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DOCE SENSAÇÃO, TERRÍVEL VINGANÇA

      Observação:
      A primeira parte deste conto foi baseada em fatos reais, pois algo semelhante aconteceu com um colega de trabalho.
      A segunda parte, no entanto, é fruto da minha imaginação sanguinária. Eh, eh, eh!



      PRIMEIRA PARTE

      Praticamente não dormiu direito, na véspera.
      Abriu os olhos, naquela manhã de sol, e sentou-se na cama.
      Respirou fundo e procurou disfarçar o nervosismo.
      Teria que seguir em frente. Não poderia recuar, agora que tomara a decisão.
      Beijou a esposa, adormecida, na testa. Encarou-a por segundos, tentando não pensar em mais nada.
      Como era linda!
      Aqueles cabelos loiros davam-lhe o lídimo aspecto de uma deusa imortal.
      "Por quê? Por quê?" - refletiu, os olhos fixos nela.
      Depois, levantou-se e seguiu para o banheiro, onde fez suas necessidades e tomou banho.
      As meninas dormiam profundamente, no outro quarto.
      Enxugou-se e vestiu camisa de algodão, meia manga, azul, e calça jeans. Pegou a mochila, que estava pronta em cima da mesa, e saiu da casa, em silêncio. Deixou o celular na casa, pois não gostava de carregá-lo.
      Abriu a garagem e entrou num fusca amarelo, velho, porém eficiente e com ótimo motor.
      Manobrou o carro para a rua.
      Depois, fechou o portão da garagem, trancou a porta da casa e voltou para o fusca.
      Dirigindo devagar, saiu da rua e dobrou à direita, entrando na avenida principal do bairro onde morava, na periferia de Manaus. Percorreu cerca de trezentos metros e parou o carro num terreno abandonado. No muro que cercava parcialmente o terreno, lia-se: "O amor alimenta a alma". Filosofia simples e coerente.
      Notou que suas mãos tremiam.
      "Controle-se." - pensou, tenso - "Falta pouco."
      Saiu do veículo e ficou sem saber para onde ir.
      A avenida era bastante movimentada, com inúmeras casas comerciais e lojas ao longo de sua extensão. No entanto, àquela hora, sete e meia, poucas estavam abertas.
      Fez o caminho de volta, a pé, procurando algo e vibrou, ao avistar a panificadora, que também era lanchonete. Havia esquecido dela. Na frente do prédio, o letreiro: "Panificadora/Lanchonete Pão Real".
      Sentou-se diante do balcão e pediu café com leite e dois pães com manteiga, quentes.
      De onde estava, não poderia ver a parada de ônibus.
      Sabia que a rua onde morava não possuía parada. Os moradores, para pegar o ônibus, tinham que se deslocar até a parada, com seu abrigo em acrílico e banco de plástico especial, localizada na avenida.
      Ocupou, então, uma das mesas próximas à porta. Dali, sim, poderia ver a parada, embora a panificadora/lanchonete ficasse situada do mesmo lado. Quer dizer, não era a posição perfeita, mas foi o melhor que pôde conseguir.
      Comprou um jornal e, enquanto saboreava - lentamente - o café e os pães, lia o jornal e olhava a parada.
      O café estava delicioso. Apesar de morar no bairro há oito meses, jamais havia efetuado compras naquela panificadora e muito menos tomado café ali.
      Pessoas entravam e saíam, numa movimentação intensa.
      Nenhum conhecido apareceu no local, algo lógico, uma vez que possuía poucos amigos no bairro. Lógico e conveniente, pois não queria interferências.
      Consumiu o desjejum e ficou enrolando, lendo o jornal.
      Às oito e vinte, suspirou e percebeu que era hora de mudar de local. Caso contrário, iria despertar suspeitas.
      Pagou o café e o jornal e saiu da panificadora/lanchonete.
      Com o jornal dobrado, debaixo do braço, andou mais alguns metros e parou diante de uma banca de revistas, enquanto procurava outro local para ficar.
      Revistaria "Literatus" - estava escrito na parte de cima, com letras pretas e enfeitadas.
      Olhava as revistas, mas sem deixar de ver a avenida e... a parada.
      Muitos ônibus e carros passavam pela avenida, bem como os transeuntes, e o barulho era infernal.
      Logo avistou o local perfeito.
      Em passos rápidos, atravessou a avenida e entrou naquele bar.
      O bar, agora aberto, ficava de frente para a parada, numa diagonal que permitia ver, inclusive, a entrada da rua onde morava. A fachada era simples, necessitando de pintura, mas o letreiro era espirituoso. Dizia: "Bar do Chico Cachaça". Riu. Coisa de brasileiro mesmo.
      Pediu uma cerveja e ocupou uma mesa estratégica, com visão periférica da área.
      Bebia a cerveja (geladíssima, por sinal), lia o jornal e ficava de olho na parada e na entrada da rua.
      Às vezes os carros tapavam sua visão, temporariamente, mas era algo que não lhe atrapalhava.
