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MORTE PSICOLÓGICA


   Estava vivo, mas havia morrido.
   Morte psicológica.
   Em que a mente definha, derrete, se alquebra aos poucos, escatologicamente e de modo progressivo. O corpo segue o mesmo ritmo vegetativo, embora todos os membros e órgãos aparentemente funcionassem perfeitamente.
   Via os dias passarem lentamente, sabendo que sua morte era apenas uma questão de tempo.
   Não sentia vontade de sair do apartamento. Praticamente não saía.
   Morte psicológica.
   Comia pouco (enlatados, macarrão instantâneo, ovos fritos, nas raras vezes em que ia para a cozinha - ou bolachas e frutas) e, imerso em solidão, tinha apenas a televisão como companheira. Estava pálido, com olheiras e ligeiros tremores nos lábios e nas mãos. Quase não defecava e, de vez em quando, era acometido por pesadelos sinistros.
   Sua irmã o visitava pelo menos três vezes por semana, solícita e gentil. Limpava o apartamento, comprava mantimentos e frutas, além dos comprimidos, trocava a roupa de cama e lavava as roupas sujas. Tentava lhe dar ânimo, com palavras benéficas, procurando convencê-lo a seguir uma vida normal.
   Em vão.
   Ignorava a irmã, que não sabia de nada. E não seria ele a contar-lhe a verdade.
   Naquela noite, depois que sua irmã saiu, ingeriu o comprimido e sentou-se no sofá. Porém, quando se preparava para ver um filme, lembrou-se da mulher.
   Quer dizer, lembrava dela todos os dias. Era inconcebível.
   Principalmente agora, que fazia exatamente um ano, desde o dia em que tudo aconteceu.
   Um ano.
   Lembrou-se e, sem saber como, chorou.
   De repente, estava chorando.
   Chorou muito, sentado no sofá, o corpo trêmulo, a depressão o dominando.
   - Meu Deus! - murmurou, em desespero - Meu Deus!
   O que deveria fazer? O que fazer?
   Chorou por alguns minutos, a angústia rasgando seu peito.
   Morte psicológica.
   Então, parou de chorar, num súbito lampejo de loucura, e enxugou as lágrimas. Mais calmo, recomposto, optou por tomar a grande decisão. Sim. Era o mais certo a fazer, naquele instante. Não poderia mais esperar que tudo acontecesse, pois essa tortura psicológica era insuportável.
   Nessa noite tudo terminaria.
   A mulher. Tudo por causa da maldita mulher!
   Mariza, o nome dela.
   Seus pensamentos percorreram o passado, como sempre fazia nos últimos meses.

***

   Era um homem promíscuo, de muitas mulheres.
   Jamais casara e, aos quarenta, anos, percebeu que vivia em função do sexo.
   Quantas amantes tivera? Mais de quatrocentas, com certeza.
   Havia abandonado três noivas, um mês antes do casamento, em bairros diferentes da mesma cidade e em épocas diferentes, claro.
   Renata, quando tinha vinte anos.
   Márcia, quando tinha vinte cinco.
   E Lílian, quando tinha vinte e nove.
   Mulheres jovens e apaixonadas, que a ele se entregaram de modo intenso.
   Até que tentou levar uma vida normal e rotineira com tais mulheres. Tentou mesmo. No entanto, não as amava e chegou à conclusão de que não queria casar com elas.
   Rompeu os noivados, sem se comover com os choros e as lamentações.
   Depois, sua vida seguiu um ritmo alucinado, movido a álcool e sexo. Mudava de bairro constantemente. Alugava sempre bons apartamentos, geralmente no terceiro ou quarto andar de prédios de seis ou oito andares.
   Era (antes da morte psicológica!) um homem alto, bonito, charmoso e com um belo sorriso e um bom papo. Tinha um ótimo emprego, roupas elegantes e um carro suntuoso. Os ingredientes certos para encantar todas as mulheres do mundo.
   Levá-las para a cama se tornava uma tarefa fácil.
   Então, as amantes se multiplicaram.
   Dos quinze aos sessenta anos. Fogosas e carentes. Lindas e feias. Gordas e magras. Altas e baixas. Morenas, loiras, negras, orientais, mestiças, mulatas, etc.
   Mulheres que conhecia em festas, barzinhos, praias, shopping, praças, casas comerciais, igrejas e até pela Internet. Nos momentos de carência sexual, arrumava mulheres nos clubes de strip-tease e casas de programa.
Sexo com camisinha; sexo sem camisinha.
   Não era muito cuidadoso, reconhecia. Julgava a camisinha um acessório dispensável, em determinados momentos.
   Também não era garoto de programa (não, senhor!), embora aceitasse, de vez em quando, presentes de algumas das mulheres.
   Era, isso sim, um caçador nato, um amante voraz, carinhoso, insaciável, que não escolhia, nem selecionava. O que caía na rede... créu!
   Amava as mulheres e dava a todas carinho e orgasmos.
   De repente, conheceu Mariza.
   E sua desgraça começou.

