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A TEMPESTADE

   

      Era noite.

     Quando começou a trovejar, a única coisa que eu podia fazer naquele momento em que tremia de medo, era enrolar-me na rede e rezar. Eu acreditava que a reza era a solução para tudo.
     Eu imaginava que tudo seria resolvido com as duas atitudes que tomava quando sentia medo. Eu pensava que, enrolado e rezando, estaria protegido do perigo dos raios e trovões. Isso era comum nos dias de verão (inverno), quando começavam as chuvas, aquela sucessão de relâmpagos e trovões. Eu ainda era criança e meu conhecimento era pequeno para aquilatar ou entender como tudo acontecia. Tudo era de origem divina. Deus estava por traz de tudo.
     Eu rezava e quando  me enrolava na rede, tentava proteger-me do perigo dos trovões. Acreditava que o maior perigo estava neles.
     Quando as tempestades aconteciam durante a noite, logo vinha em meu pensamento o que ouvia do meu pai e de outros adultos, talvez por brincadeira, eles diziam:
     - Este barulho é São Pedro rolando tambores pela ladeira e com isso faz chover. Eu acreditava no que falavam, eles não mentiam.  Chegava a imaginar  um velho barbudo rolando tambores, ladeira abaixo.
     Quando a chuva caía, nossa esperança era reacendida, iríamos plantar e colher nosso sustento. Quando chovia muito e fazia os rios secos correrem, saíamos durante a noite, mesmo no escuro, andando por caminhos escorregadios e  tendo apenas como luz  os relâmpagos que se intercalavam com a escuridão e o lampião a querosene.
     Tínhamos que aproveitar as águas correntes para pescar. Nossos rios não eram perenes, e quando corriam, os peixes subiam  para desovar. Hoje entendo todo o processo e imagino-me como um urso, observando os leitos dos rios, pescando salmões que sobem para a desova anual. Mas, em nosso caso, éramos gente e os peixes, piaus e outros  que eram criados no açude.
     A qualquer hora, saíamos no escuro apenas com um lampião que pouco iluminava nosso caminho.  Meu pai ia à frente abrindo caminho e era seguido pelos filhos. Quando amanhecia, ainda estávamos  à beira do rio, molhados, cansados, mas com o resultado almejado num canto, esperando o clarear do  dia para a limpeza dos peixes.   Usávamos redes e tarrafas que meu pai confeccionava.
     Eu, enrolado na rede, continuava rezando, pedindo a Deus para me livrar  do perigo dos trovões. Naquela noite minhas divagações ficavam ali, prisioneiras do medo.
     Os mais velhos contavam histórias de pessoas que haviam sido torradas vivas por trovões. Isso acontecia porque eles haviam sido desobedientes  aos pais e aquilo seria castigo. Naquela situação, Deus assumia o papel de carrasco. Quando acabava a tempestade e continuávamos vivos,  ficávamos aliviados. Deus havia ouvido nossos rogos.
     Por esta razão, a minha única atitude era rezar e pedir perdão por pecados que eu havia cometido. Hoje imagino a grande farsa que a Igreja montou para manter os homens presos ao medo.
     Como pode uma criança inocente pecar?
     Mas aquilo era  mais um engodo das igrejas que mantêm milhões de pessoas  sem pensar . Qualquer pensamento que não  estivesse enquadrado nos conceitos da Igreja era pecado.
     Nossos pais apenas retransmitiam o que haviam ouvido, não tinham culpa. Eles cultuavam as mesmas mentiras por ainda não conhecerem a verdade.
     Nossa casa ficava bem perto de uma cadeia de serras que, por serem de pequeno porte, nós a chamávamos de serrote. Era uma sucessão quase que interminável de altos e baixos. No sopé destes, havia os baixios. Ali podíamos plantar de tudo e quando chovia com regularidade, o alimento era farto.
