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O Homem dos Olhos de Fogo
 
 
 
 
12 de junho de 2005
 
            Resolvi, depois de muito custo, começar a escrever neste diário. Não entendi bem os verdadeiros motivos que levaram Ricardo a me dá-lo como presente de casamento, mas suponho que seja com o intuito de descobrir os meus segredos quando eu não estiver por perto. Tenho certeza de que ele tentará ler o que deveria ser o meu livro de mágoas para usar os meus tormentos contra mim de alguma forma. A verdade dói, mas não há nada que eu possa fazer. O nosso casamento não vai bem nos últimos anos, principalmente depois da tragédia que nos marcou, com a morte do nosso filho. Eu sei que ele me culpa pelo acidente, que me culpa por ser uma péssima motorista. Eu deveria ter adivinhado que aquele homem completamente bêbado jogaria o nosso carro ribanceira abaixo.
            Como se já não me bastasse as lembranças do corpinho frágil de Thiago sem vida em meus braços, coberto de sangue, ainda tenho que aguentar em silêncio o olhar do meu marido me culpando pela morte do ser que mais amei no mundo. O remorso me corrompe, faz com que, às vezes, eu queira acabar, de uma vez por todas, com a agonia que se tornou minha estúpida vida. Mas não tenho coragem. Fui criada sob as doutrinas cristãs e, sei bem, o que acontece com a alma dos suicidas. Não quero arder no inferno, não quero desperdiçar a chance que ainda me resta de encontrar meu amado garotinho no céu. Portanto, espero que Deus um dia me perdoe pelo mal que causei.
 
 
 
13 de junho de 2005
 
            Não sei se a vontade de Ricardo era essa, mas no fundo este diário me fez bem.
            Ontem, quando escrevi pela primeira vez nestas páginas, senti a alma um pouco aliviada. Foi bom escrever sobre os assuntos proibidos em nossa casa. Depois do acidente, nunca mais falamos sobre o que aconteceu. Mas o maldito olhar de Ricardo, sua expressão ressentida provoca-me náuseas irritantes. Aqui eu posso escrever sobre meus sentimentos sem me preocupar com nada. Posso simplesmente falar dos meus pesadelos e do desejo de voltar no tempo e de não ter parado o carro para comprar um vestido novo. Se não tivesse demorado escolhendo aquele trapo caríssimo, Thiago estaria com oito anos agora. Eu teria acabado de cobri-lo e beijado sua testinha rosada, depois de lhe contar uma historinha para dormir.
            Por que, meu Deus? Por que o Senhor fez isso comigo?
 
15 de junho de 2005
            Tenho que esconder o diário!
            Ontem, cheguei mais cedo do trabalho e encontrei a casa mergulhada em silêncio como de costume. Fui tirando a roupa pelo corredor até chegar ao quarto sem me preocupar em ser surpreendida por ninguém, mas levei um susto que me fez cair sentada no chão. Não pude acreditar quando vi Ricardo tentando forçar o cadeadinho do livro como se fosse um assaltante. Tive a impressão, ao vê-lo de relance, que aquele invasor queria roubar, não as jóias ou os nossos poucos objetos de valor, mas sim as minhas emoções, a minha vida inteira, a que já foi vivida e a que ainda está em fase de reconstrução.
            Quando me recuperei do susto, gritei com ele nervosa. Senti crescer em meu íntimo uma raiva desesperadora, um senso de proteção muito parecido com o que ocorreu quando... quando segurei meu filho pela última vez.
            Brigamos novamente sobre o mesmo assunto: meu silêncio. Eu sei que devia compartilhar com ele minha tristeza, mas é impossível falar e, principalmente, ouvir minha voz contando os pesadelos que me atormentam diariamente. Se ele me respeitasse, se aceitasse meu desejo, talvez um dia pudéssemos nos sentar na varanda e, calmamente, conversarmos sobre o passado. Mas ele não entende, não se permite entender.
            Esta noite, Ricardo dormiu na sala.
20 de junho de 2005
 
Chorei o dia inteiro. Sinto em mim uma dor maior do que o mundo inteiro pode sentir. As lágrimas escorrem em meu rosto ainda, como se não fossem acabar nunca. Vivo um pesadelo interminável. Sonhei com Thiago, sonhei com meu bebê e não consegui fazê-lo parar de chorar. Ele parecia estar sofrendo tanto. Perguntava a ele por que estava triste, se sentia alguma dor, e o pequenino me estendia os braços roxos, cheios de hematomas brutais, no formato de dedos, como se alguém os tivesse apertado com muita força.
Senti raiva pela minha impotência. Senta raiva por ver seus olhinhos apavorados e não poder carregá-lo para um lugar seguro. Meu filho sofria e eu nada podia fazer nada para ajudá-lo... mais uma vez.
Estou me sentindo péssima hoje. O tempo parece me fazer companhia, compartilhando meu sofrimento. Chove muito, chove como as lágrimas que verto sufocada em silêncio, sozinha em casa, sem marido, sem filho, sem ninguém, a não ser eu e meu diário.
Quando Diana, a secretária da empresa, telefonou perguntando o motivo de meu atraso, mal consegui responder. A minha voz, sufocada na garganta, tornou-se inaudível. Por mais que eu tentasse dizer alguma coisa, as lágrimas torrenciais me engasgavam como se estivesse me afogando em mim mesma. Que loucura! Ela ficou tão assustada comigo que disse que mandaria alguém vir me ver. Com muito esforço consegui dizer que não precisava mandar ninguém, que estava bem, apesar do choro incessante. Eu disse que era apenas saudade... Nunca diria que tinha medo... medo do que Thiago poderia estar sofrendo.
São oito horas da noite e Ricardo ainda não chegou. Começo a desconfiar que ele tem outra, já que nós não nos relacionamos intimamente há mais ou menos um ano.
 
