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Redenção, Caminho Para o Paraíso (capítulo 6)

Uma semana já havia se passado desde o incidente com Allin, e Magnus não tinha nenhuma notícia de Erakel. Havia deixado o amigo sozinho, porque ele disse que queria pensar, depois teve uma sensação estranha. Havia sentido a presença de Allin, sua amiga da época da Cidade de Prata.

Os dois passaram a semana toda juntos, conversaram sobre o passado, sobre a queda de Magnus, e sobre muitas coisas diferentes. Agora, estavam com um outro problema, encontrar Erakel.

Magnus sabia que a anjo tinha outros motivos para encontrar Erakel, mas ele estava realmente preocupado com o amigo. Há dias não o via, sequer ficou sabendo de sua presença por meio de outras pessoas.

A tarde de domingo já estava quase se acabando quando resolveram ir até o refúgio de Erakel, ou sua casa, como ele gostava de dizer. Quando chegaram lá, não repararam nada de estranho, estava tudo como sempre estava. Algumas crianças brincando na rua, garotas conversando, coisas normais.

A casa de Erakel ficava próxima a linha usada pela Maria Fumaça, próxima à Praça do Matosinhos. Erakel sempre dissera que havia escolhido aquele local por sua proximidade com um dos portais do inferno, mas Magnus deduzia que era por causa da calma que era aquela rua. Quase não se podia ouvir som que incomodasse.

Magnus chegou até o portão, que ficava de frente a uma pequena escada. A de Erakel era no segundo andar, pois preferia lugares mais altos. O portão estava aberto, e os dois entraram sem cerimônias, não queriam chamar a atenção. Subiram as escadas, e pararam um pouco na pequena varanda, com alguns pequenos vasos com plantas. Magnus sabia que eram da vizinha de Erakel, da qual o amigo sempre falava, mas ele ainda não há havia visto pessoalmente. Apenas sabia que era uma família apenas de mulheres, e muito reservadas.

A porta estava destrancada, o que significava que Erakel possivelmente estava em casa. Entraram, Magnus na frente com Allin fechando a porta logo em seguida.
_Eduardo, você está aí?? Chamava Magnus. Não usaria o nome verdadeiro do amigo para não estragar com seu disfarce. Mas não houve nenhuma resposta, apenas o silêncio.
_Eu sinto que usaram magia recentemente aqui _ disse Allin _ mas não era uma magia muito forte.

Os dois continuaram em silêncio por alguns instantes, ainda na sala. A sala não era muito grande, tina apenas um sofá de quina, uma estante com alguns enfeites e um pequeno rack com um som antigo e algumas fotos de Erakel e Amanda. Foram andando e passaram pela cozinha, banheiro e copa, procurando por algo fora do lugar. Nada.

Foram até o quarto em que Erakel dormia. Sua cama estava desarrumada, o computador estava com o monitor quebrado, como se alguém o tivesse batido com algo pesado e duro. A tela partida permitia ver seu interior,totalmente queimado. Magnus ainda não conseguia entender como Erakel se deixava levar por essas inutilidades dos humanos, por que não confiava apenas em suas habilidades.

_Veja só isto, Magnus. Acho que pode ser importante.
Allin foi a primeira a perceber uma espécie de pequeno caderno, de capa dura, parcialmente queimado.
_Há magia neste caderno, ainda ativa. Provavelmente alguém veio aqui atrás dele, mas algo o impediu de ir embora com isso. A expressão de Allin incomodava Magnus.
_Você consegue ler algo do que está escrito aí? _ Magnus perguntou, tentando fazer a amiga mudar sua expressão. _ Tente ver se acha algo que pode dar uma luz sobre o que aconteceu com Erakel.
Allin abriu o pequeno caderno. Nem todas as páginas estavam queimadas, e algumas não estavam completamente. Havia partes em que era possível ler o conteúdo.
_É uma espécie de diário, e acho que pertencia ao próprio Erakel.
_Ótimo, então vamos levar ele com a gente, vamos ler depois para ver o que descobrimos. _ disse Magnus, tentando esconder sua preocupação com o amigo, e pegando o diário das mão de Allin _ Além do mais, se Erakel não está aqui, não é bom ficarmos aqui muito tempo, pois poderíamos chamar a atenção.

Allin notou a expressão, e sabia que ele estava tentando esconder algo, mas agora não era hora de discutir, teria tempo mais tarde. Os dois continuaram procurando por pistas, mas não encontraram mais nada.

_Não tem mais nada aqui. Vamos embora Allin, vamos ver o que conseguimos com esse diário.
_Certo, vamos. Magnus estava escondendo algo. Reparou pelo leve movimento que fez ao colocar a mão fechada dentro do bolso da calça, mas não falaria nada agora.

