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CRUCIFICADO!!!

      No jardim daquela mansão, observou os cães, as flores, a mangueira, as árvores, a cruz, os cabelos e a vela.
      Era noite de lua cheia.
      Os cães, em número de três, não latiam. Rosnavam e seus olhos estavam vermelhos (injetados de sangue). Pareciam evidenciar ódio. Ódio de quem? Teriam sentido o cheiro do sangue? Cães negros e imensos. Estavam soltos, mas não saíam de perto das flores. Estavam sentados, olhando para ele, como se... esperassem.
      Esperassem... o quê?
      Uma das flores, a maior, de cor rubra (ou lilás ou negra ou...), se movia lentamente (muito lentamente - no sentido anti-horário, sobre o caule), além de exalar um cheiro estranho. Não conseguiu identificar aquele cheiro. Mas era horrível (parecido com carne podre, talvez) e lhe causava asco.
      Outras flores, bem menores, também exalavam o cheiro nauseabundo.
      A mangueira se mexeu!
      Meu Deus!, pensou, apavorado. O que é isso?
      A mangueira se deslocou por alguns centímetros, como uma cobra rastejante. Deu a impressão de que iria jogar-se sobre ele. Atacá-lo!
      Depois, ficou imóvel, como se nunca houvesse se mexido. Ou teria sido impressão sua?
      O medo o fez arrepiar-se.
      Havia também algumas árvores sinistras nas imediações. Suas folhas balançavam, sob a pressão do vento brando, e seus galhos pareciam garras. As árvores, em si, pareciam monstros sobrenaturais e horripilantes!
      Entre ele e os cães... a vela.
      Vela preta, grossa, que teria uns 30cm de altura. Acesa. Ali na frente, a aproximadamente uns dois metros.
      Chama bruxuleante e maligna, uma luz sinistra. O vento agitava a chama, porém não a apagava. Uma vela demoníaca, colocada ali para fins maldosos.
      Perto da vela avistou uma cruz de madeira, com cerca de 60 cm de altura, também pintada de preto. Sacrilégio! Blasfêmia!
      Ao lado da cruz, numa bacia preta, tufos de cabelos.
      Seus cabelos!
      Estava com a cabeça raspada. Inquietantemente raspada!
      Haviam raspado sua cabeça, os desgraçados!
      Fazia frio. Um frio enjoado, que o incomodava.
      Ele vestia calça jeans. E mais nada.
      Estava nu da cintura para cima e descalço.
      Sentia dores no peito, lotado de feridas. Sentia dores nas costas, lotadas de feridas. O sangue escorria por seu peito e costas. Estava completamente ensangüentado.
      As chibatadas!
      Meu Deus!, refletiu. Lembrou-se das chibatadas, no porão da mansão. Dolorosas! Ensandecidas! Amarrado, no escuro, e os golpes do chicote em seu corpo. Cada golpe o feria e a dor era insuportável. Chegou a gritar, mas baixinho, para não dar o prazer da humilhação aos seus inimigos. E sofreu... as dores da surra...
      Lágrimas de pavor molhavam seu rosto, ao lembrar.
      E agora...
      ... estava pregado numa cruz!
      Isso mesmo.
      Os braços estendidos e pregados. Pregos grandes que lhe dilaceraram a carne. O sangue fluía, em fios estreitos, das palmas das mãos. Os pés, sobrepostos um sobre o outro, também estavam pregados.
      Crucificado!
      Não queria acreditar nisso, mas estava acontecendo.
      Crucificado no jardim da mansão.
      Numa noite de lua cheia.
      Diante dele... os malditos cães, as flores, a mangueira, as árvores, a cruz, os cabelos e a vela.
Em seguida, o muro... com seus quatro metros de altura. Atrás dele e por todos os lados.
      A cerca de cem metros, na frente, o prédio da mansão, de três pavimentos. Mansão às escuras, como se seus habitantes houvessem fugido ou viajado. Perto da mansão, a luz de um poste iluminava parcamente a área.
      O dono da mansão, um traficante do Rio que mexia com magia negra. Magia negra africana, com seus vodus, pragas, amaldiçoamentos, bruxedos, necromancias, etc. Até no Brasil aconteciam essas coisas, pensou.
      Após três meses de investigações, reunira provas suficientes para levá-lo ao tribunal.
      Havia gravado conversas telefônicas.
      Também tirou inúmeras fotos.
      Fotos do tráfico, dos rituais e dos assassinatos (ou sacrifícios, como eles diziam).
      Presenciara cenas horríveis, deprimentes e asquerosas (cortes de gargantas, sangue nos recipientes, rituais no porão - eles bebiam sangue! arg!), mas continuara na missão.