21 de junho de 2005
           
            Ele chegou depois das onze, ontem à noite. Entrou no quarto sem fazer barulho, enquanto eu fingia dormir. Esperei pacientemente para que ele se despisse e se deitasse logo ao meu lado. Queria sentir seu cheiro, não seria bom, mas o cheiro de bebida seria muito melhor do que sentir em meu marido o perfume barato de outra mulher.
            Ele pareceu adivinhar meu plano. Ao invés de tirar a roupa e se deitar, levou o pijama para o banheiro. Achei muito estranha sua atitude, pois Ricardo nunca se incomodou em se trocar no escuro ou, pelo menos, jogar as roupas sujas pelo chão, antes de entrar no chuveiro. Eu ouvia da cama a água bater em seu corpo demoradamente. Nunca antes ele ficara tanto tempo embaixo da água quente. Passaram-se trinta minutos desde que ele se trancara, e ele nunca trancava a porta. Tudo estava errado, ele tentava me esconder alguma coisa. E teria conseguido, se eu não estivesse tão apavorada com meus sonhos.
            Quando abriu a porta, uma lufada de vapor aqueceu o quarto, impregnada por um perfume forte, mas o aroma era familiar para mim, fui eu quem dei o perfume a ele como presente de natal. Ele rapidamente se deitou, puxando sobre o seu corpo o lençol. Não me tocou uma só vez, virando-se para o lado e pegando no sono imediatamente. Devia estar muito cansado.
            Pensei em mexer em suas roupas e procurar por alguma prova de onde ele estivera até àquela hora, mas algo em mim não me deixou sair da cama.
Uma força estranha amoleceu meu corpo. Um cansaço incrível tomou meus músculos e minha cabeça girou. Talvez tenha sido o cheiro do perfume que me fez mal, ou talvez o meu medo tenha agido contra a minha vontade. O fato é que adormeci imediatamente.
Hoje pela manhã, procurei suas roupas sujas, mas não as encontrei, o que me deixou muito preocupada.
Quando ele chegar hoje à noite, teremos uma conversa séria a respeito de ontem. Estou desesperada para saber o que ele fez até àquela hora.
 
23 de junho de 2005
 
Que tortura! Passei o dia a vagar pela casa, esperando a hora que Ricardo chegaria. Confesso que intimamente esperava que o maldito só fosse se lembrar de que tinha casa novamente de madrugada. Estava errada!
Ricardo chegou por volta das dezenove horas, como de costume. Não cheirava a bebida, nem a outro perfume feminino que não fosse o meu. A quem quero enganar, não havia perfume algum, só o cheiro acre de suor impregnado no corpo.
Logo que entrou, fiz menção de lhe questionar, sem lhe dar tempo de inventar uma desculpa, mas detive meu impulso, pois notei uma certa apreensão em seu rosto. Nunca o vi tão pasmo. Havia uma palidez tão intensa em seu rosto que chegou a me assustar. Ricardo parecia ter visto um fantasma de tão branco e hesitante. Deixei-o acalmar-se e, assim que se restabelecesse, não o pouparia do meu interrogatório.
Ele pode até querer me deixar, mas jamais me permitirei ser traída. De maneira alguma, posso aceitar que, depois de se fartar com outras mulheres, deite-se ao meu lado e me encoste seu corpo imundo. Por pior que nosso casamento seja, não me permito ser enganada dessa maneira. Se ele quer se aventurar com outras mulheres, deve agir como um homem e terminar o seu compromisso comigo antes. É o mínimo que pode fazer.
Esperava-o, pois, tomar seu banho e jantar, mas, para minha surpresa, encontrei-o no pequeno bar da sala de estar, virando sucessivas doses de uísque. A garrafa de Jack Daniels estava pela metade, mas como já havíamos tomado alguns copos, não pude precisar a quantidade que ele ingeriu desde que chegou.
Não pude mais esperar! A dúvida me corroia, precisava abordá-lo imediatamente ou seria tarde demais. Geralmente quando bebe, Ricardo perde a noção do tempo e do espaço, chegando ao ponto de, em pouco tempo, ficar intratável, arredio como um cavalo selvagem.
            Agora, pensando melhor, eu devia ter ficado quieta.
            Logo que perguntei sobre o que o tinha deixado naquele estado, Ricardo levantou a voz, mandando-me sair da sala. Ele queria ficar sozinho com seus problemas. O meu sangue ferveu ao mesmo tempo em que fui tomada por um medo descomunal. Nunca o vi falar daquela maneira, com as veias expostas como se fossem estourar, tamanho esforço que fazia. Seus olhos saltavam das órbitas numa fúria bestial, quase fazendo com que eu me debulhasse em lágrimas.
            Também ergui a voz, não me importando com suas vontades. Ele está cometendo um erro e minha função de esposa me impele a alertá-lo. Na verdade, quis me defender, não sei se dele ou de mim mesma, mas o fato é que estava coagida, imprensada entre minha suspeita e suas ações. Não podia, portanto, permanecer calada como uma criança diante de uma reprimenda da mãe; era preciso enfrentá-lo, mesmo que ele partisse para cima de mim, agredindo-me covardemente.
            Não o fez. Em contrapartida também não me respondeu nada. Eu perguntava insistentemente sobre o que o tinha deixado tão abatido, onde tinha estado na noite anterior, por qual motivo tinha escondido as roupas quando chegou, por que estava bebendo daquela maneira, o que estava acontecendo com nosso casamento, que soluções nós dois teríamos pela frente... Mas ele não respondeu uma única palavra, limitando-se a me fitar ferozmente como um cão raivoso, enquanto engolia de uma só vez o uísque sem gelo.
            Antes que o pior realmente acontecesse, a consciência me despertou para o que eu fazia. Estava prestes a provocar uma terrível erupção naquele homem que eu conheço bem. Sabia que se continuasse a importuná-lo, ele ficaria violento. Dei-lhe as costas e me tranquei no quarto, sem nenhuma resposta, presa, isolada com minhas suspeitas, sufocada por minhas angústias, desejando, como louca, que Deus me permitisse voltar no tempo e mudar minha estúpida e amaldiçoada vida.
 