Os dois saíram da casa da mesma forma como entraram, de forma discreta e silenciosa. Disfarçaram ser apenas um casal amigo do dono da casa, e foram embora, para a casa de Magnus.

***

Marcos havia procurado por Erakel a semana toda, e simplesmente não encontrara nada. Não entendia como uma pessoa como ele poderia desaparecer assim, do nada, sem deixar nenhum rastro que pudesse ser seguido. Nem mesmo pode dar alguma informação a mais pra a anjo que estava ajudando, o que poderia deixa-lo com uma imagem ruim.

Não era amigo do caído, e talvez jamais o seria. Era como uma espécie de contato. Ambos tinham um objetivo em comum e se ajudavam, depois disso, cada um seguia seu caminho. Graças a isso, conhecia alguns dos hábitos do caído, mas parece que ele resolveu não cumprir nenhum deles durante essa semana.

Não sentia sua presença em lugar nenhum, desde a noite com o nevoeiro, na qual decidira ajudar aquela anjo. “Ah, a anjo, como ela era bela... e provavelmente ingênua também...” pensava, enquanto olhava para o céu escuro sobre sua cabeça. Havia anoitecido há pouco tempo, e ainda se sentia meio sonolento, mas algo que passaria em muito pouco tempo. Só precisava de alguns minutos para terminar de despertar.

“Por que será que ela está atrás daquele idiota?” Seus pensamentos eram sempre ligados à anjo, mesmo que quisesse disfarçar. Algo nela o havia atraído, e nem mesmo ele sabia dizer exatamente o que era. Não era nenhuma espécie de poder mental, pois havia aprendido a tornar sua mente difícil de ser manipulada, era algo novo, diferente, que não havia sentido antes em lugar nenhum, fosse como mortal ou como vampiro.

Voltou à realidade quando ouviu o telefone chamar, e foi atender.
_Alô _ disse ao telefone.
_Marcos? A voz era grossa, meio seca, como se fosse uma pessoa muito rouca.
_Sim, por que? Quem quer saber?
_Ninguém em especial. Sou apenas um informante em busca de mercadoria.
_Não sei do que você está falando... _ precisava ganhar tempo, descobrir com quem falava, e também precisava tomar cuidado para não falar nada que o pudesse incriminar mais tarde _ acho que você ligou para o Marcos errado. Sugiro que desligue e olhe um outro nome na lista.
_Não, senhor Carvalho, não creio ter ligado para o Marcos errado...
_Então, diga-me o que você deseja, senhor...
_A, me perdoe, ainda não me apresentei... meu nome é Lukiah.
_Bem, Lukiah, o que você deseja? Estou um pouco ocupado para perder meu tempo.
_Ah, sim, claro. Bem, quero ofertar uma troca. Você tem informações de que eu preciso, e eu tenho informações de que você precisa. Poderíamos negocia-las, não?

Marcos não estava muito confiante na voz do telefone. Tinha experiência o suficiente como informante para poder dizer quando alguém alterava sua voz, e podia sentir isso naquela voz. Quem quer que fosse, estava alterando sua voz naquela conversa. Mas o nome lhe era familiar. Lembrou-se, depois, que se tratava do nome do mesmo demônio que conversava com Allin.

_E que tipo de informações eu poderia ter que poderiam lhe interessar?
_Ora, Marcos, você sabe que não é seguro trocar informações pelo telefone, não é? Vamos nos encontrar, à meia-noite, no largo do São Francisco, pode ser?

O Largo do São Francisco era um campo neutro. Nenhum poder sobrenatural funcionaria ali por causa do selo mágico que está lá. O Símbolo do pacto de paz entre céu e inferno naquela cidade. Fosse quem fosse, era mais fraco que Marcos e sabia disso. O vampiro resolveu entrar na jogada, era arriscado, mas pagaria pra ver. Além do mais, sabia se virar muito bem sem seus poderes. E conhecia o adversário, o que, com certeza, ele não estaria esperando. Era uma carta na manga que saberia usar muito bem.

_Tudo bem então, à meia-noite encontrarei você lá, mas como farei para o reconhecer?
_Procure por uma flor branca, Marcos, e você me encontrará. Lembre-se, é uma flor branca.

Desligou o telefone. Marcos não estava satisfeito, odiava essa coisa de enigmas, e mais ainda quem os usava.

Um encontro à meia-noite com um desconhecido. Talvez fosse melhor levar reforço. Não que precisasse disso, é claro, mas já que estava ajudando alguém, por que entrar em combates desnecessários quando podia fazer os outros lutarem para ele? Sabia como encontrar Magnus e Allin, e se a sua suspeita estivesse correta, encontraria alguma pista sobre o paradeiro de Erakel, portanto, era conveniente leva-los junto.