***

   Conheceu Mariza num dos melhores clubes da capital.
   Ela apareceu do nada, no meio da multidão, e lançou sobre ele um belo par de olhos verdes e um lindo sorriso. Teria uns trinta anos? Talvez menos. Mulher alta, a pele alva, o corpo cheio e estonteante, transbordando sensualidade. Usava calça jeans e blusa rosa, decotada. Havia curvas por todos os lados. Apetitosa! Deliciosa! Que seios! Que decote!
   Obviamente que teve que abordá-la. Ofereceu-lhe um drinque.
   Ocuparam uma das mesas do clube e, por entre o barulho da música, conversaram.
   Conversa superficial, em que a mentira e um bom papo prevalecem.
   Ela não falou muito sobre si mesma. Era solteira, sem filhos, trabalhava numa firma de advocacia, como secretária, e morava só.
   Ele, por sua vez, tinha que dizer exatamente aquilo que ela queria ouvir: elogios, perspectivas, simpatia e um pouco de sua vida monótona.
   Durante o diálogo: sorrisos, um olhar penetrante, toques mágicos na pele, cafunés discretos, mais drinques, a aproximação do macho sedutor, tom baixo de voz, mais sorriso, um convite para dançar.
   Dançaram e ele adorou seu doce perfume, sua pele sedosa.
   O beijo foi inevitável. Excitou-se ao sentir o tenro e cálido contato de sua língua ávida. Oh, ela beija maravilhosa bem! Quase foi às nuvens! As mãos dela em seus cabelos, em sua nuca... aquele corpo colado no dele... o cheiro... os anseios... desejos... libido à flor da pele!
   "Meu Deus!" - lembra que pensou - "Preciso usufruir o prazer desse corpo!"
   E assim foi feito. Não havia dúvidas de que ela também o queria.
   Às três horas da madrugada, saíram do clube, no seu carro, e seguiram, entre beijos e amassos, para seu apartamento.
   Lá dentro, tomaram mais drinques. Martini com gelo. Ouviram músicas. Beijos. Conduziu-a para seu quarto, o reduto do amor.
   Fizeram amor e foi sensacional!
   Antes, um banho compartilhado. Depois, cama. Ela se mostrou uma amante fogosa e habilidosa. Retribuiu as carícias de modo intenso e libidinoso. Seu corpo era uma máquina do prazer. Aceitava as mudanças de posições. Tomava iniciativas surpreendentes. Gemia. Gritava. O excitava de modo compulsivo e vertiginoso. Foi, sem dúvida, uma de suas melhores amantes.
   Ela não queria que ele colocasse a camisinha. Uma surpresa, pois todas as mulheres a cobram. Embriagado, na hora não deu muita importância ao fato, o que foi um erro. Aceitou a sugestão e até gozou dentro daquele corpo exuberante. Na frente e atrás. Várias vezes. Enlouquecido, tornou-se um escravo daquela mulher insaciável. E adorou cada curva daquele corpo, cada beijo, carícia e orgasmo.
   Lembra que adormeceu, após horas de sexo inesquecível.
   Quando acordou, às dez horas da manhã, seu terror começou.