28 de junho de 2005
           
Realmente não imagino por que tipo de provação estou passando. Já tentei de tudo para apagar das minhas lembranças a dor que me corrompe a cada dia, mas me parece ser impossível. Pelo menos sem a ajuda necessária, acordar, respirar e viver é um pesadelo constante cada vez mais real e lacerante.
Pressionada, sinto-me como se estivesse presa num emaranhado de teias, completamente indefesa, apenas esperando que a maldita aranha faminta me devore. Meus dias têm sido mais do que tensos, uma mistura de melancolia e desgosto que nunca melhora.
Depois do pequeno desentendimento com Ricardo, vi desabar definitivamente minhas colunas de sustentação. Não sei o que aconteceu com ele, se foi a bebida ou um distúrbio mental avassalador, porque, feito louco, ele entrou novamente no quarto de Thiago. No princípio, pensei erroneamente que sua vontade fosse a mesma que ainda me sustenta: recordar-se de nossa criança, mas, poucos minutos depois, percebi o quanto estava enganada, tristemente enganada.
Ainda estava protegida pela porta do meu quarto, quando ouvi um rangido vindo do cômodo ao lado. Saí sorrateiramente para averiguar e me apavorei com o triste quadro que se pintava diante dos meus olhos. Não o perdoarei pelo que fez. O desgraçado revirava o quartinho de Thiago, o seu templo sagrado, sua memória viva. Atirava para longe suas coisas, quebrando os brinquedos, rasgando as roupas de cama, derrubando tudo das prateleiras.
Gritei de um jeito visceral, quase explodindo meus pulmões com a violência abominável do meu suplício. Voei sobre ele, cravando minhas unhas em suas costas e o mordendo nos ombros até sentir na minha boca o gosto do seu sangue. Pela primeira vez em minha vida perdi o controle dos meus atos. A fúria cega me tomou inteira e agia por instinto. Jamais permitiria que alguém me tirasse a única lembrança concreta da existência curta do meu filho. Meu filho, somente meu, pois aquele monstro não é mais considerado um pai. Thiago não o merece!
Ricardo me empurrou contra a parede, forçando meu corpo com brutalidade. Não adiantava lutar, ele é muito mais forte do que eu, uma frágil e delicada criatura descontrolada. Caí, um pouco tonta, mas perfeitamente sóbria para vê-lo erguer a mão e descê-la sobre meu rosto, provocando um estalo seco. Na hora não senti dor, não como agora sinto arder, não na face, mas no coração repleto de mágoas.
Atordoada e ferida, mas vitoriosa. Consegui fazê-lo parar. Talvez ele tenha percebido a loucura que fazia no momento em que me machucou. Ele fugiu. A porta da frente bateu violentamente e fiquei sozinha com minha dor até o amanhecer do dia seguinte.
Adormeci, com a cabeça caída sobre o colchão de Thiago, tentando sentir seu cheiro e preencher o vazio em meu peito.
A loucura começou.
Todos os meus sonhos com Thiago, mesmo que me provocassem amarguras e muita saudade, davam-me certo conforto, mas naquela noite, o sonho não me reconfortou, pelo contrário, deixou-me completamente apavorada.
Numa tarde fria, uma pequena garoa molhava o corpo pequenino de Thiago, que alegre, corria por um jardim muito tranquilo. A alegria brotava em seu sorriso, transbordando um raio luminoso de contentamento. Eu me sentia feliz vendo-o brincar novamente, correndo como todas as crianças fazem, sem motivo algum, apenas por correr. Mas, de repente, a chuva apertou, despejando com força, não mais gotinhas, mas pingos imensos, que logo formaram poças tão grandes como lagos perigosos. O vento soprava apavorantemente, fazendo com que seus finos cabelos castanhos voassem sobre seu rosto.
Chamei-o para perto de mim. Precisávamos ir embora dali imediatamente ou poderíamos ficar resfriados. Mas Thiago não me ouviu, continuava a correr, porém seu olhar já não era mais esperançoso e o sorriso que tanto me encantara havia morrido em sua boca. Thiago não brincava, fugia de alguma coisa. Suas pernas se esbarravam, ele cambaleava, perdendo o equilíbrio, mas não parava.
