Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

UM MINUTO! (Parte 1)

UM MINUTO
Parte 1

Nasci e cresci no interior. Longe das grandes cidades e da tecnologia. Conhecia minha vila e uma outra cidade de mais ou menos 5.000 habitantes acreditando ter conhecido muito, o suficiente para viver. Nunca pensei que o mundo era além disso.
Minha mãe me contava que casara com papai porque seus pais queriam e ela não podia dizer não. Ao seu entender, eram os pais que escolhiam os caminhos para seus filhos seguirem e que seriam felizes se o seguissem.
Quando perguntei se mamãe era feliz com papai ela disse que sim. Aprendera a amar aquele homem com o passar dos anos e não podia pensar diferente. Porém, os olhos, que são a janela da alma, da mamãe não tinham aquele brilho que as pessoas realizadas e felizes têm. Ela sorria, talvez porque tinha que sorrir e mostrar para seus filhos que era feliz vivendo aquela vida.
Minhas outras cinco irmãs tiveram o mesmo rumo que mamãe. Casaram-se com homens que papai escolheu para elas. Hoje as vejo muito pouco, porque estão longe de casa. Lembro que na época, enquanto eu ainda era criança, elas sonhavam com o homem que papai traria para elas. Nunca entendi isso. Não era coisa de criança.
Com meus irmãos, lembro-me bem, fora diferente. Eles saíram em busca de mulheres lindas e foram para a cidade grande. Um deles voltou depois de algum tempo com sua mulher e três filhos.
Nesta época eu já era adolescente e comecei a me descobrir melhor como mulher. Minha mãe começou a dizer que eu não podia olhar para os homens pois era pecado, e eu acreditava. Uma mulher tinha que se guardar e só se entregar para o homem depois do casamento e nada mais. Olhar e desejar, não era bonito nem permitido.
O tempo passou. Certo dia, sentada à beira da estrada, um pouco longe de casa, passou um rapaz, um pouco mais velho que eu e sorrir para mim. Tentei fugir. Comecei a correr. Ele, porém, correu mais rápido e me segurou. Pediu para que eu tivesse calma pois apenas queria conversar comigo. Eu tremia de medo. Ele pedia para que eu me acalmasse. Comei a chorar. Ele me indagou sobre o porque daquele choro. Fez-se silêncio! Depois de um tempo consegui me acalmar e falei que estava com medo dele, porque minha mãe sempre dissera que eu nunca deveria falar com um homem. Deveria evitá-los. Ele discordou e pediu para conversar comigo. Mais um tempo em silêncio.
Abriu seu coração para mim. Falamos muito. Consegui me acalmar quando senti segurança com a presença dele. Repetiu várias vezes que queria apenas conversar comigo. Com medo, porém fui acreditando no que ele disse. Aos poucos, levada pela emoção abri também meu coração. Conversamos bastante e nem vimos o tempo passar.
De repente uma surpresa. Um cavalo se aproximava de nós. Ao erguer os olhos vi que era meu irmão. Gelei. Comecei a tremer. Fiquei com medo. Sem que disséssemos algo, ele apeou do cavalo, puxou-me com força pelo braço dizendo:
- Vamos pra casa sua prostituta. Papai tem que saber disso.
O rapaz, que ainda eu nem sabia seu nome, só sei que fora muito gentil comigo, tentou me defender, porém fora em vão. Meu irmão era mais forte que ele. Vi aquele rapaz caindo no chão em meio ao pó. Quanto a mim, colocou-me no cavalo, subiu também e cavalgamos até em casa. Eu só chorava e pensava na palavra que meu irmão dissera antes, que nunca tinha ouvido, nem compreendido: “prostituta”. Tentei conversar com meu irmão, mas ele falava (em tom baixo) o tempo todo, não deixando espaço para eu meu defender.
Chegamos em casa. Mamãe estava na cozinha fazendo bolinhos de milho, que eu gostava muito. Papai sentado na varanda tomando chimarrão e contemplando a natureza. Assim que apeamos do cavalo, ele ia me puxando pela mão indo em direção à papai. Eu apenas chorava. Sem piedade, me jogou no chão e com olhar e voz de desprezo, antes mesmo que papai perguntasse algo, ele foi dizendo:
- Encontrei essa vagabunda, da minha irmã, com um certo rapaz na estrada, longe de casa. Ela é a vergonha da família.
Novamente olhou com desprezo e disse aquela palavra que eu não entendia:
- “Sua prostituta”.
Falando isso ele se retirou.
Tentei me levantar e falar. Antes de qualquer ação minha, vi papai tirar o sinto e elevar o braço querendo me bater. Nisso mamãe pulou e conseguiu segurar seu braço, a tempo de eu me levantar e sair correndo. Papai gritou para meu irmão:
- Pega ela!
Ele, que já estava dentro de casa, saiu correndo atrás de mim. Desta vez, fui mais esperta. Em vez de ficar correndo eu me escondi e meu irmão me perdeu de vista, não conseguindo me encontrar. Procurou, procurou e nada. Até que desistiu.
Ao longe ouvia gritos de papai contra a mamãe:
- Sua vagabunda. Olha o que você fez...
E ouvi ruídos de quem batia... Mamãe rompeu em grande choro. Papai voltou a gritar:
- Chore a vergonha que você criou. Chore!
Nisso meu irmão voltou. Papai em tom alto de voz, ainda muito alterado disse:
- Cadê ela?
- Fugiu papai. E não a consegui encontrar.
- Vai procurar de novo e não volte sem ela, essa...
Pronunciou o meu nome, talvez pela primeira vez, ao menos que eu lembre. Sua voz trêmula e enraivecida se espalhava pela mata pronunciando meu nome.
Já era escuro. O frio começou a tocar meu corpo e o medo vinha do meu interior com muita força. Inicialmente senti vontade de ir consolar mamãe, mas não podia voltar. Sabia que papai iria me bater. Senti saudade da minha cama quente, do abraço e da bênção da mamãe antes de fechar meus olhos. Naquela noite, comecei a sentir, que estava começando a tortura da minha vida. Sei que tudo mudaria daqui pra frente.
Voltar para casa não podia. Tinha medo e sei que papai não me perdoaria nunca por isso. Coisas que nem fiz mas que ele imaginava eu ter feito. Voltar para aquela casa, neste momento seria o início de uma tortura sem fim. Tudo por causa de uma conversa...
Quando as luzes da casa se apagaram fui até o paiol para ver se encontrava algo que aquecesse meu corpo. Me envolvi em panos sujos e velhos e cochilei.
Fui acordada por alguém mexendo meu ombro. Que susto! Felizmente era mamãe. Ela estava com o rosto todo roxo das pancadas que papai dera nela. Ela me disse:
- Seu pai jurou você de morte. Disse que és vergonha para toda família e que você trouxe desgraça para nossa casa. Sei que vai partir meu coração, mas é melhor que você vá para algum lugar. Não suportaria ver você morta. Não quero perder você. Mas por outro lado é melhor que você fuja para acalmar tudo. Sei que você não fez nada. Mas tem que ir. Quem sabe um dia teu pai perdoe você.
Depois de dizer estas poucas palavras, chorando nos abraçamos. Mamãe foi até em casa, apanhou uma pequena sacola com algumas poucas roupas que eu tinha. Colocou uns bolinhos que havia feito na noite anterior, junto com uma fatias de pão e levou até onde eu estava. Abraçou-me de novo. Chorando me deu a sua bênção. Pediu que não falasse nada, antes que papai me visse. Chorando eu parti sem rumo...

A PARTE 2 DESTE CONTO ENCONTRA-SE PUBLICADA. LEIA!

Reeditado em 15 de março de 2007.
Hermes José Novakoski
Enviado por Hermes José Novakoski em 10/06/2005
Reeditado em 15/03/2007
Código do texto: T23628
Classificação de conteúdo: seguro

Copyright © 2005. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Hermes José Novakoski
Marituba - Pará - Brasil, 35 anos
478 textos (375854 leituras)
1 áudios (83 audições)
2 e-livros (440 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 11/12/16 10:18)
Hermes José Novakoski