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A casa da abobada de cristal

Nós a compramos num daqueles impulsos inexplicáveis. Ao lermos o anúncio no jornal nos apaixonamos pela descrição da casa e o medo de não possuí-la, fechamos o negócio num átimo, sem nem mesmo vê-la. Para nós que somos realistas foi um fato inusitado.
Depois de todos os trâmites legais do contrato de compra e venda, fomos conhece-la, e aí, admirar a casa que concretizava o nosso sonho. O corretor estava a nossa espera para entrega das chaves no endereço combinado. O que não podíamos imaginar era a magnitude e a beleza daquela obra em estilo antigo, com suas grandes janelas e em uma de suas laterais  havia uma parede abaulada que se estendia até ao teto formando uma abobada toda em cristal. Fascinante, seria a palavra certa para descreve-la. Sua arquitetura era magistral!
As surpresas não pararam por aí, ao adentrarmos, sua sala de dois ambientes reinava o bom gosto da decoração. A porta que ligava ao compartimento da lateral abaulada que percebêramos  por fora da casa  era uma biblioteca, recendia ao cheiro de tabaco de uma pequena e delicada peça sobre uma escrivaninha. Os livros em suas capas de couro com letras douradas chamaram logo minha atenção, não somente pela beleza da disposição nas estantes, mas por que logo pensei que ali passaria a maior parte do meu tempo. Todos me chamam de rato e cupim de biblioteca. Apesar da sobriedade da decoração, com alguns toques  a tornaria  mais acolhedora.
Fomos inspecionando as divisões daquela recém-conquista, e pelos corredores surgiram  o banheiro social luxuoso e quatro dormitórios espetaculares. Minhas filhas escolheram os delas de acordo com o estilo que lhes convinha. E para meu marido e eu ficou uma enorme e intrigante decisão... Os outros quartos que sobrara um era masculino demais e o outro feminino. E ambos tinham no centro uma enorme cama de casal. Meus pensamentos fervilhavam tentando resolver o dilema que se apresentava, como telepatia, caímos na risada ao mesmo tempo. Compreendemos que talvez fosse o momento de termos nossa privacidade, ele ria com gosto, como há muito não  o via fazer, dizendo que só assim ficaria livre dos meus ruídos noturnos. Coitado, ele acreditava que eu também não poderia estar feliz... Chegamos a conclusão que seria boa esta individualidade bastando deixar amadurecer a idéia, realmente aqueles barulhos incômodos dos roncos e do farfalhar dos lençóis dos sonos agitados que sempre tive, ajudaria a mudar nossa rotina.
Seguindo o tour  pela casa, passamos pela sala de jantar com mesa, cadeiras e arcas de madeira de tom canela. A cozinha destoava do resto da casa com sua modernidade. Fogão elétrico e uma coifa pendia do teto, num canto havia uma bateria fixada  na parede de onde se via enormes conchas, colheres, garfos, espetos e escumadeiras. Sorri ao pensar que para utiliza-los precisaria convidar uma tropa para refeição.
Para acessarmos o segundo pavimento, voltamos à sala de jantar e subir por uma escada de madeira que ficava num ponto estratégico da decoração que parecia ser um bar-adega. Havia uma sala de som e vídeo, jogos e um salão de festas. Vazio e apesar do pó, os piso de tábuas corridas estavam em perfeito estado. Uma escada discreta e menor na outra extremidade levaram-nos a abóbada de cristal. Pequena, diferente e com poucos móveis, os raios do sol de fim-de-tarde incidiam nos cristais tornando-a encantadora. Enquanto me perdia em elucubrações fui despertada por um estrondo de algo caindo ao chão. Minha filha atraída por uma pequena cristaleira puxara uma gaveta que se soltou e caíra, olhei pra ela e vi apenas a peça que segurava em suas mãos, um punhal com cabo de madrepérolas com um rubi incrustado em sua base. Tive um terrível pressentimento e me arremessei sobre ela, que assustada gritou apavorada, não mais que eu, pois parecia ter a certeza que aquela arma branca havia sido usada em algum crime, e agora, registrava as impressões digitais dela. Não queria complicações em seu futuro, tirando-o de suas mãos esfregava-o freneticamente na barra de minha blusa, para apagar suas marcas. Depois de todos calmos, pude então apreciar a bela vista que se estendia através das frestas daquelas pequeninas janelas de cristais. Ao longe, no meio das árvores avistei  uma piscina, que mesmo com águas turvas e cheias de folhas que dançavam ao sabor do vento, parecia maravilhosa, imaginei logo como seriam os nossos verões dali por diante. De repente numa clareira surgiu sob meu olhar atento um chalé incrivelmente belo.
Desci as escadas e percorri o caminho que me levaria até ele e senti meu coração acelerando a medida  que aproximava daquela que se tornaria uma das mais belas surpresas. A ansiedade e o tremor de minhas mãos dificultavam encontrar a chave certa para abri-lo, e não consegui. Quando havia desistido, resolvi girar a maçaneta, e por encanto, ela se abriu. O chalé estava na penumbra, porque as copas das árvores e o entardecer não deixavam ver nitidamente a sala, mas vi que existiam dois anexos. O primeiro era uma saleta de banho e o outro uma pequena copa-cozinha. Num canto da sala, amontoadas, estavam várias telas. Mesmo com o cheiro de bolor e pó não resisti e fui mexendo, e cada peça que eu pegava me deixava maravilhada, meus olhos curiosamente desfilavam as paisagens a óleo, aquarelas, acrílicas. Meu coração estancou quando em minhas mãos surgiu um rosto, precisamente meu rosto, estampado naquela tela que segurava entre aparvalhada e assustada. Um rosto ainda jovem com traços suaves, minha respiração falhava, meu peito arfante me deixou fora do ar por alguns minutos...
Não havia autoria em nenhum daqueles quadros, procurei desesperadamente um vestígio que desvendasse tal mistério. Nunca havia sido modelo para nenhum pintor (a), como entender aquele fato? E, por que aquelas telas estavam ali abandonadas?
Bem, nossas vidas são regidas pela sustentação de nossos mais secretos sonhos, a vida não só gira em torno de nossas razões do coração, cérebro, células. A engrenagem que move nosso destino transforma nossas vibrações diante dos sucessos e dos fracassos de acordo com nossa evolução espiritual. Não haveria sentido nascer senão tivéssemos um objetivo maior para cumprir nessa trajetória terrena.
Este foi mais um dos sonhos que tive e ao acordar o gosto amargo não me fez derrotada por não vê-lo realizado. C’est la vie!
bette vittorino
Enviado por bette vittorino em 04/08/2006
Reeditado em 11/04/2013
Código do texto: T209213
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
bette vittorino
Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil, 62 anos
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