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Mistérios do Sótão

     A chuva caía pesada sobre o parabrisas e eu mal podia ver a estrada, mas não havia como parar naquela região sem acostamentos, sem um posto de combustíveis e muito menos um restaurante. Parecia que estava longe do mundo. A transmissão no rádio estava péssima e resolvi desligar. Apanhei um CD qualquer e liguei o toca-cds. A música podia me acalmar um pouco, pensei comigo. E, assim segui naquela tempestade pela estrada. Vez ou outra passava um caminhão, mas foram uns tres apenas que vi. Nada mais. Um arrepio corria pela minha espinha dorsal a cada relâmpago que gentilmente clareava o caminho.
     Por uns vinte quilômetros foi assim, cerca de quarenta minutos que pareciam uma eternidade. Quando saí da chuva pesada, senti-me mais tranqüila e parecia que o tempo havia trazido o dia de volta. Estava claro como um dia quente de verão. Olhei no relógio e pasmei! Eu havia saído de casa às dezessete horas, havia feito mais de cem quilômetros e o relógio marcava dezessete e quinze! Fiquei confusa e não conseguia entender nada. Suspeitei de o relógio ter quebrado e assim justificar a hora alí anunciada. Mas quando olhei no painel do carro, o relógio marcava a mesma hora!
     Como não é de meu feitio acreditar em certas coisas,   pelo menos sem uma investigação minuciosa, fiquei atinando no que poderia estar havendo. Meu sexto sentido, me dizia que devia parar num lugar seguro e voltar para casa. Minha decisão de ir até a casa de minha filha, era o sentido daquela viagem. Minha filha estava me esperando, eu tinha que ir até ela. Então não parei, continuei na estrada decidida chegar antes de anoitecer.
     Ao passar por um posto policial, notei que o celular dava sinal e então liguei para Aninha, minha filha. Ela estava calma, nada de anormal, eu estava no horário previsto e ela ainda sugeriu que eu passasse num posto de vendas, à beira da estrada, e levasse alguns produtos da terra para ela. Nada comentei sobre o "episódio" do horário confuso. De fato, rodei mais uns metros e avistei o posto de vendas, um casarão antigo, com sótão e janelinhas de imbuía. Na parte de baixo, um amplo salão onde estavam expostos os produtos: queijos, linguiças, salames, legumes frescos, vinhos, bolachas, doces caseiros, etc... Pedi um café bem quente, sem açúcar. Separei alguns pacotes, passei pelo caixa. A moça tinha um olhar mórbido, quase estático, sem brilho. Novamente, aquele arrepio percorreu meu corpo todo. Senti-me gelada. Fechei o casaco e envolvi meu pescoço com o cahecol de lã. Ao devolver-me o troco, a mão dela tocou na minha, parecia um cubo de gelo. Saí rapidinho daquele lugar, entrei no carro e ajeitei as compras no assento traseiro e acelerei firme.
     Havia algo estranho, eu não sabia o que era, mas sentia na alma, na pele aquele sentimento de inquietude e confusão.
     A chuva passou completamente. Na estrada nenhum carro, nada me atrapalharia naquela viagem. Faltavam apenas uns oitenta quilômetros para chegar, menos de uma hora estaria na casa de Aninha.
     Dalí em diante foi tranqüilo. Nada de anormal me acontecia. Liguei o rádio, tudo bem, tudo funcionando bem.
     Na entrada da cidade, liguei para minha filha dizendo que mais uns dez minutinhos estaria com ela.
     Quando cheguei, o portão já estava aberto e recolhi o carro na garagem ao lado da casa. Minha filha veio me abraçar sorrindo, feliz. Era a primeira vez que eu a visitava naquela casa. Ela estava fazendo Mestrado, e alugou esse espaço para morar. A casa era completa, com mobílias antigas, decoração que a proprietária mesmo fez, não era uma casa ampla, mas servia para minha filha.
     Ao entrar na sala, deparei-me com um espelho que tomava toda a parte da parede em frente à porta. Parecia que havia alí um labirinto, insondável. Novamente um calafrio. Não disse nada à minha filha, ela estava animada.
