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Animus Necandi

 A cada passo ininterrupto, Oscar caminhava feito um verme, assustado, um reles acuado. Haviam descoberto seu segredo e por hora, decidiram não lhe entregar. Os médicos de seu plantão fizeram um juramento - só a haste da ética - o qual lhes oprimia esconder certos fatos obscuros. Oscar sentia o coração acelerado, suas mãos trêmulas denunciavam seu temor e desequilíbrio.
 Havia certos objetos estranhos em todo parque, uma luz tênue e fraca não lhe dava distinção das coisas. Grandes sombras e alguns restos de madeira seca lhe causavam horror. Teria de percorrer ainda muitas léguas para chegar em casa e resolver-se consigo mesmo, decerto, estava arrependido. "O acaso levou-me a instabilidade, o homem é vicioso", pensava consigo em um delírio febril. Passara perto de um carrino de pipocas, mas não havia ninguém por perto. Pensara ouvir crianças gritando, era apenas o assobio de um vento repentino do mês de Agosto. Estava tão frio que a névoa densa fizera os habitantes da cidade refugiarem-se em suas casas.
 Oscar zombava de si mesmo, entretanto sabia que certas particularidades do caso eram sobrehumanas, um tanto melindrosas. Sua cabeça zunia continuamente, mas ele não poderia advinhar a espécie de loucura que se apodera dos homens em situação de desespero. "Como pude trocar as crianças de modo fatal? Oh, sou mesmo um monstro cruel, um piolho covarde, quebrei as regras. Como sou amoral!"; as idéias de si mesmo lhe consumiam.
 O médico renomado, Oscar, pensara ter visto um vulto, transfigurado em horror. Aumentara os passos, mas um barulho lhe causara vertigens. Tic-tac! Tic-tac! Parecia mais próximo alguém com certa espécie de relógio. Tic-tac! Tic-Tac! O medo lhe invadira as entranhas, borrou-se ali mesmo. Começou a correr... As mãos protegendo a cabeça, a expressão aterrorizada de criança quando faz algo errado e sabe que vai pagar a peraltice. Acabara por cair perto de uma loja de utensílios religiosos. Viu a imagem de Virgem Maria, e por ironia compreendeu talvez um sinal, cometera um pecado teria de pagar. "Crime e castigo", resmungou alto. Tic-tac! Mais uma vez àquele terrível barulho.
 Oscar sentira as entranhas quase a saírem pela boca, o temor era de ser linchado pela população. "Mas só haviam os médicos naquela ocasião, será que alguém deixou algo escapar? O homem é proeminência do vacilo realmente. Deve ser apenas meus devaneios particulares." Ao terminar de formular seus pensamentos sombrios e particulares um pequeno pássaro pousou-lhe no ombro. De um assobiar quase matinal a pequena ave pinicou-lhe o olho. Oscar assutado tombou ao chão, sentia náuseas e percebera que lhe sangrava o local atingido. Tateou o chão, porém o pássaro já havia sumido. As sombras dançavam continuamente, e logo algumas labaredas cercavam-lhe o corpo. Sem explicação aparente a roupa branca exibia focos sendo rapidamente consumidos.
  O médico jogou-se na fonte da rua mais próxima, um velho que dormia espantado correu para socorrê-lo... Fora em vão.

- continua.
Humberto Amorim
Enviado por Humberto Amorim em 25/07/2006
Reeditado em 31/07/2006
Código do texto: T201695

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Sobre o autor
Humberto Amorim
Euclides da Cunha - Bahia - Brasil
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Humberto Amorim