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O Iraque, o soldado e a morte

        No dia 6 de fevereiro de 2006, durante uma operação militar americana contra rebeldes iraquianos, na cidade de Hit, localizada a cerca de 140 km a oeste de Bagdá, a tropa do Exército americano, quando passava numa rua deserta, foi surpreendida por uma forte explosão. Os rebeldes haviam detonado uma bomba de fabricação caseira. Dois prédios desabaram sobre os soldados. Três fuzileiros navais foram mortos, seus corpos parcialmente despedaçados pela explosão. Outros foram feridos. Cena comum, diante do caos que se instalou no Iraque.
        Os corpos dos fuzileiros navais foram transportados para os Estados Unidos no dia seguinte. Antes, uma carta, escrita a mão, foi encontrada no bolso do uniforme de um deles, de 25 anos. Tal carta foi lida pelos oficiais e, após avaliações minuciosas e reuniões controversas, foi entregue  aos pais do soldado morto, com uma condição. De que não fosse divulgada à imprensa, pois poderia acarretar polêmicas desnecessárias.
        Os pais concordaram.
        No entanto, cinco dias depois a carta foi divulgada na Internet, para surpresa dos generais. Houve protestos e os militares tentaram descobrir o autor da divulgação. Seria a mãe? O pai do soldado morto? Um dos irmãos? Todos negaram.
E não houve jeito. A carta foi divulgada e ninguém descobriu por quem.
        Dizia a carta:

        "Iraque, 4 de fevereiro de 2006.

                   Meu pai, minha mãe, meus irmãos!

        Estou vivendo os piores dias de minha vida.
        Desde que aqui cheguei, há dois meses, que não durmo direito. Também não sei o que é tomar banho. E esse calor infernal, de 40 graus, que cozinha nossos miolos! Uma merda! Vivemos, eu e meus companheiros, em completo estado de alta tensão e medo. Qualquer ruído nos apavora.
        Não sabemos se as bombas vêm de cima, jogadas daqueles prédios baixos; ou de um carro em movimento; ou escondida numa bicicleta; num ônibus; numa motocicleta; ou dentro da roupa de um desconhecido. Às vezes eles colocam minas nas periferias das cidades. Ou então nos atacam com seus fuzis rústicos, porém mortais. Corremos o risco até de sermos seqüestrados, torturados e mortos. Tortura! Tremo só em pensar nessa palavra horrível! E o pior é que não sabemos quem eles são. Os rebeldes não usam uniformes e não avisam quando vão atacar. Qualquer lugar, qualquer casa ou prédio pode esconder esses porcos. Esse mistério, essa sensação de irrealidade é... angustiante.
        Inúmeras vezes matamos gente inocente, por engano, no delírio de que sejam esses guerrilheiros. Em vista disso, temos que ter um controle sobre-humano, para não enlouquecermos. Um negócio sinistro, meu Deus!
        A operação "Spear" está em andamento, para combater os rebeldes.
        Estou concentrado, com meus companheiros, aqui nas proximidades da província de Al Anbar, de dominação dos rebeldes sunitas (aqueles porcos!), pois iremos iniciar ataques nas cidades de Al-Karabila, Ramana e Ubaidi. Cidades imundas, sujas, cheias de becos e porões, onde os porcos se escondem para lançar suas bombas.
        Talvez eu seja designado para uma patrulha perto da cidade de Hit, mas não tenho certeza.

        Tenho ódio desses porcos.
        Jamais esqueço aqueles aviões, que foram transformados em bombas e lançados contra as torres do Word Trade Center. Jamais esqueço as explosões, os prédios desabando, as pessoas morrendo. Morador de Nova York na época, vi fumaça, sangue, caos, desorganização e desespero. Ouvi choros e gritos. Gritos cruciantes! As imagens macabras, daquelas pessoas agonizando, não saem da minha cabeça. Um ato covarde e desumano. Tenho até pesadelos com isso. Pesadelos, pesadelos, pesadelos... E meu ódio por todos os árabes e mulçumanos nasceu dentro de mim como um verme a me corroer por dentro.
        Um ódio mortal contra Osama Bin Laden, Al Qaeda, Saddan Hussein, Sharon, Mahmoud Ahmadinejad, Bashar al-Assad, Najib Mikati, Arafat e demais líderes (assassinos!) dos países do oriente médio: Afeganistão, Arábia Saudita, Irã, Iraque, Kuweit, Síria, Paquistão, Israel, Líbano, Jordânia e etc. Na minha cabeça, todos eles (sem exceção!) foram os responsáveis por aquele ataque brutal contra os Estados Unidos. Eles combinaram e urdiram (em segredo) o plano maquiavélico, em todos os detalhes e deixaram que Osama Bin Laden assumisse a culpa. Em troca, o escondem em suas terras, num revezamento diabólico. Eles são os culpados!
        Meu ódio me levou a entender que eles tinham que pagar por seus crimes.
        E é por causa desse ódio que estou aqui, lutando por meu país.
        Cheguei aqui para matar o maior número possível de porcos.
        No entanto, vi cenas que me surpreenderam e me fizeram mudar de idéia.