Trocou de roupa, colocando sua espécie de uniforme. Um sobretudo preto, mais formal, calça jeans preta, coturno, e uma camisa social preta. Gostava dessa roupa por causa da liberdade de movimento que ela lhe dava, além de ser mais prática para poder usar seus poderes vampíricos, caso fosse necessário, e as magias que havia aprendido.

Saiu com um sorriso sinistro nos lábios. Quem quer que o tivesse desafiado, enfrentaria não apenas um vampiro comum, mas um vampiro mago.

***

Era pouco mais de onze horas da noite. O baile de domingo havia acabado, e a garota precisava ir pra casa. Tinha pouco mais de quatorze anos, mas gostava de sair com os amigos. Podia se parecer com uma garota qualquer, dessas dadas a pequenas farras sexuais, não fosse um detalhe: tinha pavor de fazer sexo com um estranho.

Costumava ir a essas festas não tão formais assim, usar roupas mais sensuais como a pequena saia preta que usava agora, mas era extremamente romântica. Não beijava nenhum garoto que não se portasse como um cavalheiro com ela, e jamais havia sequer pensado em fazer sexo. Se considerava muito jovem para tal coisa. Sonhava com o momento ideal, a pessoa certa. Fazia mil e uma fantasias sobre como perderia sua virgindade.

Esperou as amigas para saber se alguém iria com ela parte do caminho. Não tinha medo de andar sozinha pela cidade, mas gostava de caminhar conversando, pois ajudava a tornar a distância menor. Ninguém esta noite iria na mesma direção que ela. A única amiga que morava perto da sua casa e costumava freqüentar o mesmo baile que ela estava doente, e não havia saído hoje.

Decidiu ir embora sozinha mesmo, já estava acostumada com o caminho, e nunca acontecia nada de perigoso a essa hora, pois as ruas ainda eram bem movimentadas, e resolveu seguir um caminho um pouco diferente esta noite.

Angélica morava na região do centro, gostava de freqüentar os bailes do Matosinhos. Sempre ia embora passando pela rua que segue junto com o rio, até chegar a entrada da rotunda da Maria Fumaça, mas dessa vez resolveu pegar um caminho um pouco mais curto. Passaria pela linha, assim chegaria mais rápido, além de sempre ter gente lá a essa hora também.
Foi embora, andando tranqüilamente, cantando baixinho suas músicas prediletas, todas de funk. Usava uma pequena sai preta, uma blusinha listrada de preto com branco. Tinha um cabelo loiro artificial bem claro, pele morena bem clara, e os cabelos pouco abaixo dos ombros, meio ondulados, soltos. Usava uma sandália preta, que incomodava um pouco para pisar nas pedras da linha.

Pensava nos conselhos de sua mãe até agora. Não entendia como ela podia se preocupar tanto. Era claro que a cidade era violenta, mas não tanto quanto se falava. As únicas pessoas que tinham que se preocupar eram aqueles que traficavam ou ficavam devendo, e esse não era seu departamento. O máximo que fazia era fumar um cigarro escondida de sua mãe, mas tinha a leve impressão de que ela já desconfiava, apenas não havia dito nada. Ainda.

Pensava em todos aqueles comentários de “cuidado com quem você anda”, “olha o que você vai aprontar na rua, hein” e coisas do tipo. Não gostava desses comentários, e gostaria que a mãe confiasse mais nela. Não acreditava nem mesmo que a filha era virgem.

Andava despreocupada, pensando na vida. Tinha um cigarro na pequena bolsinha preta de tricô, junto com um isqueiro que carregava disfarçada. Ascendeu o cigarro, deu um trago profundo, e continuo caminhando, pensando em sua mãe e nos seus sermões. Com tantas garotas lindas e perfeitas andando na cidade, porque justamente ela seria a escolha da vez de algum marginal? Não tinha, na verdade, nada que pudesse chamar a atenção de nenhum marginal, afinal, se fosse pra fazer algo e se sujar, que fosse com alguém melhor, não é?

Estava andando pela linha desde que saíra da praça, e agora estava no único pedaço de caminho sem nenhuma iluminação. Um caminho de não mais de 10 metros, em uma pequena curva, entre uma casa e um grande morro. Deu uma tragada mais forte, apertou o passo e continuou em frente, mas nem se deu conta disso. Quando se está com medo, as ações passa a ser automáticas.

Quando entrou na parte mais escura deste pequeno trecho, ouviu um pequeno estalido atrás de si, e virou-se para ver o que era. Nada. Sua mente, ela imaginava. Já havia visto em um programa de tv antes que, quando se está nervoso, a mente aplica brincadeiras pra descontrair, ou algo do tipo, nem se lembrava agora. O importante era apenas que não havia ninguém ali.

