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SEGUNDAS NOITES

                   

Era apenas uma noite de domingo, o inicio de uma semana, o fim de mais uma frustrante corrida para Dominique e seus amigos comparsas de festas.
Mais um dia qualquer na lista de gente comum aos dezoito procurando uma diversão em qualquer canto de uma cidade no México. Ao menos esta seria  diferente, a sorte talvez fosse retribuir alguns anos de bagunça e farras que os rapazes tanto buscavam pelos seus destinos, uma noite inesquecível!
Por volta da uma da manhã, Dominique e seus dois amigos saiam de uma festa na casa de um tal primo seu, Roberto e Carlos estavam muito bêbados, não conseguiam nem enxergar seus pés ao entrar no carro. Dominique, um pouco melhor os ajudou a entrar, o caminho de volta até suas casas era longo, iriam demorar umas três ou quatro horas. Mas mesmo assim, não demoraram e logo pegavam a alta estrada.
Dominique sentia seus olhos se abrirem e se fecharem por várias vezes, até que ao acordar em uma piscada, seu carro atravessara a pista e quase entrava em baixo de um caminhão. Todos neste instante acordaram e ficaram de olhos bem abertos, mas seus esforços não seriam suficientes, o sono era mais forte, e ainda não haviam andado nem um terço do caminho.
Carlos, que estava no banco da frente, arregalou seus olhos e avistou logo à frente uma placa, indicando que mais a uns quinhentos metros havia um hotel. O estranho era que nunca ouviu falar de um hotel por aquelas redondezas, principalmente um que se chamava:Eterno sono. Era uma estrada deserta, que quase todos se preveniam em abastecer seus carros, pois ficar sem combustível naquela região era ter que apanhar um guincho.
As luzes estavam acesas, uma placa iluminava o letreiro que dizia: “há vagas!”
Roberto que era o mais novo observou uma concentração de pessoas do lado de dentro, e reparou que haviam apenas dois carros empoeirados no estacionamento. Foi então que Dominique encostou o carro e desceu. Todos se dirigiram para o bar aberto, um susto quando entraram, repararam que não havia pessoas dentro do estabelecimento, mas que na verdade era apenas uma espécie de fantoches de papelão sentados e outros em pé encostados no balcão. Carlos se dirigiu até o balcão e olhou atentamente dezenas de recortes de jornais, um lhe chamou a atenção, o desaparecimento de três jovens da região que a muito teriam sumido sem explicações e exatamente quando retornavam por aquela estrada.
Um frio subiu-lhes a barriga, todos os três se ficaram espantados e sem palavras, quando de repente a porta do bar bateu com uma força estrondosa, uma tempestade de poeira tomou conta da estrada e em seguida o tempo começou a se fechar, uma provável tempestade estava se formando. Para o espanto de todos, ali era um deserto, e não era época de chuvas!
Dominique pegou uma das chaves no gancho, afinal, por tudo estar iluminado, bebidas nos copos e músicas na vitrola, pensaram que logo alguém fosse aparecer e explicar tudo. Quando começaram a sair, repararam uma frase entalhada acima da porta, era uma mensagem estranha que dizia: “aqui jaz, mais aventureiros de seus pecados passados, pagarão eternamente por eles!”
Roberto ficou apavorado, pediu que fossem embora dali naquele instante, começou a se desesperar e questionar tudo, parecia enxergar algo que os outros não viam. Carlos olhou para Roberto e pediu calma, dizendo que ninguém faria mal algum, e que nada estava acontecendo, apenas um provável “chamar a atenção”, e que nada aconteceria, seria apenas um hotel, uma noite de descanso e mais nada.
Então, os três direcionaram-se para o quarto. Havia quatro deles, sendo que um deles estava com a  porta entre aberta, e uma luz vinda do pequeno abajur sob a cômoda.
O cansaço era imenso, nas duas camas ficaram Dominique e Carlos, Roberto dirigiu-se ao bar, procurando algo para beber, seu sono havia passado, e a chuva caia como se fosse inundar toda a estrada. Ao abrir a porta, Roberto reparou um ruído ao lado, como se algo arranhasse a mobília com as unhas bem de leve. Ele saiu de seu quarto e colocou o ouvido na parede que dava ao lado, lá de dentro um cochicho, parecendo alguém conversando em voz baixa com outra pessoa. Ele correu ao seu quarto e chamou por Carlos, que já deitado não conseguiu nem escutar o que ele dizia.
Fechou a porta e decidiu retomar seu caminho ao bar. Quando entrou, reparou que a música havia terminado, e sob o balcão havia uma garrafa de tequila, bebida que por aqueles lados era uma preciosidade. Serviu-lhe um copo com direito a uma outra profunda repetição. Talvez para acalmar seus ânimos.
De repente, uma batida, poderia ser o vento, mas não, algo batera aquela porta com toda a força, um vento passou-lhe pelas costas, novamente o frio voltou pela sua espinha. Ele tornou a se sentar no banco e tomou mais uma dose, quando de repente, alguém lhe tocou bem nos ombros, não era mais um frio, era medo! Virou-se como alguém que desconfia até da própria alma. Bem a sua frente uma mulher, toda de branco e com os olhos cheios de lágrimas que escorriam até seu pescoço, uma pele mais branca que a neve, e um frio vindo de seu corpo que até o calor humano congelaria em seus braços.
Não havia o que pensar, simplesmente ele correu para trás de uma mesa de bilhar, a mulher estendeu sua mão e pediu-lhe para que saísse naquele momento dali, ela dizia que não era seguro, que tudo aquilo não era real, e alguém viria pegar seus pecados e segredos em breve.