     Depois que tiramos as bagagens do carro e instalei-me no quarto ao lado do dela, fomos preparar um café. Olhei no relógio e outra vez a incerteza! Dezessete horas e trinta minutos! Como?? Eu não poderia ter feito trezentos quilômetros em meia-hora. Humanamente impossível...Fiquei calada enquanto arrumava as compras no armário e na geladeira. O frio que senti ao abrir o freezer, me lembrou da mão da moça do caixa do posto de vendas da estrada. Tomamos café e minha filha sugeriu que eu fôsse ver melhor a casa. E fui, enquanto ela organizava a cozinha.
     Entre a sala de entrada e a sala de jantar havia um corredor largo, que mais assemelhava um antigo cômodo, um quarto talvez. Nele uma portinhola estreita com uma corrente, apenas suspensa no trinco. Perguntei à minha filha o que tinha alí. Ela me respondeu que havia um sótão e que não tinha ido lá ainda. Eu quis ir, tomada por um impulso de curiosidade. A portinhola dava para um outro corredor menor, e logo em seguida outra porta. Ao pisar no assoalho, senti que pisava numa coisa fofa, um tapete vistoso, dobrado, empoeirado. Pulei por cima dele e cheguei à porta menor. Abri-a. Um cheiro de mofo me fez tossir. A escadinha estreita dava passagem apenas para uma pessoa magra. Subi e sentia os degraus sacudirem levemente. Outra porta, sem fechaduras. Empurrei-a e o cheiro de coisa mofada invadiu-me as narinas e começei espirrar. Apanhei um lenço do bolso e cobri o nariz com ele. Com apenas uma mão firmei a porta contra a parede bolorada e úmida. A janelinha estava com as persianas abertas e entrava uma claridade tímida, mas que permitiu ver que havia uma lâmpada dependurada bem acima de minha cabeça. Puxei o interruptor e a luz acesa me facilitou a visão. O teto era baixo, precisei me curvar para caminhar alí. No canto esquerdo, ao lado da janela, um amontodo de papéis velhos, fotografias antigas, jornais, telas para pinturas, pincéis, latas de tinta, cavaletes aos montes, estatuetas de gesso, de mármore de diversas cores e tamanhos, um cem número de lápis coloridos, caixas de giz, um quadro negro descascado e muito usado. Não toquei em nada. Apenas observei. Era uma "bagunça bem organizada". Cada coisa num lugar, bem dispostos, bem arrumados. Apenas a poeira e teias de aranhas estragavam aquele cenário.
     Olhando para o lado direito da janela, notei um móvel coberto com um vasto lençól, que não se sabia se era branco ou amarelo. Apanhei minhas luvas de lã, calçei-as e ergui o lençól. Uma pianola do século XVIII, com chaves e umas partituras soltas em cima. Encantei-me com o mobiliário que vi alí esquecido. Uma cômoda com oito gavetões, um toucador com espelho de cristal, uma cama toda entalhada em mogno vermelho-escuro, criados-mudos iguais à madeira da cama e sobre eles, livros com capa de couro com escritas em ouro. Havia também um quebra-luz em estilo rococó, com uma lâmpada lilás. Curiosamente, não sentia mais aquela sensação de medo, de um friozinho correndo minha espinha, ao contrário, queria "saborear" cada objeto daquele lugar.
     A janela dava vista para um quintal já esquecido há muito, como aliás, era aquele sótão também. Abaixei-me ainda mais para apanhar do chão um livrinho de capa verde-oliva, e ao erguê-lo pude ver uma mancha em cor de vinho tinto no tapete já esgassado. Por um instante, pensei que poderia ser sangue, mas logo em seguida me entreti a observar cada canto.
     A porta por onde passei, rangiu, então voltei-me e vi minha filha parada, assustada, admirada com o cenário que alí se mostrava para nós.
     O espaço era bem maior do que poderíamos imaginar olhando de fora, diria que quase um labirinto de passagens entre os cavaletes, cabides de pé, um avental marrom, todo lambusado de várias cores.
