        - Cale-se! - a mulher retrucou, zangada - Cale essa boca. Quanto menos falar, melhor. Sacou?
        - Quero ir ao banheiro... - murmurou, de modo frio, fazendo questão de que ela soubesse de que não estava com medo. Embora seus olhos "dissessem" o contrário.
        A mulher nada disse. Colocou o estojo em cima da cama. Com movimentos precisos, passou água oxigenada e depois um pedaço de algodão embebido em iodo no ferimento. Em seguida, levantou-se e começou a andar para a porta.
        - Ei! Quero ir ao banheiro! Por favor...
        A mulher saiu da sala.
        Momentos depois, viu dois homens entrarem. Usavam máscaras. Com as mesmas roupas pretas. Armados com pistolas. Sem nada dizer, um deles colocou a pistola na bermuda e desatou os nós das cordas.
        - Não tente nada. - um deles disse, evidenciando ódio e repulsa. - Não fale nada. Se fizer algo suspeito, morrerá. Pode ir.
        Livre, massageou os pulsos. Sentou-se na cama e procurou normalizar a circulação nos braços e pernas. Levantou-se e, com passos cambaleantes, foi ao banheiro. Entrou no banheiro, sozinho. Fechou a porta. Banheiro pequeno. Surpreendentemente limpo. Janelinha protegida por grades. Impossível fugir por ali. Fez suas necessidades fisiológicas. Lavou o rosto na pia; lavou as mãos. Quando viu o rolo de papel higiênico, teve uma idéia. Idéia que brotou subitamente em seus neurônios. Poderia dar certo, pensou. Ou não. Mas não custava nada tentar. Rasgou um pedaço do papel e escondeu no bolso da calça. Suspirou.
        Os homens usavam máscaras. Sinal de que pretendiam soltá-lo? É possível. E a mulher? Como pôde se envolver nisso? Já teriam feito o pedido do resgate? O que faria sua mãe? Conseguiria sobreviver a esse tormento?
        Saiu do banheiro e voltou a sentar-se na cama.
        A mulher entrou no quarto, com um copo de suco e um saco de bolachas de água-e-sal. Os homens recuaram, pistolas nas mãos, atentos aos mínimos detalhes.
        Ninguém dizia nada.
        Comeu apenas três bolachas, mas ingeriu todo o suco. Era suco de laranja, gelado, adoçado e, naquele princípio de dor, delicioso. A mulher e os homens não tiravam os olhos dele. Terminou de comer e devolveu o copo à mulher.
        Surgiu uma algema.
        Teve a mão direita algemada à cama.
        Os homens e a mulher saíram do quarto, levando o copo e as cordas.
        Estava mais uma vez só.

III
        Foram cinco dias de sofrimento psicológico.
        Cinco dias terríveis e inesquecíveis!
        Diferentemente do que aparecia nos jornais e livros, não fora torturado e nem agredido fisicamente. Raramente os seqüestradores entravam no quarto. Permaneceu os cinco dias praticamente sozinho, jogado na cama e preso pela algema. Tinha que suportar o calor.
        Comia Miojo e, às vezes, ovos fritos com arroz. Miojo! E ovos! Três refeições por dia. Bolachas e suco de laranja no desjejum. Água mineral. E mais nada. Só ia ao banheiro no horário das refeições. Sentia fome e sede à noite, e calculou que devia ter emagrecido uns dez quilos ou mais, com essa dieta permissiva. No quinto dia, vomitou o Miojo, não suportando mais aquele macarrão sem gosto.
        Os seqüestradores nada diziam. Nenhuma conversa foi travada. Nenhuma notícia obteve. Ficou longe de: TV, rádio e qualquer meio de comunicação. Provavelmente não foi pêgo por engano. Com certeza os bandidos achavam que tinha dinheiro. Talvez pelo tipo de carro que dirigia. Um negócio estúpido e patético.
        Choveu em apenas uma oportunidade. Naquele dia, adorou ouvir o barulho da chuva. Agradável e refrescante. No resto, muito sol e calor. Suava. Permitiram que tirasse os tênis e as meias. No entanto, ficou com a calça e a camisa. Queria tomar banho, trocar de roupa, escovar os dentes, fazer a barba, limpar-se convenientemente, mas não foi autorizado. Sua roupa fedia. Seu corpo fedia. A roupa grudava no corpo, devido o suor. Quase não suportava seu próprio mau cheiro. Parecia um animal imundo, um fétido rato no esgoto. Quase vomitou, ao pensar isso.