Roberto ficou confuso, começou a perguntar o que ela queria dizer com aquilo tudo,tentou até dizer a ela que precisava de um médico, e poderia ajudá-la se quisesse, mas ela insistia em lhe pedir que fosse embora, pois seus amigos já haviam adormecido nas sombras da noite. Ela mencionou sobre atravessar a tempestade para acordar no mundo real.
Mas, quando ela fitou os olhos sob o balcão, percebeu que Roberto havia tomado da bebida, então ela disse que já era tarde, pois sua própria condenação havia descido por seus goles, e naquele instante o único modo de fugir seria cometer um sacrifício!
Ele começou a sair e a chamar a mulher de louca, correu, correu mais que o vento em direção ao quarto. Escancarou a porta e quando entrou fechou os olhos e agradeceu por estar ali com seus amigos. Dominique estava ainda dormindo, e Carlos havia sumido, não estava no banheiro e nem lá fora.
Correu-lhe pela cabeça voltar ao bar para procurá-lo, mas o medo era mais forte, tentou acordar Dominique e a sacudi-lo, de nada adiantou.
A tempestade se intensificou, era difícil até para ver o que acontecia lá fora, os ruídos recomeçaram e seus ouvidos se aguçavam, pensou em pegar as chaves e levar Dominique arrastando-o, mas deveria esperar por Carlos, nunca abandonaria um amigo aquelas alturas. O estranho era que neste momento o trinco começou a mexer, como se alguém quisesse entrar, mas ninguém fazia nem sequer uma sombra na porta de vidro.
Quando os barulhos pararam, Roberto se dirigiu até a porta, ele foi tomado por um espanto maior ainda, Carlos passou como um raio bem à frente da janela, parecia que nem mesmo seus pés tocavam o chão. Ele tornou a olhar e nada, pensou ser um equivoco, mas ao começar a se retirar, ouviu Carlos dar uns gritos aterrorizadores, fazendo que ele olha-se novamente pela janela. Por vezes viu seu amigo no meio da noite e da chuva desfilando rasgado e branco, flutuando e sumindo de repente.
Ao virar-se, voltando seus olhos para Dominique, o viu bem disposto em pé. Foi então que lhe deu um forte abraço e agradeceu por estar acordado, mas Dominique não o retornou da mesma forma, ele apenas ficou ali parado e sem dizer nada, uma estátua.
Os passos de Roberto começaram a rodear seu amigo, sem tirar seus olhos que atentos fixavam a imagem de Dominique que o acompanhava também. Ele reparou que algumas gotas de sangue caiam de trás de sua cabeça, escoando até o chão em uma pequena poça. As perguntas começaram a lhe correr a cabeça, o medo dominava seus pensamentos, algo estava errado, muito errado, e nada estava ao seu controle.
Naquele instante sua curiosidade invadiu o medo e de repente viu-se pulando por trás de Dominique, ao ver seu crânio aberto como se uma mão lhe tivesse arrancado os miolos, saiu correndo para fora, com as chaves do carro já em sua mão, tentava desesperadamente abrir o veículo. Ao entrar, percebeu que o carro não dava sequer sinal de vida, e percebeu também algo se aproximando em multidão do veiculo.
O desespero era tamanho, saiu cambaleando de volta ao bar, e se fechou em um canto junto das garrafas de tequila. As luzes se apagaram, estava escuro, não dava para ver nada, tudo se tornara escuridão, apenas os vultos dos fantoches tomavam forma, uma ali e outra aqui, como pessoas o observando, como assassinos querendo um pedaço seu.
Um vulto ainda maior se aproximou da porta, como se fosse adentrar no bar. Roberto deu salto em direção à parede e agarrou uma faca caída no chão, as luzes começaram a piscar, ele olhou para a faca e percebeu uma certa quantidade de sangue, como se não bastasse, a luz voltou a se apagar.
Seria inevitável, o vulto começou a tomar forma, parecia uma criatura terrível, um monstro ou qualquer coisa asquerosa e cheia de vísceras lhe cobrindo o corpo. A porta  não foi obstáculo, a coisa atravessou-lhe sem fazer esforço, bem à frente, Dominique e Carlos, com seus corpos muito destroçados estendiam as mãos e pediam socorro. Roberto correu atravessando a criatura e partiu em direção à estrada, não dava para ver nada, estava muito escuro, a chuva caia sem pena. O pior de tudo foi quando seus pés tocaram a estrada, não havia sequer um pedaço de asfalto no chão, tudo começou a desaparecer e a única solução era voltar para o quarto e se trancar lá dentro,
Tomou a direção e entrou, deitando na cama, Roberto começou a chorar e a gritar, quando viu que a criatura o encontrara com seus amigos, que mais na verdade se transformaram também. Lembrou-se da faca que deixara ao lado, na cômoda. Rapidamente, cerrou os dois que se aproximavam e disparou para cima da criatura, seu medo transformara-se em adrenalina, esfaqueava sem misericórdia o monstro, que ao terminar reparou que não era mais uma aberração, mas era o semblante de seus amigos.
A chuva parou, o silêncio voltou a reinar, Roberto percebeu que acabara de acordar em sua cela, dentro de quatro paredes tão pequenas que chegavam a sufocá-lo. Não era apenas uma simples prisão, mas uma solitária, com a mais rígida segurança que um governo poderia aprisionar um homem. Principalmente o caso de Roberto, um assassino que matou seus próprios amigos, tendo de conviver eternamente com essa sina, pagando o tempo que lhe cabia na prisão, e a eternidade dentro de uma ilusão, na qual nunca mais poderia se libertar, e o pior, estando sozinho!

          Autor: Danilo Padovan

Daykon
Enviado por Daykon em 18/07/2006
Código do texto: T196565
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