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O ESTRONDO DA MORTE

        Conto para ler duas vezes, leitor.



Sinto dores terríveis!

Estou deitado e sem entender nada. Minhas mãos ardem, a pele derretendo, devido à alta temperatura. Um dos meus dedos está quebrado e inchado. Vejo o sangue fluindo das minhas feridas. O sangue também desce por meu nariz.

Sangue! Muito sangue! Nauseabundo! Hediondo!

Eu nunca havia sangrado tanto. Meu Deus! O que deve ter acontecido? As dores estão por todo o meu corpo.

Lembro que ouvi um grande estrondo, num nível acima de onde eu estava. Um barulho ensudercedor, que quase arrebentou meus tímpanos. O piso tremeu, como num terremoto, e fui lançado contra a parede, tal a intensidade do deslocamento de ar. Um calor intenso rasgou meu corpo, enchendo-o de chagas dolorosas. Paredes ruíram, tetos desabaram e vários objetos foram jogados para todos os lados.

Tal barulho me desnorteou e não consegui mais me situar na realidade. O caos era completo e mortífero.

Mesmo desorientado, ergo-me, e logo percebo que algo está errado com minha perna. Meu Deus! Minha perna direita dói! Nem quero pensar no que poderia ter acontecido. Só consigo apoiar-me na esquerda.

Tento permanecer de pé, pois sinto que preciso sair desse lugar. Estou numa espécie de cubículo escuro. Onde? Por que não consigo lembrar? Há paredes por todos os lados. Começo a andar, claudicando, meu corpo lotado de chagas queimantes.

Andando lentamente, sinto que passei por uma porta ao algo parecido. Desemboco numa espécie de corredor, lotado de pó e fumaça.

Percebo vultos ao meu redor.

Passo as mãos nos meus cabelos e noto que os fios estão se desprendendo horrivelmente. Soltos gritos de dor, num sofrimento atroz. Meus gritos se perdem por entre as paredes destroçadas. Noto vultos passando por mim, alguns me empurrando, outros chorando e gritando.

Quem são essas pessoas?

Estou morrendo, a vida de mim se esvaindo... lentamente... e de modo cruel. Com as costas das mãos, limpo o excesso de sangue do nariz. Minhas mãos ardem. As feridas infeccionadas se espalham pelo meu corpo.

Estou usando uma camisa rasgada e cheia de sangue. Havia uma gravata, que ficou pelo caminho. Minha calça, antes branca, está preta de tão suja. O que deve ter acontecido?

Estou num cubículo quente, escuro e sujo, mas sinto que tenho que continuar a andar. Os vultos parecem se concentrar num determinado ponto. Vou atrás e meus pés alcançam degraus.

Meus pés ardentes, em sapatos rasgados, pisam aqueles degraus sujos. Apoio meu corpo nas paredes. Mais vultos passam por mim.

As explosões se sucedem e a fumaça se mescla à poeira e ao fogo. As dores me perfuram como ferrões em brasa. Sofro, choro e... grito. Minha garganta arde, mas ninguém escuta meus lamentos.

As dores! Horripilantes, ignóbeis, excruciantes!

Estremeço, tentando respirar. Minha respiração falha, meu peito me sufoca, imerso na fumaça. Continuo andando, passo a passo, lentamente, descendo para algum lugar. Vultos me empurram. Notei que passei por cima de alguns corpos caídos. Minha perna direita dói.

Reunindo forças, continuo a andar, para baixo, onde cada passo é como um fator de multiplicação da dor.

A dor!

Ela está por toda a parte, impregnando meu corpo de horror! Mais vultos! Mais choro e desespero. Em dado momento, estou no meio da multidão.

Alguém segura meu braço e me ajuda a descer. Os degraus são infindáveis e chego a pensar que jamais conseguirei sair desse lugar infernal.

De repente, já sem forças, e sem conseguir respirar direito... caio... desabo como um saco vazio.

A dor que sinto me diz que minha hora chegou. Dores horríveis danificam minha lucidez! Meu Deus! Por que sofro? Por que? A morte de mim se aproxima. Estou delirando! Sinto que ela está ali, perto de mim e não poderei fazer nada. A escuridão domina meu corpo.

Não sei onde estou, nem o que aconteceu. Talvez se tenha passado horas, mas não lembro de nada.

Horas... horas... horas...

E quando tudo parecia perdido... quando o manto das trevas logra encobrir meu corpo e mente...

      ***

Subitamente, desperto para uma outra dimensão.

Onde estou?

Ouso abrir os olhos, temendo o pior. Vejo-me, então, deitado numa cama, numa espécie de quarto de teto baixo e com aparelhos estranhos me cercando. As dores estão ali, mas já não sinto tanto sofrimento.