      A princípio, agira com cautela, pois era um policial experiente.
      Porém...
      Cometera um erro, ao subestimar a perspicácia do inimigo. Pego em flagrante! Pego justamente naquele jardim, enquanto tirava as últimas fotos.
      E seu horror teve início.
      Em retaliação, fora deixado ali para morrer!
      Morte tétrica, dentro dos princípios da magia negra.
Primeiro, rasparam sua cabeça, para utilizarem seus cabelos nos rituais.
      Em seguida, roubaram-lhe a máquina fotográfica, aplicaram-lhe as horríveis chibatadas e lhe fizeram várias perguntas. Teve que contar tudo. Ou quase tudo. Mentiu um pouco, claro. Estava sozinho na missão. Fizera isso. Sabia aquilo. Enviava relatórios mensais. Só tirara aquelas fotos e mais nada. Estava ali há duas semanas, somente. Não. Não contara para ninguém o que sabia. Oh, eles não acreditaram! E decretaram sua sentença de morte.
      Pregaram-no naquela cruz! Sem piedade! Numa noite de lua cheia. O crucificaram por volta das onze horas da noite.
      Antes, haviam lhe dado um chá ou poção. À força.
      Chá amargo e quente, que lhe queimou a língua e o peito.
      Chá de cor marrom, alucinógeno e entorpecente!
      Passou a ver coisas!
      A sentir coisas!
      A mangueira e a grande flor se mexendo!
      O cheiro estranho das flores.
      As árvores, com seus galhos macabros.
      A vela acesa, a cruz negra, os cabelos... marcas do mal.
      Sentia frio... sede... dores.
      E medo!
      Muito medo. Pânico! Pavor! Premonição da morte!
      Seu corpo tremia. Tremores agonizantes.
      Tentou gritar por socorro, mas nada saía de sua garganta.
      Começava a sentir os reflexos do próprio sofrimento. A perda de sangue o deixava ligeiramente tonto. Sinal de que a morte dele se aproximava. A morte... com seu manto negro... impiedoso... querendo roubar sua alma... seu corpo... sua dignidade...
      - Não! Não! - gritou, em agonia, chorando - Não quero morrer! Deus, não quero morrer!
      Não poderia morrer sem lutar! Não era um covarde e não iria entregar-se facilmente. Não poderia fracassar em sua missão. Era um homem da lei e tinha por objetivo tirar aquele louco de circulação. Se morresse, ele continuaria matando pessoas (cortava as gargantas e bebia o sangue, no porão, os grupos orando para Satã, velas acesas, entre estátuas de monstros - ele viu!), espalhando medo, espalhando o mal na cidade maravilhosa. Precisava fazer alguma coisa! Com magia negra ou não, ele teria que lutar por sua vida.
      Num momento de relativa sanidade, superando o medo, o choro e as dores e seguindo os instintos de sobrevivência, começou a agir.
      Forçou os braços e as pernas, tentando libertar-se dos pregos. Naquele instante, os cães se agitaram e rosnaram. A mangueira se moveu! Uma das árvores mexeu os galhos! Ou não? Estaria delirando? De repente, um vento frio começou a soprar. Vento enjoado que o fazia arrepiar-se. A lua brilhou mais forte. Lua feia, hostil e maquiavélica.
      Meu Deus!, pensou. Estou cercado por forças diabólicas.
      Mas ele continuou sua luta contra os pregos. A dor! Tinha que suportar a dor! Forçou principalmente as mãos. Os pregos eram de bom tamanho e foram fixados firmemente na madeira. Seu corpo tremia, tal a dor que sentia. Balançou a cruz e notou que ela não estava tão firme no solo gramado.
      Animado, balançou o corpo com mais força. Apesar do frio, suava. Seus braços e mãos doíam! A cruz afrouxava. Foi forçando, com raiva, com vontade, lutando por sua vida. Ofegava. Um dos cães levantou. Seu peito e costas doíam.
      Ouviu um silvo animalesco! UHHHH! Um barulho estranho, como um urro de uma fera. Teria vindo da mansão? Prosseguiu seu trabalho.
      Os pregos nas suas mãos! Rasgavam a carne! Forçou a mão direita, comprimindo os lábios para não gritar. Nunca sentira tanta dor, desde as malditas chibatadas! Teria que rasgar sua mão. Não havia outro jeito. A cruz não cedia, apesar de frouxa.
