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A confissão do Diabo - parte 02

Era verão de 1967.
Eu fazia parte da turma rebelde. Passeatas, Rocks, sexo e muita erva. A onda veio de fora e a Joaca era a praia mais esperta, ela e a da Ferrugem. Eu vivia indo de uma pra outra, através de caronas.

No dia 19 de dezembro de 1967 comecei a caminhar pelo inferno. Tinha pego carona com a Joana e a Rose, duas gatas avançadas que curtiam a vida, o momento ,como se fossem os últimos instantes de suas vidas, assim como a maior parte da turma de nossa idade. Na plenitude de minha juventude eu dormia com as duas e ainda sobravam forças.
Elas haviam feito vestibular em Porto Alegre e resolveram conhecer as praias catarinenses em um fuscão preto, um pouco de grana e muita sede de aventura. Ficamos juntos duas semanas.

Nos despedimos na saída de Garopaba. Elas iam voltar para a capital gaúcha. De despedida ganhei mais uma porção do "bagulho". Era pra me dar forças e ânimo pra caminhada.

Florianópolis ficava a uns 60 Quilômetros dali e eu contava em conseguir pelo menos mais uma carona até chegar lá.
Pus as pernas pra trabalhar e pendurei uma mochila nas costas. Meia hora depois mais ou menos, começou a chover.

 Eu já praguejava e tentava cantar alguma coisa sob aquele aguaceiro.Ainda não possuía os conhecimentos necessário para conjurar um encanto de impermeabilização. A garrafa de oncinha já tinha acabado fazia algum tempo. Mas como um bom iniciante nas artes arcanas eu tinha o que era necessário para quem quer andar por caminhos desconhecidos, sorte. Muita sorte.

Quando os pingos começaram a ficar mais grossos eu consegui uma carona. Quando a camionete parou imaginei que poderia ser mais uma gata doidona, como eu gostava. Em vez disso, o vidro da C-10 abaixou e uma voz de homem veio de dentro do carro. Nos apresentamos. Ele se chamava Marcos dos Santos.
 
---- Seu sotaque... não é catarinense?
---- Não! Não sou... andei por aí a fora, São Paulo, Minas, Mato grosso, Rio.. Se importa se eu fumar? - falei.
---- Não tem problema! Mora em Florianópolis?
---- Não ! Quer dizer... sim. Estou parando ali, por uns tempos.
---- Tem alguém com você? digo... um parente... um amigo..
---- Não! Quer um cigarro? - ofereci o maço de Continental para ele.
---- Obrigado, não fumo. Espero que fique lá. É um bom lugar pra se viver, muito lindo mesmo. Mas tem que ter cuidado. Muitos jovens chegam na cidade pensando em conquistar seu lugar... e hoje em dia com esses agitos revolucionários...
---- Eu sei me cuidar...
A chuva caia forte e a estrada de terra, que hoje é chamada de 'rodovia da morte', BR 101, ficava lisa fazendo com que a velocidade fosse reduzida.

 Quase meia hora depois eu estava pensando como a divina providência zela por mim. Um coroa decente, meio chato, mas gente boa, me dava uma carona e eu ainda tinha um bom fuminho me esperando no barraco quando chegasse.

A chuva continuava a cair grossa e forte. E o homem careca não parava de falar. Eu estava ficando com sono. O barulho constante da chuva tem esse efeito sobre mim.
---- Muitas pessoas não conseguem entender direito esse país. Os militares estão fazendo... eu quero te chupar.... eles estão fazendo dessa terra um lugar do inferno. Muita gente está indo embora....
Será que eu ouvira bem o que ele disse?!
--- Tenho um amigo que foi pra França na....
---- Pérai bicho!!
--- mmm? - o safado estava sorrindo.
--- O que... você acabou de dizer?
---- Que tenho um amigo que foi pra frança.
---- Antes disso!!
---- Eu quero te chupar! -- falou com a maior cara de pau.- puta merda! Eu tinha pego carona com um viadão.
---- Pára esse carro!!! Pára! Eu mandei parar essa bosta de carro! --- gritei tentando pegar o volante.
O safado era mais forte e fez o contrário do que eu pedi. Pisou fundo e eu vi o ponteiro da camioneta chegar aos 90. Era loucura! A pista estava escorregadia e a chuva atrapalhava. Gritei com ele, morrendo de medo.
O desgraçado ia nos matar. O carro parecia voar e já tínhamos passado Paulo Lopes, estávamos nas imediações de onde hoje é a praia da pinheira. A estrada estava cheia de buracos e o cascalho fazia o carro dançar nas curvas. Eu estava me borrando de medo. Até que o filho da puta deu um cavalo de pau e com cara de safado e um ar de tudo bem resolveu me acalmar, parando a camioneta..
---- Não vai ser tão ruim filho...
 Chorando e com medo de morrer eu consenti no ato. Mas um sentimento de nojo e ultraje martelava minha mente.
--- É assim mesmo. Não vai tentar fugir! É burrice, você é só um guri e eu sou muito mais forte. Relaxa! --Fechei os olhos na hora em que o viadão abaixou a cabeça e abriu o botão da minha calça. Senti seu hálito sobre meu pênis. Então, antes dele roçar seus lábios sobre meu pau eu ergui o joelho esquerdo com força e o acertei de jeito. O desgraçado jorrou sangue na hora e um grito de horror saiu da sua garganta. Eu aproveitei, abri a porta da C-10 e saí correndo me perguntando porque todo aquele sangue na minha roupa.
Ivair Antonio Gomes
Enviado por Ivair Antonio Gomes em 09/04/2006
Código do texto: T136256

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Sobre o autor
Ivair Antonio Gomes
Palhoça - Santa Catarina - Brasil, 47 anos
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Ivair Antonio Gomes