     O cheiro incomodava Aninha e ela pediu que descessêmos as escadas e fôssemos respirar ar puro. Antes de sair, abri a janela para o ar entrar, pensando em voltar depois a revirar aquele arsenal de quinquilharias.
     A cada degrau que pisava para baixo, era um rangido tenebroso que ressoava pela casa. Era possível sentir cada tábua daquela escadaria velha, a balançar debaixo de nossas botas.
     Comentamos um pouco sobre o que vimos e depois a conversa tomou outros rumos. Anoiteceu e fui arrumar minhas coisas no quarto. Aninha foi dormir, pois tinha que estar bem cedo na faculdade, no dia seguinte. Eu ainda fui ler, como é meu sagrado costumo antes de me deitar. Fiz anotações, escrevi uns poemas, chequei mensagens no celular, liguei para casa, e não conseguia dormir. Apenas me vinha uma enorme vontade de subir para aquele sótão e fuçar cada cantinho, cada objeto, cada mistério.
     Relutei para não subir até lá, pensando que poderia acordar Aninha e assim atrapalhar seu descanso. Liguei a televisão e nada me entretia, apenas o pensamento de ir para o sótão. Uma força estranha me chamava e me instigava a subir aquela escadaria estreita. Sentia que uma voz, que não sabia de onde vinha, me chamava pelo nome e me convidava para apreciar aquele sótão. Recostei-me na cabeçeira da cama e como já era mais de uma hora, o cansaço me fez cochilar. De sobressalto, acordei com um estrondoso barulho, como se algo caísse num estampido surdo. Corri para o quarto de Aninha, a luz estava apagada, ela dormia tranquilamente. Olhei em torno e nada de anormal. Voltei para o meu quarto e deitei-me. Adormeci profundamente.
      Pela manhã, Aninha saiu para a faculdade. Eu estava tremendamente cansada, como se estivesse passado a noite sem dormir um minuto. Arrumei algumas coisas pela casa e me veio a curiosidade de subir ao sótão. Por um instante, fiquei imaginando, quem teria sido o pintor daqueles quadros, dono dos cavaletes, dos esboços em folhas de papel-cartão, enfim quem seria? Quem teria vivido naquela casa, afinal?
      Ainda com a xícara de café na mão, segui para o corredor que terminava naquela portinhola. Abri-a e entrei, cuidando para não pisar no tapete alí dobrado. Subi os degraus quase com pressa, num aguçado querer de curiosidade. A outra portinha havia ficado aberta, na noite anterior e agora estava fechada. Pensei, que poderia ter sido o vento, já que eu havia deixado a janela aberta. Entrei no aposento e vi a janela fechada. Vi também o livrinho de capa verde-oliva, no mesmo lugar no chão, de onde eu havia erguido.
      Agora de dia, podia ver muito mais coisas que não havia tido a possibilidade de ver. Um espelho grande por trás de um armário, fazia o ambiente maior ainda. A sensação que eu tinha era de que alguém estava alí, além de mim. Tentei afastar o armário, mas não tive força suficiente, então espreitei-me contra o espelho e me vi em outro ambiente. O que me impressionou, era que alí tudo estava limpo, sem poeira alguma, como se alguém habitasse o lugar.
      Havia uma sacada ao lado norte do sótão, que dava para observar a rua lá embaixo. Debruçei-me e fiquei olhando a névoa que subia de um pequeno açude ao longe. senti uma enorme paz me envolver. De repente não queria mais sair dalí. Planos mirabolaram minha mente e me falavam coisas que eu não sabia.
      Nessa mansidão de horas, o tempo passou sem ser notado. Quando virei-me, quase desmaiei, ou até acho que perdi os sentidos mesmo. Alí na varanda, ao meu lado, uma senhora de uns setenta e cinco anos, sorria para mim estendendo as mãos. Eu sem titubear dei-lhe minhas mãos. Senti suas mãos frias e lembrei-me da moça do posto de vendas da estrada. O olhar era de um azul sem par. Ela sorria para mim, afetuosamente.