      E ele forçou, forçou, forçou. Pregos desgraçados! Os cães estavam agitados, todos de pé. Um deles latiu. Forçou a mão direita. A mangueira se moveu novamente! Forçava a mão. O vento frio no rosto. Forçava. O urro sobrenatural! Forçava a mão. Muita dor. Novos latidos. O prego rasgando, dilacerando... a mão saindo... O vento forte... mais latidos... a mão.. a mão... dor... a mangueira estava ereta, suspensa no ar, sinistra, como uma cobra naja... mordeu os lábios... mais força... força... o vento frio... o urro vibrou em seus tímpanos... UUUHHHHHHHH!!! Algo dele se acercava? Quem estaria ali? Estremeceu de medo, mas não parou... continuou a forçar a mão... já enlouquecido... numa luta ferrenha... contra quem? Ele prosseguiu, com uma disposição incontrolável.. até que... até que...
      E de repente... num momento frenético... alucinante... febril...
      Ele conseguiu soltar a mão direita!
      A mão livrou-se do prego! Conseguiu soltar-se, porra! Mas...  havia um buraco enorme ali, com sangue e pedaços de carne. Soltou um grito de dor! Estremeceu! Sua mão latejava. Um dos cães latiu. Estavam de pé, mas sempre perto das flores. Não se aproximavam da cruz, nem da vela e nem dele. Teriam medo ou respeito? A mangueira estava de volta a seu lugar. Não ouviu mais nenhum urro. O silêncio dominava o jardim. O vento diminuiu o ritmo. Quem quer que dele tenha se aproximado, afastou-se ao vê-lo libertar uma das mãos.
      Algo foi embora. Ou afastou-se um pouco.
      Sem perder tempo, utilizou a mão direita para soltar a esquerda. Mais dores. Mais sangue.
      Mais sofrimento. Dessa vez puxou com mais potência, mais força e o processo se tornou mais rápido. E dane-se a dor! Até o chá (ou poção) perdeu os efeitos alucinógenos. Não sentia nada, porra! Em segundos e suando em demasia, conseguiu libertar a mão esquerda. Livre! Parcialmente livre! Segurou-se na cruz para não despencar. Seu peito doeu, ao roçar na madeira.
      Agora viria a pior parte. Teria que soltar os pés.
      Não tinha relógio, mas calculou ser duas ou três horas da madrugada. O vento amainou, mas o frio continuava presente. Os cães, de pé, apenas o encaravam. Pararam de latir e só rosnavam. O fedor das flores tornou-se mais forte. A mangueira estava imóvel.
      Ele teria que tomar uma decisão. E tomou. Talvez houvesse enlouquecido, devido o excesso de sangue, de dor, de agonia, de medo. Mas o certo é que ele jogou-se no chão.
      Jogou-se no piso de grama da mansão!
      Apoiou as mãos ensangüentadas no chão e rolou de lado. Seus pés foram rasgados brutalmente, mas soltaram-se dos pregos. Gritou! A dor o atormentava. O sangue o atormentava! Estava agora deitado de costas, sangue por todos os lados, com buracos horripilantes nas mãos e nos pés.
      Meu Deus!, refletiu, apavorado. Dai-me forças!
      Precisava reunir forças para levantar-se e pular o muro.
      Quando começava a se erguer, foi atacado pelos cães! Meu Deus! Foi como se alguém desse uma ordem mental aos cães. Eles saíram de perto das flores e avançaram, com uma rapidez mortal.
      Os cães negros pularam em cima dele, entre rosnados animalescos! Pego de surpresa, não soube como reagir. Um dos cães mordeu seu braço direito. O outro mordeu sua perna esquerda, por cima da calça. Dentes ávidos em sua carne! Os cães salivavam, nos olhos um brilho insano. O outro latia, tentando morder alguma coisa. Desenvencilhou-se de um dos cães (o que mordia seu braço) e deu-lhe sucessivos socos, afastando-o momentaneamente. O cão, que não conseguiu pegar seu braço de jeito, soltou-o, surpreso com os socos recebidos. O braço estava em carne viva, com mais sangue jorrando. A dor o deixava embriagado. Apenas um cão o mordia. Os outros latiam e ameaçavam atacá-lo.
      Os latidos reverberavam alto na madrugada, quebrando o silêncio. Mas a mansão continuava às escuras e ninguém deles se aproximava. O traficante provavelmente estaria em outro lugar. Ou observava tudo, esperando o momento certo para agir.
      Em desespero, teve uma idéia.
      Arrastou-se até a vela. A vela preta, objeto de maldição!
      Outro cão mordeu sua perna direita. Pegou a vela, com suas mãos trêmulas, e atacou os cães. Queimou o primeiro, o que mordia sua perna. No focinho. A chama tocou (fundo) na carne (soltando um pequeno chumaço de fumaça) e o cão soltou um ganido de dor, soltando sua perna. O cão continuou gritando e jogou-se no canteiro de flores. Os outros recuaram, ante a chama. Não mais o mordiam.
