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Animus Necandi - parte 2

 O corpo do médico encontrava-se inerte, quase petrificado. Havia espanto e horror em seus olhos. O velho que tentara o socorrer achava-se desorientado sem saber o que pensar. "Mas o que pode ter levado tal homem singular a cometer tamanha barbárie consigo mesmo?" Não havia resposta lógica para seu enunciado solitário.
 Não obstante, o velho ficara ali por alguns minutos indagando e tentando deduzir as conseqüências daquele ato brusco e egoísta. Não deixava de pensar na família provável que o morimbundo certamente deixara. "O homem é realmente um axioma, o ser que não consegue aprender a viver o ser." Não sabia o porquê de seu coração está acelerado. Um vento súbito e gélido transpassava-lhe o corpo. Sentiu sua testa enrrugada suar mesmo com a presença do vento.
 O corpo de Oscar permanecia inerte e nada passível. O tempo pareceu transcorrer rápido demais, pois logo os primeiros raios de sol surgiam. Ao invés de pássaros belos haviam corvos e abutres. O velho sentiu um clima tanto estranho, não havia presenciado tais sinais naquela cidade. "Quanto esmeiro, o nada é o acaso!" Seu raciocínio diante à situação demonstrava desespero.
 Em repentino instante sentiu que o corpo do estranho havia se movimentado. Uma fileira de folhas secas caíam na fonte trazidas pelo vento gélido. UM barulho nervoso envolvia-lhe os tímpanos. Era um tic-tac! O velho resolveu levantar-se e abandonar o local. Poderia ser alucinação de sua mente decrépita...
 Percorreu um caminho sinuoso e repleto de pedrinhas vermelhas, mas os corvos o seguiam. Entrou à esquerda de um chafariz e dobrou uma esquina a qual havia várias estátuas de bronze. Suas pernas tremiam e seu coração parecia que iria saltar do peito. Ao longe ainda conseguia perceber o tic-tac insuportável. Em meio ao pânico só conseguia pensar no neto que falecera de uma doença estranha e rara.
 "Sou um verme deplorável! As minhas têmporas me conduziram ao abismo de minhas reflexões. Como fui néscio e covarde, deixei-me guiar numa senda altiva e perspicaz. Ah, como sou deplorável! Levei uma parte de mim à porta e ela se fechou e, não poderei mais ouvir o sorriso de quem eu amava." Aquela estranha lembrança lhe pertubava mais pelo fato do tic-tac destronar seus nervos. Havia algo de misterioso naquele barulho, pois lhe estava trazendo à memória apenas os momentos tristes e confusos de sua mente. "Será que o morimbundo vinha fugindo deste tic-tac maldito? Não aguentou, enlouqueceu e preferiu a morte às lembranças de seu passado?" Com essas indagações o velho deparou-se com um quadro 'Guernica', na verdade uma cópia. Sentiu tontura e ali mesmo sentou-se em frente à galeria onde abrigava a pintura. Decidira não mais fugir, mas seria melhor se tivesse partido...

-continua
Humberto Amorim
Enviado por Humberto Amorim em 29/08/2006
Código do texto: T227989

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Sobre o autor
Humberto Amorim
Euclides da Cunha - Bahia - Brasil
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Humberto Amorim