        Chegou a pedir para tomar banho, mas eles negaram. Chegou a pedir que deixassem um ventilador no quarto, mas eles negaram. Miseráveis!
        À noite, só fez frio uma vez. Justamente na tarde em que choveu. Queria um cobertor e teve que se contentar em encolher o corpo. Era um frio suave, de verão, mas que lhe doía no âmago dos músculos. A cama possuía uma colcha fina, que servia apenas para cobrir o colchão.
        Nas noites quentes, suava e não conseguia dormir direito. Eles só ligavam a luz quando traziam as refeições. Nos demais horários, o quarto ficava naquela semi-escuridão opressiva. Gostava de dormir no escuro, mas a escuridão daquele quarto o deixava nervoso. Quando lograva dormir, ouvia barulhos estranhos e acordava, assustado. Não dormia por causa do frio... por causa do calor... por causa da tensão... por causa dos barulhos.
        Que barulhos seriam aqueles? Um roncar? O urro de um animal? O roçar malicioso na porta? Alguém quebrando alguma coisa? Vozes na TV? O estridular de um apito? Arranhões? Risos? Não sabia, não sabia... Mesclados à escuridão, o perturbavam, na madrugada. Seria uma estratégia funesta dos bandidos, para enlouquecê-lo? Ou tudo não passaria de delírio seu? Teria imaginado tais barulhos? Iniciado uma paranóia destruidora? Seus neurônios imergiriam na ignóbil loucura?
        Rezava todas as noites, orando para que Deus o libertasse ou para que, na pior das hipóteses, não o deixasse entrar em paranóia. Rezava, trêmulo e tenso, para não enlouquecer.
        O pedaço de papel higiênico continuava no bolso da calça, mas nada encontrou que pudesse servir para escrever um pedido de socorro. Pedido este que jogaria pela janela do banheiro, na esperança de que alguém o encontrasse e... Ótima idéia, mas que, devido à falta de recursos, tornou-se impraticável.
        Havia o cheiro. O quarto exalava um cheiro estranho, uma mistura de amônia e gasolina. Teriam lavado o piso com gasolina? Teto de laje, como se houvesse mais um andar acima dele. Piso de ladrilho, brilhante e bonito, mas que ninguém varria. Janela de madeira, provavelmente pregada. O cheiro o incomodou nos dois primeiros dias, mas depois se acostumou com ele. Era o jeito. Tinha que ser...
        E se gritasse por socorro? De madrugada? Daria algum resultado? Alguém ouviria? Teria alguma chance? Eles não o amordaçaram; sinal de que estava longe de vizinhos, numa casa afastada. Com certeza tinham pensado nessa possibilidade. Além disso, se gritasse, poderia sofrer castigo físico, em retaliação. Abandonou a idéia. Não queria levar porradas. Tudo menos, levar porradas.
        O ferimento em sua cabeça inchou, dando-lhe a companhia de uma dor permanente, que o incomodava.
        Sua coluna doía. Por isso, alternava as posições. Às vezes permanecia deitado; em outra, sentava; ficava de pé sobre o colchão; dobrava as pernas, ficava de pé no chão; curvava-se, agachava-se. O pulso ardia, no contato direto com a algema. Sentia fome, sede, dor de cabeça, dor nos braços, na coluna, olheiras por não estar dormindo direito, solidão, depressão, impotência, raiva, medo e... e...
        E eis que o medo surgiu, tétrico, tirando-lhe o controle emocional!
        O medo! O medo, antes oculto no subconsciente, aflorou, vívido e pernicioso, com o passar dos dias. Estava com medo! Meu Deus! Sentia medo, medo, medo!!!
        E ele chorou.
        Chorou três vezes, justamente nos quarto e quinto dias. Chorou por não suportar mais estar em situação tão deprimente. Chorou ao pensar que seus pais não conseguiriam pagar o resgate. Chorou ao imaginar que poderia ser morto por isso. Uma facada! Um tiro na cabeça! Chorou ao ventilar a hipótese de que não poderia realizar seus sonhos. Concluir a faculdade. Casar. Ter filhos. Arrumar um bom emprego. Ajudar seus pais na velhice. Contribuir com seu trabalho para fazer do Brasil um país melhor. Chorou em desespero e com um pouco de vergonha. Vergonha por estar impotente, preso num quarto imundo, sem poder fazer alguma coisa para se libertar.