      Estava fraco, cansado, apavorado, mas precisava aproveitar para fugir.
      Levantou-se, sem soltar a vela e, cambaleando (sentindo dores no corpo todo - dores, dores, dores - Meu Deus!), acercou-se do muro. Mostrava a vela para os dois cães, que rosnavam, tentando atacá-lo. Mas eles pareciam saber sobre a vela.
      Em nenhum momento a mangueira se moveu.
      O muro tinha aproximadamente quatro metros de altura. Como fazer para pular?
      Lembrou-se da cruz. Mais um objeto de maldição.
Sem largar a vela, começou a balançar a cruz, com a mão esquerda e com os ombros. A cruz estava frouxa. Ele abraçou-se com a cruz e tentou arrastá-la. Era uma cruz grossa, com dois pedaços de madeira se cruzando. Mas estava frouxa e... e...
      A cruz caiu.
      Ele se queimava com a cera derretida da vela, mas, a essa altura dos acontecimentos, já conseguia suportar todos os tipos de dores e ataques. Os cães rosnavam, mas não o atacavam. Apenas o cercavam. O outro cão desapareceu.
      Carregou a cruz até a base do muro. Era uma cruz pesada e teve que fazer um esforço sobre-humano para conduzi-la. Colocou a cruz na base do muro e a utilizou como base de apoio. Depositou a vela no chão e começou a subir.
      Tentou apoiar a mão na madeira, mas, fraco e abatido, caiu. Caiu no piso gramado e os cães se aproximaram. Pegou a vela e os afastou.
      - SAIAM DAQUI, MALDITOS! - gritou, já sem raciocinar direito.
      Levantou-se de novo, fez nova tentativa e novamente caiu.
      Sentou-se no piso e notou lágrimas de desespero em seus olhos.
      - N-Não posso morrer agora... - murmurou, deprimido... - não p-posso ser derrotado agora...
      Respirou fundo, enojado com o próprio sangue (o cheiro era horrível e tinha que ignorar as dores) e, mais uma vez, tornou a erguer-se.
      Segurou firme a madeira e foi se deslocando para cima. Passo a passo. Para cima... Meu Deus! Os cães latindo. O sangue fluindo do braço rasgado; da perna; do peito; das mãos; dos pés... Havia sangue, muito sangue em tudo o que tocava. As dores furando-o como agulhas em brasa. A mente em desalinho. O cérebro em princípio de histeria.
      Oh, estava em cima do muro. Incrííível! Os cães lá embaixo, latindo. A vela ainda acesa. A mangueira imóvel. Árvores que eram apenas árvores. A mansão sinistra lá no fundo.
      Num esforço catatônico, jogou-se do muro, para a rua. Primeiro lançou as pernas, ficando pendurado pelas mãos ensangüentadas. Depois, soltou-se e caiu na calçada. Estava fora do jardim da mansão! Livre dos cães e daquele ritual desgraçado! Os cães pararam de latir. O vento estava fraco, do lado de fora.
      Ficou deitado por alguns segundos. Seu rosto e corpo estava completamente coberto por sangue. Já nem conseguia mais ver direito. Sentia que sua respiração se tornava angustiantemente difícil. Mas... não poderia perder tempo.
      Eles poderiam chegar a qualquer momento.
      Levantou-se e começou a andar, arrastando os pés.
      Andando, lentamente, na direção norte.
      Rua deserta e larga, lotada de mansões por todos os lados. Tinha ciência dos morros que cercavam a região. Pobres e ricos convivendo lado a lado.
      Após minutos que pareciam horas, dobrou à esquerda, entrando em outra rua. Seu carro havia desaparecido. Lógico.
      No entanto, seu objetivo estava logo ali, a cerca de cem metros.
      Foi andando...
      Com dores! Sangue! Tontura! Agonia! Lampejos de paranóia. Cada passo era uma vitória. O rastro de sangue ia ficando, à medida em que andava. Andava, parava, mordia os lábios para sufocar a dor. Tornava a andar. A dor o fazia parar. Respiração escassa. Dores no corpo todo. Parava e voltava a andar, lentamente, se arrastando. Um percurso que faria em minutos durou uma eternidade.
      - V-Vou conseguir... - murmurava, trêmulo - Meu Deus! V-vou conseguir...
      Andando... lentamente... tentando controlar o pânico... o medo... as dores...
      - Vou... c-conseguir... - murmúrios delirantes.
      E conseguiu.