Tentei correr em sua direção para abraçá-lo, protegendo seu corpinho contra o frio e fazendo com que o medo desaparecesse. Mas, mal forcei o músculo, uma lufada fria de ar me jogou para trás. Insisti em avançar, e o vento cortou meu rosto, fazendo o sangue escorrer. Alguma coisa me impedia de me aproximar dele. Algo invisível até então me segurava, envolvendo-me numa barreira de ar tão fria como o gelo. Berrei, soltando todo o ar contido em meus pulmões para que ele fugisse depressa. Foi em vão, o cárcere permanecia impassível, apesar dos meus esforços para me libertar.
Thiago parou, tremendo como se tivesse visto um fantasma. Lançou seus olhos para mim, suplicando por ajuda, mas eu nada podia fazer, a não ser assistir como uma inútil espectadora ao filme de terror grosseiro que era exibido em minha frente.
A urina escorreu por minhas pernas, pingando no chão, no momento em que vi um estranho medonho surgir atrás de meu filho. Ele caminhava indiferente à fúria da natureza, como se nada o afetasse. De onde eu estava, não conseguia vê-lo com clareza, mas, de qualquer maneira, meu instinto dizia que ele era o próprio mal.
O vulto disforme se aproximava e, à medida que o foco se firmava, foi se desenhando em minha frente a criatura mais terrível que já pensei existir. Era um homem alto, vestindo um imenso casaco preto, que estranhamente não se movia com a força do vento. Seu cabelo era tão negro quanto à roupa, contrastando com a pele muito mais branca do que um cadáver.
Quando pude ver seus olhos, senti-me tonta. Tentei romper as grades do meu invólucro, mas ele me pareceu ser ainda mais forte. As labaredas cintilavam em suas órbitas, como se o próprio inferno queimasse dentro daquele corpo prestes a alcançar meu indefeso filho. Thiago se virou em minha direção. Não moveu os lábios, mas ouvi claramente sua voz clamar por mim dentro da minha cabeça, como se sempre estivesse lá. Ele gritava por socorro. O homem bestial ergueu os braços. Suas mãos grossas, os dedos enormes e muito finos desceram sobre Thiago, tomando-o para si.
Acordei gritando. Meu coração batia acelerado. Estava encharcada de suor e muito cansada. Demorou um pouco para que eu percebesse que fora apenas um pesadelo, mas o medo de que Thiago estivesse em perigo era maior do que a razão. Cismei durante algumas horas sobre o significado do sonho, tentando entender o que aquelas imagens poderiam simbolizar, mas, como se alguém sussurrasse baixinho em meu ouvido, tive certeza de que havia algo mais. Não era possível que imagens tão claras e apavorantes se formassem em minha cabeça apenas por saudade ou culpa pelo que Ricardo fizera. A voz em minha cabeça continuava me dizendo que ele estava em perigo, que todos nós estávamos em perigo. Mas o que eu poderia fazer? Rezar adiantaria alguma coisa para salvá-lo? Creio que não, se Deus realmente se importasse, não deixaria que algum mal acontecesse ao meu pequeno anjo.
Resolvi não contar nada a Ricardo. Ele estava tão perturbado com seus segredos que se eu falar de minhas suspeitas, ele dirá que estou louca. Achei por bem manter os meus sonhos apenas comigo, eu procurarei entendê-los e resolvê-los sozinha.
À noite, quando ele chegou, estava diferente. Não falava muito, apenas resmungava sozinho, sentado diante da tevê. Insisti para que ele me dissesse por que queria destruir o quarto e as lembranças, mas, somente por tocar no assunto, Ricardo se enfureceu e voltou para a rua. Algo o perturbava, algo envolvendo nosso filho. Mas Ricardo é incapaz de dividir seus pensamentos com alguém. Ele se cerca, isolando seus sentimentos de forma que somente ele os conhece. Tudo seria mais fácil se conversássemos como pessoas normais, se nós dividíssemos os problemas como um casal.
Não o vi voltar para casa. Estava novamente presa aos meus pesadelos, sempre presa num vendaval, enquanto Thiago gritava por socorro. Desta vez ele estava apavorado, sem sombra de alegria ou calma. Seus olhinhos infantis me fitavam como se dissessem “Mamãe, por que você não me ajuda” e eu, uma inútil, assistindo ao seu sofrimento.
Sinto que estou enlouquecendo!
 
02 de julho de 2005
 
            Ricardo está cada vez mais ausente, tanto física quanto mentalmente, de minha vida. Não conversamos mais, não discutimos mais, apenas nos ignoramos todos os dias como se fôssemos estranhos dividindo o mesmo teto. A situação entre nós é muito desagradável e, a cada dia, acredito que ele realmente tem outra.
           