        Vergonha por estar chorando, ao ver acontecer com ele o pesadelo que só via acontecer com os outros. E sabia que qualquer pessoa, principalmente em São Paulo, independentemente de ser rica ou pobre, poderia ser vítima de um seqüestro. Chorava, mas conseguia se controlar.
        Enxugava, depois as lágrimas e perguntava-se por que existiam pessoas assim? Seqüestradores, assassinos, estupradores, a escória da sociedade. Refletiu no futuro da humanidade. O que poderia ser feito para que tais crimes não fossem mais cometidos? Por que existia a maldade? Pessoas que sentiam prazer em causar dor e sofrimento. Seres hediondos que não mereciam viver!
        Revoltou-se com o governo, que permitia que tais psicopatas fossem presos e soltos em seguida, devido a deslizes judiciais. Revoltou-se com a justiça brasileira, excessivamente flexível e branda, que alimentava a impunidade e a reincidência. Por que não existia a pena de morte? Por que não existia a prisão perpétua? Por que os políticos não atualizavam o Código Penal, tornando-o mais duro e justo? Por quê? Por que, meu Deus?
        Havia um misto de raiva e tristeza em seu olhar. Queria conversar com alguém, desabafar, evidenciar sua revolta. Sentiu saudades de seus pais, de sua namorada, de seus parentes e amigos. Saudades da faculdade, de jogar futebol na praia, de ficar sentado no sofá, ouvindo música, de ir à igreja aos domingos. Coisas simples, mas que, naquele momento, tornaram-se importantes e vitais.
        Mas... estava só. Absolutamente só.
        Os dias passavam lentamente, e a cada dia, sua mente entrava em catarse, em histeria destruidora. Depressão! Tristeza! A sensação de que foi esquecido, abandonado por tudo e por todos. Agonizava naquele quarto. Agonia psicológica.
        O horror do cativeiro!
        Agora entendia porque muitos reféns enlouqueciam, mesmo depois de libertados. Daí o motivo de muitos reféns ficarem bobos, assustados, acometidos pela horripilante síndrome do pânico! As horas num cativeiro são insuportáveis.
        "Meu Deus!" - pensou, nervoso - "Ajude-me! Eu te imploooro!"
        Talvez a resposta tenha vindo. Deus teria ouvido suas preces? Sem entender como, no início do sexto dia, ouviu tiros.

IV
        Tiros!
        Por volta das seis horas da amanhã. No quarto do lado. Ou na sala. Gritos. Gemidos. Barulho de passos. Correria! Confusão! Caos! Uma bala atravessou a porta fechada, ricocheteou na parede e foi se perder ao lado da cama. Recuou, assustado. Trêmulo. Apavorado. O medo incrustado em seu íntimo. Algo estranho estava ocorrendo. O que seria? Rezou baixinho, já se preparando para o pior.
        Tudo durou poucos minutos.
        Depois, a porta foi arrombada brutalmente e eis que... que...
        Quatro homens! Fardados! Armas nas mãos.
        - Bom dia, rapaz. - disse um deles, sorrindo. - Somos da polícia. Você está livre.
        A princípio, não sabia o que dizer e nem o que fazer. Permaneceu deitado, imóvel, congelado, olhos arregalados, lábios trêmulos, como que em estado de choque. Mil coisas passaram por sua cabeça naquele momento. Bandidos disfarçados de policiais. Um truque para matá-lo. Ou enlouquecê-lo. Até o maquiavélico ardor da morte fez seu coração pulsar acelerado. Iria morrer? O que significava aquilo?!?
        O policial aproximou-se e tocou sua mão.
        - Tudo bem, rapaz?
        E foi aí que a realidade surgiu, diante dele. Foi aí que percebeu o que realmente aconteceu. Liberdade! A palavra aflorou à sua mente com uma força descomunal, como nunca havia acontecido antes. Livre! Ele estava livre. Meu Deus! Livre! Não era um truque. Os olhos do policial expressavam a benevolência da verdade. Vendo o brilho daqueles olhos, teve a certeza da vitória.
        Começou a chorar...

V
        O deslocamento até sua casa... O encontro com os familiares... Abraços... Choros... Emoção... Notícias nos jornais... Um dia no hospital... Remédios... A multidão na rua onde morava... O assédio da imprensa... Dos policiais... Seus pais o escondendo dentro de casa... Uma terrível sensação de irrealidade... Ainda sem ter noção do que estava acontecendo... Os dias que passavam, lentamente... A dor... As visões... O medo...

VI
        ............... tic-tac, tic-tac .................
        Lentamente... ia se recuperando... ou quase...

