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Gato-mia

-Onde você está agora, Cristina?
Era o que dizia Lurdes à sua paciente em mais uma sessão de regressão. Com os olhos fechados, Cristina falava o que diversas vezes já havia dito:
- Meu quarto, na minha antiga casa.
-Descreva o local.
- O papel de parede é florido, em cima da minha escrivaninha há desenhos meus colados na parede, e minhas bonecas preferidas estão numa prateleira de madeira feita pelo meu pai na frente da minha cama. Não tem lustre porque sem querer joguei uma bola e meu pai não colocou outro no lugar. A iluminação do quarto vem do abajur em cima do meu criado-mudo.
Provavelmente, era a décima vez que Lurdes ouviu essa mesma descrição.
- Você esta acordada?
- Sim.
-É dia?
-Não. é madrugada.
-E você pode me dizer por que não está dormindo?
- Por causa dos gritos.
- Que gritos são esses?
- Dos meus pais.
- O que eles dizem?
- Coisas tristes.
- Que coisas tristes?
- Minha mãe diz que meu pai a traiu, e ele fala que vai deixar a casa.
- A traiu com outra?
- Com Pâmela, a melhor amiga dela.
- Como você sabe disso?
Cristina acordou repentinamente. Estava suando e assustada. Lurdes achou melhor encerrar a consulta, bastante desapontada, pois Cristina sempre parava nesse ponto.
- Desculpe!- disse Cristina.- Não lembro de mais nada depois disso.
- Tudo bem! Ninguém tem tanto poder sobre a própria mente. Ainda mais que você era uma criança quando tudo aconteceu.
-Queria tanto saber quem matou meus pais! Mas, não consigo! Sinto muito, não consigo!
-Tudo bem!- disse Lurdes sentando-se ao lado de Cristina, que estava no divã.- Com o tempo você melhora.
Cristina foi para casa. No caminho passou na casa de Alex, seu namorado. Eram quase 15:00 e Cristina percebeu um carro diferente na frente da casa de Alex. A porta estava aberta. Ela tentou fazer o menor ruído possível, e conseguiu ouvir barulhos vindo do andar superior. Subindo as escadas, percebeu que vinham do quarto de Alex. Ela abriu uma fresta da porta e viu seu namorado com outra mulher na cama, aliás, com sua melhor amiga. Ambos nus.
Flashes de uma outra vida surgiram em sua mente. Viu uma menina em sua antiga casa, descendo as escadas com uma faca nas mãos partindo para cima de seus pais. Mas, havia algo errado: ela se via sendo a menina com a faca na mão.
Perturbada, foi até o carro, cambaleando, tendo que se encostar nas paredes. Dirigiu até sua casa, que não ficava muito longe de onde estava.
Estacionou o carro e foi em direção à porta. A abriu ainda cambaleando, se encostando em qualquer coisa que via. Cruzou o corredor e foi ao banheiro.
Lavou o rosto e viu a própria imagem sendo refletida. Olhou para os próprios olhos e viu seu pai, na cama com outra mulher. Seu herói traindo sua mãe.Aquele que jurou fidelidade à família em cima de outra pessoa. Aquela cena foi demais para a criança Cristina encarar. Se viu saindo do corredor e indo para o quarto para brincar com suas bonecas, e sua mãe gritando ao ver a cena.
Cristina voltava ao presente. Seu rosto refletido no espelho.
Tirou o batom e a sombra que estavam em seu rosto. Dividiu seu cabelo escuro em dois e o prendeu. Foi até o baú onde guardava coisas antigas. Pegou a sua boneca preferida, a Verônica, uma boneca de porcelana com longos cabelos louros. Pegou também o vestido vermelho velho que usava quando adolescente. O experimentou. Ainda cabia nela, apesar de um pouco apertado por causa dos poucos quilos que engordara. Voltou ao espelho. Viu a garota que matou seus pais.
- Você finalmente me encontrou. Agora vamos brincar. Gato-mia.- disse a garota tapando os olhos com as mãos.- Um, dois, feijão com arroz...três, quatro, feijão no prato...cinco, seis, molho inglês...sete, oito, comer biscoito...nove, dez, quero pastéis.
A campainha estava tocando. Ela foi atender, com Verônica nas mãos. Era Alex, trajando uma blusa de crochê cinza claro e uma calça jeans. Ao olhar para ela chegou a se assustar. Aquela definitivamente não era sua namorada.
-Nossa!- começou ele.- O que você fez?
- Só saí...-disse a garota com um tom infantil.
Alex entrou um tanto assustado com essa mudança. Nunca imaginou sua namorada assim. Se sentou no sofá e ligou a televisão. Estava passando "Fantástico". Enquanto ele assistia, a garota sumia na cozinha. Já demorara muito.
- Cristina!- gritou Alex.- Vem pra cá!
Não houve resposta.
-Cristina!
A garota apareceu com as mãos nas costas.
- Você quer alguma coisa, moço?
Confuso com a resposta, Alex preferiu achar que era tudo uma brincadeira. Talvez uma fantasia que ela nunca lhe contara.
- Quero que minha criança venha se sentar comigo.- disse ele.
- Ta bom!
- E o que meu bebê traz nas mãos? Algemas?
- Hahahaha!- riu ela, mostrando a faca afiada.
Assustado, ele foi para trás.
- Cristina, você está me assustando! Você sabe que eu não gosto desse tipo de coisa!
- Só quero brincar, moço! Quer brincar comigo?
Ela foi se aproximando, quase encostando a faca no pescoço de Alex.
-Cristina...
A menina balançou a cabeça, em sinal de negação.
- Não, tio! Me chamo Bia.
Encostou o faca no pescoço de Alex, passando a lâmina levemente, sem cortar,
- "O anel que tu me destes era vidro e se quebrou, o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou".
Cantou isso e forçou a lâmina no pescoço de Alex. Ria como uma criança assistindo a agonia do homem a sua frente.
De repente, parou de rir. Olhou para a faca molhada em sangue.
- Opa! Mamãe vai brigar comigo por causa da bagunça!
Foi até a cozinha para lavar a faca. A deixou em cima da pia. Verônica estava em cima da mesa, deitada, imóvel, como tinha que ser.
Voltou para a sala e observou Alex por um tempo.
- Vamos brincar de casinha!
Jogou Alex no chão, e o arrastou pelas mãos até a cozinha, e finalmente o colocou em cima de uma cadeira.
- Senhora Verônica, quero que conheça o senhor Alberto. Servirei o chá!
Foi até o armário de madeira e pegou um bule e três xícaras.
-Hum...não quero mais brincar de casinha... vamos brincar de ciranda! O Alberto fica no meio!
Ela pegou a Verônica pelas mãos e começou a girar em volta de Alex.
- Quer saber? Vou pegar as nossas outras amigas!
Correu em direção ao quarto. No meio do corredor se olhou no espelho do banheiro. Aquela não era ela, a Cristina. Desamarrou os cabelos e tirou o vestido, colocando seu conjunto de antes: calça jeans e camiseta azul.
- Nossa!Por que estava daquele jeito?- perguntava a si mesma, confusa.
Ao chegar na sala, teve um susto. Viu sangue no sofá, e as chaves do carro de Alex no chão. O rastro de sangue ia até a cozinha.
Vagarosamente, foi seguindo o rastro e se deparou com seu namorado sentado na cadeira, imóvel, e Verônica no chão.
Rapidamente, foi até a sala e ligou para Lurdes. Sua mão tremia enquanto discava o número.
- Lurdes!- começou ela, chorando.- É a Cristina! Por favor vem aqui depressa!
- O que aconteceu?
- Não dá pra eu contar por telefone, vem aqui!
Cristina não sabia o que fazer e ligou para a polícia.
Em mais ou menos quinze minutos Lurdes estava tocando a campainha na casa de Cristina. Porém, a figura que atendeu a porta era uma imagem distorcida de sua paciente. O olhar no rosto daquela figura era um tanto sinistro, ameaçador.
- Cristina, está tudo bem?
Cristina balançou a cabeça em sinal de negação.
- Gato- mia.- a garota disse isso e começou a contar até dez de forma infantil.
Lurdes ficou parada na porta, não sabia o que estava acontecendo. A garota levantou a faca acima dos ombros. Era a mesma faca com que matou Alex. Lurdes se esquivou para trás e tropeçou em algo. Era Verônica. Quando tudo parecia perdido, a polícia chegou. Sua sirene fez Cristina voltar. A verdadeira face dela não sabia o que estava prestes a fazer.
Cristina não foi parar em um presídio, mas foi tida como doente e internada em uma clínica psiquiátrica.