05 de julho de 2005
           
            Não é mais suspeita, meu marido tem uma amante. Ontem, depois que ele se deitou para dormir, cheirei sua camisa e senti um cheiro adocicado de perfume feminino impregnado em sua roupa como nem mesmo o meu ficava nos melhores tempos do nosso casamento. Pensei que morreria de ciúme, mas fui forte o suficiente para não demonstrá-lo. Eu não poderia estragar o plano que se fez em minha cabeça imediatamente por um acesso furioso de moral. Não iria me humilhar, para que ele pensasse que pode me ferir ainda mais do que já estou.
            Hoje pela manhã, fui ao trabalho e pedi uma licença sem vencimento. Depois do acidente, mergulhei no trabalho para ocupar a mente, ignorando feriados e férias, portanto poderia ficar alguns meses afastada do escritório, sem que prejudicasse o andamento do serviço. É claro que minha gerente protestou, mas não havia muito a fazer. Disse a verdade sobre meu estado psicológico e ela se apiedou de mim, liberando-me como previ. Marlene pode ter inúmeros defeitos, mas é uma mãe amorosa e se pôs em meu lugar.
            Assim que sai da empresa, segui com meu plano. Estacionei meu carro perto da saída do prédio onde Ricardo trabalha e esperei pacientemente que ele fosse se encontrar com a outra. Queria vê-la, saber com quem meu marido se divertia, apagando de sua vida Thiago e eu. É triste aceitar, mas essa é a verdade.
            Fiquei horas sentada no carro, olhando atentamente para a saída da garagem. Cansada, com sede e faminta, eu esperei. Quando estava prestes a desistir e me recolher a minha insignificância, Ricardo apareceu na guarita. O portão se abriu e ele, sem me notar ali, saiu normalmente seguindo sua rotina. Pegou a direção oposta a de nossa casa, até parar no estacionamento de uma loja de bebidas. Permaneci a uma distância segura, mas pude vê-lo pela vitrine. Sorrindo para o vendedor, pegou uma garrafa de vinho, pagou-a e saiu mecanicamente como se já tivesse feito aquele ritual inúmeras vezes. Entrou novamente no carro e continuou dirigindo sem perceber que eu o seguia como um policial a um suspeito.
            Parou em frente a uma bela casa, num bairro muito calmo, parecia um condomínio sem taxas ou seguranças. Mal desligou o motor e a porta da frente se abriu. Uma mulher mais jovem do que eu, devia ter no máximo vinte cinco anos, saiu de braços abertos para ele. Seu sorriso jovial me deixou louca, quis sair em disparada, mas fiquei. Precisa ver com meus próprios olhos o que aconteceria, se ele, pelo menos, se precaveria de comentários ou se o caso já era público. Abraçaram-se em frente à porta e, ali mesmo, sem se importar com a aliança em seu dedo, Ricardo a beijou apaixonadamente.
            Meu sangue ferveu. O ódio subiu-me à cabeça e tive vontade de entrar pelo pequeno jardim na entrada da casa com o carro, atropelando-os friamente, mas detive o meu impulso. Ainda não estava satisfeita, precisava ver mais, saber o que os dois fariam.
            Esperei alguns minutos e me esgueirei em volta da casa, logo que a noite caiu, felizmente não durou muito para isso, mas estava havia tanto tempo o vigiando que poderia ficar a noite inteira esperando pelo momento de lhe dar o flagra. Como não tinha ninguém por perto, segui em frente. Andando devagar, fui acompanhando as luzes acessas. Discretamente, postei-me à janela e olhei para dentro. Que ódio! Os dois se beijavam ardentemente, as mãos subiam e desciam, arrancando as roupas com rapidez.
            Não quis mais ver aquela safadeza. Eu tremia inteira, minhas pernas bambearam e pensei que fosse cair. Cambaleando, voltei ao carro, mas não pude fugir dali, como eu queria.. Não consegui ligar o motor e desaparecer pelo mundo sem deixar pistas. Chorei, sentindo-me a pior das mulheres, um objeto velho deixado de lado, trocado por um brinquedo novo. Pensava na cena vista havia pouco e uma sensação nauseante me enfraquecia. Meu estômago revolveu-se, mas não havia nada para vomitar. Tudo escureceu ao meu redor e desmaiei por alguns instantes, que me pareceram eternos.
            Ouvi pancadas no vidro. Acordei assustada. Abri os olhos, pensando que Ricardo tinha me descoberto ali, espionando sua outra vida conjugal, e meu coração por pouco não explodiu de espanto. Thiago batia no vidro da porta com sua delicada mão, como se quisesse que eu o deixasse entrar rapidamente. Seus olhos estavam apavorados, o suor escorria em seu rosto, enquanto ofegava vacilante.
            Eu estava atônita, imóvel mais de espanto do que medo. Ignorei a realidade de sua morte, lançando-me ao seu encontro. Agarrei-o fortemente, prometendo nunca mais soltá-lo. Era um sonho? Não sei, mas a ternura daquele momento, a alegria que tive em poder senti-lo em meus braços foi mais forte do que a sanidade. Beijava seu rosto várias vezes, repetindo “Você voltou, meu anjo! Você voltou para a mamãe!”.
            Não percebi o que acontecia, até que ele disse ao meu ouvido:
            — Mamãe, por favor, me ajude. Ele está chegando!