VII
        Um ano depois, sentou-se no banco da praça, num domingo de sol. Passava dez minutos das oito horas da manhã.
        Sozinho.
        Exatamente no dia do aniversário de sua libertação. Há um ano, policiais arrombaram a porta de um quarto e o libertaram do horror do cativeiro.
        E ele sentou-se ali justamente para refletir.
        Refletiu bastante.
        Muitas mudanças aconteceram em sua vida, desde então.
        Na época, estava no segundo período do curso de engenharia mecânica. Queria ser engenheiro? Achava que sim. Seu pai, um comerciante, aprovava e aconselhava. Mas... isso foi antes do seqüestro. Antes do maldito seqüestro.
        Atualmente (numa decisão contestada por todos os familiares) cursava o primeiro período de Direito, após ter abandonado a faculdade de engenharia Queria ser... não um engenheiro... mas, sim, um promotor. Um grandioso promotor!
        Por quê? Era a pergunta que sempre se fazia. Por quê?
        Lembrou-se que, no estertor de sua agonia, no cativeiro, pensou em matar seus algozes. Chegou também a cogitar a pena de morte para o Brasil. Delírio de um refém em desespero, impotente e ferido? Chegou à conclusão que sim. Por isso, mudou de idéia. Havia uma forma mais humana e justa de combater bandidos. Não seria matando-os que diminuiria os crimes. Seria, isso sim, condenando-os e privando-lhes a liberdade. E foi em busca desse objetivo que ele decidiu ser promotor. Nada disse para seus pais, mas seria o promotor mais cruel e justo da cidade de São Paulo, talvez do Estado.
        Quer dizer, 80% cruel e 20% justo.
        Sorriu, ao pensar nisso. Um riso frio e maquiavélico, que faria tremer sua mãe. Ela jamais poderia imaginar que seu filho querido pudesse rir assim. Pobre mãe...
        Tinha que confessar a si mesmo a verdade. O motivo era outro, sem dúvida. O que queria mesmo era vingança. Sim. Isso mesmo. Iria vingar-se (utilizando os recursos que a lei lhe permitiria) de todos os psicopatas e bandidos de São Paulo! Esses miseráveis não perdem por esperar! Estaria no tribunal, impávido, insensível, totalmente preparado para aplicar o duro braço da lei. E ninguém, absolutamente ninguém, iria contestar suas ações ou afirmar que ele, de alguma forma, foi injusto. Certo? E ponto final.
        E a doce Patrícia?
        Seu namoro com Patrícia não deu certo. Quer dizer, mais ou menos...
        Ela se foi, diz que deu um tempo, triste e decepcionada, pois não suportou suas manias.
        Manias. Manias...
        Seria a palavra correta? Não concordava. Patrícia se foi porque não gostava dele o suficiente. E ponto final. Ela queria que ele fizesse terapia com um psicólogo. Sua família também queria. Não aceitou. Chegou a tomar alguns comprimidos estranhos, logo que saiu do cativeiro. Um por dia. Tomou por três meses. Depois, ao notar que tais comprimidos lhe tiravam o sono, parou de tomá-los. E foi se afastando de todos.
        Passou a dedicar-se com mais afinco aos estudos. Mudou de emprego, alugou um apartamento (outra decisão contestada pela família) e agora morava só. Parou de beber. Levava uma vida saudável e quase reclusa.
        Raramente saía, a não ser para a academia (benditos exercícios físicos! - excelente terapia!), trabalho e shopping, este de vez em quando. Deixou de ir à igreja, embora continuasse rezando todas as noites. Seus familiares lhe visitavam, aos domingos. Visitas chatas, diga-se de passagem. Não suportava mais ver sua mãe chorar!
        Dirigia agora um Fiat Uno (carro menos chamativo) e ficava atento a qualquer situação suspeita. Sabia que apenas a sorte iria livrá-lo de ser vítima de um novo seqüestro. Esperava que tal não acontecesse.
        Patrícia ainda ligava, mesmo não tendo mais nada com ele. Quem sabe no futuro, os dois poderiam... Pode ser... pode ser...
        Ouvia vozes! Por incrível que pareça!
        E risos. E gritos.
        E tiros. Dentro do ouvido (inconstantes!), embora já tenha se acostumado com eles. A visão daquele quarto permanecia em sua memória... permanentemente. A cama, o teto, a janela fechada... Não suportava ver Miojo, ovos e bolachas de água-e-sal. Arg! Não ingeria mais suco de laranja. Tomava banho pelo menos três vezes por dia, mesmo no inverno. Lavava as mãos continuamente, obsessivamente, sem entender o porquê. Só dormia com a luz do abajur acesa. Às vezes falava sozinho, sem perceber.
