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Escuridão Brilhante

Era treva noturna de uma noite acre e fria.
Encostada numa parede, estava Mirela: lisos cabelos ruivos e dentição metálica, olhos castanhos e sem graça nenhuma, sardas perdidas no rosto sujo de quem brincou a tarde toda e o braço apoiado na parede com a cabeça deitada sobre ele. Contava baixo, os números infinitos e reais, até que terminou no cinqüenta e um.
- Lá vou eu!
E lá foi ela. A escuridão do quarto era gigantesca e ela nada via. Apenas tateava a escuridão com seus dedos vacilantes à procura de algum apoio ou do procurado sumido. Seus passos eram extremamente calculados e hesitantes, um simples passo em falso e ela tropeçaria caindo no além. Parecia que aquela brincadeira fazia parte do Juízo de sua vida, ou ganhava, ou viveria o resto de sua vida presa e amalgamada naquele quarto escuro, sem nunca poder encontrar uma luz – tal era sua dedicação para desvendar a forma do ar.

Nada via naquele breu tocante, mas seus demais sentidos se aguçaram tanto que se seguiu um turbilhão de sensações em Mirela. Sentiu que sua audição tomou uma nitidez impressionante, tal era sua facilidade de discernir as coisas como um simples gemido de um móvel rangendo que a fazia arrepiar-se na pele, enquanto continuava dando passos demorados com medo do próximo bloco de chão que pisaria. Era tudo muito amedrontador, os sons da noite se propagavam com maior nitidez quando nada se via, e não somente o choro triste dos móveis a fazia tremer, o pio selvagem de uma coruja ao longe parecia ser concebido a alguns palmos dela. Pra não dizer do soalho que também reclamava quando seus pés o amassavam, mas Mirela não tinha consciência disso, estava perdida e para ela seus pés ou seus passos eram seus inimigos querendo denunciá-la a qualquer que fosse a pessoa que fugia dela naquela treva - quanto mais ouvia, menos queria ouvir e Mirela podia jurar que conseguia ouvir gemidos de outros passos que não o dela no quarto. Ela parou por um momento, sem dar mais passadas nenhuma, simplesmente estacou no vazio do quarto – e os outros também cessaram. Naquele silêncio, um som se desprendia do Vazio: um zunido bem baixo e incessante, vindo de longe e de perto, como se ela estivesse dentro de uma lâmpada e pudesse ouvir claramente o zunido forte da energia trespassando os fios de sua casa, mas nada via naquele breu brilhante.

A sua audição amuou-se e seu tato pareceu crescer enquanto ela ficava ali estacada, quase uma estátua na escuridão. Os braços duros para frente como se tivessem sido paralisados momentos antes que a busca dos dedos desesperados tivesse terminado. Seus pés não se moviam - inimigos que eram, pois sua mente não conseguia se mover também. Sua mente havia se recolhido ao âmago do corpo, como uma flor que se fecha para dentro, com medo do que está lá fora; embora sua sensibilidade para o exterior ficasse ainda maior. Sua pele se eriçava a cada dobrada do Vazio. Cada lufada do ar impregnado soprado por um ser bestial, ela se extasiava, e logo entraria em pânico se nada fosse feito. Desesperou-se ainda mais quando suas mãos tocaram o frio matiz de algo férreo; aquele congelante toque se espalhou pelo seu corpo todo e ela sentiu a nuca enregelar-se naquela noite estranha. Juntou forças para mover suas pernas e sair de seu casulo, seus músculos enrijeceram, o sangue correu pelo corpo todo e a mente lançou a ordem, a perna esquerda se moveu para frente: vacilante e trôpega.

Deixou a introspecção e começou a andar pelo quarto escuro procurando seu inimigo escondido. Esbarrava nos móveis que alguém que ela desconhecia insistia em mudá-los de lugar, talvez exatamente para confundi-la. Um desejo incrível de poder achar o interruptor e acender a luz daquela vida escura, finalmente dominou seus desejos, mas sua boca secou repentinamente. Uma poeira que se desprendeu da madeira cedente ao tempo, encheu a boca de Mirela que engasgou desesperada tossindo uma tosse rouca e assustadora. Ela mesma estava em pânico com sua própria existência, uma vez que nada via e seu coração estava disparado pelos tiros da tosse, e pelo som aterrador que saía de sua boca seca. Ela tentava se desvencilhar daquele gosto amargo da poeira da madeira podre, mas não tinha sucesso. Aos poucos, recobrando sua sanidade e deixando um pouco de lado seu pânico momentâneo, a saliva amarga e gosmenta começou a preencher sua boca e aliviá-la da tosse, embora sua garganta estivesse sendo cortada por navalhas invisíveis - sua audição acordou de novo para fazer-lhe ouvir as pancadas fortes do coração. Apavorou-se quando percebeu que tinha perdido o rastro daquele que procurava.

Sentada, ela se levanta resoluta - precisava encontrar e bater o pique, caso contrário ficaria contando parede para sempre. Sentiu manso, o acordar lento do olfato que percebeu primeiramente o cheiro do próprio corpo encardido. Cheirava mendigo, e mendigo não cheira mendigo por ser mendigo, cheira mendigo por que o suor lhe seca no corpo e Mirela não tomava banho há tempos, embora não soubesse o que era um mendigo. Ela agora andava tentando fugir do seu próprio cheiro, embora aos poucos fosse conseguindo identificar outros aromas. O próprio ar pestilento e estagnado do lugar era terrível de se absorver, era pesado e denso, carregado de um bafo quente - ela respirava aquilo que exalava, o ar não se renovava. Ela continuava sem saber dessas coisas, mas seu corpo respondia negativamente àquelas sensações. Sentiu finalmente algo que fez com que ela estacasse e dali não se movesse até a porta abrir.

Um hálito quente e malicioso no seu pescoço que lhe subiu nas narinas e não deixou dúvidas que alguém estava no quarto com ela. Não foi preciso que sua mente desanuviasse um sexto sentido desconhecido para que ela tivesse certeza daquilo e ela mesma parecia saber desde o começo, afinal de contas jamais brincaria de pique-esconde sozinha; alguém ela tinha de procurar. E ele estava atrás dela, bem próximo a ela; Mirela não se viraria de jeito nenhum para encarar o bafo quente daquela pessoa. Apenas balbuciou temerosa.
- Te peguei.

Mas nada foi dito da outra parte já que a porta de seu quarto foi escancarada num surdo barulho e o quarto foi arrombado pela sua irmã mais velha – de quem era irmã adotiva.
- Sua comida Mirela. Vou deixar aqui em cima da cômoda. Você consegue vir sozinha, né? Ótimo... – parou de falar e começou uma pergunta desconfiada. - A propósito, você viu onde está o meu pai?
Mirela titubeou por um instante e, incapaz de poder ver sua própria feição - se mentia ou não, e mais incapaz ainda de pedir um banho, ela respondeu: acenou negativa.
Bruno Portella
Enviado por Bruno Portella em 14/05/2006
Código do texto: T155727
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Sobre o autor
Bruno Portella
São Paulo - São Paulo - Brasil, 30 anos
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