      Seu objetivo maior estava ali, diante dele.
      O orelhão.
      Santo orelhão! Bendito orelhão!
      Localizado na frente de um comércio.
      Notou o excesso de sangue em si mesmo. O sangue do cordeiro. Imolado por Satã! Riu, num esgar de dor, ante a idéia. Pegou o fone com as mãos trêmulas e fez uma ligação a cobrar. Na madrugada, a pessoa demorou a atender. Mas atenderia, mesmo uma ligação a cobrar. Tinha convicção disso.
      - Alô! - ouviu uma voz masculina dizer, de modo sonolento.
      - James... escute... - começou, com a voz pastosa. Tinha dificuldades até para falar.
      - Rodrigo! Onde você está, cara? Está todo mundo te procurando, irmão.
      - Escute... não tenho muito tempo... - tossiu pela primeira vez.
      - Você está bem, meu?
      - N-Não... eu... - tentou falar, mas nada saiu.
      - Rodrigo! Vou mandar uma viatura aí. Onde você está, cara? Onde? Fale!
      - Escute... vá até minha casa... - tossiu fortemente - Na minha escrivaninha tem uma gaveta grande... Gaveta grande... Está me escutando, James?
      - Sim. Sim. Gaveta grande... Continue.
      - Nessa gaveta tem um rolo de filme... - tossiu - E uma fita K7. São provas contra o traficante Lindomar. - viu o sangue sair do nariz - Mostre-as para o chefe. Ouviu, cara?
      - Ouvi. Diga onde está, cara. Vou mandar uma viatura.
      Ele deu o endereço. Tirou o sangue do nariz.
      - Escute, Rodrigo! Acalme-se que estamos chegando. Rodrigo! Rodrigo! Alô! Alô!
      Soltou o fone e caiu no chão. Fraco, abatido, sem conseguir respirar direito.
      Tossiu mais uma vez. Colocou as costas contra a parede do comércio.
      Forçando a vista, vislumbrou três vultos se aproximando. A uns oitenta metros.
      Já esperava que eles viessem. Era uma questão de tempo.
      Sabia que era o fim.
      No entanto, sabia que o patético ritual de magia negra fracassara. Eles fracassaram! Também saberiam disso. Iriam se perguntar como pôde um sujeito escapar de uma crucificação, de um ritual demoníaco. Como saíra da cruz? Como pôde escapar dos cães? Como havia conseguido pular o muro? Como?!? Será se pensariam que ele tinha o corpo fechado e outras baboseiras?
      Sorriu.
      Iria morrer, não tinha dúvida. Porém, tinha certeza de uma coisa. Morreria não num maldito ritual de magia negra, não senhor. Afinal, Satã foi por ele derrotado, porra! Satã já era, meu. Morreria sim, vitimado pela velha e conhecida pistola. Tiros. Bang-bang! Num terreno abandonado. Seu corpo depois seria queimado e enterrado em algum lugar. Isso sim, era uma morte comum, dentro dos padrões conhecidos nos livros de análise criminal. Bem, pelo menos esperava que isso acontecesse.
      Não queria que bebessem seu sangue.
      Morreria a bala? Sim, sim. Sem dúvida. Tudo bem. Fazia parte de sua profissão. Coisas da vida...
      Ah, sim. Havia cumprido a missão. Aquele telefonema foi essencial.
      Lindomar (esse traficante filho da puta que tirava vidas humanas em prol de uma crença inútil e nefasta!) e seus capangas e colaboradores estavam perdidos. A prisão de todos eles seria uma questão de tempo. Três meses de investigação deram resultado.
      Quando os homens o alcançaram, notaram o fone fora do gancho.
      Notaram também que ele estava desmaiado, mas sorrindo.

                                 ***

      Não morreu a bala, como pretendia.
      Foi crucificado e eles beberam seu sangue! Terminaram o "trabalho" em outro lugar, longe da mansão. Depois, tocaram fogo e o enterraram. O corpo jamais foi encontrado.
      Os colaboradores foram presos em seguida.
      Já o chefão, Lindomar, o rei da Magia Negra, conseguiu fugir e só foi preso seis meses depois.
      Ao ser pêgo, drogado e enlouquecido, lançou praga sobre os policiais e disse que iria escapar andando, passando por entre as paredes, com a ajuda de Satã.
      Está preso até hoje. Hehehehehehe!!!


FIM

Joderyma Torres
Enviado por Joderyma Torres em 06/03/2006
Reeditado em 06/03/2006
Código do texto: T119415
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Joderyma Torres
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil, 51 anos
70 textos (14851 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 09/12/16 17:29)
Joderyma Torres