      Um aparelho de TV, de quatorze polegadas, colocado em cima da geladeira, estava ligado. O dono do bar (sujeito barrigudo e com um bigode esquisito) conversava com outro cara, este tomando cerveja, no balcão, enquanto comentavam os assuntos que passavam na TV.
      Já estava na segunda cerveja. O tempo passava... numa lentidão insuportável.
      "Merda! Será se nada daria certo, hoje?"
      Impaciente e ligeiramente tonto, pensava na hipótese de ter que mudar de local outra vez quando...
      Exatamente às dez horas e quarenta minutos, ela apareceu. Ufa!..., pensou.
      Despontou na rua, carregandoo consigo a bolsa com os produtos da Natura, e seguiu para a parada, ali permanecendo.
      Seu nervosismo aumentou. Mãos trêmulas, nem conseguia mais ler o jornal. O próprio bar lhe sufocava. Pequenas gotas de suor desciam de sua testa.
      Terminou a cerveja, rapidamente, pagou e saiu do bar.
      Limpou o suor da testa. Andou, em passos preguiçosos, e parou diante do estacionamento de um minimercado. Encostou-se num dos carros ali parados e ficou de olho nela, tomando cuidado para não ser reconhecido.
      Às dez e cinqüenta e cinco, ela entrou num determinado ônibus, este pintado de vermelho e em bom estado.
      Sem perder tempo, de modo acelerado, atravessou a avenida e correu até seu carro. Correu mesmo, tenso, e dane-se o que as pessoas iriam pensar.
      Alcançou o fusca, ofegante, e procurou normalizar a respiração.
      "É o jeito... Absolutamente necessário..." - tenso, jogou o jornal em cima da mochila.
      Em seguida, manobrou o carro e o posicionou de frente para a rua.
      Quando o ônibus vermelho em questão passou, começou a segui-lo.
      Seguir um ônibus não é fácil.
      A atenção teria que ser redobrada e minuciosa. Quando o mesmo parava, por exemplo (e isso era uma constante), tinha que parar atrás, tomando cuidado para ficar numa distância razoável. Em determinados trechos, não tinha como parar e era obrigado a ultrapassar o coletivo, estacionando lá na frente, para esperar o outro prosseguir na viagem.
      Nesses momentos, temia que ela reconhecesse o carro e a ele. Se isso acontecesse, tudo estaria perdido. Um risco!
      Manter a distância certa foi o segredo da coisa. Além disso, contou com a sorte, pois o itinerário que o ônibus percorreu facilitou tudo.
      Quer dizer, isso antes de chegar no centro da cidade.
      No centro, com aquele monte de carros circulando, tudo ficou complicado. Semáforos, engarrafamentos, multidões, ruas estreitas, policiais, um inferno!!!
      "Merda! Tomara que eu consiga."
      Suava, apesar do vento forte. O tremor das mãos diminuiu consideravelmente, mas a tensão permanecia.
      Num certo momento, teve que parar exatamente atrás do ônibus (não conseguiu evitar!) e um outro parou atrás dele. O motorista buzinou, reclamando de sua ousadia. Pessoas olhavam para ele.
      Ignorou tudo, concentrado em captar o momento exato em que ela iria descer. No centro, isso poderia acontecer a qualquer momento! E dane-se o resto!
      O ônibus vermelho se movimentou e ele foi "na cola".
      A essa altura, o álcool das cervejas que tomara já havia evaporado.
      Após uma curva para a esquerda, depois do semáforo, parou o fusca a cerca de cem metros do ônibus.
      E ali, naquela parada movimentada, ela desceu!
      "Meu Deus! É agora!" - pensou, nervoso.
      Deixou o carro na frente de uma loja especializada em vendas de produtos para cães, localizada ali perto. Viu a placa, em letras garrafais, com os seguintes dizeres: "Só é permitido estacionar clientes da loja." Mas não tinha como procurar outro local. Não tinha tempo! Pagaria qualquer multa, se fosse necessário.
      Desceu do fusca e, sem ligar para os olhares do dono da loja (ou do gerente ou do... sei lá), iniciou a caçada.
      Ela atravessou a avenida e ele fez o mesmo.
      Seguiu-a, mantendo uma distância segura.
      Percorreram ruas e mais ruas do centro comercial.
      Às onze e quarenta e cinco minutos, suas suspeitas se confirmaram!
      Aquela rua estreita, lotada de lojas, o destino final.
      Do lado esquerdo de uma das lojas, que vendia roupas, havia uma pequena entrada. Um portão aberto, com uma escadaria que subia. Degraus de alvenaria. O prédio da loja (e da entrada) possuía dois andares, mais o térreo.
      No térreo, a seguinte placa, fixada na parede: "Confecções Moura". Tudo bem. Era o nome da loja, dentro da qual belas garotas atendiam os clientes.
      No primeiro andar, porém, viu a outra placa, imensa, com letras gritantes e vermelhas, extremamente familiar, que dizia: "Bar Doce Sensação".
      "Meu Deus!" - pensou, em desespero, ao reconhecer o local.
      A mulher, os cabelos dourados balançando ao vento, havia subido por aqueles degraus.
      Não tinha dúvida quanto a isso.
      Parado diante da entrada, trêmulo, sentiu uma solitária lágrima descendo por seu rosto.