            A tensão em sua voz me deixou apavorada. Thiago tremia, enquanto me empurrava de novo para o carro. Eu não conseguia compreender o que ele queria. Perguntei quem estava chegando e ele me respondeu com pavor, como se apenas pronunciar o nome de seu medo fosse trazê-lo mais depressa.
— O Homem dos Olhos de Fogo!
Imediatamente as lembranças de meus sonhos me acordaram para o pesadelo. O homem que via persegui-lo, enquanto eu estava presa, sem que pudesse ajudá-lo. Realmente existia tal ser cruel ao ponto de amedrontar uma criança.
Puxei-o para dentro e, como louca, acelerei o carro, tentando acalmá-lo, mas era ele quem me acalmava.
Dirigi sem saber para onde ir. Apenas corria pela estrada tentando me distanciar o mais rápido possível de onde o encontrei. Não deixaria que me tirassem meu filho de novo, enfrentaria o próprio demônio para ter Thiago de volta, para que ele fosse feliz.
Estávamos em um ponto desconhecido da estrada, árvores cercavam a pista formando um túnel muito escuro. Não havia outros carros, somente o farol constante do meu, iluminando o caminho à frente; fora ele, somente a escuridão angustiante, quase fantasmagórica penetrava pelo vidro, nos tomando para si. Apesar do medo que crescia a cada vez que Thiago me erguia os olhos, eu tinha motivos para esquecer tudo, pois ao meu lado, a minha vida renascia. Não me importava se era um prelúdio para a morte, se ele viera do mundo dos mortos para me levar com ele. Eu iria feliz.
Um brilho estranho surgiu no retrovisor central como se um farol alto me cegasse de tal forma que não podia ver direito a pista sinuosa. O incômodo repentino fez com que eu o virasse, tirando dos meus olhos o reflexo impetuoso, enquanto procurava nos manter seguros.
Nunca senti tanto pavor em minha vida. Ao deslocar o espelho, a imagem tornou-se nítida. Havia mais alguém no carro. Alguém sentado no banco traseiro me observava fugir como louca dele mesmo. Fiquei petrificada, não conseguia mover os músculos, tampouco manter a direção. O carro saiu da mão correta e se chocou contra a guia de proteção oposta, provocando um som angustiante de metal sendo arranhado. Recobrei-me do susto, lançando o olhar tenso para Thiago, sentado ao meu lado com uma expressão de derrota.
— Ele pegou a gente, mamãe — disse meu filho antes que eu pudesse me controlar.
Voltei os olhos para o espelho, tensa como uma menina que faz algo errado e aguarda o corretivo dos pais, sabendo que a reprimenda será dolorosa. O homem dos olhos flamejantes erguia os braços em minha direção numa rapidez incompreensível. Tentei afastar-me, desencostando o corpo do banco, mas isso não foi eficaz contra aqueles longos e tenebrosos braços maléficos. Uma dor descomunal invadiu-me o corpo, parecia terem fincado um punhal entre meus músculos. A dor me fez esquecer do volante, esquecer da sinistra figura atrás de mim; queria apenas acordar, fazer parar aquele estranho sonho neurótico, mas a laceração intensificava, parecia se mover dentro do meu corpo, repuxando minha carne. A blusa se encharcava de sangue, molhando todo o lado direito das minhas costas, causando o verdadeiro desespero. Ele tinha as mãos cravadas em minha pele; tinha a perfurado com as unhas afiadas como um punhal sanguinário. Em pouco tempo estaria morta.
Não podia sucumbir àquela força sinistra, precisava resistir, não por mim, mas por Thiago. Eu sou sua mãe e é meu dever zelar por sua segurança, mesmo sabendo que ele não mais circula entre os vivos. De uma forma ou de outra, eu precisava ajudá-lo a fugir, ajudá-lo a caminhar para o lugar sereno onde pensei que ele tinha estado durante todos os anos depois da sua morte. Era minha obrigação intervir naquela loucura e guiar meu anjo para a luz, embora só visse escuridão em meu caminho.
As árvores fechavam o túnel, cercando toda a estrada com troncos enormes e sombrios. O carro batia contra as amuradas, indo de um lado ao outro, chacoalhando-nos ali dentro como um brinquedo dentro de uma caixa. Embora estivéssemos à beira de uma capotagem, não conseguia reduzir a velocidade, meus pés estavam presos no acelerador como se fossem feitos de chumbo, pesando duzentos quilos de força. Mais uma fisgada nos músculos e consegui virar o volante, mas o movimento foi excessivamente brusco, fazendo com que eu perdesse definitivamente o controle. Estávamos na mão do destino. Se ele me quisesse morta naquela hora, não estaria aqui desabafando para um diário.
Estupidamente, pisei no freio com violência e as rodas travaram, provocando um giro de cento e oitenta graus sobre seu eixo. Deslizando com velocidade, chocamos contra a guia, finalmente parando. Temerosamente, olhei para trás a fim de me certificar de que ele não mais estava conosco. A dor tinha passado, apesar do sangue esquentando minha pele. Uma sensação de alívio me reconfortou quando vi o banco vazio. Ele desaparecera, assim como Thiago, instantaneamente após a batida.
            Meu coração apertou, sentindo a maior ausência, a falta irreparável, a saudade mortal. Ofegava muito, sem intervalos entre a respiração. Senti-me tonta, sem forças, sem vontades.
            Desmaiei novamente.
