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O menino visionário

O MENINO VISIONÁRIO.

       Lucas não era apenas mais um entre os meninos de nove a treze anos, era sim e antes de tudo um sonhador inveterado. Não havia manhã em que seus sonhos não trouxessem verdadeiras histórias de fantasias onde ele, inevitavelmente, protagonizava, como ator principal, atos incríveis de coragem, compaixão, amor ou ódio, guerra ou paz, transitando livremente nos meandros de diferentes sentimentos, impune e irreverente, sem sofrer nenhuma retaliação por suas atitudes imperialistas ou ao menos impensadas.
       Mais um dia corajosamente nascia e teria que sobreviver à inventividade de Lucas, era manhã de primavera, as flores deixavam que a suave brisa distribuísse seus deliciosos aromas à tantos quanto dotados de olfato por ali passassem. Borboletas de coloridos os mais diversos, mamangabas e inúmeros outros insetos além de beija-flores e outros pássaros, buscavam os néctares cujos sabores variavam do bom ao ótimo, assim diziam as vespas e moscas da vida.
       Aquela manhã foi única, Lucas levantara com a cachorra, sua criatividade iria extrapolar os limites da razão, da lógica ou mesmo aos absurdos de um sonho infantil que o levaria aos extremos das aventuras.
       Após as atividades higiênicas matinais e o lauto desjejum, Lucas armou-se de um arco e flechas que ele mesmo confeccionara no dia anterior, saindo rumo àquela que seria, pensava, apenas mais uma de suas bem sucedidas estripulias. Saiu dos limites do quintal de sua casa e partiu rumo a estrada de acesso ao morro da cachoeira onde podiam ser encontradas diversas espécies de aves, mamíferos e roedores, como também algumas espécies de peixes que habitavam as límpidas águas do Rio Fantasma. A Cachoeira do Esqueleto também recebeu esse sugestivo nome porque ali foram encontrados diversos esqueletos, quando da ocupação daquela área. A falada Estrada das Almas é que conduzia à trilha da cachoeira e devido a tantos nomes fantásticos, histórias e lendas foram surgindo na região e atravessando gerações.       Na inocência dos seus onze anos e levado por seu incontrolável espírito de aventura, Lucas havia programado para aquela manhã uma caça aos “Espíritos Maus”, como apelidou alguns dos animais predadores que viviam naquela área do Morro dos Mortos. Depois de ultrapassar mais da metade da grande subida do morro e entrar na Trilha dos Sacrifícios, que levava à cachoeira, passou a comportar-se como um silvícola, falando uma língua que só ele entendia. Criava termos à medida que sua imaginação formava cenas e situações inusitadas de grandes perigos ou aproximação de animais ferozes. “Uga, uga, gorila bandido...” – falou ao avistar um sagüi que o seguia nos arvoredos na expectativa de receber de suas mãos alguma guloseima. Mais adiante uma juriti cruzou a trilha à sua frente, assustando-o, e ele disse a seguinte frase: “Teremba, teriba, vampiro da morte.”  Assim continuou seu destino que era o pico do Morro dos Mortos.
       Muitas outras incursões foram realizadas anteriormente por Lucas, porém nenhuma delas alardeou a pequena e pacata cidade interiorana, acostumada às ficções das narrativas do menino visionário, após retornar de suas aventuras, como a daquela manhã de primavera, onde um cenário de colorido ímpar seria ofuscado ou até mesmo despercebido por todos que ali viviam.
       Ninguém jamais se atrevera chegar ao pico do Morro dos Mortos e por isso, a meta traçada por Lucas não era apenas mais uma viajem da mente infantil, mas sim uma aventura adulta e que requeria maturidade, sagacidade, destreza, inteligência e capacidade de resistir às circunstâncias adversas e vencer os obstáculos ou inimigos que à sua frente, inesperadamente, surgissem.
       “Karuba vencer inimigos, Karuba ser valente, Karuba não recuar nunca, Karuba chegará no pé do céu e verá atrás do Morro dos Mortos a Cidade dos Sagüis Dourados” . Portanto, identificando-se como o guerreiro Karuba, o menino seguia na sua trajetória em busca da Cidade dos Sagüis Dourados, dos quais por diversas vezes falara ao retornar de suas aventuras para seus amigos que jamais deram importância ao fato e ainda comentavam que ele era um grande mentiroso. Isso porque ninguém vira um sagüi naquela região que não fosse preto e cinza de cara branca.
       Concentrado na sua busca, Lucas sequer percebeu que o sol abandonava a linda tarde de primavera e as garças brancas acomodavam-se nos galhos das árvores às margens do rio Fantasma, já pequeno aos olhos do menino que vislumbravam um distante vale verde e que logo desapareceria ante as incertezas e surpresas que, em breve, o negro manto da noite, cobriria com seus enigmas e medos.
       Karuba nada teme, Karuba sobe naquela grande árvore e ali passa noite sossegado. Assim procedeu e depois de alcançar um dos primeiros galhos, bem grosso, acomodou-se em uma das ramificações e procurou relaxar, já vencido pela fadiga da longa caminhada. Enquanto isso a lua mandava sua luz prateada entre as nuvens e copas das árvores para alertar Karuba sobre os perigos da noite e, graças a sua exuberância, mostrou ao menino visionário que a apenas alguns galhos acima de onde estava, uma onça parda preparava-se para enfrenta-lo em sua descida. Karuba, apesar de apavorado, pegou cuidadosamente uma de suas pequenas flechas, colocou no arco, esticou com toda a força, mirou bem e, invocando mentalmente aos espíritos da floresta, disparou seu artefato. Surpreendida pelo impacto da pequena flecha que atingira uma de suas vistas a onça desequilibrou-se, caiu bruscamente, saindo em desabalada carreira do local. Sentindo-se um destemido guerreiro, alentado pela grande façanha, Karuba entregou-se à satisfação de um incontrolável e reparador sono. Lá pelas tantas, uma enorme espada de prata cortou o manto negro da noite e fez-se acompanhar por um terrível trovão dando um tremendo susto no menino que, como a onça parda, desequilibrou-se e caiu ruidosamente sobre as folhas secas que revestiam o solo. Refeito da grande surpresa, Karuba enfrentaria uma forte tempestade e por mais que tentasse um abrigo, não conseguiu achar uma proteção satisfatória até que a alvorada chegasse e ainda o encontrasse muito molhado e com calafrios, apesar de a tempestade ter partido, deixando a seguir seus passos uma garoa intermitente que insistia em baixar cada vez mais a temperatura.
