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O cordoeiro Anísio

O CORDOEIRO ANÍSIO

         Era uma pequena fábrica de cordoaria, situada num bairro de uma cidade de interior. O número de funcionários não ia além de cinqüenta. Todos muito, bem orientados e capacitados para as suas atribuições. Porém, um deles logo chamava a atenção de quem visitasse a fábrica. Era o Anísio, moço forte, moreno, de olhos muito negros e que vivia cantarolando. Parecia estar permanentemente de bem com a vida.
       Carregando um largo sorriso no rosto, cativava imediatamente quem a seu lado chegasse. Além do carisma, sua conversa era sempre atraente, atualizada e bem conduzida, fazendo com que se perdessem as horas. Ademais, sua habilidade profissional era de causar inveja a quem entendesse de cordoaria. As fibras eram trançadas de formas e cores as mais diversas e iam compondo, como num passe de mágica, cordas que mais pareciam  obras de arte.
       Suas cordas eram conhecidas em todo o País e prestavam-se às mais diversas finalidades como: debrum de almofadas e travesseiros, de colchões, de cortinas, entrelaçados de cúpulas de abajures, para amarrilhos, para reboques e inclusive, personalizadas com o nome ou mesmo frases solicitadas pelos fregueses.
       Sua destreza era simplesmente arrebatadora e não poucas vezes, iam pessoas à fábrica, exclusivamente para apreciar o trabalho do Anísio.
       Todos gostavam muito do Anísio e, anualmente, quando de seu aniversário, os colegas da fábrica, faziam religiosamente a celebração com doces, bolos e refrigerantes. Era verdadeiramente um feriado porque todos faziam questão de dar-lhe um abraço e dirigir-lhe algumas palavras de consideração.
       Apesar de toda sua alegria e cantoria, Anísio era bastante tímido e solitário, praticamente reduzia a sua vida ao trabalho.
      Quando ia para sua casa, preparava o jantar, tomava banho e ficava por algumas horas escutando rádio e fazendo sua apaixonada leitura. Afinal, a leitura, era uma de suas grandes paixões. Inclusive, seus colegas de serviço, brincavam com ele, instigando-o: Ei! Anísio! Não seria melhor você arrumar uma namorada?  Ou prefere se casar com esses livros? – Mas, sendo uma pessoa muito calma, nem se preocupava ou importava com as brincadeiras, apenas aceitava-as e respondia com seu característico e largo sorriso.
       Em frente à bancada de cordoaria do Anísio, ficava a mesa de embalagens, onde trabalhavam o Geraldo e sua esposa, a Irene, moça muito bonita, tendo sido inclusive, eleita a “Miss Simpatia“ da fábrica.
       Em função dessa proximidade, na maior parte do dia, ficaram muito amigos, mantendo um relacionamento praticamente familiar.
       Não poucas vezes, Geraldo e Irene iam visitar o Anísio em sua residência e, invariavelmente, se faziam acompanhar por uma moça conhecida. Pensavam: Quem sabe, conseguissem despertar sua atenção e tira-lo daquela vida solitária e extremamente comum. Porém, nada mudava, ele dava a maior atenção possível a todas as moças que lhe visitavam, tratava-as muito bem, portava-se cavalheirescamente e com extrema educação e singeleza, praticamente as dispensava.
       Apesar de suas mãos serem grossas, devido à rudeza do seu trabalho, os movimentos eram muito ágeis e de extrema sensibilidade, visto que suas últimas obras faziam-se sempre mais belas que a anterior, demonstrando uma inesgotável capacidade criativa.
       Sem dúvida nenhuma, era um trabalhador perfeito. Capaz, criativo, dedicado, responsável, educado, sempre presente, de fácil relacionamento, ainda cumpria suas metas sempre acima do que lhe era determinado. Aliás, essas virtudes, custavam-lhe todos os anos, o troféu de funcionário padrão daquela empresa. Entretanto, Anísio parecia insensível, alheio mesmo a todos os falatórios sobre suas virtudes. Não mudava sua vida, nem seus costumes ou mesmo, qualquer comportamento.
       Na sua bancada, fazendo sua cordoaria, conversando com o Geraldo e sua esposa ou dialogando com todos os seus colegas, nos horários das refeições e ao fim do expediente, invariavelmente cantarolando durante seus afazeres, era uma pessoa segura e de comportamento sem restrições.
       Mesmo ao sair da fábrica, mantinha quase que um ritual perfeito. Dirigia-se para a sua casa, tomava banho, jantava e depois sentava no sofá, onde ficava a escutar no rádio, as notícias do dia.      A seguir, escolhia em sua estante um livro e punha-se a lê-lo, até que o sono lhe tomasse as rédeas do destino.
       Esse era o grande Anísio.
       Seus trabalhos atravessaram as fronteiras do País e saíram pelo mundo afora. Ganharam diversos prêmios na Europa, Ásia, América do Norte e América do Sul. Não poucas vezes, matérias e comentários sobre suas obras podiam ser lidas, vistas ou ouvidas nos mais famosos órgãos de divulgação escrita, televisiva e falada.
       Anísio era um verdadeiro sucesso.