                               ***

      Em passos automáticos, lentamente, voltou para o fusca.
      Suas mãos tremiam.
      Ligou a ignição e saiu do estacionamento.
      Enquanto dirigia, a esmo, pela cidade, pensava.
      Lembrou-se da conversa que tivera com o Maurício, seu melhor amigo, dias trás.
      Após terem saído do trabalho, foi convidado por cinco colegas, incluindo o Maurício, para tomarem umas cervejas num bar localizado ali perto. Bar Cravo Negro. Decidiu aceitar, mesmo querendo - no fundo - voltar para casa e descansar.
      Conversa vai, conversa vem, eis que o Maurício, que estava ligeiramente embriagado, o chama para uma conversa em particular.
      Com certeza, se ele não tivesse naquele estado, não teria tido coragem de contar.
      No entanto, o álcool lhe impulsionou a revelar o que sabia.
      E ele começou, de modo objetivo:
      - Cara... fique de olho na tua mulher.
      Isso mesmo. Foi assim que iniciou a conversa. Não enrolou, não procurou amenizar a coisa, nada, nada. Ele foi cruel, porém prático. Sem delongas.
      - Como assim? - lembrou de ter dito - O que você quer dizer com isso?
      - Sou teu melhor amigo, cara, e quero o teu bem. - ele continuou, a mão direita no seu ombro - Você é meu amigo, um cara legal, que não merece estar passando por isso. Gosto de você e vou te dar um conselho. Vá por mim, compadre. Siga tua esposa. Vá atrás dela. Pegue um dia de dispensa do trabalho e vá atrás. Na surdina. Faça isso. E terás uma surpresa terrível.
      A princípio, não acreditou no que acabar de ouvir. Seu melhor amigo simplesmente estava fomentando uma dúvida que, até então, nunca havia tido, com relação à integridade de sua esposa, a mulher que amava.
      - P-Por que eu faria isso? - murmurou, preocupado.
      - Não vou te contar, porque você não vai acreditar. Só vendo para crer. Siga tua esposa, meu, e descobrirás. Meu Deus! Como é difícil te contar essas coisas. Merda! Desculpa, cara. Não fique chateado, mas é para seu bem.
      Após proferir tais palavras, Maurício levantou-se, rapidamente, como que arrependido de ter dito aquilo, e voltou para o grupo.
      Não procurou obter mais informações. Ficou sem saber o que dizer. Talvez tudo não passasse de uma brincadeira de mau gosto.
      Mas, ao se aproximar dos cinco colegas de trabalho, notou os olhares sobre ele.
      E percebeu que todos sabiam! Todos!
      Sim. Aquele encontro, aquela cervejada... tinha uma só finalidade.
      E o escolhido para contar foi o Maurício, por ser seu melhor amigo.
      Estremeceu!!!
      Sem clima, despediu-se de todos e saiu do bar, triste, a semente da dúvida plantada em seus neurônios. A maldita semente da dúvida!
      Não teve coragem de comentar nada com a esposa. Olhava-a, todos os dias, e refletia. Fingiu que tudo estava bem. Conversavam, saíam juntos, faziam amor, mas seu coração estava em pedaços. Sofria intimamente.
      No trabalho, não tocou no assunto com Maurício ou com os outros, para não gerar conflitos. Voltar para casa tornou-se um tormento.
      Não conseguia dormir e nem disfarçar sua tristeza. Cedo ou tarde, ela iria acabar percebendo. Então, seguindo seu instinto, e para acabar com aquilo de uma vez, decidiu segui-la.
      E agora... de modo horripilante... após ter seguido a esposa... as palavras de Maurício se confirmaram. Merda!
      Conhecia o bar "Doce Sensação". Freqüentara-o, anos atrás, quando era solteiro.
      Era um local fétido, que abria às onze horas da manhã e fechava às nove da noite. No primeiro andar funcionava o bar, com músicas bregas e forró, onde os homens bebiam cerveja, uísque e cachaça e as garotas de programa (a maioria menores de idade, que matavam aula nas escolas e enganavam os pais) os abordavam, oferecendo seus préstimos sexuais.
      De vez em quando aconteciam brigas ou discussões. Dois seguranças tinham a missão de acalmar os ânimos dos bêbados, expulsando-os do recinto. O cheiro de fumaça de cigarro era insuportável. As drogas mais pesadas corriam soltas, mas a mais comum era a maconha.
      A polícia, às vezes, fazia blitz no bar, à procura de drogas e de garotas menores. Não encontrava, pois o dono armara um esquema de vigilância que evacuava as menores, tão logo a polícia subia as escadarias.