     No alto da serra nós  plantávamos milho, feijão, melancia e melão. O que produzíamos  era destinado ao consumo.
     Naquela época não havia adubos, defensivos e uma gama de necessidades  para que o agricultor pudesse plantar e colher. As terras eram férteis, apesar de muito maltratadas.
     Meu pai herdou de seu pai e este do dele.  E esta cadeia de mais de cem anos só foi interrompida quando tivemos que nos mudar para São Paulo, na segunda metade da década de cinqüenta.
     Embora plantássemos sempre nos mesmos lugares e sem adubo, a colheita estava garantida, quando chovia. A terra  de sedimentação ficava no pé  da serra.  O único problema que tínhamos era a falta de chuva quando a safra não vingava.
     Enquanto os trovões se sucediam, meu irmão, que sempre dormia na rede  ao meu lado disse:
     - Está acordado?
     - Sim, respondi. Por quê?
     - Você está com medo?
     - Não.
     É claro que eu estava mentindo, tentando com isso parecer homem. Eu tinha apenas nove anos. No escuro da madrugada, ele não poderia certificar-se de minha mentira nem mesmo ver a minha rede molhada. Se visse, eu diria que era uma goteira. Ele, com certeza, não iria cheirá-la.
     Naquele momento, eu esperava nosso pai chamar-nos. Ninguém poderia dizer que não podia ou não queria ir. Todos teriam que ir, exceto as mulheres que ficariam em casa cuidando dos afazeres domésticos ou aquele que estivesse adoentado.
     Quando pensava nisso, desejava estar doente, com febre ou mesmo com alguma gripe; aquela seria uma condição para me livrar da aventura pela madrugada escura em busca do peixe e debaixo de chuva. Ainda outras vezes me vi naquela situação.
     Novamente os relâmpagos clareavam a sala que também servia de quarto. Éramos muitos e os cômodos, poucos. Havia armadores de rede por toda a casa. De manhã, bastava enrolar a rede, pendurá-la nos seus próprios punhos  e deixá-la ali mesmo, para ser usada novamente à noite.
     Naquele dia eu teria que colocá-la ao sol, alegando que havia uma goteira sobre ela  e a molhara  durante a  chuva da noite. Seria uma boa desculpa.
     Muitas vezes eu urinava na rede, por sentir medo de levantar-me e ter que ir lá fora. Havia monstros  que eu não desejava enfrentar.  Havia poucos pinicos para tantas pessoas. Quando chovia, tínhamos que nos molhar ou agüentar até o raiar do dia. Nosso banheiro era qualquer lugar, longe da casa.
     A cada novo clarão, o som aterrador que o seguia nos fazia estremecer. Algumas vezes demorava algum tempo, outras vezes os trovões  vinham logo após os raios.
     - Estou com medo. Falou baixinho meu irmão mais novo, quase como um sussurro, para meu pai não ouvir.
     - Você não é homem não? Respondi-lhe, tentando, com isso, esconder o meu próprio medo.
     Ele ficou quieto, choramingando baixinho para evitar que meu pai ou minha mãe ouvisse e o repreendesse.  E depois de alguns segundos respondeu:
     - Sou sim! E calou-se até o amanhecer.
     Tínhamos que ser homens, mesmo pequenos. As necessidades nos obrigavam a isso.
     No cômodo que ficava ao lado do quarto do meu pai, minhas irmãs cochichavam baixinho. Se meu pai ouvisse, poderia repreendê-las e mandar que ficassem quietas. Era muito comum isso acontecer. Eram apenas duas; a terceira e mais nova  ainda não falava e dormia com meus pais.
     Eu esperava o chamado de nosso pai a qualquer momento, por isso estava torcendo para que a chuva diminuísse para não fazer o rio correr. Bem que poderia chover de dia, assim não teríamos que sair à noite. Parecia, no entanto, que São Pedro gostava de brincar conosco. Quase sempre fazia chover à noite. Ele era o responsável pelas chuvas, segundo a crença do sertão. Nas épocas de secas prolongadas, faziam-se procissões e rezava-se pedindo a intercessão dele.