***

   Mariza havia ido embora!
   No seu lugar, uma terrível carta.
   Folha de papel ofício, palavras digitadas, oriundas de computador. Arial, em negrito, tamanho quatorze.
   Na medida em que a lia, suas mãos começaram a tremer e seu rosto a amarelar:

      "Vinguei minha prima. Lembra-se dela? Você a abandonou, após iludi-la. Ela era sua noiva e o amava! Não suportando o trauma, minha prima suicidou-se, com remédios, seis meses depois. Sabia disso? Ela se matou por sua causa! Minha prima, morta. Odiei você por isso. Eu tinha dezoito anos, na época, e prometi a mim mesma que iria vingá-la. Durante anos, jamais o perdi de vista. Eu sabia onde você trabalhava e onde morava. A princípio, eu pensava em matá-lo a tiros. Até comprei uma arma, para esse fim. Porém, a vida me induziu a mudar meu método. Sempre fui bonita, gostosa e, como você, também promíscua. Muitos homens passaram por minha cama. Por dinheiro, pois sou garota de programa. Também usei drogas. E minha punição veio de forma trágica. Daí surgiu minha idéia. Resolvi usar meu problema para efetuar minha vingança. Conversei com algumas de suas amantes e sabia que você não gostava de usar camisinha. Era fácil convencê-lo a dispensar a camisinha, principalmente se estivesse bêbado. Isso acontece com a maioria dos homens. E aí está. Em vez de matá-lo a tiros, decidi dar-lhe um outro tipo de morte. Aquilo que os médicos chamam de... morte psicológica. A morte em vida. Você está vivo, mas já morreu. E sua morte será lenta, pois seu cérebro estará se acabando aos poucos. Sofrerás como minha prima sofreu. Vinguei minha prima. E sabe como? Porque tenho AIDS e porque você é um verme que adora transar sem camisinha. Babaca! Sabe o que é AIDS, seu filho da puta? Uma doença horrível, que mata aos poucos e não tem cura. Acho bom você procurar um médico urgentemente, pois o vírus já está correndo no seu sangue. Adeus!"

   O pânico o dominou, naquele instante.
   "AIDS? Meu Deus!" - refletiu, nervoso - "Não pode ser! Não pode ser!"
   Ou seria um blefe?
   Mariza, uma garota de programa. Ela seria prima de quem? Da Renata, Márcia ou Lílian?
   Leu a carta mais cinco vezes, incrédulo e assustado. Seu corpo todo tremia.
   O que fazer? O que devia fazer?
   Lembra que chorou, apavorado, desnorteado, o medo incrustado em suas entranhas.
   Sexo sem camisinha. AIDS. Um dia teria que acontecer.
   Meu Deus!
   Mariza. Miserável! Se a encontrasse, a mataria.

***

   Mas não a encontrou.
   Investigou profunda e exaustivamente, durante seis meses.
   A procurou em todos os locais possíveis. Hotéis, clubes de strip-tease, boates, barzinhos, empresas, escolas e até no bairro onde suas ex moraram.
   Nenhum sinal dela.
   Chegou à conclusão de que ela deve ter saído da cidade. Havia programado tudo, pensado em tudo, a desgraçada.
Provavelmente nem se chamaria Mariza.
   Além disso, todas as suas ex estava vivas. Renata, Márcia e Lílian estavam bem vivas e haviam casado novamente.
   Nenhuma delas tinha uma prima chamada Mariza.
   Nenhuma delas tinha uma prima que foi sequer garota de programa.
   Então, quem seria essa Mariza? Ela seria prima de quem?
Não havia abandonado mais ninguém. Pelo menos achava que não. Ou teria? Seria essa tal de Mariza prima de uma das suas quatrocentas amantes? Mas... qual delas?
   Maldito mistério!
   Um negócio muito estranho...
   Ah, sim. A AIDS não foi um blefe.
   Fizera um exame e... para seu desespero.. dera positivo.
   Meu Deus! Era um aidético!