      As garotas chegavam fardadas (ou com produtos - ou sem nada) e deixavam tudo num quarto, no final do corredor. Mudavam de roupa e saíam de lá trajadas a rigor, com shorts apertados, blusas decotadas e bolsas cheias de camisinhas, prontas para o amor. E perfumadas, claro.
      No segundo andar, os quartos apertados, com banheiro dentro, onde os programas se transformavam em horas de sexo pago. Quando um casal saía, uma arrumadeira de imediato varria o local e trocava as roupas de cama, deixando-o em condições de ser utilizado pelo próximo casal. E assim sucessivamente, o dia todo. Tudo muito rápido e com eficiência.
      No bar se poderia encontrar mulheres de todas as idades. Dos treze aos sessenta anos. Isso mesmo. Mulheres lindas, feias, magras, sensuais, gordas, anãs, altas, jovens, velhas, tatuadas, brancas, negras, índias, orientais, etc. A  maioria, no entanto, era de garotas dos quinze aos vinte anos, estudantes da rede pública de ensino, que matavam aula para ali ganharem dinheiro fácil. Ou então diziam que trabalhavam como vendedoras dos mais diversos produtos ou que trabalhavam em lanchonetes ou outras empresas. Os pais eram enganados...
      Bar "Doce Sensação" (nome fictício, mas o bar existe): definitivamente um lugar da pesada, em pleno centro de Manaus.
      Sua esposa.
      Linda, loira, sensual, mãe de duas belas crianças, que prometera lhe amar, na tristeza e na alegria... até que a morte os separasse.
      Sua esposa.
      Garota de programa durante o dia.
      Tinha não apenas um amante, mas vários. Fazia sexo por dinheiro, num lugar lixo como o "Doce Sensação"! Um troço nojento!
      "Por quê? Por quê?" - perguntou-se mentalmente, em aflição. E voltou seus pensamentos para o passado, quando a conheceu numa festa, linda e maravilhosa.
      Casaram-se, após um namoro de dois meses. Foi uma paixão arrebatadora! Amor à primeira vista!
      Na época, os familiares de ambos concordaram em que foi um casamento precipitado, pois eles mal se conheciam.
      Lembrou, inclusive, de um lance curioso: certo dia, a irmã dela, mais velha, estranhamente, lhe procurou e pediu que não casasse, pois iria se arrepender. Um papo sinistro. Ela, na época, não explicou o motivo. Depois, nunca mais abordou o assunto. Apaixonado, interpretou o pedido como uma espécie de ciúme entre irmãs e o ignorou completamente. Casou, claro.
      Um casamento aparentemente feliz, que durou oito anos.
      Brigavam de vez em quando, sim, mas nada que prejudicasse o relacionamento. Claro que ela demonstrava ser uma mulher ambiciosa, que dava um valor excessivo às coisas materiais, porém não havia percebido o quanto essa ambição poderia modificá-la.
      Afinal, tinham casa mobiliada, carro e uma vida confortável. Ela não trabalhava e parecia feliz em cuidar da casa e das crianças.
      Na cama, era insaciável e sempre tomava a iniciativa para novas fantasias e posições sexuais... sem pudores, nem receios. As transas ficavam melhores a cada dia. Agora entendia o porquê de tanta impetuosidade sexual.
      Há seis meses, no entanto, ela decidiu vender produtos da Natura. Conversaram e ele, mesmo a contragosto, resolveu aceitar essa inusitada mudança nos hábitos. Deduziu que sua esposa sofria o estresse da vida reclusa de dona-de-casa. Por isso, carinhosamente, permitiu que ela trabalhasse.
      Colocou uma empregada dentro de casa e adaptou-se à rotina de ver sua mulher passar o dia fora, de segunda a sábado, vendendo.
      Vendas de pura fachada! Provavelmente decidira se prostituir e sabe-se lá o motivo.
      Por quê? Por quê?, perguntava-se mil vezes.
      E se ela já tivesse se prostituído antes de conhecê-lo? Teria casado com uma prostituta sem saber? O pedido da irmã mais velha, de repente, lhe veio à memória. Analisando friamente a questão, talvez a irmã mais velha soubesse de alguma coisa. Será? E por que não insistira, por que não fizera como o Maurício, convencendo-o de forma mais intensa?
      Essa seria uma pergunta que ficaria sem resposta.
      Que excelente atriz! Enganara-o esse tempo todo.
      Maldita! Desgraçada! Puta!!!
      Apertou o volante! Apertou... até que as palmas de suas mãos doessem.
      Pés no acelerador, carro em alta velocidade!
      De repente, o ódio surgiu, lentamente, como uma chama forte... queimando... estraçalhando... destruindo...