Um ano se passou, e lá estava Lurdes no quarto de Cristina.
- Então, - começou a psiquiatra.- você está melhor?
- Sim.
- E Bia, como está?
- Nunca mais a vi...na verdade, isso ainda me parece confuso.
- O que é confuso?
- Minha doença. Não sei o que aconteceu.
- Cada pessoa age de maneira diferente a algum tipo de situação. Você sofreu um trauma muito grande ao ver o seu herói traindo sua confiança. Ao invés de você colocar pra fora tudo o que sentia, segurou para si mesma. Nunca quis ser uma pessoa ruim, e nunca foi. Porém, todos nós precisamos de equilíbrio. O que aconteceu, é que a fúria que você guardava era tão grande, que dela nasceu uma pessoa, a Bia. Esse caso raro se chama Dupla-personalidade, ou em casos extremos, Múltipla- personalidade.
- E agora? Como eu estou?
- Quem tem que me dizer isso é você.
Cristina pensou um pouco.
- Acho que estou bem.
- Ótimo! Porque daqui duas semanas estará livre daqui.

Duas semanas se passaram, e finalmente Cristina recebeu alta. Não tinha muito dinheiro. Aliás, não tinha nada, apenas um pouco que Lurdes a deu para seguir a vida.
Havia dois senhores que estavam dispostos a reintegrar Cristina à sociedade, Virginia e Celso, que cederam uma kit- net.
Cristina entrou em sua nova casa, rudemente mobiliada e largou suas malas no sofá. Foi ao banheiro para tomar um banho. Os senhores estavam na sala, assistindo à novela.
Ela saiu do Box, se enrolando na toalha rosa clara. Logo, colocou seu pijama rosa claro e ficou a observar sua própria imagem refletida no espelho. Abriu a porta e olhou a sua volta. Alguns de seus pertences estavam naquele pequeno apartamento, inclusive o baú de suas coisas antigas que, por falta de espaço, estava no corredor em frente ao banheiro. Cristina olhou para o baú e o abriu. De lá, retirou sua boneca Verônica. Viu seu reflexo no espelho novamente, abaixou o olhar em direção ao chão, levantou-o novamente e disse a si mesma:
- Gato-mia. Um, dois, feijão com arroz...

(Katerine Canabarro e Luciana Tazinazzo)
Katerine Canabarro
Enviado por Katerine Canabarro em 20/07/2006
Reeditado em 21/07/2006
Código do texto: T198151
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Sobre a autora
Katerine Canabarro
São Paulo - São Paulo - Brasil
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