       Com seu nome, carregou também o da fábrica que logo viu suas vendas multiplicadas e seus cofres abarrotados. Esse crescimento, em parte, foi muito bom porque forçou a contratação de novos empregados. Porém o que “pegou” é que o Anísio era só um e, por mais que se dedicasse e fizesse horas extras, não conseguia acompanhar à crescente demanda. Essa situação abalou o relacionamento dele com o patrão que, visando exclusivamente seus lucros, exigia cada vez mais. Por isso, Anísio já não trabalhava com a mesma satisfação.
       Obrigado às horas extras, quando voltava para casa, não tinha mais ânimo e nem tempo para suas leituras ou programas de rádio, seus passa-tempos prediletos.
       Suas noites passaram a ser turbulentas, com sonhos agitados e de cobranças. “Você precisa produzir mais; trabalhar mais horas; etc...” Anísio sentia-se muito pressionado e logo esse seu estado de espírito refletiu-se no seu comportamento.
       Seus dias não eram mais cantarolados; pouco conversava com o Geraldo e Irene; passava o tempo todo de cabeça baixa, fazendo suas cordas intermináveis.
       Quando seus colegas de trabalho lhe dirigiam palavras ou gracejos, não mais surgia em sua face aquele largo sorriso característico.
       O trabalho que fez de Anísio um empregado padrão, conhecido pela mídia e tão carismático, havia enterrado aquele moço moreno, forte, de olhos muito negros e como sempre sorridente.
       Anísio era a expressão da derrota.
       Naquele mesmo ano, no dia do aniversário de Anísio, os funcionários da fábrica resolveram prestar-lhe uma grande homenagem surpresa e, antes que o patrão lhe entregasse o presente, fariam a leitura de uma carta aberta, protestando contra as pressões que vinha sofrendo, pela exigência de mais e mais desempenho.
       Diziam nessa carta que estavam perdendo um colega e um amigo. Que já tinham perdido seu canto, sua alegria e sua presença no convívio diário. Anísio era um outro homem, sisudo, introvertido de olhar triste, pouco comunicativo e que, por isso mesmo, temiam que acabasse por abandoná-los e à própria fábrica.
       Tudo acertado e sem que Anísio desse por conta, prepararam todos os apetrechos da festa.
       Pediram para o Geraldo que combinasse com Anísio para almoçarem juntos e, quando  chegassem ao refeitório, seria feita a surpresa. Assim foi feito e tão logo a sirene do meio dia foi acionada, Geraldo e Irene convidaram-no para almoçarem juntos no refeitório. Prontamente ele concordou e pediu-lhes que fossem na frente porque necessitava ir até o lavatório.
       Todos os detalhes foram cuidadosamente tratados, cada funcionário posicionou-se da melhor forma e ali permaneceram aguardando Anísio para a grande surpresa.
        O que ninguém poderia imaginar é que a grande surpresa, quem realmente havia preparado era o próprio Anísio.
        Passados mais de quarenta minutos e ele não tendo chegado ao refeitório, Geraldo resolveu ir busca-lo. Quando entrou na sala onde trabalhavam, uma grande surpresa! Anísio pendia em uma corda amarrada à viga do telhado. Era a mais bonita corda que ele havia confeccionado. Uma corda personalizada onde estavam os nomes de Geraldo e Irene. Geraldo chamou, aos berros, seus colegas que logo chegaram ao local e, numa tentativa desesperadora, ainda alçaram o seu corpo, mas nada adiantou.
       Anísio não estava mais com eles.
       No bolso de sua camisa, ainda suada, encontraram uma carta de despedida, onde dizia: “Meus verdadeiros amigos! Desculpem-me se não fui capaz de resistir às exigências da vida; perdoem por não ter sido forte o bastante para suportar meu próprio destino, porém às vezes, só encontramos saída nas portas mais difíceis de se abrirem. Minha decisão foi tomada com muito tempo de antecedência. Aliás, o mesmo tempo que gastei para fazer essa corda com a qual resolvi partir. - Os nomes de Geraldo e Irene estão nela porque não fui capaz de partir sem leva-los comigo. Geraldo foi para mim o irmão que não tive e Irene, agora consigo dizer-lhes, foi o grande e único amor de minha vida. Por essa razão nunca me interessei por ninguém. - Espero que entendam a minha atitude porque, das duas paixões de minha vida, a cordoaria e a Irene, nenhuma delas me era mais possível. Não conseguia mais fazer as cordas suficientes para atender à demanda e tão pouco suportava esconder meu amor por Irene.”... “A todos vocês agradeço o tanto que fizeram por mim e, se no céu realmente existirem cemitérios de almas, é para lá que a minha está indo. Tem mais, se Deus estiver por lá, exigirei dele, como nosso patrão, cada vez mais esforço no sentido de olhar e cuidar muito bem de vocês. Estou indo e, tenham certeza, com aquele largo sorriso que, há algum tempo, havia deixado de lhes presentear. -  Imaginem! Lembrei-me agora de que estou aniversariando hoje. Obrigado a todos vocês pelo abraço e parabéns que certamente, como em todos os anos, vieram trazer-me, Anísio”.
       Anísio partiu...



Condorcet Aranha
Enviado por Condorcet Aranha em 27/06/2006
Código do texto: T183448

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Sobre o autor
Condorcet Aranha
Joinville - Santa Catarina - Brasil, 76 anos
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