                              ***

      SEGUNDA PARTE

      Escolheu a mais terrível forma de vingança!
      Controlando sua angústia, diminuiu a velocidade do fusca, para não se acidentar. Controlou-se, adquirindo o sangue frio necessário para suas próximas ações.
      Antes de chegar em casa (já com uma idéia macabra da cabeça), comprara - em dois locais - o material necessário.
      Chegando na rua, deixou o fusca na calçada mesmo.
      Nem se preocupou em erguer os vidros das janelas e muito menos trancar as portas, pois não faria diferença. Nada fazia diferença, nessa porra de vida!
      Quando entrou na casa, as duas meninas assistiam desenho animado, na TV.
      Ao vê-lo, as duas correram para ele e o abraçaram, sorrindo.
      - Oi, pai. - disseram, juntas, felizes.
      - Oi, filhas. - disse, com amor no coração.
      Quase chorou, emocionado, ao sentir aquele contato carinhoso de seus preciosos tesouros.
      Uma de seis anos, a outra de quatro.
      - Chegou cedo, pai. - a mais velha tinha boa percepção.
      - Sim, filha. Mas já vou sair. - mentiu, sério. Controlou a emoção, que ameaçava sufocá-lo por dentro.
      - O que é isso?
      - Suco de manga. Vocês querem?
      - Siiimmmm... - as duas gritaram, ao mesmo tempo, com suas vozes infantis - Oba!
      - Fiquem aí que já trago para vocês, ok?
      - Ok.
      As meninas voltaram para a TV.
      A empregada, uma morena simpática e gordinha, com seus quarenta e poucos anos, colocava as roupas lavadas no varal do quintal, para secar.
      Pegou uma das facas na cozinha, escondeu-a atrás das costas e foi até o quintal.
      - Oi, "seu" Roberto. - ela disse, sem parar o que estava fazendo - Chegou cedo.
      Nada disse.
      Aproximou-se da empregada e movimentou bruscamente a mão direita, nos olhos um brilho homicida.
      A primeira facada atingiu o coração. Notou o olhar de surpresa da empregada. Surpresa e dor. A segunda facada foi no estômago. A terceira novamente no peito. O sangue desceu. Em convulsões, a empregada soltou a roupa e caiu, lentamente, tentando respirar.
      Não gritou.
      Emitiu, em vez disso, um ruído estranho, animalesco e assustador, algo parecido com um "UUUURRRRFFFF!" horripilante!
      Recuou, temeroso!
      Nunca matara ninguém, antes, e a visão daquela mulher morrendo o apavorou. Aquele barulho... penetrou fundo em sua mente.
      "Meu Deus!" - pensou, tenso - "Perdoe-me! Perdoe-me!"
      Havia muito sangue, que saía da boca e do peito.
      A empregada tentou se erguer, mas sem sucesso. O braço esticado para cima, como que pedindo ajuda. Olhos arregalados, pernas esticadas.
      Não demorou a morrer.
      Vendo aquele pavoroso cadáver, controlou a vontade que tinha de vomitar e soltou a faca ensangüentada. Em passos trôpegos, retornou para a cozinha.
      Havia sangue em seu braço. Limpou com uma toalha.
      Não poderia mais recuar. O mal estava feito. A empregada não tinha nada a ver com o caso, mas, infelizmente, estava no lugar errado e na hora errada.
      Terrível vingança!

