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E O SOL IA ENTRANDO...



     


     Marina, menina séria, fervorosa, encarregada de cuidar da ornamentação da Igreja.
     Era tempo de festa...encantada, emocionava-se ao ver tudo pronto.Debruçada em cima do Altar, olhar divagando pelo nada, em seu rosto uma tênue lágrima:
    - Meu Deus! Que maravilha, como você é maravilhoso; como é bom você existir.
    - Pensava Marina, enquanto degustava o cheiro inebriante das rosas colhidas em seu jardim e colocadas nos vasos da capela.Há mais ou menos um ano perdera a mãe e dois irmãos em um trágico acidente de carro, estavam voltando de férias. O Pai, embriagado, correndo como louco, os jogara embaixo de um caminhão. Só restou pedaços ...
     - Marina, Marina, hei menina, o que há com você? há um tempão estou te chamando e você não me ouve. Vem, vem com a gente, vamos ... Por favor ouça-me.
     - Nada, a menina absorta estava, assim continuou.
      -O bimbalhar do sino? Os fiéis vão chegar pra Missa.Puxa vida,não vi as horas passarem
        Correu em casa, trocou-se e voltou para participar da Celebração Eucarística.Chega ainda em tempo de fazer o sinal da Cruz. O Padre estava iniciando a Santa Missa.
      -Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Irmãos, a vida é infinitamente bela; veja o sol, as estrelas, a lua, veja tudo ao seu redor.Já pensou o quanto  é útil as mãos, as pernas, os pés? Já parou um minuto para apreciar uma rosa? Na ázafama diária, não prestamos a tenção nos pequenos detalhes.Deus está presente nas pequeninas coisas.Deus está ao lado dos filhos que ele levou para junto de ti.
      - Marina, Marina, ouça-me, por favor. - Marina nada ouvia;e a voz continuava...Quando olha para trás, vê em um banco, uma triste figura.Encabulada, rezava e olhava, rezava e olhava;enfurecia consigo mesma, afinal era feio ficar encarando rosto alheio.
          Mês de agosto,aproximava a primavera, estação preferida pelo pipocar das flores.
      – Quando minha roseira vermelha florir...enquanto durar a primavera...vou regar as roseiras todos os dias para exalar o perfume que mamãe tanto gostava.Por que você foi embora? Agora que estou terminando o segundo grau, vou pra faculdade... Lembra que conversávamos sobre qual curso eu ia fazer? Você falava:faz esse, faz aquele, e, eu dizia: não cobre tanto, na hora exata eu decido.Hoje, já decidida, queria você aqui. Sabe o que escolhi? Justamente o que você queria: Medicina. Quero ser médica de verdade, não quero me gabar da profissão, quero humildade e capacidade de salvar vidas, sem sentir-me Deus, quero sentir a presença dele, não tentar estar no lugar dele.
  - Novamente Marina perdeu a hora, divagando em pensamentos; - Xi, já está vazia a capela.Onde foram todos?
  - Quando olha pra trás, continua no banco o jovem triste.Com receio de incomodar, mas curiosa, como sempre fora, aproxima. – Boa noite, de onde você é? – O jovem já com o rosto coberto pelas mãos, chora compulsivamente. – Por favor, fale comigo, não fique assim.
   - Marina, Marina.  – Desta vez ela ouve; vira para trás e vê um rosto ensangüentado , assustada, grita feito louca. Sua imagem de menina , apesar dos 18 anos, parecia agora transfigurada.Gritava por socorro; ninguém a ouvia.
 – Deus tenha piedade.
   -Desmaiou-se. Passara a noite,todos foram embora, só ela ficara, era a responsável pela Capela, só ela fechava as portas e guardava a chave.Marina acordou, olhou ao seu redor: Uma grama muito verde, muitas rosas, muitos pássaros sobrevoavam .
    – onde estou?
    -Você está aqui conosco filha, há muito tento lhe chamar à realidade e você não me ouve. Veja: seu irmão, seu Pai e eu, estamos do seu lado, estamos com você. – Pai? É você? O que houve com seu rosto? Mãe, e você mãe, cadê o resto de seu corpo, suas pernas? Mano? Mano? Que tristeza em seu olhar, o que há com você? Onde estamos?  - passou a mão pelos cabelos e sentiu que algo estranho acontecia.
       Tudo aconteceu numa madrugada fria.Enquanto o carro desgovernado, dava uma, duas, três cambalhotas,e parava embaixo do caminhão; Marina via, em sua memória, sua vida passar como num filme, tentava entender o ocorrido, mas na aflição não assimilava nada. Tudo um verdadeiro enigma. Sua trajetória estava naquela fração de segundo,castrada, seus sonhos decapitados, sua vida ...
    Fim do dia, e o sol ia entrando...

Fatima Paraguassú
Enviado por Fatima Paraguassú em 19/07/2006
Código do texto: T197569
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Sobre a autora
Fatima Paraguassú
Goiânia - Goiás - Brasil
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Fatima Paraguassú