            Quando voltei a mim, com a mente embaralhada e difusa, pensei no pesadelo que tive me rasgar o corpo e dilacerar meu coração. Completamente atordoada pela realidade das imagens oníricas, tentava desesperadamente me manter lúcida, mesmo confusa com as sensações que o sonho tinha me despertado. Ainda havia o problema de Ricardo para resolver e, com meus constantes desmaios, temia que ele tivesse saído sem que eu o surpreendesse, acabando, por fim, com seu segredo. Uma ponta de ódio crescia em mim, misturada a um forte sentimento de frustração.
            Como estava muito escuro, não pude ver nada além dos vidros. Estranhamente, no meio de minha alucinação, pareceu-me que a energia elétrica havia caído, mergulhando o bairro inteiro em trevas. Forcei-me para abrir a porta, mas uma dor terrível em meu ombro direito me fez gritar. Levei a mão para onde a dor era mais forte e senti, na ponta dos dedos, algo viscoso encharcando minha blusa. Com medo, acendi a luz interna e fiquei muda. Minha mão estava repleta de sangue; meu próprio sangue. Tateei com cuidado a pele e uma dor aguda me fez vacilar quando senti corte profundo.
            Não foi um pesadelo. Aquele homem estivera ali, realmente tinha perfurado minha pele, tentando me fazer sofrer. Ele esteve perto de me matar, levar-me para as profundezas do desconhecido. E se ele se fez presente, Thiago também tinha estado. Mas como?
            Com medo, levei o olhar para fora do carro. Não via com nitidez, apenas a escuridão me envolvendo completamente. Forcei a porta, ignorando a dor nauseante. Com dificuldade ela se abriu e me pus para fora. Não sei ao certo no que pensava, se devia ou não bater à porta da amante do meu marido e chamar por ele. Precisava de alguém para me ajudar a compreender que certas coisas que se evitam comentar existem e podem interferir em nossas vidas. Seria eu louca o suficiente para tanto?
Não foi preciso cometer a loucura. Ao lado do carro, segui o facho luminoso do farol, temerária, com os olhos até focar o nada. Nem mesmo eu acreditei que estava parada na beirada da estrada, mas estava! Os amassados e arranhões na lateral me comprovaram que verdadeiramente raspei as guias com o carro, vindo parar no acostamento depois da derrapagem.
Nada foi um sonho, tudo foi real e as conseqüências me comprovaram isso.
Voltei para casa, depois de sofrer para fazer o motor funcionar. Era muito tarde quando, esgotada, parei na garagem. Arrastei-me com dificuldade para dentro e, para minha surpresa, Ricardo me esperava com um ar preocupado e ao mesmo tempo raivoso.
            Debilitada, esqueci por alguns instantes que o vira com outra mulher, precisava lhe contar o que tinha me acontecido naquela noite, enquanto o esperava deixar os braços da amante. Era uma necessidade humana tão importante quanto o ato de respirar. Eu precisava compartilhar meu sofrimento com ele e rezar para que me compreendesse, para que acreditasse em mim. Portanto, antes que ele me interrompesse, comecei a lhe narrar os estranhos sonhos que me atormentavam consecutivamente havia algumas semanas. Ele parecia não se importar com meu tormento e, a cada vez que falava de Thiago me visitando nos sonhos, ele abaixava a cabeça e rodeava a sala, incomodado com minhas palavras. Ainda não havia chegado aos episódios recentes, quando ele me confessou que também sonhava com nosso filho, mas diferente de minha reação, Ricardo se impacientava com os sonhos, não admitindo que também sofresse. Finalmente entendi o porquê da destruição do quarto, de não pronunciar o nome de Thiago. Afinal, ele também tinha aparecido nos sonhos do pai para pedir ajuda, mas este se negou a socorrê-lo, desejando apagá-lo definitivamente das lembranças.
            Protestei, mostrando meus ombros feridos e exigindo uma explicação plausível para aquilo. Ele não me deu, apenas me insultou. Fui obrigada a pô-lo contra a parede e revelar que eu sabia da sua vida dupla.
            Contei a ele tudo o fiz. Tudo o que tinha feito desde que ele saíra de casa naquela manhã. Enquanto dizia minuciosamente as cenas de sexo entre ele e aquela jovem, Ricardo se enfurecia, fazendo os olhos saltarem das órbitas. Numa atitude covarde de defesa, acusou-me de tê-lo motivado a procurar o prazer em outra mulher, já que eu não o satisfazia sexualmente. Que só por olhar para mim, sentia a raiva crescer dentro de si como um vulcão prestes a explodir, destruindo tudo com a fúria de sua lava.
            Discutíamos com ferocidade. Os insultos eram terríveis e provocavam ainda mais discórdia entre nós. Infelizmente, não posso me isentar de culpa, tinha minha parcela nas suas ações. Inconscientemente eu tinha afastado meu marido, mas ele tinha que compreender meu sofrimento; ele tinha que me ajudar a superar a tristeza que se alojara em nossas vidas. Mas ele nada fez, afastou-se gradativamente até que nos tornamos estranhos sob o mesmo teto. Era mesmo o fim do nosso casamento.
            Antes de terminarmos a briga, fomos obrigados a interrompê-la. Alguém batia na porta da frente com força e desespero. Ricardo me deu as costas e foi atender. Ouvi, da sala, o fraco rangido da porta e depois silêncio. Achando estranho, caminhei furtivamente para o umbral da porta e, como Ricardo, estanquei de pavor, numa confusão mental.
Thiago estava parado à porta.
