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A confissão do Diabo - parte 03 de 05

Diabo de Catarinense bicha. Era só nisso que eu conseguia pensar enquanto corria com a chuva batendo no meu rosto.
O viado morreu? Bem feito, o merda tentou chupar meu pau! Mas... e minha mochila? Ficou no carro... o sangue... eu ainda pensava no sangue. A gente não sangra tanto assim quando se quebra uns dentes, o nariz ou morde a língua.
Eu corri, corri bastante, corri muito. Mesmo sem poder ver direito para onde ia  por causa da chuva eu só pensava em correr, ir para bem longe, então de repente tropecei. Acho que perdi os sentidos. Quando abri os olhos e tentei me levantar ouvi uma voz.
---- Filho? você está bem? --
Eram dois policias rodoviários..

Não acreditaram numa palavra do que eu falei. Me recolheram assim mesmo. Sujo e ensopado fui parar no banco de trás da belina amarela. Me avisaram que podia ir em cana por fazê-los perderem tempo.

Acho que só queriam me assustar. Mas eu já estava muito assustado pra me importar com eles. Quando chegamos perto do local eu estava começando a ter outro pensamento.... o safado já devia ter se mandado. Feito um curativo na boca e sumido do mapa, como os viados devem fazer quando acontece algo parecido com aquilo. O desgraçado, provavelmente se conseguisse fazer o que queria, depois iria me abandonar no meio do nada.

Mas não foi assim.

Um policial ficou na viatura comigo enquanto o outro foi até o carro do bichona. Eu ouvi o grito de horror do policial lá fora. Gelei!! O que tinha acontecido?
Será que o cara estava mesmo morto?

Meio com medo o outro policial foi verificar o que acontecera. Mais tarde, fiquei lembrando da cena horrível: o carro banhado de sangue e o homem desmaiado com uma gilete encravada no rosto,  a cabeça debruçada no banco do carona, comecei a pensar em como ele parecia um homem normal.

Pensei então que a magia que eu tanto buscava não era uma coisa abstrata e etérea a ser colhida e largada a vontade. Esta é a energia da emoção e da vida que flui ao nosso redor e entre nós.... que está no coração e na mente das pessoas. O inferno é aqui, e o demônio está sempre ao nosso lado esquerdo, enquanto do direito caminha o Nazareno.


Voltei ao presente, um pouco antes.


Eu agora olhava para esse homem sentado no banco da igreja e via a cicatriz profunda em seu rosto, como um sulco de arado.
---- Eu ... eu vim aqui para falar com meu Deus... Acho ...acho que... pela primeira vez na vida... meus pensamentos são claros. Sei exatamente o que perguntar, mas... acho... que pela primeira vez, ele não está me ouvindo.
 
Ele era um velho. Acabado. Sem forças. A vida não lhe oferecia mais nada. Seus olhos estavam no fundo. Sua face e sua voz estavam cansadas, desanimadas. Olhou então para mim.
---- Quer me ouvir? - perguntou.

 Levantei-me e acendi outro continental.

---- Tudo! Tudinho. Faça sua confissão.

A curiosidade matou o gato, e eu quase... um monte de vezes. Mas tenho que entrar nessas almas sofredoras. Afundar na merda que eles tem na cabeça. Talvez porque procure um espelho onde possa me encontrar... nunca é demais.

Eu sento-me no banco a sua frente. Ele se ajoelha.

---- Eu vou contar...se ao menos você... puder ...puder entender. Eu ...eu era padre. A década de sessenta não foi um bom tempo para um homem de Deus. Acho que essa era a questão! Eu olhava para o pessoal que ia a igreja e me sentia triste. Onde estavam as crianças? Os jovens? Porque eles não iam mais á igreja ? talvez porque eu pregava contra a indulgência, as drogas, e a falta de religião num tempo em que essas coisas estavam na moda. a esperança morria dia a dia dentro de mim. Minha fé estava questionada. Eu me tornei amargo. E o confessionário era um inferno pra mim. Aprender que errou, que errar é humano e se confessar é obter o perdão divino, isso é o que ensinam. Na igreja católica nós transformamos esse método numa forma de arte.
---- Sei! como um ritual!
--- Isso para algumas almas é impressionável... mesmo numa época liberal... é difícil de esquecer. Um dia um rapaz apareceu no confessionário. O idiota pensou que era só chegar e ir vomitando seus pecados. Eu o corrigi. o Ensinei o ato de contrição que ele trocara pela guitarra e o L.S.D. Então me contou seus pecados. Sob a influência da maconha e L.S.D. ele e um amigo fizeram o que ele optou chamar de 'amor'. O outro era um menor. Res....
---- E o que você fez? -----
--- Quieto! Estou me confessando. Não deve interromper uma confissão. Eu resisti a ira e a náusea, mandei rezar dez pai-nosso e dez ave-marias. Depois liguei pro pai dele e pra delegacia. Ele foi condenado a seis meses com sursis. Tomou uma surra do pai, quebrou o queixo, o braço e algumas costelas. Eu me senti bem com aquilo. Não lembro de ter me arrependido por ter traído o segredo da confissão. Os jovens estavam se afastando da igreja. Tempos desesperados....medidas desesperadas. Demorou um pouco para eu perceber que não estava fazendo a vontade do senhor e sim as minhas. Eu gostava daquilo.
--- De dar castigo a ele?
----Eles tinham que ser punidos. Eu conheci o mal da geração do amor, uma licenciosidade que me enchia de ódio. Meus castigo eram executados pelos pais e pela policia. Eu só precisava dar um telefonema anônimo. Então aconteceu. Uma noite uma guria veio se confessar. Me disse que tinha participado de uma orgia onde álcool e as drogas haviam cortado todas as suas inibições. E a certo momento, ela disse isso sorrindo, estava nos braços do irmão mais novo. Eu fiquei possesso, sai da minha cabine e a agredi com todas as minhas forças. Então enquanto ela caia eu ouvi uma voz grossa.
Ivair Antonio Gomes
Enviado por Ivair Antonio Gomes em 12/04/2006
Reeditado em 14/04/2006
Código do texto: T137731

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Sobre o autor
Ivair Antonio Gomes
Palhoça - Santa Catarina - Brasil, 47 anos
169 textos (104820 leituras)
8 áudios (23947 audições)
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Ivair Antonio Gomes