        Tinha pesadelos pelo menos uma vez por semana. Ah! E que pesadelos! Num deles, sonhava que a mulher-Zorro (ela mesmo), entrava no quarto com uma motosserra ligada (o barulho daquele motor é horripilante! Meu Deus!), apontando para ele e dizendo, com sua voz cavernosa: "Quero seeeu saaangue!". Como nos filmes de terror. Exatamente como nos filmes de terror! E aí... ele sempre acordava, pálido e suado. A motosserra nunca o atingia, graças a Deus! Pesadelos nauseabundos, com os quais tinha que conviver. Os atormentavam sem autorização, invadindo sua mente sem pedir. Desgraçados!
        Seriam essas as tais manias? Talvez sim... Se Patrícia soubesse...
        Três bandidos foram mortos, no tiroteio com a polícia. E pensar que uma denúncia anônima solucionou aquele seqüestro... Incrível!
        E sua mãe? Oh, ela suportou tudo, apesar do problema no coração. Ela, surpreendentemente, era mais forte do que ele pensava. Muito bom, mãe! Muito bom mesmo!
        Os bandidos pediram muita grana. Depois, foram diminuindo a quantia e, finalmente, o preço por sua vida tornou-se acessível. Ele valia menos do que um apartamento na periferia de São Paulo. Seus pais e demais parentes se juntaram e já estavam com o dinheiro. Grande família! Grande demonstração de amor! Felizmente a polícia invadiu o cativeiro, antes. Obrigado, polícia de São Paulo, pela eficiência!
        E, para concluir sua linha de pensamentos, dois bandidos sobreviveram: um dos seqüestradores e a mulher. O mascarado. A mulher-Zorro. Sabiam onde eles estavam presos. Viu as fotos dos dois nos jornais e TV. E ficou de olho. Não acreditava em pena de morte. Queria ser promotor, para levar escroques desse tipo para a cadeia. Como dissera antes, havia uma forma mais humana e justa de combater bandidos. Não seria matando-os que diminuiriam os crimes.
        No entanto...
        No entanto, havia o ódio. O ódio desgraçado, como um câncer a carcomer sua alma, seu coração! O que fazer para extirpar tal ódio? Como fazer para conter essa sede de vingança que o atormentava? Impossível! Apenas uma coisa iria aplacar esse ódio que sentia. Uma coisa!
        Por isso, por causa do ódio (e mais nada), decidiu abrir uma exceção para esses dois. Ah, com certeza!
        Exceção...
        Prometeu a si mesmo que iria matá-los! Os dois. Isso mesmo. O homem e a mulher-Zorro! Lentamente... sem piedade! Mortes sangrentas... Haveria sangue! Haveria gritos! E haveria dor! Muita dor! Como eles nunca sentiram antes.
        Filhos da puta!
        Estaria vigiando-os... continuamente. O tempo que fosse necessário. Dia-a-dia. Mês-a-mês. Anos e anos. Sem descanso. Sem erros.
        Fizera algumas investigações e sabia tudo sobre eles. Tudo. Não havia nada na miserável vida deles que não constasse no seu relatório. Usava quase todo o seu dinheiro para isso. Horas de vigilância. Perguntas. Indagações. Consulta. Sabia seus nomes completos. Onde nasceram. Trabalhos que exerceram. A vida de crimes. Os relacionamentos. Última residência. Parentes. Data em que seriam julgados. Quantos anos poderiam pegar. Previsão de liberdade.
        No dia em que fossem soltos (e seriam soltos, inevitavelmente! - a patética justiça brasileira permitia isso!) teriam o fim que mereciam. Impiedosamente! Eles são os responsáveis por estar assim, ouvindo vozes, incluso em solidão, com nojo de Miojo e ovos, lavando as mãos de modo descontrolado e tendo pesadelos de filmes de terror.
        Sofrendo as seqüelas do horror do cativeiro.
        E iriam pagar por isso!
        Parou de pensar.
        Levantou-se e, após enxugar as lágrimas, saiu da praça, trêmulo e emocionado.


         FIM
Joderyma Torres
Enviado por Joderyma Torres em 24/01/2006
Reeditado em 25/01/2006
Código do texto: T103367
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Joderyma Torres
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil, 51 anos
70 textos (14849 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 06/12/16 20:15)
Joderyma Torres