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Texto

O Pássaro Morto

   O pássaro havia colidido com a vidraça de uma das salas de aula e caído no gramado, perto dos balanços.
   Arnie foi o primeiro a vê-lo. Ele pegou a bola colorida e foi até lá, correndo, enquanto o resto das crianças continuou com suas brincadeiras, espalhadas pelo pátio.
   Era um Tico-tico de cabeça vermelha, o reflexo das árvores no vidro havia confundido-o e ele agora jazia na grama, com o pescoço quebrado. Arnie ficou olhando-o por um bom tempo, estudando suas penas arrepiadas pelo impacto fatal, os olhinos cor de mel fixos para sempre no vazio. Controlou-se para não chorar. Homens não choram, dizia seu irmão mais velho antes de lhe aplicar um doloroso cascudo. Mesmo assim era difícil, ele só tinha dez anos e quase sempre sucumbia às lágrimas.
   Ficou uns dois minutos fitando o pequeno cadáver quando notou que uma outra sombra se agachara ao lado da sua. Ele levantou os olhos marejados e viu que era a Emily, a garota que sentava na última carteira da fileira do canto esquerdo, ao lado da fileira dele. A tranças que ela usava desceram para frente quando ela se abaixou e estendeu a mão para tocar no pássaro morto. Arnie segurou-lhe o pulso e disse:
   -Não faça isso! Ele é um cadáver agora, não pode
tocar nele!
   -Por que não?- perguntou a menina, olhando-o como se só agora o tivesse visto- Por que não posso tocar nele? Só porque está morto? Você sabe que um dia vai morrer também, não sabe?
   Arnie largara a mão dela achando que fosse louca, por isso ninguém queria saber de andar com ela, falando coisas como essa, dizendo que a gente ia morrer. Ele sabia que isso iria acontecer um dia, mas não era coisa para se pensar no momento, quando se é tão jovem.
   - Por que não responde?
   -Quer saber? Pode por a mão nele, se quiser, eu vou pra lá- disse ele, querendo dizer: vou pra lá com as crianças normais, diferentes de você que gosta de ficar pegando em bicho morto.
   Ele virou as costas, a bola embaixo do braço, quando viu mais crianças vindo até sua direção. Elas deviam ter percebido os dois agachados, olhando algo que devia ser bem interessante e terem ficado curiosas a respeito. Agora ele não queria mais ir embora, queria ficar e confabular com os outros, talvez até cutucar o corpo com um graveto.
   Virou-se pouco antes de os outros chegarem, a tempo de ver o passarinho alçar voo das mãos de Emily, em direção ao brilhante sol daquela manhã.
   - O que você fez?- perguntou ele, mal acreditando naquilo. Talvez tivesse se enganado e o Tico-tico (talvez) estivesse vivo o tempo todo. Talvez estivesse apenas incosciente. Ah, claro, então por que o Toby não se levantara do caixão quando quebrara o pescoço caindo da janela?
   - O que você fez com ele?- tornou a perguntar, vendo que a tinha pego de surpresa- Você...
   -O que estão fazendo?
   Quem perguntava era a Marta, a menina mais bonita da classe na opinião de Arnie, mas naquele dia nem parecia ser assim tão bonita ou tão interessante quanto a esquisita Emily. Esta parecia algo saído de um daqueles filmes de fantasia que abarrotavam a estante da casa de Arnie.
   -É. O que estão fazendo vocês?
   Eles queriam saber, claro. Arnie encarava Emily insistentemente, enquanto ela olhava para ele quase implorando que ele não contasse nada.
   -Então, não vai dizer nada Arnie?- Marta olhava para ele com um interesse que geralmente ela não demonstrava por nada nem ninguém, mas ele nem se deu conta disso.
   - Nã-não é nada, nadinha. Nós só estávamos conversando aqui.
   - Ah, é isso?
   Marta e os outros olharam-se, desapontados,já indo embora e ela lançou um olhar de desprezo por cima do ombro, característico daqueles que pensam saber de tudo e de já terem visto de tudo.
   -Vamos.
   Quando estavam bastante afastados, Arnie voltou a sentar-se ao lado de Emily e com a bola colorida girando nas mãos, perguntou:
   - O que você vai fazer depois da escola?

 
Andhromeda
Enviado por Andhromeda em 16/06/2009
Reeditado em 16/06/2009
Código do texto: T1651443
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Andhromeda
Atibaia - São Paulo - Brasil
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