Volto a dormir.

Imerso em sono, tenho um pesadelo angustiante.

      ***

Estou num descampado, numa tarde de sol, nu da cintura para cima, usando apenas uma bermuda surrada. Subitamente, sou surpreendido por um barulho estranho vindo do alto.

Sim. Vejo, nitidamente, deslocando-se rapidamente, sob o céu sem nuvens, um avião. Não um avião comum. Na verdade, um pássaro-de-ferro pequeno, asas estreitas, bico oblongo, do tipo antigo e raro e de cor negra e reluzente. Feio, muito feio.

Soltava fumaça e fazia um barulho estranho, como um monstro sedento de sangue. Aquele avião estava vindo na minha direção. Sim. Eu não tinha mais dúvidas do que iria acontecer. Temeroso, começo a correr.

Estou correndo, mas ele vai bater em mim! Estraçalhar-me contra o chão. Merda! Aquele barulho fere meus tímpanos. Um terrível "flap-flap-flap"... insuportável, angustiante e maquiavélico!

Aumento as passadas, num vívido desespero. Corro como nunca corri tanto, o medo corroendo minhas entranhas.

Correndo, dou uma olhada no avião. E o que não vejo me assusta. Não há piloto no comando! A visão é assustadora! Não há um maldito piloto na porra daquele avião! O que significaria aquilo???

Então, não tenho mais tempo de raciocinar. Eis que sinto o vento das hélices roçando meus cabelos (mais o ignóbil "flap-flap-flap"!), ineroxável, maledicente...  e... e...

      ***

Acordo bruscamente, suado e apavorado. Para meu alívio, observo que estou de volta ao quarto de teto baixo. Estou deitado e sentindo dores pelo corpo. Não sinto minha perna direita. Meus olhos ardem. Há uma dor de cabeça me incomodando.

De repente, percebo que há mais alguém no quarto. Quem seria?

Vestia uma roupa branca e... sim... agora percebo... era uma mulher. Uma bela mulher, magra e com os cabelos presos por uma touca ou algo parecido.

Tentando entender o que se passava e na ânsia de encontrar respostas, movimento meus lábios ressequidos, num esforço grandioso, para perguntar:

- O-Onde estou? O que a-aconte... te... ceu?

A mulher não para de sorrir e, afagando meus cabelos, responde:

- Deite-se e descanse... Homem de sorte... Breve você saberá.

Perco os sentidos e não ouço mais nada, a não ser o insuportável "flap-flap-flap" do avião negro, penetrando meu cérebro.

      ***

E eu soube. Dias mais tarde, eu soube de tudo!

      ***

A notícia foi publicada em todos os jornais do mundo! O Boeing 767 (o primeiro!) saiu de Boston às 7h58min. O barulho ensudercedor (estrondo mortificante!) deu-se no 103º andar, há uma velocidade de 450 km/h. O estrondo da morte!

      ***

Consegui sair do prédio em chamas, antes que ele desabasse! Vivi para contar essa história.

Estou vivo, embora não consiga lembrar de muita coisa. Estou vivo, mas com seqüelas.

Oh, as malditas seqüelas! Antes tivesse morrido! Meu Deus!

Vivo, hoje, à base de remédios fortíssimos, que aumentam minha depressão.

Além disso, ganhei para sempre, além de uma perna artificial e rompantes de amnésia e dor de cabeça, noites contínuas de pesadelos.

Pesadelos. Os mesmos pesadelos!

Aquele avião negro - aquele desgraçado e barulhento avião negro! - permaneceu em minha mente, atormentando-me eternamente.

Nãããooo!!! Eu não consigo parar de ouvir aquele "flap-flap-flap" miserável! Todas as noites... me atormentando! Merda! Meu Deus! Meu Deus! O que devo fazer para suportar isso?

Bem, tenho apenas certeza de uma coisa: meu suicídio será apenas uma questão de tempo. A morte... as mortes daquelas pessoas... minha loucura... o caos... o estrondo... as repercussões mundiais... tristeza... depressão... estou mal... muito mal...

Ah, sim. E-Esqueci de dizer, mas s-sou... sou mesmo... infelizmente... um dos malditos e d-desgraçados sobreviventes dos ataques terroristas ao Word Trade Center...

             FIM
Joderyma Torres
Enviado por Joderyma Torres em 06/11/2006
Reeditado em 12/11/2006
Código do texto: T284106
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Joderyma Torres
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil, 51 anos
70 textos (14850 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 09/12/16 11:42)
Joderyma Torres