            Meu coração acelerou, parecendo que saltaria pela boca. As pernas tremeram como se fossem varas numa ventania. Não por vê-lo ali, diante de nós dois, com uma expressão de medo angustiante, mas porque atrás dele, o brilho incandescente dos olhos do homem bestial se aproximava rapidamente. Corri para a porta, empurrando Ricardo no chão e abraçando Thiago. Gritei para que Ricardo a fechasse, enquanto corria de volta para a sala, carregando meu filho no colo.
            Pancadas violentas estalavam a madeira, enquanto meu marido tentava mantê-la no lugar. Não via, mas o ouvia lutar contra aquele homem sinistro. As batidas cessaram. Ricardo voltou. Sua expressão era de assombro. Não acreditava no que tinha acontecido. Disse que estava ficando louco. Quando se deparou comigo, agachada ao lado do sofá, estremeceu. Gritando visceralmente, repetia inúmeras vezes “Você está morto”, apontando para Thiago, que tremia em meu colo.
            Thiago se ergueu. Seu corpinho frágil parado diante de nós dois era algo incompreensível. Dirigiu-se ao pai, implorando para protegê-lo daquele homem que tanto o perseguia. Ricardo gritou asperamente, enquanto se afastava, caminhando de costas, sem desviar os olhos do filho, que não existia homem nenhum, que ele próprio era fruto da sua imaginação; que nada daquilo era real. Mas não negou por muito mais tempo. Mal se encostou à janela e o vidro estilhaçou bruscamente. A mão mortal do estranho segurou-o pelo pescoço, cravando suas enormes unhas em sua pele. O sangue escorria por entre seus dedos brancos, pingando sobre o corpo de Ricardo.
            Thiago correu para minhas pernas, agarrando-se fortemente, como se nada o pudesse retirar dali.
            Num movimento brusco, Ricardo desvencilhou-se, emitindo um grito de dor, quando um pedaço de sua pele se rasgou nas mãos daquele ser cruel. Não teve tempo para nos defender, logo caiu agonizando, enquanto as mãos nervosas do invasor do inferno dilaceravam seu corpo com facilidade.
            Olhou para mim. O brilho sinistro de seus olhos me enlouquecia. Não havia mais nada a fazer. Eu, fraca e pobre de espírito, não podia sequer rezar para que alguma força Divina intercedesse ao nosso favor. Tentei defender Thiago, não importando o que acontecesse comigo. Meu filho era a prioridade, se eu também morresse não faria diferença, pois já perdi tudo o que me motivava para viver. Era o fim.
            Fui jogada contra a parede por uma força invisível. Tentei levantar-me imediatamente, mas meus membros estavam presos a amarras invisíveis. Meus braços abriram bruscamente como se estivessem puxando-os contra minha vontade, minhas pernas se juntaram com violência, enquanto meu corpo era erguido no ar, formando uma espécie de cruz viva. Meus esforços eram ineficazes, embora despendesse uma força que jamais imaginei ter para me soltar. Tornei-me uma expectadora da cena de terror em minha frente.
            Thiago encarava o homem maligno. Não se mexia, apesar dos meus gritos neuróticos para que ele fugisse, precipitando-se pela porta dos fundos. Foi em vão. Ele olhava a figura da maldade caminhar em sua direção como se estivesse hipnotizado, imóvel, à espera do fim tanto evitado.
            As mãos pálidas desceram sobre seu ombro delicado. Ele me lançou um último olhar cheio de ternura e amor. Meus olhos lacrimejaram de agonia e tristeza. Tentei novamente quebrar as amarras invisíveis, mas não adiantou. Sinto muito, querido — eu disse, ao vê-lo pela última vez.
            O casaco negro encobriu-o, fazendo-o desaparecer dentro daquele demônio. Ele virou a cabeça lentamente para mim, fazendo arder ainda mais intensamente as chamas em seus olhos. Forçando um sorriso macabro no canto da boca, desapareceu em seguida, como se nunca antes estivesse ali.
            Despenquei do alto da parede, caindo inconsciente.
 
20 de setembro de 2007
 
            O advogado me visitou ontem. Disse que tentaria novamente alegar insanidade temporária pelo assassinato do meu marido. Ele afirma que eu tinha motivos suficientes para perder a razão. A morte do meu filho e o caso do meu marido com outra mulher fizeram com que eu perdesse a noção da realidade, fantasiando uma criatura infernal para me punir.
            Não faz diferença ficar neste hospital psiquiátrico ou na prisão eternamente. Sei o que aconteceu naquela noite, sei que não fui eu quem rasgou meu marido com as próprias mãos, embora os legistas afirmem que sob minhas unhas havia fragmentos da pele do Ricardo. Somente eu sei quem foi o verdadeiro assassino, apesar de insistir tantas vezes em falar a verdade para o júri.
Não me importo com a resolução, afinal não faz diferença o lugar em que eu esteja, pois todas as noites eu o vejo rondar minha cama com seus olhos flamejantes ardendo sem cessar.

in: Pesadelos, contos de horror e medo

Alberto da Cruz
Enviado por Alberto da Cruz em 02/07/2006
Reeditado em 08/01/2010
Código do texto: T185978

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Sobre o autor
Alberto da Cruz
Angra dos Reis - Rio de Janeiro - Brasil, 35 anos
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