      O sol parecia estar aborrecido com Karuba e juntamente com a garoa, insistiam em deixa-lo a tremer cada vez mais... cada vez mais...cada vez mais.
      Reunindo todas as forças que lhe restavam, iniciou a descida rumo ao vale verde, ainda distante dos seus olhos, mas muito perto de sua incontrolável curiosidade que o empurrava para aquele lugar. Depois de algumas horas, vencidos pela persistência de Karuba, a garoa fugiu e o sol deixou que seus raios dourados iluminassem aquele esplendoroso vale que abria suas portas, para que os pequeninos pés do menino o invadisse e seus curiosos olhos, bem arregalados, vasculhassem os quatro cantos, desnudando toda a sua curiosidade e deixando-o senhor da realidade, pujança e razão porque tantos obstáculos surgiram à sua frente, tentando impedi-lo de ali chegar. De repente, uma família com oito sagüis-dourados, surgiu diante dele e sem nenhum receio aproximou-se como o reverenciando. O menino ficou atônito e ainda sob a ação da perplexidade, tirou de sua mochila uma banana e ofereceu-lhes. Os sagüis-dourados pegaram a banana das mãos de Karuba e, depois de come-la, fizeram uma verdadeira algazarra, subiram nos ombros do aventureiro e deixaram que as suas mãos os acariciassem sem nenhum receio. A interação era magnífica, a exuberância da natureza, os sagüis-dourados, a banana, Karuba, a inocência, a reciprocidade do amor e confiança, eram emoldurados, pela fé divina de que, ainda teremos um mundo de razão e paz.
       Depois de matar sua curiosidade, o menino visionário, experimentou pela primeira vez as maravilhas do mundo real e, em apenas dois dias de aventuras, como um fruto colocado na estufa, precocemente amadurecera o suficiente para jamais deixar de posicionar-se ao lado da verdade e agir com integridade e razão.
       O longo e acidentado caminho de volta, consumiu o resto da capacidade física de Lucas que acabou vencido ao atingir o pico do Morro dos Mortos. Tomado por uma forte febre e uma tosse persistentes, já sem fôlego, o aventureiro recostou-se na mesma árvore onde dormira na noite anterior, mas sem forças para galga-la.
       O sol partira, novamente o manto escuro da noite ia cobrindo todo o cenário, Karuba ficara com os sagüis-dourados, e ali estavam os olhos de Lucas totalmente fechados, alheio às circunstâncias e perigos. Foi quando a lua intensificou seu luar numa frustrada intenção de avisar ao menino Lucas que, no alto da árvore, a onça parda iniciava sua descida em busca de alimento e, portanto, o confronto seria inevitável. Sorrateiramente a onça parda aproximava-se, a febre mantinha o aventureiro combalido e, quando tudo levava a crer que o fim estava chegando, um tiro certeiro derrubou a onça que, ao cair sem vida ao lado de Lucas, acordou-o. Ao abrir seus olhos com dificuldade, ante a verdade da cena, abraçou-se a onça e pediu-lhe perdão.
       Os soldados chegaram e resgataram o menino, levando-o ao hospital onde recebeu o tratamento necessário. Dias depois, já tendo passado por uma bateria de interrogatórios e sofrido todo tipo de repreensão, Lucas era outro menino, apesar de manter-se curioso, alegre e descontraído. Continuava contando suas histórias fantásticas, porém nunca mais trouxe qualquer animal para apresentar como troféu ou comprovação da sua criatividade, ou saiu rumo ao Morro dos Mortos, local que ele jurava, de pés juntos, ser amaldiçoado. Só que todas as vezes que fazia essa jura, tratava de cruzar os dedos de uma das mãos à costa, para obter o perdão pela injúria.
       Aquele tiro que pôs fim à onça parda, também eliminou para sempre o menino visionário que, depois da visita ao encantado vale verde, entendeu que as verdades são eternas e os sentimentos puros estavam naquela família de sagüis dourados que deveria permanecer como uma simples lenda, garantindo-lhes a privacidade e o direito de viver e multiplicar-se. Assim, Lucas manteve esse segredo por toda a sua vida, que não foi curta, permitindo que a natureza mantivesse seu curso natural, com equilíbrio e dignidade.
       Pouco antes de deixar seus curiosos olhos fecharem-se para sempre, ante a pergunta de seu neto “Luquinha”, sobre o que existiria atrás do Morro dos Mortos e a lenda do sagüi dourado, respondeu-lhe: Olha menino, atrás daquele morro só existe a maior vontade de Deus e saiba que como a vontade não tem forma nem cor, certas curiosidades devem ser eternizadas. Passar em branco como as nuvens porque, esta sim é a cor da indispensável paz, assim na terra como no céu.

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Do livro: "Sonhos ou Verdades" contos/crônicas, 2006.






Condorcet Aranha
Enviado por Condorcet Aranha em 21/08/2006
Código do texto: T222125

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Condorcet Aranha
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