      Assustada, saí correndo, sem saber para onde ir. Cheguei na sala e abri a porta de entrada e saí da casa. Minha filha estava chegando e me indagou sobre o que estava acontecendo. Não conseguia falar nada. O olhar daquela mulher me dava calafrios, mas sabia dentro de mim que não iria me fazer mal algum, mas estava com muito medo. Não sabia explicar o que era, como era...
     
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      Naquele dia não voltei mais ao sótão, apesar da grande vontade que me invadia, a todo instante.
      À noite fomos jantar na casa do namorado de Aninha. Voltamos tarde e fomos dormir, sem pensar em mais nada. Os sonhos vieram feito vendaval, uma canoa flutuando em brumas frias, cantigas que eu não entendia, cheiro de  vinho, de pão, pessoa rindo, outras cantando e dançando. E no meio de tantas pessoas diferentes reconheci duas: a moça das mãos geladas do posto de vendas da beira da estrada e a mulher de olhos azuis que vi na varanda. Ambas estavam rindo para mim e eu, no sonho fugia assustada. Elas ficavam olhando eu correr e nada faziam, estavam alí, státicas, como seus olhos e suas mãos frias.
      Outra vez o estranho barulho me tirou do sono, meu coração queria saltar pela boca e minhas pernas estavam paralisadas. Suava frio, e minha cabeça doía. A lembrança da mancha de vinho no tapete, debaixo do livro de capa verde-oliva, me fazia rodopiar. Aninha entrou no quarto e perguntou se eu estava bem. Respondi que sim, mas minha cabeça doía muito. A dor era de uma pancada forte, que me fazia cair. Aninha me trouxe uma aspirina, pois sabia dessa minha dor há anos, e em seguida tornei a dormir.
      No terceiro dia naquela casa, eu estava me sentindo muito fraca, quase doente. Mas uma coisa me intrigava, me animava: o sótão. Resolvida a acabar com aquele mistério, fui até lá. Não encontrei mais o espelho, nem a senhora de olhos azuis. Por um instante me veio uma melancolia, uma nostalgia, saudades de um tempo que eu não sabia reconhecer. Sentei-me na cadeira de encosto baixo, puxei um cavalete para perto, ajeitei uma tela amarelada, apanhei uns pincéis, uns tubos de tinta de uma cesta de vime e me pus a pintar. A pianola começou a tocar uma música suave, olhei e vi a moça das mãos frias do posto de vendas. Aquelas mãos de dedos longos, percorriam as partituras da pianola como se as conhecesse muito bem e há muito tempo. Enquanto eu pintava, a velha senhora de olhos azuis falava comigo em um italiano que eu conhecia bem. O idioma italiano de Veneza. Cheio de alegrias e risos.
      Tomamos chá com vinho tinto, e numa tarde, eu, por descuido derramei a xícara toda no tapete. A mulher, enfurecida, apanhou um castiçal de bronze e acertou-me na cabeça. Eu me vi caida no chão, em cima da xícara derramada de vinho quente. As duas sumiram dalí. Eu fiquei caída, envolta em sangue, morrendo...
      Sem conseguir atinar coisa com coisa, entrei no meu quarto e fui tomar banho. Me sentia suja de sangue, e com uma dor latejante em minha cabeça.
      Aos poucos fui me refazendo, me tornando forte e sem dor alguma. À tarde saimos fazer compras e nada falei para minha filha sobre meu "sonho".  Na loja de presentes, vi a xícara que eu havia derrubado e quebrado com a minha queda. resolvi comprá-la para "devolver" à senhora que ficara enfurecida comigo.
      Ao retornar, logo apanhei a xícara e fui levar ao sótão. Não encontrei a portinhola. No lugar havia um grande quadro com uma senhora de olhos azuis com uma menina magricela no colo, com mãos de dedos longos, e uma outra mulher, sentada na cadeira de encosto baixo, ao lado com avental marrom, fazendo uma pintura em tela de ambas...
(continua)
NENINHA ROCHA
Enviado por NENINHA ROCHA em 26/05/2006
Reeditado em 03/06/2006
Código do texto: T163310
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Sobre a autora
NENINHA ROCHA
Guarapuava - Paraná - Brasil, 56 anos
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NENINHA ROCHA