***

   Voltou ao tempo presente.
   Seu apartamento, sentado naquele sofá.
   Nunca contara para ninguém tudo o que lhe aconteceu. Mesmo porque sempre fora um solitário e não possuía amigos. Além disso, a vergonha de contar que fizera sexo sem camisinha o impedia de revelar seu segredo.
   Morte psicológica.
   Ela tinha razão.
   Estava morto, estando vivo.
   Aposentara-se aos quarenta anos, devido à AIDS.
   Levantou-se e entrou no quarto. Seu quarto: antes reduto do amor, hoje covil de um derrotado. Merda!
Abriu a última gaveta e retirou a pistola. Sua irmã não abria suas gavetas e não sabia que ele havia comprado a arma.
   Havia guardado a carta e se lembrava de cada maldita palavra ali escrita.
   Mariza disse que sua morte seria lenta.
   Iria provar que estava enganada.
   Não iria morrer lentamente, sofrendo as dores da doença, em casa ou num hospital.
   De jeito nenhum! Era orgulhoso demais para aceitar isso.
Deitou-se na cama.
   Se pudesse descobrir quem seria essa tal de Mariza...
   Talvez ela já estivesse morta.
   Ou não?
   Uma idéia lhe veio à mente.
   Ela disse que sabia onde ele morava. Como, se ele vivia mudando de bairro?
   E se ela não o conhecesse? E se ela fosse uma psicopata, uma doida varrida e estivesse, neste momento, espalhando o vírus da AIDS pelo país, deixando a mesma carta para suas vítimas. Será?
   Claro! Havia lógica nisso.
   O método era infalível. Mariza percorre as cidades, com nome falso. Aborda os homens bonitos nos clubes. Homens com pinta de garanhões e predadores. Os seduz, com seus belos olhos verdes e seu sorriso. No apartamento deles, a sugestão para sexo sem camisinha. Se o homem disser não, escaparia com vida. Caso dissesse sim, estaria condenado. Muita bebida. Muito sexo. Após a cópula, deixa a carta, já pronta, na cama, ao lado dos homens adormecidos, e vai embora. Pronto.
   Talvez tenha ódio de homens. Provavelmente um trauma. Teria sido abandonada por um deles?
   Meu Deus! Como poderia provar tudo isso?
   Só lhe restava uma chance.
   Deixou a pistola em cima do criado-mudo, levantou-se e pegou caderno e caneta.
   Levou duas horas para terminar sua carta de despedida.
   Contou sua história e de como conheceu a tal de Mariza.
   Revelou como pegara AIDS.
   Anexou a carta da Mariza à sua.
   Narrou o método que Mariza utilizava. Descreveu seu corpo minuciosamente. Sua forma de falar. Seu sorriso. Sua irmã teria que ir à polícia e contar tudo. Talvez os policiais acreditassem nela. Ou talvez não.
   Bem, fizera o que foi possível.
   Deixou a carta, e seu anexo, em cima do criado-mudo.
   Pegou mais uma vez a pistola, as mãos trêmulas, e voltou a deitar-se.
   Morte psicológica.
   Mariza... com quem estaria? Quantos homens já contaminara?
   Merda!
   Afastou os pensamentos, apontou o cano da arma para sua cabeça, respirou fundo - os olhos vidrados pela loucura - e puxou o gatilho.

FIM


Moral da história:
Homens que se julgam imortais, tenham cuidado! Façam sexo só com camisinha.
A morte poderá surgir em forma de vírus.
Joderyma Torres
Enviado por Joderyma Torres em 23/07/2006
Código do texto: T200383
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Joderyma Torres
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil, 51 anos
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Joderyma Torres