     Entre as rezas e os medos, a noite foi passando e com esta a chuva, os raios diminuíram e em pouco tempo o galo ensaiava seus primeiros  cantos do amanhecer.
     E assim foi, amanheceu e eu continuava vivo, a reza dera resultado.
     Em minutos, o mundo voltaria ao normal, o medo seria substituído pelo trabalho e o caminho da escola seria trilhado. O percurso de três quilômetros seria vencido por todos aqueles que eram obrigados a ir à escola.
     Embora naquela época eu já fosse à escola, somente aprendi a escrever e ler aos doze anos, quando eu já morava em São Paulo.  Talvez não tenha sido alfabetizado naquela época por deficiência das professoras ou até mesmo pela irregularidade com que íamos à escola.
     Quando o verão (inverno) chegava, a escola ficava sendo a segunda prioridade. Afinal, nenhum de nós sonhava em ser doutor.  A lida no campo, o plantar, capinar e mesmo colher o fruto do trabalho, eram obrigações que fazíamos  sabendo que sem elas não haveria futuro.
     Algumas vezes deixávamos de ir à escola porque o rio que  havia entre nossa casa e a cidade  transbordava e tínhamos que esperá-lo baixar para fazermos a travessia. Nem sempre meu pai dispunha de tempo para nos atravessar nas águas bravias. Ele não podia interromper o plantio.
     Ainda bem cedo, comemos a tapioca acompanhada de um copo de leite preparado por minha irmã e em número de três saímos rumo à cidade, onde mais um dia tentaríamos aprender a ler.
     Os mais velhos iriam para a roça, iniciar o trato da terra para ali colocarem-se os grãos  e as sementes que em alguns meses iriam nos alimentar. A chuva da noite tinha que ser aproveitada, as oportunidades não podiam ser desperdiçadas.
     De minha escola, lembro-me pouco; eu não gostava de ir à escola, as reprimendas por não aprender significavam palmatórias. Às vezes minhas mãos ficavam inchadas. A professora parecia ter mais prazer em nos castigar do que em ensinar. Alguns preferiam o cabo da enxada a se sujeitar a aprender.
     O aprendizado era mais doloroso que o trabalho.
     Outras lembranças eram de uma colega em quem já apontavam os pequenos seios. Eu não podia comentar aquilo com ninguém. Eu era menino e criança não podia se preocupar com aquelas coisas de homem. Eu ficava muito tempo observando os pequenos seios dela.  Este era meu pecado, por isso não aprendia.
     Como sempre, a professora entoava sua velha lenga-lenga que era mais ou menos assim:
     -Um bê com a, beabá; um bê com é, beebé,.E seguia em frente até no final. E  terminava assim:
     -bá,bé,bi,bó bu.
     Logo que ela chegava à letra C, eu já ficava de orelha em pé, esperando que ela  ou algum colega viesse errar. Eu me vigiava, fingia não saber fazer a rima do C com o U. Eu sempre ficava envergonhado. Mas tinha que repetir e ficar sério.
     Mas ela seguia até o fim e no final dizia:
     -Cá,Ce, Ci, Có, Cu. Somente depois de muito, de muito tempo, soube que o Cu era o símbolo químico do cobre. Porque vem do latim “cuprum”.
     O mais interessante era o som de algumas letras. O “F” era fê, o “M”, era mê e outras tantas letras seguiam o mesmo rumo de som.
     Ela percorria assim todo o alfabeto e eu  continuava analfabeto.
     Ninguém se atrevia a rir ou fazer gracinhas como se faz atualmente. A formação e o respeito pelos professores era bem maior e o sistema educacional de  hoje é outro e bem diferente.
     Ainda bem.




 17/09/06-VEM.





Vanderleis Maia
Enviado por Vanderleis Maia em 03/10/2006
Reeditado em 07/10/2010
Código do texto: T255364
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Sobre o autor
Vanderleis Maia
Imperatriz - Maranhão - Brasil
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