                              ***

      Na cozinha, depositou o conteúdo do suco de manga em três copos.
      Retirou, do bolso da calça, o vidro com o pó.
      Como foi fácil comprá-lo.
      "São para os ratos." , dissera ao vendedor. Simples. O vendedor não lhe pediu nenhum tipo de documento, nenhum tipo de autorização ou receita. Pagara à vista, em dinheiro, e levara o vidro. E isso não tem nem meia hora. Incrível!
      Coisas que só acontecem no Brasil.
      Sem pensar em mais nada e com as mãos trêmulas e lágrimas escorrendo pelo rosto, distribuiu o pó, jogando-o dentro dos copos, misturando-o ao líquido.
      Levou os copos para a sala.
      - Suco de manga! - a menina mais velha gritou - Que legal!
      - Oba! - a caçula disse, sorrindo e pulando.
      Entregou a mistura mortal para as crianças.
      As duas não perceberam que chorava.
      Enquanto dirigia, chegou a cogitar a hipótese de matar a vagabunda da esposa. Talvez com muitas facadas (uma para cada amante), queimando o cadáver em seguida. Fogo para dificultar o enterro. Antes, claro, iria torturá-la, massacará-la, para tentar obter - à força - uma resposta convincente para a seguinte pergunta: por quê?
      Por que você fez isso, sua puta?!?
      Talvez a resposta não viesse, mas não importava. Ela morreria de qualquer jeito.
      Depois, após a consumação da vingança, não iria fugir. Não mesmo. Esperaria, sim senhor, as algemas da polícia e o conforto de uma cela. Viveria seus próximos dias alimentado pelo delicioso ardor da honra lavada com sangue e fogo!
      Decisão satisfatória? Provavelmente.
      Porém... fácil demais, dada a intensidade da canalhice por ela praticada. Não poderia ser assim, porra!
      O vírus do ódio lhe induziu a fazer algo mais perverso e ignóbil.
      Há coisas piores que a morte. E ela merecia algo mais doloroso que a própria morte.
      Foi por isso que mudara de idéia. Optou por deixar sua linda e miserável esposa viver.
      Isso mesmo. Ela iria viver, com certeza. Viver, em sintonia com a própria consciência. Porém, ao mesmo tempo, iria... sofrer. Sofrer muito... cada segundo de sua podre e nojenta vida!!! Sofrendo as dores da perda!
      Sorriu, de modo sinistro, os olhos brilhando de ódio e desespero.
      Iria tirar de sua esposa aquilo que ela mais amava no mundo. Sem piedade! Não seria isso algo pior que a morte?
      As crianças ingeriram o suco da morte. Coitadas!...
      Ao tomar também o suco (enlouquecido, a mente absolutamente estraçalhada pela depressão profunda!!!), ficou pensando no escândalo que seria, nas notícias que seriam veiculadas nos jornais e nas TVs de Manaus e, principalmente (o mais importante!), nas incontáveis lágrimas - de dor - que sua maldita esposa iria derramar.

                             FIM
Joderyma Torres
Enviado por Joderyma Torres em 16/04/2006
Reeditado em 19/04/2006
Código do texto: T140025
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Joderyma Torres
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil, 51 anos
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(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 07/12/16 07:11)
Joderyma Torres