        Deparei-me, nas ruas empoeiradas do Iraque, com crianças e velhos. Crianças que brincam, enquanto as bombas explodem. Crianças que choram, iguais às nossas, sem entender o porquê de tanto ódio. Velhos que conseguem sorrir, apesar de todo o sofrimento. Velhos que culpam o povo ocidental por suas próprias desgraças, mas sem compreenderam o real significado da dura realidade de seu povo.
        Vi aleijados, homens sem braços, sem orelhas, sem pernas, etc, imersos em agonia. Vi pobres, lutando por um prato de comida.
        Conheci também iraquianos legais, homens e mulheres, gente de bem, que contam piadas, que trabalham, estudam e que não querem saber de guerra. Pessoas de carne e osso, que sofrem e que choram por seus mortos.
        Descobri que os inimigos são poucos. A maioria do povo iraquiano é pacata e trabalhadora.
        Logo entendi que os povos árabes e mulçumanos, em sua maioria, são ordeiros e tranqüilos. Todos sofrem os horrores da guerra. Têm suas crenças, suas filosofias religiosas, sim. Mas são - com certeza! - apenas vítimas do fanatismo de uma minoria.
        Tenho pena de toda essa gente. Já chorei, escondido, por nada poder fazer por eles. Dói meu coração ver uma criança iraquiana no colo da mãe, pedindo comida. Chego a sentir a crueldade da fome batendo em suas portas, a fome doendo dentro de seus corpos magros, esqueléticos e diminutos.
        Isso sem contar os feridos, jogados aos montes nos hospitais. Os gritos de dor, os lamentos, as orações e, também, a impotência dos médicos e enfermeiras, que nadam podem fazer para atenuar suas dores. Até os animais sofrem, sob o calor da região.
Vendo tudo isso, senti os sentimentos conflitantes em meu íntimo. Sentimentos que me fazem pensar.
        Ao mesmo tempo em que tenho pena dos iraquianos inocentes (seres humanos comuns, que querem paz e tranqüilidade), igualmente sinto ódio dos rebeldes, estes indivíduos insanos, psicopatas, treinados pela organização de Osama Bin Laden para morrerem matando. É incrível como eles dão a vida por uma causa perdida! É incrível como conseguem acreditar em filosofias fúteis, plantadas em sua mente por um aproveitador. São aberrações humanas, calhordas imbecis que morrem à toa, imersos na loucura e na bestialidade.
        São também animais sem controle, que têm por objetivo promover a discórdia entre as nações. Eles matam até sua própria gente, por incrível que pareça.

        Desses não tenho pena. São os porcos. São os porcos imundos, a escória da humanidade! Já matei seis e estou querendo matar mais. Muito mais! Sinto vontade de matar, matar, matar! Meu Deus, por que sinto isso? O que essa guerra está fazendo comigo? Sou agora um assassino? Um louco? Desci ao mesmo nível de Osama Bin Laden? De Saddan Hussein? O que devo fazer para voltar a ser um cara normal? Um cara que trabalha, paga impostos, toma Coca-Cola e come sanduíche no McDonald da esquina.? Devo desertar? Ou devo cumprir meu dever até o fim?
        Minha mãe, meu pai, meus irmãos, ajudem-me!
        Queria poder ir embora, voltar para casa, sair desse lugar imundo!
        E sabem por quê?
        O motivo é um só: simplesmente porque sinto que não sairei vivo daqui.
        Isso mesmo.
        Tenho um pressentimento, um instinto de que algo de ruim irá acontecer comigo.
        Sei que sou um soldado profissional, um fuzileiro (com excelente preparo físico) e faço parte da elite do Exército dos Estados Unidos. Estou na caserna há três anos. Até gostava da vida militar e sentia orgulho de ser militar. Mas hoje, depois do que presenciei aqui, fiquei farto do Exército e de toda essa droga. Estou farto, entendem?
        Vim para cá por causa dos ataques ao Word Trade Center. Fui voluntário por causa do ódio que eu sentia pelos árabes e mulçumanos.
        Porém, atualmente, sinto algo mais forte que ódio.
        Sei que sinto ódio, tudo bem. Ódio e pena.
        Mas vou confessar uma coisa. Vou revelar um segredo.
Meu maior segredo, aquilo que nunca contei para ninguém!