E realmente não havia, até que ela novamente olhou para frente. Estava lá, de pé, na sua frente, como se tivesse surgido do nada aquele homem. E que homem, pensou. Era forte, musculoso, usava uma calça bem larga e folgada, uma camiseta dos Lakers e uma bola de basquete na mão esquerda. Era simplesmente o garoto mais bonito que já vira na vida. Tinha os cabelos curtos, quase raspados, e um pouco espetados. Não tinha barba, e não dava pra ver a cor dos olhos no escuro. Mas dava para ver que tinha a pele bem clara, na verdade, pálida.

Mas, agora que o encanto inicial passou, a garota voltou a si. O que aquele homem fazia ali, surgido do nada? Provavelmente, devia ter fumado um baseado, era isso. Continuou andando, e passou pelo homem, que não aparentava mais do que uns 25 anos.
Foi surpreendida com um aperto forte no braço. Era aquele homem, que a segurava forte, e nem mesmo olhava pra ela. Ela pode perceber que ele parecia estar farejando algo, provavelmente estava drogado.

Foi então que ela percebeu que o homem tinha uma faca que estava retirando do bolso. Pensou em gritar, mas poderia faze-lo ficar nervoso, e aí seria seu fim. Ele levantou a faca e colocou bem debaixo de seu pescoço, apertando. Angélica podia sentir o aço gelado começar a cortar, leve e dolorosamente.

A última coisa que lhe veio a sua mente foi sua mãe dizendo para não ir ao baile hoje, que estava com um pressentimento ruim. Foi interrompida do pensamento quando sentiu o homem levantar a sua saia com a mão e chegar até sua calcinha. Sua mãe duvidava que era virgem, e de agora em diante sentia que não seria nunca mais. Em apenas um segundo, pensou em todas as oportunidades de perder a virgindade que havia deixado passar, e viu todos os seus sonhos de como perde-la se desfazerem diante de seus olhos.

O homem colocou um dedo por dentro da sua calcinha e a tocou, como se a examinasse. Farejou novamente. A garota já estava assustada, apavorada. Imaginava todos os horrores que a aconteceriam agora, e começou a se arrepender de muita coisa. Deveria ter transado todas as vezes que teve chance, deveria ter fumado maconha com seus amigos. Podia ter enfrentado a mãe e mostrado que fumava. Podia vender seu corpo pra comprar todas as roupas que gostaria. Deveria ter falado que estava apaixonada pelo rapaz de sua escola.

O homem farejou novamente, e sorriu levemente. A garota sentiu um leve alívio, e depois foi dominada pelo pânico. Havia sentido uma dor muito intensa, seus olhos começaram a se fechar, e adormeceu.

O homem a deixou cair. Voltou ao normal deste ridículo disfarce, pegou seu telefone celular, e conferiu as horas. Faltavam 10 minutos para a meia-noite. Ainda tinha tempo de cumprir seu objetivo, e tinha conseguido o último material para seu ritual. Agora, somente faltava cortar a garota nos pontos certos e recolher o seu sangue.
 
Olhou a garota, e disse, respondendo as indagações que passavam em sua mente:
_O que a faria o alvo da vez? Hahahaha, nunca lhe passou pela sua cabeça que sua virgindade seria a sua sentença de morte?
“Mandaria mais uma alma inocente para o inferno, mas, fazer o que, eram os ossos do ofício. Que eles se divirtam com uma virgem com desejos de luxúria”, pensava, enquanto fazia os cortes nos pontos certos. Recolheu cuidadosamente o sangue em uma pequena espécie de urna. Ajeitou o corpo da garota para parecer um estupro, e partiu.

Havia marcado um compromisso com um certo vampiro, e não gostava, nem um pouco mesmo, de se atrasar em seus compromissos. Abandonou a garota ali e partiu, gargalhando por dentro, e se preparando para poder, finalmente, concretizar a sua tão esperada vingança.

De repente, começou a sentir uma enorme dor de cabeça, os pensamentos confusos, vozes que surgiam e gritavam em sua mente. Sentiu que usava um de seus poderes, o de transformação, ou de disfarce, como gostava de dizer. Sentiu aquela voz feminina dentro de sua mente cada vez mais forte, mais poderosa, até que perdeu a consciência.
Eduardo Setzer Henrique
Enviado por Eduardo Setzer Henrique em 27/09/2006
Código do texto: T250843
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Eduardo Setzer Henrique
São João Del Rei - Minas Gerais - Brasil, 32 anos
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Eduardo Setzer Henrique