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O pardal da cumeeira no meu pedaço de céu


    O PARDAL DA CUMEEIRA, NO MEU PEDAÇO DE CÉU.
     
         Ah! Vida! Que luta para mantê-la!  Porque?  Qual seu significado?  Que angústia! Desespero! Assim foram meus primeiros e longos dias de convivência, com o pardal da cumeeira e o meu pedaço de céu.
        Aparentemente devo estar no segundo andar do prédio em que estou vivendo. Porque, a cumeeira daquele velho sobrado é, na verdade, a única edificação que posso deslumbrar daqui. Nesse pequeno mundo em que estou vivendo. Aliás, esse mundo é debruado pelo parapeito e os batentes da única janela, do cômodo. Mas, não é só isso, diante de mim, desfilam ainda o pardal da cumeeira, seus companheiros e adversários, sua companheira, todos sobre um fundo de céu que apresenta, constantes e irregulares, figurações com diferentes matizes de azul, cinza e branco. A luz do sol também é variável em sua intensidade, mas em certos dias, essa tela da natureza se cobre de manchas sombrias, irregulares e de rápidos movimentos, acompanhados, pelo espocar de trovões, que sucedem aos raios de luz prateada. Há também noites de luar, mas até hoje, não consegui ver a sua rainha. Deve estar a caminhar noutros céus.
       Pois é, a sucessão dos dias, é interminável e parece depositar no hoje e no amanhã, uma cópia de tudo que já vi até ontem. Porém sempre existe esse tal de amanhã, ainda bem! Graças a Deus.
- Olha! Lá está o pardal da cumeeira, que terá me reservado para hoje? - Chegou faceiro, gorjeando sem parar e parece estar meio bravo! - Ah! Já sei, olha lá um pardal intruso! - Ele ainda não sabe quem é o dono do pedaço, o verdadeiro “leão de chácaras”, do telhado, do velho sobrado. - Pronto, pegaram-se! Que tropel, que forte alarido! Agora saíram do meu mundo, só escuto o alarido! Aonde foram parar?
 O que estará acontecendo?  Essas minhas dúvidas são muito comuns. Até porque, por vezes, elas não são solucionadas.
      Sabe meus companheiros, há tantas variações de temas e circunstâncias nesse meu pedaço de céu que chego até  a  me perguntar porque, apesar de meus mais de quarenta anos de vida, nunca tinha observado com tantos pormenores todas essas situações.
       Muito tempo se passou e, hoje, já assumi integralmente, esse meu pedaço de céu, sem sol, sem lua, mas cujas presenças podem ser notadas facilmente pela intensidade luminosa e coloração do véu de fundo. - Quando rapidamente, as sombras da noite, tentam trazer-me a treva, pequeninos pontos luminosos, muitos, transformam-no numa curiosa grinalda. - Pois é, agora consigo desfrutar da natureza e aproveita-la em seu sentido maior. Consigo até dominá-la e restringi-la, conforme melhor me apraz. - Se eu estou cansado de sua presença, fecho meus olhos e pronto, lá se foi todo o seu esplendor. - Por isso é que digo, daqui desse meu reduzido mundo posso apagar a luz do sol, a luz do luar, posso parar e fazer voltar a chuva; posso ou não estar com o pardal da cumeeira, enfim, tenho a liberdade total de construir o que de melhor me convier.
      A esperança, por vezes torna-se um grande entrave à razão. São situações totalmente incoerentes, e a que vivo, é uma prova dessas evidências.
      Aqui nesse leito hospitalar, sem movimentos, impossibilitado de qualquer tipo de locomoção, tento encontrar razões que justifiquem minha luta, ou que renovem as minhas esperanças para um novo “amanhã”. – A bem da verdade, eu nem vivo essas esperanças, mas sim apenas amargo-as juntamente com as desilusões. Isso porque eu crio ilusões, deixo-as crescer no meu consciente e inconsciente e acabo por perder a razão. - Razão que esteve comigo por muitos anos, permitindo-me hoje, viver saudades, coisas boas que encravadas nos músculos do meu coração, ainda palpitam.
        - As coisas amargas nós preferimos não degustar, concordam comigo?
       A liberdade que recebi ao nascer e que tudo me permitiam, ainda está comigo, apenas meu corpo não obedece. Meus pensamentos viajam, imaginam, criam, fazem situações, trazem-me coisas, levam outras, mostram-me quando criança, adolescente, adulto e queda-se diante da realidade. - Preciso lutar muito e aprender como digeri-la. Essa é a minha parte e  para fazer jus ao que já tive,  guardando um lugar, não no meu pequeno mundo, mas certamente, na imensidão dos céus, de onde, em verdade, nunca saí.
       Se o pardal da cumeeira que tem até asas e todo o espaço desse mundo, para ir onde quiser, vive praticamente confinado à cumeeira do velho sobrado, obviamente está bem mais aprisionado do que eu, pois seu cérebro não lhe permite realizar tantas viagens, aventuras e criar infinitas ilusões. - Cada um tem seu fardo, cada vida sua penitência. Se eu luto a cada dia por uma razão de vida, o pardal  luta todos os dias, em defesa, do seu pequeno mundo, a cumeeira. - Portanto somos iguais e a cada um de nós, cabe o direito de viver e lutar no seu pedaço de céu.
       Pronto, lá vêm esses homens chatos do dia a dia, nunca mudam de roupa, estão sempre de branco, viram-me de um lado para outro, banham-me, ministram-me remédios, mas nunca falam nada e nem me perguntam se quero continuar por aqui. Se me dessem essa chance, já teria partido para o meu pedaço de céu.
       Eu sei que ninguém é culpado por minha situação, mas esta realidade que “vive” um surdo-mudo tetraplégico só é amenizada pelo pardal da cumeeira.
Condorcet Aranha
Enviado por Condorcet Aranha em 09/03/2006
Código do texto: T121069

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Sobre o autor
Condorcet Aranha
Joinville - Santa Catarina - Brasil, 76 anos
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