        Tenho medo! Juro.
        Medo de morrer! Um medo horrível, que embrulha meu estômago, faz tremer meu corpo e que me tira o sono! Medo daqueles rebeldes sanguinários, sujeitos invisíveis, que morrem matando! Medo das bombas! Das malditas bombas! Medo do escuro, dos ruídos, das sombras, das pessoas desconhecidas, dos carros. Meu Deus! Tenho medo da morte, que vive soprando no meu ouvido. Ouço diariamente aquele sopro e sei que ela me espera, pacientemente. Ela sopra no meu ouvido, me avisando... sarcástica e maliciosa. E não posso fazer nada para me livrar daquele... sopro maldito.
        Os ataques ao Word Trade Center me vêm à memória.
        Eternamente. Todos os dias.
        Ainda concordo com Bush. Acho que ele agiu corretamente, ao invadir o Afeganistão e o Iraque. Eu, no lugar dele, faria o mesmo, não importa o que pense o resto do planeta. É a vingança justa do país mais poderoso do mundo contra terroristas bestiais. Valeu, Bush!
        Porém, sei que nem todos os árabes e mulçumanos têm culpa.
        Foi preciso estar aqui, em plena guerra, para perceber que o inimigo, o verdadeiro inimigo é ínfimo, diante da quantidade de pessoas de bem que vivem no oriente médio.
        Para cada Osama Bin Laden que nasce, em contrapartida surgem milhões de pessoas que trabalham, estudam, sorriem e amam seus familiares. Isso é animador. Faz-me acreditar que o mundo ainda tem solução, que a paz, mesmo no oriente médio, ainda é possível.
        Para finalizar, eis o que sinto dentro do meu coração.
        Minha mãe querida, meu pai, meus irmãos, amo vocês! Amo muito, muito, muito e sinto saudades. Acredito que nunca senti tanto amor do que nos dias em que aqui estou. Mas sentir amor não é suficiente. Amar é viver... é ter alegria... prazer... paz na alma... Sensações que estão longe de mim.
        Longe porque sinto que estou vivendo meus últimos dias de vida. A idéia de morrer me arrasa o espírito, mas... sinto que minha morte é inevitável.

        Essa é, portanto, uma carta de despedida.
        Despeço-me, neste momento... com o coração sangrando e lágrimas nos olhos.
        Que Deus os proteja e espero que jamais passem por isso que estou passando.
        Se essa carta chegar até vocês, é sinal de que estarei morto.
        Se eu conseguir sair vivo, rasgarei essa carta e ninguém saberá do meu sofrimento.
        E mais uma vez digo: tenho ódio! Tenho pena! E tenho medo!
        Medo dos ruídos!
        Das bombas!
        Dos porcos invisíveis!
        De tudo, tudo...
        Meu Deus! A morte (esta entidade macabra, sobrenatural, onipresente e insensível!) pode chegar a qualquer momento.
        Adeus e perdoem-me por ter medo.
        Com amor,

        Patrick F. Wymmers, fuzileiro naval do
               Exército dos Estados Unidos."
     
FIM

Obs:
- História fictícia, porém ambientada num lugar real.
- Conto escrito para o Cabo Savedra, o guerreiro da Ilha da Magia.
- E aí, Savedra, o que achou?
- Um abraço!


Joderyma Torres
Enviado por Joderyma Torres em 27/02/2006
Código do texto: T116819
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Joderyma Torres
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil, 51 anos
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Joderyma Torres